Next Dimension
52 Por trás dos olhos azuis
Notas iniciais

QUALQUER UM DIRIA QUE É UM ÓPTICA deveras piegas, eu mesma, em condições normais na qual não estava intimamente ligada ao fato, afirmaria que era uma bobagem de uma pessoa enamorada — a paixão avassaladora costuma enevoar o lógico da equação. Escapando do auto julgamento, a cerne de tudo que aconteceu, tinha plena consciência de que estava bem em um mundo onde não existia nada que pudesse me abalar, na famosa “cloud nine”.
As luzes infiltradas pela janela valsavam em meu rosto em uma mistura de cores que estilhaçava a barreira do sono, trazendo-me vagarosamente para os resquícios de lucidez enquanto combatia-o para não ter que sair da minha alcova — do conforto de lençóis macios e calorosos. Não queria mudar de posição independente de ser mais viável para reaver os preciosos minutos de sono que se escapavam de minhas mãos e correr o risco de acordar de vez, talvez se ignorasse com mais afinco nada disso me incomodaria.
A medida que a sonolência se diluía no meu sistema, mais as pequenas dores se rastejaram por mim com a igual proporção de alguém que passou horas na academia e os músculos protestam a cada mínimo exercício. Não chamaria o que fizemos de atividade física nesse contexto — embora também fosse considerado. Semi desperta, avaliei as marcas que foram tatuadas em minha pele pelas mãos fortes e boca ferina de Dante conforme ganhava mais segurança para me tocar com a gula de um homem ébrio, praticamente insaciável. Estava coberta de chupões que poderia esconder com a roupa e algumas que exigiriam minha criatividade de acessórios e o disfarce de uma boa maquiagem.
Para resumir meu autodiagnóstico: minhas pernas adquiriram consistência de gelatina, havia uma coleção substancial de marcas me colorindo e minhas ancas se encontravam meio moles pela noite bastante agitada. Nunca na vida achei que essas pequenas consequências reunidas pudessem gerar um sentimento tão revigorante e acalentador. Lembrá-lo fazia meu coração bater rápido e um ardor gentil percorrer meu corpo e da próxima vou garantir o mesmo nível de desempenho que a resistência e fôlego me permitiriam... Olha pra mim, mal me recuperando dessa e já estou planejando outras.
Uma risada escapou pelos meus lábios.
Agora a certeza do que sentia e pensava se fez tão real quanto a verdade sobre o vínculo que compartilhamos: somos fisicamente compatíveis, duas peças de quebra-cabeça que se encaixavam perfeitamente.
Se tivesse a mínima noção que seria tão bom teria feito antes. As memórias continuavam fervilhando em minha mente, acionando partes outrora adormecidas dos meus sentidos mais intensos. Ainda podia sentir as mãos dele tocando-me e o doce som da sua respiração entorpecendo e queimando em minha pele. Deixando um longo suspiro escapar, movimentei-me com um pouco de dificuldade devido à fraqueza muscular, virando para o lado onde meu amado mestiço deveria estar. Tateei a cama em busca do seu calor e para minha completa frustração, ele não estava ao meu lado.
— Procurando alguém? — relutante encarei o dono da voz rouca e encantadoramente sensual. Dante estava com um sorriso de orelha a orelha, suas feições mostravam serenidade e sutil júbilo e em suas mãos trazia uma caneca. Ele usava apenas uma calça e estava descalço, a mera visão dele sem camisa era equivalente a ver o paraíso — e disso tenho muita certeza pois era experiente nesse quesito.
Dante sentou-se próximo as minhas pernas, sem tirar a imensidão azul de mim. Ergui o corpo suficiente para encostar-me à cabeceira da cama, esse breve esforço enviou alertas doloridos para minha coluna e quadris e me obrigou a buscar uma posição melhor para ficar sentada. Reprimi um grunhido com uma risada, tanto pelo constrangimento da cena quanto pelo fato de que parecia que tinha passado o dia na academia e não quase virado a madrugada montada em Dante. Valeu a pena? Certamente. Mas pra alguém sem costume isso soava como um grande serviço cansativo.
Dante pegou minha mão e beijou o dorso dela, sem tirar os olhos de mim um instante que fosse.
— Poderia passar o dia todo na cama.
— E podemos — ele assegurou com os olhos astutos fixos nos meus, a cobiça e a volúpia escorrendo de seus lábios como doce derretido.
— Mas não repetindo a dose de ontem. — puxei o lençol na altura dos meus seios, usando-o para apaziguar a vergonha sob o escrutínio do meio-demônio.
— Não pode culpar um homem por tentar, não é? — gracejou, entregando a caneca com conteúdo desconhecido. Curiosa, observei atentamente o líquido vermelho com um cheiro estranhamente familiar. Fresco com a consistência mais aguada semelhante a água comum.
— Está tentando compensar a noite anterior depois de ter drenado minhas forças me trazendo café na cama? — brinquei, contente pela gentileza. — O que é isso?
— Suco de tomate.
— Que namorado gentil eu tenho. Obrigada. — sussurrei, bebericando o suco.
— Está dolorida? — engasguei com a pergunta súbita. — Se precisar de ajuda, posso te carregar se não conseguir levantar, doçura.
— Estou bem, Dante — corei, engolindo o suco no impulso.
Mais consciente dele, do calor que irradiava do seu peito desnudo tonificado que atraía meu olhar como um ímã, meu corpo começou a se agitar e instintivamente esfreguei as coxas para que a pulsação comprometedora se mitigasse.
— Gostou ou prefere café?
Fiz uma careta.
— Detesto café.
— Eu sei.
— Sabe?
— Eu li no seu diário.
Demorei para registrar seu comentário, corando quando a compreensão me atingiu em cheio.
— Leu?
Para ser justa, eu mesma já incentivei que ele visse algumas das passagens para soubesse mais sobre as pequenas nuances da minha pessoa e também porque ele cumpria um papel fundamental na construção dos relatos — algo que ele não tinha interesse perceptível e acabei desistindo de insistir nisso.
Dante balançou o caderno de capa aveludada, então, com o calhamaço aberto, começou a folheá-lo na maior cara de pau.
— Achei que não gostasse.
— Você me deu permissão, lembra?
— Sim, mas como achei que não queria ler, decidi mantê-lo mais íntimo. — argumentei com o rosto pinicando com o embaraço. — Agora me devolva, sim? — tentei tirar das mãos dele, porém sua agilidade em escapar deixou-me ainda mais desajeitada para tomá-lo de volta.
— Tem coisas aqui que você poderia ter dito; Aqui, eu não sabia que desenhava tão bem — finalizou pegando um o papel onde estava desenhado. Era uma tentativa de retratar Dante. Meu rosto queimou como se estivesse brasa ardente. — Que outros talentos mais você possui, além dos inúmeros que provei ontem?
Engoli em seco, completamente constrangida.
— Ah, e obrigado pelos muitos elogios. Não sabia que pensava tudo isso de mim.
Arregalei os olhos, desconcertada.
Aquilo significava que ele viu cada palavra que usei para descrevê-lo, sendo que a grande maioria nunca falaria em voz alta. E nem todas eram inocentes e bonitinhas que penso normalmente — até por que não posso ter reflexões muito profundas em relação ao que achava dele, afinal nossa conexão permitia que pudesse facilmente lê-los.
Enrolei-me no lençol determinada a tirar meu diário das mãos de Dante antes que se aprofundasse ainda mais nos meus pensamentos íntimos e sombrios, que jamais revelaria em sã consciência. E que acabe por mudar a percepção que tinha de mim; de uma boa e pura — não tanto por ontem — garota. Minhas pernas vacilaram quando tocaram o chão, fracas e frágeis. Dante me segurou antes que desmoronasse, e no processo deixou o diário cair em outra parte esquecida do cômodo. De modo algum, conseguia me firmar adequadamente pela debilitação dos meus músculos e ossos. Agarrei-me a Dante, usando-o como um apoio.
— Sem forças? — murmurou em um tom aveludado.
Os lábios dele roçaram em meu pescoço.
— Já que se dedicou a escrever tanto sobre mim, tomei a liberdade de escrever algumas coisas — plantou um beijo em um ponto sensível. — Para trocar favores.
— Favores?
— Você verá quando estiver melhor.
Franzi o cenho.
— Por que esta sorrindo? — questionei vendo o pequeno sorriso arrogante crescer em seu rosto, exibindo nitidamente prazerosa satisfação. Delicadamente colocou-me na cama, tendo todo cuidado para não intensificar meu desconforto.
— Você ainda não me respondeu.
— Um homem não pode ter orgulho de ter feito um bom trabalho? — arqueei as sobrancelhas, confusa. — Um ótimo trabalho devo dizer.
— Você é o pior — deixei a risada ecoar.
— Não quer mesmo repetir a dose? — indagou como uma jocosa piada.
— Ficou maluco? Quer terminar de me quebrar e... — encarei-o incisivamente enquanto ele ria da minha súbita e excessiva sinceridade. — Como consegue ter tanta energia? Eu mal me aguento em pé.
— Se quiser realmente saber terei todo prazer em mostrar.
— Da próxima vou mostrar do que sou capaz. — afastei-me, ao passo, que ele sorrateiramente se esgueirou pronto para vir para cima de mim, passando a mão boba pela minha perna descoberta e aproveitou meu descuido para levantar o lençol — E antes que comece a protestar, lembre-se; diferente de uma garota humana, minha recuperação é rápida.
— Em outras palavras, isso significa que gostou, não é? Por esse motivo quer repetir, certo?
Poderia apostar que meu rosto estava mais vermelho que pimenta, principalmente pela sutil risada que Dante deu ao meu constrangimento.
— Acho que tenho minha resposta.
Depois de um longo minuto de silêncio, Dante deu-me um rápido selinho e se aprontou para sair. Antes de partir, ele retrocedeu como se tivesse se lembrado de algo de extrema importância.
— Ah, e mais uma coisa; Acho que nunca vou esquecer seus gritos, principalmente chamando meu nome. — ele concluiu beijando uma rosa e a jogando para mim.
Arremessei um travesseiro nele que desviou tranquilamente, e por fim sumiu da minha vista.
Tomei o resto do suco, e apesar da estranheza inicial ao sabor diferente a segunda vez nem foi tão ruim. O sono havia passado e mesmo que tentasse voltar a dormir seria impossível, uma vez despertada dificilmente retorno ao mundo dos sonhos. Distraída, olhei em meu entorno notando a bagunça de roupas e outras coisas espalhadas. Em alguns momentos me peguei pensando em como as roupas foram parar ali, meu coração acelerou. Absurdamente algo me dizia que tinha uma diferença quase imperceptível e não sabia explicar o que era. A cama estava o cenário de uma luta selvagem; sangue seco por todo lençol branco e rasgos em outros pontos. Eu teria que dar um jeito nisso o quanto antes. E para deixar a situação mais perturbadoramente constrangedora, a cama estava quebrada. Eu não tive outro remédio a não ser rir.
O grande problema era ficar de pé sem parecer uma bêbada tonta. Aos poucos ganhei estabilidade suportável para manter-me firme, sem pender ou tropeçar. E em passos de tartaruga caminhei para fora, aguentando bravamente a dor em meus quadris. Não senti nenhuma outra presença no escritório, o que me proporcionou o privilégio de andar sem roupa. Meu espírito que prezava pela liberdade um tanto quanto peculiar alimentou uma vontade estranha que em algum dia, se morasse sozinha, iria ter que me daria folga de roupas e experimentar o mundo no modo preguiça.
Dante não estava no seu respectivo lugar e ouvi o som do chuveiro ligado. Entrei silenciosa e o abracei comprimido deliberadamente meus seios em suas costas enquanto a água molhava meu corpo, assim aliviando meus músculos cansados. Ele parou o que fazia, e no segundo seguinte eu estava prensada contra a frieza da cerâmica do banheiro.
— Veio se juntar a mim, doçura?
— Pensei que precisaria de uma ajudinha. — murmurei sedutoramente, mordendo levemente o lábio inferior.
— Era isso que pretendia sugerir. — Dante atacou minha boca em um beijo selvagem e agressivo. Suas mãos foram parar nas laterais do meu quadril e suspendeu-me, fazendo com que enlaçasse minhas pernas na sua cintura. Nem me importei com os consequentes protestos do meu corpo a dor e a demasiada força exercida. Dante desceu os beijos devagar para meu pescoço, deslizando a língua por sua extensão, provocando arrepios em todo meu corpo. Algumas vezes, ele sugava a água que escorria pela minha pele. O certo seria que estivéssemos tomando banho e não em uma sessão de amassos, ainda mais comigo em recuperação da noite tórrida.
Em meio a corrente de dor prazerosa que enevoava minha mente, escutei o som de algo se quebrando. O som me trouxe de volta em alerta total, Dante por outro lado, não escutou ou simplesmente ignorava — sendo a segunda opção mais provável. Porém quando outros ruídos mais altos que os anteriores se seguiram, não dava para não se preocupar com o que poderia estar acontecendo debaixo de nossos narizes. Ficamos nos fitando a espera, então saímos do banheiro do jeito que estávamos.
Deparamo-nos com uma cena quase comum no dia a dia nesse lugar, só que não com os envolvidos em questão. Trish e Lyana estavam destruindo o escritório em uma luta sem sentido. A irritação borbulhou em meu interior; primeiro por atrapalhar meu banho relaxante com Dante e por terem estragado as malditas horas que passei limpando e organizando as coisas. Ver todo meu trabalho indo por água abaixo me deixou nervosa. Em estado de estresse.
— É bom que tenham uma explicação para estarem destruindo meu escritório — Dante enunciou tão calmamente que fez minha quase explosão se extinguir. Ambas olharam em nossa direção, era um misto bizarro entre malícia e confusão. Eu entendia que por nos verem como estávamos — do jeito que viemos ao mundo — elas tenham ficado meio embasbacadas, mas a expressão das duas é impagável. A culpa é delas por fazerem o espetáculo quando estamos ocupados.
— Vocês a conhecem? — perguntaram em uníssono.
— É claro! Lyana essa é a Trish, parceira de Dante. E Trish essa é minha melhor amiga meio-demônio, Lyana. Agora por favor, parem de fazer bagunça. — suspirei descontente.
×××
O universo conspirava contra meu ócio — minha romântica e inexplorado zona de conforto íntima tinha sido invadida e agora me encarregaria de pôr ordem novamente. E devo dizer: arrumar toda casa mergulhada em uma bagunça disruptiva teria sido uma tarefa bem fácil e rápida se Lyana não estivesse caçando conversa e enchendo minha paciência querendo saber sobre minha primeira noite com Dante, fazendo o papel da amiga sensata que adverte a respeito dos riscos de transar sem proteção... O que não contaria a ela que tinha feito sexo sem preservativo. Conhecendo a peça ela iria surtar, invocando um novo apocalipse que arrasaria meio quarteirão.
Para resumir a obra, mostrei os estragos no quarto: a cama quebrada, os lençóis rasgados com um pouco de sangue e as manchas tatuadas em mim. As marcas — hematomas, mais precisamente chupões — consistiam em pequenas bolinhas arroxeadas em meu quadril, algumas mordidas e arranhões pelo meu pescoço e abdômen que teria bastante trabalho em esconder — sorte que eram todos em lugares que posso ocultar com roupas. E cada uma delas eram amostras do que Dante podia fazer no calor do momento. Tanto é que ele quase perdeu o controle... Duas vezes. E cá entre nós, eu queria experimentar como seria ter relações sua versão demoníaca (Que monstro é esse que me tornei?). O inacreditável de todas era a marquinha perto da minha virilha. Quanto ao sangue, sem dúvida alguma era dele.
Sua força física desmedida me partiria só meio se assim fosse seu desejo, contudo, nunca, durante os amassos fervorosos, me feriu a ponto de sangrar. Eu, indo no sentido oposto, o arranhei tanto, sem contar as mordidas potentes que desferi no ápice.
Só que ver essas provas teve o efeito contrário do que realmente queria, ou seja, isso atiçou mais sua curiosidade. Sem escolha, contei o que houve, sem os pormenores muito específicos a respeito da intimidade. Segundo ela, graças ao meu esclarecedor momento com Dante, eu estava mais radiante. Exalando confiança e o espírito livre de uma verdadeira mulher, torci o nariz com suas palavras. Até agora não vi nada de anormal em mim, e claro que não esperava uma grande transformação como costumam dizer. Dizem que cada mulher encara a situação de um jeito diferente, e no meu caso não vejo nada fora do natural, além das dores é claro. Tudo que sentia era que minha ligação com Dante ficou muito mais poderosa, de uma maneira que nunca pensei ser possível. E também nasceu um lado meu completamente libidinoso.
Soltei um demorado e longo suspiro, permitindo-me livrar da carga que inconscientemente carregava. Meu trabalho terminado com sucesso, decidi que passaria o resto da manhã descansando. As dores nem me incomodam mais e era um alívio. É uma maravilha ter uma rápida melhora, ser uma Unchant é incrível!
Dante lia uma revista enquanto Trish gastava o tempo encerando Luce e Ombra. O som da porta abrindo fez com que todos os presentes voltassem suas atenções a ela. Reconheci de imediato o homem que entrara, as únicas mudanças significativas era que não existia mais o cavanhaque. No entanto, ele continuava o mesmo jeito que me lembro. Howard tragou o cigarro, em seguida lançando a fumaça no ar.
— Finalmente deu as caras. Espero que tenha algo bom para me ocupar.
— Ora alguém parece estar de bom humor — nesse momento, voltaram-se todos para mim. O calor subiu pelo meu pescoço, ardendo às maçãs do meu rosto. Dante sorria abertamente sem esconder sua exultação, Trish reprimiu uma risada, Lyana ergueu as sobrancelhas em ousadia e Howard começou a compreender os fatos gritantes.
Ele limpou a garganta audivelmente.
— Que bom saber disso, eu tenho um pequeno trabalho para oferecer.
— E qual seria?
Howard não respondeu, fez sinal para alguém do lado de fora se aproximar. Um pequeno garoto se escondeu atrás dele.
— Pretende me fazer de babá?
— Não é simplesmente isso, você tem que levá-lo em segurança a um orfanato. Aqui todos os dados — depositou um bilhete na mesa.
— E como exatamente me encaixo nisso? Meus serviços não são desse tipo, Howard. Você sabe perfeitamente disso ou preciso refrescar sua memória?
— O importante Dante é quanto ganhamos. — Trish afirmou. — Então Howard, espero que valha a pena.
— Eu tenho certeza que irá.
— Então faça sua oferta.
Meu olhar se focou no garoto esquecendo a conversa. Aparentemente ele estava por volta dos oito ou dez anos. Sua cabeça abaixada, em evidente desconforto e tristeza. A cabeleira negra como a noite cobria grande parte do pequeno rostinho. Senti uma desolação angustiante crescer no âmago do meu estômago. A sensação semelhante a ver Dante quando criança desamparado, terrivelmente desagradável. E ficou piorou ao encontrar os olhos azuis safira dele, como se fosse encoberta por uma solidão avassaladora e desconcertante. Minha capacidade de ver aura e explorar o significado oculto das mentes e almas das pessoas ao mesmo tempo adentrá-las, faziam com que fosse propensa as emoções alheias e as transformando em minhas. O mesmo que tomar as aflições das outras pessoas. E eu não pude acreditar que uma criança carregasse tamanha infelicidade.
Semiconsciente, distanciei-me da minha própria razão, expandindo minha aura com a convicção de percorrer mais. Cheguei a um ponto escuro em seu olhar distante, e logo um flash atravessou minha mente. E de súbito, me vi em uma versão sombria de Devil May Cry. Não havia ninguém, somente eu e a escuridão.
“Eu estive um longo tempo te observando, criança”
A voz era muito familiar, mas não conseguia associar de quem — conhecido — ela seja.
Outro clarão, e em resposta, senti um abalo dolorido na cabeça.
A dor se intensificou a ponto da não conseguir mais raciocinar adequadamente, era equivalente a milhares de facas atravessando meu crânio de uma única vez. Fui trazida de volta a realidade, caindo de joelhos e respirando pausadamente em tentativa falha de me acalmar.
O que foi isso?
Quatro pares de mãos apareceram para me socorrer.
Chacoalhei a cabeça, afastando qualquer consequente mau presságio.
— Faremos essa missão, não faremos? — questionei Dante, tirando o enfoco da minha fraqueza repentina.
— É para isso que estamos aqui, não?
Olhei para o garoto que estava encolhido e um pouco assustado.
— Qual é o seu nome pequenino?
— Ayden. Meu nome é Ayden.
Fale com o autor