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75 Paradoxo da Pureza

COM UM SORRISO, Dante gesticulou para que tomasse a frente na batalha não interferindo na minha decisão de lutar. O ambiente tornou-se frio devido às repentinas quedas de temperatura, o céu continuava tingido de vermelho e os espirais de tons sombrios e doentias ficaram mais evidentes quase tomando conta do espaço até além do que a visão alcançava. Embora houvesse uma leve névoa cobrindo o chão como se sido trazidos pela relva com propósito de transformar o local em um campo de batalha intimidador e perigoso, a adrenalina vigorosa e ardente correndo por toda minha corrente sanguínea não somente rechaçou o frio como também ignorou qualquer tentativa climática que pudesse atrasar meu único objetivo. Meus olhos focaram-se em Ace, estudando-o como nunca fizera até o momento. As análises de suas habilidades não duraram mais que meio milésimo de segundo, apesar de ter sido superficial fora esclarecedora o bastante para arquitetar um rápido plano de ataque. Teria que ter cautela, pois não sabia o quão ele evoluíra nessa forma.
Estava num misto de emoções, sendo as principais a confiança e a estranha falta de ordem. Segundo as sensações que experimentei nessa poucas horas e as palavras de Ace, posso considerar que estou recobrando minhas memórias passadas. Lembro-me de como se manuseia corretamente uma espada do porte do Santo Graal, minhas especialidades sobre arco e flecha, controle das Artes das Armas ensinado para mulheres quando completavam a maior idade, das várias formas de batalha, organizar estratégias, os treinos duros e cansativos do corpo, e especialmente os poderes herdados dos nossos antepassados através dos séculos desde a criação. Claro, não recordava tudo exatamente, mas só aquilo que seria necessário nesse confronto. Tenho que ser o mais breve possível, quanto mais tempo perder mais terríveis serão as consequências.
Toda energia fluía em mim com facilidade, se instaurando pelos músculos, distribuindo-se pelas células e lhes assegurando mais força e mais alguns atributos que potencializava as demais capacidades.
Permiti que meus pés se movessem, a velocidade gerada para desferir o primeiro golpe fora impressionante. As duas espadas colidiram, o impacto intenso levou-nos para trás. Ajeitei-me em posição de ataque, apertando firmemente a mão sob a estrutura fria da lâmina até que o sangue fresco escorresse por toda extensão e ser devidamente absorvida. O Santo Graal emitiu uma fugaz luminosidade dourada anunciando que já estava alimentada — era o meu sangue sua fonte de poder primária. Essa ação deixou claro que estava disposta a matá-lo usando todo poder que me é conveniente. Em seguida, refiz meu trajeto na investida, porém não imitei o gesto anterior, pois ele poderia prever meus golpes. Dei impulso nos pés, saltando em direção a Ace com um ataque direto por cima. Mesmo que não tivesse a vantagem da luz solar para incapacitá-lo, consegui ao menos fazê-lo recuar antes que fosse atingido e acabasse sendo empalado. Não desisti, então novamente, e sem perder tempo, comecei uma sequência rápida de ataques furtivos tentando encontrar um ponto cego na defesa reforçada dele. E em toda vez que Ace me bloqueava, despertava mais fôlego e empenho para destruir sua fortaleza. Queria entender de onde vinha tanta agressividade, mas as resposta que tinham não explicavam a razão.
A certa altura, estávamos ofegantes e ainda assim prontos para mais um round. O cenário havia mudado drasticamente com a violenta luta; o chão em rachaduras, os pilares tombados em grandes pedaços. Ace aproveitou para jogar um enorme fragmento do terreno contra mim, eu preparei-me a espera, e dar-lhe um agradecimento pelo presente. Quando o chutei para longe, a estrutura quebrou-se e voou em direção a Ace que cortou todos os fragmentos. Eles caíram no chão como pequenas chuvas de pedra. Aquele jogo estava cansando, precisamos decidir o impasse dessa batalha. Rapidamente vasculhei os escombros com olhos ávidos, buscando algo que pudesse proporcionar uma maneira eficaz de terminar com isso. Com a diferença de poucos segundos, perdi Ace de vista o que me deixou frustrada e mais arredia. Virei-me instigada com a mudança quase imperceptível do ar atrás de mim, num breve cálculo de movimentos consegui esquivar do contra ataque de Ace. Ele, de alguma maneira, assombrosa possuía uma velocidade impressionante tal qual perigosa e digna de estar operando em alerta máximo. Usei meu braço para travar a musculatura do braço dele que portava a espada, impedindo-o que tentasse fugir ou me agredir. Durou pouco tempo, mas dei-lhe uma cabeçada atordoante e atirando-o para longe. Ele tocou a própria testa procurando vestígios de uma ferida, pois um fino filete de sangue escorreu pela lateral de seu rosto.
O impensável e totalmente insano golpe causou mais dano do que esperava, e vendo-o pude entender o sentido de ser cabeça dura. Ace no mínimo pensava que seria previsível em ataques devido a minha parcela inexperiência e se quiser ter sucesso teria que apelar a minha criatividade. Uma inesperada e inexplicável rajada de vento arrastou poeira para o meio, atrapalhando a visão do adversário. Raios cortaram o céu, iluminando-o em flashes incandescente de luzes que se se projetavam como ininterruptos brilhos azuis, brancos e vermelhos claros. Sem dúvida nenhuma a situação já tomou proporções alarmantes, e essa afirmação só me deu mais motivos para agilizar antes que algo pior possa vir a ocorrer com o fenômeno desencadeado acima de nossas cabeças.
Empunhando firme o Santo Graal e com forças renovadas, avancei feroz contra Ace sem dar-lhe tempo a não ser para se defender já que reiniciei outra sequência de ataques, dessa vez mais agressiva. No entanto, meu esforço não estava dando os resultados que almejava; tinha consciência das incríveis capacidades e o poder incógnito existente em Ace, ele não hesitaria em destruir com força esmagadora quem atravessa seu caminho. O choque de nossas espadas se encontrando fora, para minha análise, apenas um meio de descobrir mais em relação à Ace. Além de ser uma boa forma de testar seus limites, determinada do jeito que estava qualquer coisa poderia ajudar — mesmo as mais descabidas. Oportunidades surgiam para ambos, só que nenhum conseguiu romper o muro defensivo do outro. O máximo que chegou a acontecer eram os fios cabelos cortados durante essa intensa e feroz empreitada. Confesso que ficou exaustivo, contudo tinha que prosseguir enquanto fosse necessário. Em meio ao caos e o calor da luta desgastante, captei uma brecha na reforçada defesa que Ace construíra e teria que ser ágil para utilizá-la a meu favor.
Agora eu senti que deveria alcançar a luz que vivia dentro de mim para concluir com êxito, a minha grande vontade e empenho. Não há medo, fraqueza, relutância e nem dúvida. Tudo que tinha era o desejo insuperável de vencer. E nele me apoiei quando, guiada por algum poder sobrenatural, finquei o Santo Graal no peito de Ace. O sangue quente respingou em meu rosto e nas roupas. Diante disso, Ace encarou-me surpreso e incrédulo, seu maxilar cerrado e seus olhos ligeiramente arregalados. Ele prontamente largou a própria espada que tiniu na superfície arenosa, fiquei em contradição, um lado tinha pena e queria ardentemente ajudá-lo, entretanto o outro permaneceu imóvel sem esboçar uma única reação, exceto respirar pausadamente. Seja angústia pelo sofrimento alheio como eventualmente sentia ou felicidade. Ace recuou alguns passos, a mão apertando contra o profundo corte tentando inutilmente conter o sangramento. Reparei que em minhas mãos estavam manchadas com o líquido rubro exatamente como no sonho; o local que jazíamos, a simples e não menos importante fato de que o sangue impregnou minhas mãos.
- Não é possível — enunciou sôfrego, respirando artificialmente em contrações aceleradas. — Como...?
Fiquei em choque pelos acontecimentos, absorvendo a cena que se desenrolava diante de mim como um filme.
- Isso não pode estar acontecendo... Estive tão perto. — os olhos de Ace fixaram em mim no que acredito ser consternação. Uma névoa escura saiu de Ace como uma fumaça e desapareceu. — Tudo que fiz...
Ace aproximou-se de mim em passos lentos e debilitados, eu observei cada um dos seus fracos movimentos. Não fiz nada além do que imobilidade permitia, parecia até uma estátua.
- Você sabe que isso realmente não é uma certeza... — Ace tocou meus ombros, fazendo o possível para permanecer em pé. Eu já havia notado quão alto Ace era e estando tão perto ficou mais evidente a diferença. Ele inclinou-se sutilmente para que nossos olhares se cruzassem. — e sabe também que sua escolha em proteger a humanidade é tola, eles não merecem... O esforço — ele apertou levemente meus ombros, tossindo. — Você não entende, nunca perdeu nada pra entender. É só uma garota que acha que tem tudo assegurado. — Ace parou, respirando fundo mesmo que aquela ação o prejudicasse. — Você é igual Alexander, ingênua e idealista.
Surpreendi-me com tais palavras vindas de Ace, adquirindo uma expressão de assombro que fora percebida de imediato por ele. E pela primeira vez desde que eu o conheci vi um legítimo sorriso nele, não um maldoso ou que escondesse algo. E sim um cálido e terno sorriso, que demonstrava sinceridade e benevolência.
- Também posso me ver em você; alguém com esperança e sonhos. Alguns deles que abdiquei e outros que sacrifiquei tudo para realizar... Não me arrependo de nada. Nem mesmo diante da morte. Nenhum dos passos que me trouxeram até aqui me arrependerei de tê-lo dado.
Engoli em seco. Eu queria dizer algo, mas meu corpo não me obedeceu e continuei paralisada ouvindo atentamente a confissão de Ace. Sentia-me confusa e triste pela situação.
- Eu sei que não vou para o mesmo lugar onde Alexander está, aceitei isso há muito tempo. — Ace acariciou meu rosto pasmo, não pude descrever o que senti naquele estranho momento. Pareceu que o mundo desabou sobre mim e corajosamente estava em pé, minha mente operando desordenadamente. O comportamento dele foi muito diferente do que normalmente seria, seu modo de falar afetuoso e seu toque delicado como se eu fosse uma peça de porcelana cujo mero contato merecesse cuidados, para que não quebrasse me deixou mais desnorteada. — Nas sombras a luz nasce, nos tempos sombrios ela se ergue em sua glória miraculosa ofuscando e direcionando o mundo — ele entoou baixinho. — Queria ter trazido ordem a esse mundo, destruindo e reconstruindo.
- Um mundo onde inocentes precisam morrer para ser realidade, não parece tão utópico assim — repliquei em um sussurro.
- De qualquer forma, eu peço, cuide da Nilin e da Nina. Diga aos meus irmãos que lamento que nossos caminhos tenha divergindo tanto. — ele soltou uma risada forçada — Eu não vou lhe pedir perdão, embora saiba que não fui uma boa pessoa... Ainda assim, quero que saiba que... Fico feliz de ter sido você a me matar — Ace caiu diante de mim depois do último ato para mostrar seus mais profundos sentimentos. Recuperando-me do choque impactante, ajoelhei-me frente a ele tocando suavemente seus cabelos. O gesto inicialmente fora estranho para mim, me lembrava de tudo de perverso que ele cometera, mas não pude ignorar a sensação que era o mínimo que devia fazer. Não tenho frieza o bastante para ser indiferente a morte de Ace, ou melhor, dizendo de Tristan. Para todos os efeitos ele é parte da minha vida e graças a sua intervenção que conheci Dante.
- Espero que encontre a paz que seu coração tanto precisa — murmurei ainda afagando seus cabelos negros. Algumas lágrimas deslizaram livremente pelo meu rosto, enxuguei-as e suspirei. — E que vá para onde sua mãe lhe espera.
Ruídos que sussurravam ao relento me colocaram em prudente cautela. Havia algo pesado e hostil no ar e nos fracos redemoinhos que se formam, eles carregavam uma espécie de maldade e sede de sangue permeando e contraindo o espaço. A resposta sobre o que devo fazer veio num estalo. Meus pés se arrastaram como se caminhasse em areia movediça, pesados e débeis. Não estando completamente em melhores condições devido as divergentes emoções e pensamentos atormentando-me. Presa em instabilidade emocional. Dessa vez, não me deixei envolver e me afogar dentro delas — as águas negras que assustadoramente quase me perdi certa ocasião. Decididamente aprisionei qualquer obstáculo que implicaria ao fracasso, se tenho uma missão em mãos não posso me apegar a pequenos e desnecessários detalhes. Manter o foco no meu objetivo, somente isso. Tropecei durante parte do percurso para onde todos esperavam reunidos. Pelas feições de todos os presentes posso declarar que estou um caco e também que a felicidade de meus amados amigos me vendo sã e salva estampada e fascinada em sorrisos acolhedores.
Olhei para Dante quase que automaticamente, sendo impossível para mim ignorar sua presença marcante. Meu coração pediu para que eu procurasse pela zona de conforto que os braços de Dante me proporcionam, a vontade implacável de sentir o calor da sua pele, aspirar ao aroma inebriante natural dele e o gosto dos seus lábios. O grande amor que sinto por ele, de repente, pareceu imensurável para suportar. Ficamos nos encarando, o silêncio reinou perturbador e nenhum de nós dois fez algo para mudar aquilo. Ali, refletindo, desejei não haver nada para nos interromper. O problema no qual exige solução imediata destruía o véu dimensional. Desgostosa, virei-me bruscamente desviando o contato visual para dar devida atenção no espiral macabro obscurecendo o céu tragando para o mundo de sombras, onde a umbra nasceria para dominar e obstruir qualquer fonte de luz.
O fim do mundo humano. Fim daquela dimensão.
A falta de reservas de energia em meu corpo fazia com que tivesse demasiada dificuldade para ganhar tempo ou fechar o portal. Estendendo a mão na direção da descontrolada oscilação de poder, usando os resquícios de energia que milagrosamente possuía.
- Chances de salvar o mundo não acontecem todo dia e você teve a sorte de ser a heroína da vez, mas doçura — Dante segurou a minha mão livre, aquecendo-a com a sua. Um arrepio correu pela minha espinha e ruborizei. — Você não precisa fazer isso sozinha.
Dito essas motivadoras palavras, Dante transferiu seu poder comigo e ela me embriagou com o calor prazeroso e a desafiadora sensação de vitória — uma confiança avassaladora. Tentei novamente a fechar o portal, aos poucos o espiral diminuiu até desaparecer. O alívio fora descomunal que por pouco não cai no chão. Contudo não durou muito, o portal reabriu. Como se o big bang se formasse diante dos meus olhos, um fenômeno anormal se transformou num evento terrível quando o vermelho que maculou o céu revoltou-se num turbilhão de cores sinistras.
- Droga! — esbravejei estridentes.
O que posso fazer para parar isso?
Libere seu verdadeiro potencial, Diva. Alexander havia me dito na ultima vez que nós tivemos a chance de nos ver. Terei que superar meus limites e usar tudo de mim. Dante compreendeu que eu queria fazer sozinha e sorriu. Concentrei-me e o poder fervoroso se estendeu por meus músculos e unicamente, ela se expandiu. Abri meus olhos, olhando confiante para o rasgo distorcido. Voei em direção — estranhei bastante a princípio — ao portal, e foquei em meu poder máximo. Não fora agradável quanto pensei, mas aguentei firme.
Eu posso! Repeti esse mana para tranquilizar e dar-me força imprescindível. Serei a salvadora do mundo, embora tenha causando essa bagunça. Confiarei em mim mesma.
Liberando a energia e envolvendo o portal, absorvendo grande parte da energia ondulante e com as mãos unindo-as gradativamente, tive êxito. O custo dessa empreitada me deixou esgotada, tudo que fiz com os resquícios de força pousei.
Antes que meus pés exauridos tocassem o terreno íngreme e gélido, braços calorosos me ampararam com ânsia fervorosa, a necessidade tangível de tato — uma real troca física. Embora tudo nele gritasse imponência e poder, seu aperto destoava com a imagem que possuía ao me abraçar delicadamente medindo sua própria força, me embalando feito uma peça frágil de porcelana. O aroma cítrico — a mistura singular de pólvora, álcool e uma dose sutil de morango — embriagava meus sentidos, despertando em mim a chama de esperança que por pouco não se extinguira. Durante todo o calvário, tortuosos e incontáveis dias aguardando uma sentença que nunca viria, não conseguiria deixar de pensar nele e em tudo que enfrentamos juntos, todos os preciosos momentos que compartilhamos e os sentimentos que floresceram dessa improvável convivência. Ninguém nunca mais me tiraria dele, nem nos separaria novamente.
Afundei o rosto contra o peito dele, me agarrando firme e desesperadamente quanto a insaciável sede de tê-lo perto, de matar a saudade há muito guardada. Dante riu, sem romper o ato e me permitindo gastar as últimas reservas de energia na contemplação muda dessa união. Tudo que ocorrera antes, agora, após a queda do véu cinza que obscurecia minha razão, parecia um pesadelo que se desvaneceu feito uma recordação assombrada para nunca mais retornar. Soltei um longo suspiro com a onda massiva de esgotamento que me acometeu, trazendo-me a realidade na qual já estava praticamente sem mais fôlego e navegando a deriva pelo mar da inconsciência, resistindo mais alguns minutos para evitar meu destino.
Dante me ergueu com cuidado para que vislumbrasse a imensidão do céu estrelado acima de nós — a prova de que o esforço valera a pena. Focalizei nas diversas constelações que graciosamente testemunhavam o desenrolar da vida no planeta imaginando como seria o futuro dali pra frente, se, com a queda de Ace, tudo se encaixaria em seus devidos lugares. Pensar nele me agitou por dentro, por mais que suas ações tivessem sido movidas por emoções nefastas trazendo consigo consequências severas, não tinha como negar o papel dele nessa trama e que, querendo ou não, era responsável pela minha vinda a essa dimensão.
Ele finalmente poderia encontrar a paz que sua alma tanto almejava.
Sorri com a visão da lua e seu resplendor místico que repousava sobre nós, atribuindo a Dante o mesmo aspecto de quando o vi pela primeira vez, porém mais ciente de sua identidade e muito mais conectada a ele. O cenário parecia tão propício, ideal para me abrir, mas estava perdendo a batalha e o cansaço começava a afetar bem mais que meu raciocínio. Meus lábios se moveram, contudo, nenhum som fora emitido, algo que capturou a atenção de Dante que me fitou com a mesma intensidade de sempre, como se nada tivesse mudado nesse curto intervalo de tempo.
- Parabéns, doçura, você conseguiu.
Sorri.
- Queria poder ver mais das estrelas do seu lado. — murmurei ao encontrar minha voz, torcendo para que não falhasse. — Me sinto tão cansada.
- Descanse, doçura.
- Não. — arquejei teimosa. — Não quero dormir. Tenho medo de não estar comigo quando acordar, de tudo não passar de um sonho.
- Prometo que estarei do seu lado quando acordar.
- Mesmo?
- Sim. Acho que já mostrei que levo minha palavra a sério, não é? — o sorriso confiante dele aquietou a sombra de insegurança que obscureceu momentaneamente meu coração. — Eu serei a primeira pessoa a te dar o bom dia, Diva.
Estremeci com o beijo terno e cheio de significado que Dante depositou em minha testa, lentamente sendo conduzida para a escuridão reconfortante.
×××
Me remexi agitada, minha consciência sendo empurrada de volta para superfície a medida que tudo ao redor ficava claro e real. Abri os olhos para vislumbrar uma fonte de luz suave que não ardeu em minhas retinas bastante sensíveis — uma lâmpada com a luminosidade baixa que conferia ao ambiente uma atmosfera de mistério. Duas mãos aqueciam a minha e, ainda meio grogue, me fizeram encará-lo. Entorpecida, lutei através da névoa que encobria meu campo de visão e arfei com a imagem de Dante segurando-me.
- Bom dia, doçura.
- Você... Está mesmo aqui.
- Exatamente como prometi. — lançou um sorriso travesso. Ele pressionou com leveza ao me aconchegar em si, não aplicando força no gesto e plantando um demorado beijo no dorso de minha mão. — Você passou um bom tempo dormindo.
- Sinto muito a demora, espero que não tenha te deixado esperando por muito tempo.
- Esperaria o tempo que fosse por você.
O peso de sua resolução me preencheu com uma poderosa onda de energia revigorante que soprou para longe os conflitantes e nebulosos receios que, por um instante, se assentaram em meu coração.
No andar inferior podia ouvir claramente vozes conhecidas, não segurei a exultação com a assimilação, pois não há nada que estar com quem se importa comigo assim como a certeza de que nenhuma tristeza pudesse me alcançar com eles perto. Agora não existia mais um perigo nos rondando, pairando sobre nossas cabeças semelhante a uma nuvem negra. O principal adversário morto teria o sossego para viver uma vida tranquila ao lado do homem que amo.
Sorri.
Estou onde nunca devia ter saído: a agência Devil May Cry cercada de pessoas que desenvolvi um poderoso e inquebrantável laço. Esquadrinhando o cômodo que, durante praticamente um ano, dividi com Dante e no qual compartilhamos afeto e segredos, não havia mudado nada nesse interim. Eram poucas diferenças perceptíveis, entretanto continuava sendo o mesmo espaço aconchegante e íntimo de sempre. E, claro, o perfume dele permeava o ar enchendo-me com o cálido reconhecimento.
Sem me largar em nenhum segundo, Dante me ajudou a levantar e, acompanhando meu ritmo mais lento, meus primeiros passos vacilantes tal qual uma criança aprendendo a andar. As vozes ficaram mais altas à medida que avançava pelo corredor e descia vagarosamente os degraus que rangeram suavemente com o novo peso. O cheiro característico do local encheu minhas narinas embriagando-me com sensações prazerosas de conforto e animação. Naquele momento, pareceu uma reunião dos alunos de vinte anos como nos filmes americanos. Eles conversavam e brincavam de um assunto que não compreendi ao certo o que era. Ri internamente pela comparação.
Diminuí a ritmo até parar, observando a cômica cena.
- Isso é uma reunião da turma do ano passado? E esqueceram de me convidar? — questionei num falso tom acusador. E julgando pelas diversas expressões estampadas nos rostos de meus queridos amigos — Nero, Trish, Lady, Ana, Maya, Eryna e Lyana -, eles não esperavam a minha ilustre aparição. Lyana correu desesperadamente para meus braços, prendendo-me num típico abraço de reencontro. Ela chorava baixinho não querendo demonstrar seu estado de lamúria e contentamento.
- Ah, minha Divinha! — sua voz soou abafada e embargada. — Estive tanto medo de te perder!
- Me perder? — repeti meio absorta, procurando uma explicação plausível para a estranha constatação. Lyana afastou-me o suficiente e que a encarasse. As maçãs do rosto dela coradas e os olhos emitindo um brilho molhado desencadeado por lágrimas.
- É que... Mesmo sabendo da sua fragilidade e que... — Lyana começou a titubear sem encontrar uma maneira de me contar. — Bem, Eryna disse que seu corpo chegou no limite quando fechou o portal e que para se recuperar completamente você entrou em uma espécie de hibernação. Resumindo: você dormiu por uma semana inteira.
- Uma... Semana...? — as novas informações atordoaram-me, porém consegui disfarçar. Para mim eu estive desacordada somente por dois dias e saber que dormi tanto é estranho.
- Estávamos preocupados que você nunca mais fosse... — Lyana respirou fundo, aparentemente desgostosa em relembrar. Então balançou a cabeça juntamente com a cabeleira ruiva, afugentando pensamentos negativos e um ligeiro sorriso formou-se nas feições carregadas de júbilo.
- Estou muito bem! — acrescentei sorrindo. — Nunca estive melhor!
Involuntariamente pousei a mão sobre o peito, uma sensação indescritível brotava do meu âmago e estremeci com o choque que me chacoalhou.
- Diva? — escutei a voz de Nero romper o torpor no qual me deixei mergulhar.
Sorri pra ele.
- Ei, você! — Ana prendeu a ponta do meu nariz rudemente e o comprimiu dolorido. — Nunca mais nos preocupe desse jeito, idiota!
- Aí! Eu entendi, por favor, não arranque meu nariz — pedi com voz anasalada devido à pressão que Ana exerceu. — Aí, Ana!
Ana largou-me e dei uma mexida na região dolorida com uma expressão mais aliviada, pensei que ela fosse amputar meu pobre nariz. Para minha surpresa, Ana me acolheu nos braços como se certificasse que estava bem.
- Você é a pessoa mais insana que conheci superando o próprio Dante, mas — ela deu leves batidas no topo de minha cabeça, bagunçando meus cabelos já muito desgrenhados. — não é que você salvou o mundo? Está no caminho certo. Contanto que não viva fazendo besteira como certa pessoa...
Flexionei meus lábios num sorriso sem graça. Aceitei alegremente um a um os comprimentos daquelas pessoas que enfrentaram intermináveis e cansativas lutas para me socorrer quando, de certa forma, desisti da minha própria fé. Nunca teria como agradecer adequadamente cada um deles e verbalizar meus sinceros votos de gratidão. Meus atos de amor fraternal perante todos fora o único modo que julguei ser mais sincero para demonstrar o carinho, queria transmitir o quão plena e amada sentia-me conforme prosseguimos com o ritual — que criamos para eternizar o momento.
Contei detalhadamente o que me fez tomar uma decisão tão precipitada em relação à Ace e que houve durante o tempo que convivi ao lado do inimigo, recebendo olhares compreensivos em troca.
Ainda que houvessem períodos obscuros e perigos além da imaginação, jamais seria maior que os laços forjados através de experiências partilhadas e sabia que não estaria solitária ali. Rodeada de boas vibrações e sorrisos, meu coração transbordava felicidade. A conversa fluía animadamente entre piadas e risos. Enquanto distraídos, meu olhar esperançoso visualizou cada um dos presentes, estudando-os e que fizeram pensar que tinha muita sorte em ter amigos verdadeiros que se preocupavam com meu bem estar e o homem que amava. Por mais "final de anime" que soasse, adorava como tudo aquilo se desenrolava.
Fomos interrompidos por um ruído sinalizando que alguém batia na porta, Lyana correu para atender gritando a plenos pulmões "Eles chegaram!". A princípio não prestei muita atenção no motivo do alvoroço, no entanto, mudei de ideia ao ver Rain e Vincent entrarem. A postura concentrada e séria de ambos era um pouco incomoda e enrubesci ao se colocarem de joelhos diante de mim como se eu fosse uma figura superior e deveriam prestar respeito. Para mim, eles são preciosos amigos então era desnecessária tanta formalidade. Cruzei os braços em contrariedade, eles entenderam erroneamente e prontificaram em pedir desculpas.
Amável e materna afaguei os cabelos de ambos, sorridente.
- Se acalme, sério, não é necessário tudo isso. Somos amigos, não é? Então gostaria que nos tratássemos assim. — expliquei ajeitando uma mecha rebelde do meu cabelo atrás da orelha.
- Mas... — Vincent começou e logo o cortei.
- Não, não quero que vivam em função dessa missão, de verdade. Ainda que lutem por mim para cumprir a promessa que fizeram pra o Alexander, vocês são meus amigos. Não quero guerreiros, nem guardiões e sim amizade de vocês. — exclamei com simpatia.
- Ah, você as tem, Diva! — Rain respondeu sorrindo entre lágrimas.
- Bem, antes que me esqueça — os fitei com seriedade, certa de que, ao mencionar o artefato, automaticamente acenderia uma chama antiga de pesar neles pelo que aconteceu com Ace. Independente da minha relação complicada e fatal com ele, não podiam descartar os anos que foram uma família.
Pausei para tomar fôlego.
- Preciso pedir um favor. — sustentando a postura plácida e cortês, prossegui com meu pedido.
O sofrimento que se ocultava por trás da máscara de alegria me deixou com um gosto amargo na boca. Se as coisas fossem diferentes, talvez, pudesse ter salvado Ace da ambição desenfreada e da mágoa que ele alimentou por anos. Embora nós tivéssemos nós confrontado inúmeras vezes e que nossos encontros tenham sido regados de raiva, a queda dele acabou sendo triste para os implicados, no caso, para quem o conhecia verdadeiramente.
- Podem levar o Santo Graal de volta? — fechei os olhos momentaneamente. — Ela recuperou o poder que perdeu com meu retorno e restabeleci a energia que faltava — Lady alinhou-se comigo carregando o pingente que a espada se tornou e entregou a Vincent.
- Faremos o melhor para realizar seu pedido, Diva. — Rain sorriu.
- Obrigada. — ponderei muito antes de perguntar. — E... Ace?
Rain tentou sorrir para parecer conformada, mas dava para ter uma noção do quanto a atuação era frágil.
- Demos um enterro digno a ele, como Alexander gostaria.
- Eu gostaria de vê-los. — pedi e Rain assentiu, usando o pingente dela para me levar ao local do descanso final de Ace... Ou melhor, Tristan.
Depositei as flores no túmulo, lendo o epitáfio com sentimentos conflituosos. Ace passou meses sendo meu nêmesis e fazendo da minha vida uma constante apreensão sob suas intenções e quando se manifestariam, mas não pude deixar de sentir pena de como as coisas aconteceram. Ele não estava tão errado em dizer que éramos irmãos, não biologicamente, mas amados pelo mesmo homem que deixou um legado para trás. Toquei a lápide de Alexander com um forte senso de respeito e orei por seu descanso, agradecendo por seus conselhos e por ser meu guia durante todos esses meses.
- Descansem em paz — murmurei me despedindo, pronta para seguir por um novo caminho adiante.
- É meio mórbido pensar nisso, mas a vida é curta. — apertei a mão de Dante apaziguando a ansiedade e o luto de uma parte do futuro que nunca saberia como seria.. — Não me importaria de passar a minha do seu lado mesmo que dure um piscar de olhos. — fechei os olhos por um instante. — Não quero mais perder nem um minuto desse momento com você.
Os olhos azuis celeste contemplavam cada detalhe do meu rosto, retraído numa avalanche de percepções. Ele me envolveu em um abraço com minha declaração sincera. Ouvindo seus batimentos cardíacos não pude deixar de ficar satisfeita; estava aspirando sua fragrância familiar, o calor proveniente do seu corpo que irradiava feito um sol para o meu. Correspondi com toda vontade guardada, experimentei os sentimentos contidos transbordarem por todas as células do meu corpo, e preencheu o vazio de outrora — o terrível e massacrante pressentimento de ser oca, uma peça incompleta.
- Dante, eu... — ele calou-me antes que lhe expressasse meu arrependimento, o beijo brusco e faminto tirou meu fôlego e minhas pernas bambearam pela intensidade do gesto que retribui de imediato. Ele tocou meu braço esquerdo e deslizou até minha mão, ele apertou-a afavelmente depositando o anel, que jurava ter perdido, no meu anelar. Estupefata e contente, admirei o adereço em adoração.
- Estou te devolvendo o que você esqueceu, doçura.
- Muito obrigada.
- Temos que ir, se demorarmos...
- Vocês vem ou não? — escutamos Lyana resmungar.
Dei uma risada baixa e fui direto para a escada.
Meus pés ganharam o próprio ritmo à medida que subia os degraus para o telhado. Conforme avançava pela escadaria percebi que minha respiração formava vapor devido a mudança de temperatura.
- Parece que vai nevar. — ouvi alguém comentar.
O céu salpicado de constelações radiantes, o escuro contrastando com as estrelas provando que na escuridão podem surgir beleza e luz. O frio é impetuoso ao nos receber e fascinada observei os flocos de neve caírem, diminutos e emanando esplendorosa pureza.
A queda de neve estava no início e sabendo disso poderíamos desfrutar da paisagem iluminada e o inédito — para mim que nunca testemunhei — aflorar da leve nevasca. Esfreguei minhas mãos para criar atrito e esquentá-las, para complementar soprando-as. Minhas bochechas perderam a sensibilidade e a brisa chacoalhou meus cabelos, tremi por conta dela e intuitivamente encolhi-me. Algo novo sempre me enchia com a euforia de uma criança curiosa que explorava o desconhecido, desbravando os recantos mais distantes da redoma na qual estava inserida.
Contagiada pelo fascínio, girei com os calcanhares desatando em uma risada que misturava animação, melancolia e uma fração de confusão... Que foi inflado pelas sombras que compõem o semblante de todos, no entanto, quis acreditar que era fruto da minha imaginação e que nada de errado ou ruim estragaria a tranquilidade daquele momento sublime. Fogos de artifício deram um efeito admirável de fulgor resplandecente, brilharam em faíscas coloridas. Soltei um longo e ruidoso suspiro, lavando pensamentos deprimentes.
Estiquei os braços como se estivesse recebendo uma nova vibração.
- A noite está linda, um pouco fria, mas linda. — comentei estendendo a mão para pegar um floquinho de neve, emocionada. Queria ver bem de perto a arte que a natureza esculpia tão lindamente, cuja essência transmite a delicadeza e perfeição. Uma obra que não precisava da ajuda do homem para nascer. Ela apenas está lá, esperando a hora certa para aparecer.
Inacreditável como a alegria e a paz interior pode nos fazer enxergar muito além, não existem limites ou barreiras.
Lyana me abraçou por trás como costumava fazer quando se sentia sobrecarregada por algo em uma necessidade extrema de conforto. Esfreguei gentilmente as mãos dela, dividindo um fragmento das sensações e sentimentos em um ato de cumplicidade.
- Sinto muito, Diva. Muito mesmo.
O sorriso morreu em meus lábios.
- Sente muito pelo que? — indaguei sem entender o clima de enterro.
Por cima do ombro, fui capaz de ver as lágrimas transbordando feito águas de uma cachoeira cristalina e lentamente fizeram caminho para as maçãs do rosto de Lyana. Sua feição oscilava em um sorriso calmo e singelo e olhos refletindo a tristeza escondida.
- Lyana?
Todos me gostavam com seriedade.
- O que está acontecendo? — guinchei com a voz trêmula. — Alguém pode me dar uma maldita explicação?!
A dúvida formou um bolo desagradável em minha garganta, acarretando a angústia inexplicável. Não entendi essa súbita tensão permeando o ambiente e o tornando abafado e inóspito. Meu coração falhou uma batida e pulsou duramente em meu peito, esmagando-o. Perdi o controle do meu corpo, sendo guiada no modo automático.
- Me respondam...
- Diva — Eryna anunciou direta. — há coisas que simplesmente não podem ser explicadas, somente realizadas não importando o custo... Eu disse a Dante uma vez, — as lágrimas incomodavam meus olhos, querendo dissolver-se. — ele precisava fazer uma escolha, caso você ficasse... A morte continuaria te seguindo... No entanto, se voltasse a sua dimensão original estaria segura.
- Olha, Eryna, o pior já passou. Eu vou ficar bem. — garanti com um sorriso artificial. — Eu consigo... Não é?
Tentei concentrar-me em encontrar palavras coerentes para argumentar ou gritar. O que diabos está acontecendo? Quando é que perdi o direito de opinar em minha própria vida? Sou perfeitamente capaz de tomar minhas decisões, mas por que?
- Não...! — Lyana apontou o pingente que Alexander dera para ela em minha direção como se quisesse deixar claro quais eram suas pretensões, aqueles que possuíam a joia semelhante imitaram-na. Rain, Vincent, Ana segurava o colar equivalente a Ace e por fim, minha melhor amiga.
- Alexander projetou uma espécie de mecanismo para esse dia, quem diria que teríamos que usá-lo. — Lyana informou, símbolos surgiram e reconheci de imediato sendo selos de contenção. Ela falou sério, estava disposta a tudo. Antes que pudesse escapar o poder representado por correntes prenderam-me impossibilitando meus movimentos ao passo que drenava minhas forças, sugando meus poderes. Gritei devastada numa luta incansável pela liberdade que só fora concedida depois de não sobrar nada, era como se nunca tivesse experimentado o potencial dos meus poderes. Sequer existiam. Cai pesadamente no chão, apoiando-me com as mãos. As gotinhas salgadas pingaram na superfície gelada do telhado, a mágoa crescendo em meu âmago. Mesmo sem erguer a cabeça, soube que Dante se aproximou e colocou seu enorme casaco sobre mim. O frio fora rapidamente substituído pelo calor.
Uma radiosa luminosidade em formato cíclico se compôs acima de nós, ela emitiu uma calorosa onde de poder. Reconheci sendo um — desdobramento dimensional — portal, especificamente uma passagem sem volta para minha dimensão.
- Por que? — levantei a cabeça para interrogá-lo olho no olho. Queria que ele me consolasse e aplacasse a dor que me consumia, também para desmentir o que Eryna dissera. No entanto, ele não fez nem uma coisa nem outra. — Eu não entendo... Você quer que eu vá embora? Você não me quer mais?
- Seu lugar não é aqui — emendou. Encarei-o abismada. — Esse mundo não é seguro para você. Se fosse de outra forma, nunca me separaria de você, Diva.
Dei uma risada amarga.
- E seu plano é me enviar de volta? É tão simples pra você se livrar de mim? — cerrei os punhos com raiva, impotente e atônita. — Eu... Não agora... Por que? — esbravejei socando o peito de Dante, apesar de ser um ato inútil, seria mais fácil mover uma parede, queria despejar a torrente de sentimentos dolorosos de dentro de mim. — Você prometeu estar comigo. Eu sei que é egoísmo, mas não me importo de deixar a vida que tinha para trás e ficar com você!
Dante segurou a parte do casaco que cobria minha cabeça como um manto e puxou-me para perto, a respiração dele misturada a minha me desconcertou. Estarmos tão intimamente próximo, ao mesmo tempo, tão amargamente afastados. Não quis soltá-lo mais.
- Demorei um pouco pra encarar a verdade e aceitar que não podia ignorar isso. — ele sorriu, enxugando minhas lágrimas. — Eu não posso deixar que vá sem te dizer isso: Eu te amo, Diva.
Era a primeira vez que o escutava dizer tão abertamente essas três palavras.
Na minha mente era impossível conceber a ideia de que deliberadamente ele estivesse querendo que eu retornasse para o meu mundo — sem os meus poderes nunca mais nos veríamos. Nunca mais escutaria seus comentários espirituosos que me arrancavam uma gargalhada, não desfrutaria do nosso humor do estilo "mesmo neurônio", não teria seus toque reconfortantes ou teria seus olhos pra admirar. Não sobraria nada para que pudesse me apoiar.
A essa altura, não me importava em conter as lágrimas. Para mim é inacreditável que Dante tivesse se despedindo de mim, tão tranquilo como se aquilo não o afetasse. Ali, diferente de mim, firme e inabalável. Com sua expressão estivesse inteligível, consegui muito rapidamente, identificar uma pontada de dor. Nada conclusivo. Meu desejo era que esse pesadelo terminasse de vez, sem dor. Fechei os olhos tentando dar um novo rumo a esse sonho terrível, fazendo o possível para meu subconsciente mudar os fatos — aplacar o horror.
- Eu te amo, Diva — repetiu como se estivesse garantindo que eu compreendesse, ele pegou minha mão e a colocou em seu peito. — Muito obrigado pelas memórias que compartilhou comigo.
Chorei em silêncio enquanto a verdade se fazia mais real e mais lancinante. O que mais eu podia fazer? Implorar? Dante não era o tipo de homem que muda de ideia quando se trata de manter alguém seguro. Sabia que ele faria diferente se existissem outras alternativas, mas isso não amenizou a tristeza que cresceu mais e mais.
Dante tirou do bolso um frasco de conteúdo vermelho.
- E é por te amar que estou abrindo mão de você. Se para que você tenha uma vida segura tiver que te deixar partir, farei isso. — Suas palavras intensas ficariam gravadas em minha alma. Dante bebeu o líquido e beijou-me, forçando-me a engolir. Eu não tinha muita escolha, pois o ar ficava escasso devido à pressão que Dante exerceu em mim e meio contragosto permiti que o estranho e azedo líquido seguisse. Engasguei e tossi papa desobstruir minha garganta, mas na verdade queria cuspir para fora a substância que ingeri.
- O que é isso? — indaguei respirando pausadamente.
-Essa é a certeza de que tudo não passará de um sonho distante. Você não vai se lembrar de nada a partir de agora.
- Não. Você não pode simplesmente querer apagar minhas memórias! — ainda que fizesse o meu melhor para estabilizar minha voz para que não soasse chorosa e lamentável, ela se perdeu em um timbre fragilizado. — Por favor, Dante. Por favor. Reconsidere. Não quero perder essas memórias. — meu tom aparentou, miseravelmente, um apelo. Estava implorando para que não me deixasse, a possibilidade de me separar definitivamente de Dante é destruir o restante do meu coração ferido. — Eu não quero estar longe de você.
- Isso é difícil para mim também, doçura. — com o rosto a poucos centímetros do meu. Seu aperto se afrouxou, e meu corpo perdeu a gravidade e flutuou. O portal me chamava de volta para casa.
Dante sorriu. Despedir-se com um sorriso para mim é impossível, se não, inconcebível. Isso é uma coisa que se espera de alguém como Dante.
- Viva e seja feliz. — ele sussurrou ternamente.
Eu não posso ser feliz sem você!
- Dante! Dante! Dante! — gritava continuamente. Um ultimo pedido. — Não me esqueça, Dante!
- Eu nunca vou te esquecer, tem a minha palavra.
Não é para ser assim!
Não quero que minhas lembrança tenham que ir embora!
A mesma cena do meu sonho — premonição — se desenrolou diante de mim, só que pior, já que era real. A realidade inflamando em minhas veias. Dante sorriu para mim enquanto um poder invisível puxava-me de encontro ao portal. Movida por um desespero devastador, tentei resistir à misteriosa força que puxava para bem longe. Não poderia aceitar que meus sonhos e a vida que ansiava com Dante escapasse de minhas mãos, tudo que suportei seria em vão. Depois de muitos sacrifícios e lamento, não posso desistir. Bravamente, contorci-me para livrar da carga pesada e a luz que me tragava. Dante abriu um sorriso abatido, desabando sua mascara de despreocupação, e nos seus olhos vi a melancolia. Estendi a mão para alcançá-lo, vendo desaparecer lentamente, ele imitou meu gesto. O calor do seu contato foi se desvanecendo até que não sobrou nada. A inconsciência me abrigou como uma mãe acolhe seu amado filho, aceitei seu chamado acreditando que o vazio fosse se apagado — sofrimento era demais para lidar.
Nós vamos nos reencontrar!
Não posso esquecer...
Não posso esquecer!
... Esquecer!
Dante!
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