Next Dimension

58 Palavra dissoluta: Culpa


Notas iniciais
~ Why is the sky always blue Why is the rain always sad ~ Olá povo do meu core :3 Tudo bem? Observações: Acho que nem preciso dizer, não é? xD (Mas vou fazer mesmo assim u-u) Então leitores fantasmas deem o ar de sua graça e deixem o submundo para trás. Venham para a luz xD Não fiquem nos "BUUUUHHH" da vida hauhuahuhauha Só podia ser a autora lesada mesmo xD PS: Eu não mordo, a não ser que peçam u-u

— Fica longe de mim! — vociferei com todo ímpeto tempestuoso que abrigava em meu ser. — Vai embora! Você não é real! Você é um pesadelo!

Por norma, me considerava bastante medrosa, mesmo que minha vivência naquele mundo novo fosse um contraponto dessa óptica. Entretanto, conseguia dosar meus receios e graças a cumplicidade de Dante e sua gigantesca paciência, alcancei um ponto de equilíbrio... Exceto que, fora do bom senso, existia algo na figura que arrancava do meu âmago uma parcela primitiva de medo que nunca tinha provado antes. Todo mundo tem uma fobia irracional que deixa completamente fora de órbita e, durante uma parcela da minha juventude, para mim, a Escuridão me assombrava.

E a versão paralela de Ayden personificava a própria sombra.

Desde que cheguei nessa dimensão atravessei diversas situações arriscadas, encarando a morte muitas vezes — tantas que mal posso contar. Minha vida tem sido uma série de eventos arriscados e segredos obscuros. E cada um desses terríveis momentos, o medo ganhava força avassaladora e inexplicável. Nossa principal fraqueza e incapacitação, o poder que nos impede de fazer o que é necessário. E é claro que comigo não foi diferente. Eu fui ao Inferno, presenciei em primeira mão o sofrimento e todos os sentimentos negativos reunidos. Talvez tudo que passei tenha sido um teste para a verdadeira definição do medo. A realidade do entorpecente e sufocante medo.

Naquele momento, era como se meu corpo tivesse sido tomado por um poder cruel e insuportável. Meu coração se apertou no peito e a garganta se fechava em amargura. O ar que me envolvia estava pesado e rarefeito e eu o puxava com grande esforço, parecia que meus pulmões não suportariam tamanha compressão. Meus pensamentos jorravam em imagens confusas demais para poder assimilar, elas corriam feito animais acuados diante do faminto predador. O resto de razão que se mantinha, apesar do bruto e descomunal temor, e alertava freneticamente para fugir e esconder em algum lugar seguro. Longe suficiente para não me alcançarem.

O aperto gentil de Dante me arrancou do estado de choque e o semblante que esboçava transmitia uma calmaria que não condizia com a situação. Na verdade, me questionei se, de fato, explodi ou fui vítima de algum devaneio bizarro na qual somente eu presenciei.

Encarei desolada a pobre e inocente criança que repousava em meus braços. Estudei os detalhes do rostinho sonolento; a cabeleira negra bagunçada, suas bochechas tingidas com um suave rosa e toda tranquilidade emanava dele. Não podia, de modo algum, permitir que ceifem a vida de Ayden. Se a foi dada a missão de protegê-lo, o faria nem que custasse meu bem-estar. E de modo repentino uma chama se acendeu em mim, percebendo o poder daquela constatação. Embora a força repressora me prendesse ao chão, usei toda minha determinação para levantar.

Um conflito de comandos.

— Dante... Você está sentindo? — ousei perguntar, tomando coragem.

— Sentindo o que? — replicou, arrastando seu olhar para o outro Ayden.

Arregalei os olhos, exasperada.

Eu sou tão real quanto você — a mão pequenina afagou gentilmente minha cabeça. Congelada, mirei o garoto diante de mim contemplando um sorriso carregado de ternura e essa amabilidade evocou uma sensação de estranhamento e horror. Como ele chegou tão perto? Ou eu estava alucinando?

Abri a boca, porém não consegui encontrar minha voz para emitir um som.

O outro Ayden estendeu os braços em expectativa e, operando no automático, me levantei e permaneci na mesma posição enquanto o sentia mais próximo. Os braços se apertaram ao meu redor em um abraço desajeitado, enterrando o rosto em minha barriga como se estivesse me reconhecendo.

Não sabe quanto tempo esperei por isso.

Um estalo me despertou do torpor e percebi que nada, nos segundos que se decorreram, de fato, passou, tudo foi uma mera ilusão. Algo que o outro Ayden criou e que somente eu pude ver.

Ele era o catalisador.

Clamei por Dante, para que ele me protegesse. Nunca, até então, havia sentido um medo tão intenso quanto agora. Nada se comparava com isso. Conforme a presença daquela figura caminhava em minha direção esse sentimento cresceu de uma maneira enlouquecedora demais para suportar e conceber. Para tornar as coisas piores, meu corpo não obedecia aos comandos que meu cérebro enviava. O formigamento percorreu todas as minhas células, paralisando-as. Eu queria arrancar aquela emoção frustrante e perversa, e somente assim minha vontade se renovaria. No entanto, nada que realmente quis, pude fazer. Desse jeito, eu morreria e Ayden também.

A imagem de Ayden aproximou-se, ficando a poucos metros de mim. Trinquei a mandíbula pelo extremo esforço, pude sentir as veias do meu pescoço pulsar. O outro Ayden estendeu a mão num gesto ameaçador, então um círculo vermelho apareceu ao meu redor repelindo Dante e os outros. Várias mãos surgiram, agarrando-me. Desesperada, tentei fugir ou pelo menos me afastar a uma distância segura desse estranho e assustador fenômeno criado por esse ser. Elas pegavam rispidamente meus pés, logo os membros inferiores foram domados. Insatisfeitos, tentaram prender minhas mãos. Se conseguirem, Ayden ficara indefeso. Lutei bravamente com unhas e dentes para me libertar. Dores começaram a queimar minha pele e notei os vergões avermelhados na superfície da minha pele, eram cortes feios e profundos. Pungente e enjoativo cheiro de sangue invadiu minhas narinas e quase fez com que vomitasse. As mãos fincaram suas garras em toda extensão das minhas pernas.

Grunhi em resposta.

Corajosamente apertei Ayden contra meu peito, mantendo-o o mais próximo de mim. Engoli os soluços que irrompiam pela garganta. As lágrimas pinicaram em meus olhos, mas não me permitiria chorar. O medo misturado a dor imensa deixaram minha percepção estranha. Sentia a fúria daquela figura...

— Quem é você? Por que esta atrás do Ayden? — gritei a plenos pulmões, um pouco tonta e fraca.

— Eu? — ele riu, seu olhar ficou nublado em meio ao vermelho sangue de sua íris. O tom era carregado de ódio e escárnio psicodélico. — A pior parte desse ciclo é que você nunca lembra e quando lembra tenta esquecer. — o observei atônita. — De qualquer forma, não preciso de um nome. Estou reclamando o que é meu apenas.

— Não. Não vou deixar você tomá-lo. — vociferei violenta, quase como um rosnar de uma tigresa protegendo as crias. — Antes que você chegue a encostar nele, eu vou te matar.

— Me matar? — um sorriso se projetou, algo que pendia para a insanidade e a raiva aglutinada. — Egoísta como sempre, não é?

O falso Ayden fixou a atenção em Arya e depois em mim novamente.

— Tem coisas que nunca mudarão. — ele balançou a cabeça condescendentemente. — Se nem antes pôde me matar, por que acredita que poderá fazer agora?

— Antes? — questionei confusa. Do que diabos ele está falando?

— Me entregue.

— Venha pegá-lo, se puder. — desafiei. Acumulando energia necessária, liberei-a devastadoramente para aniquilar aqueles empecilhos que me impediam de mover meu corpo. O poder engoliu-as sem deixar rastros. Mesmo toda demonstração inimaginável de força que possuía, o outro Ayden não se abalou muito menos recuou. Ele permaneceu imóvel e inabalável como se nada e nem ninguém no mundo o comovesse. Fiquei o mais afastado que o espaço permitia, preparando-me para o possível confronto. A cópia caminhou em passos tranquilos até mim e atirei Ayden por cima dele, em sequência lancei-me logo atrás e o peguei.

Em meio ao frenesi sequer me deu conta que somente eu e outro garoto estávamos ativos, como se estivéssemos em uma dimensão a parte enquanto os outros estão em uma frequência completamente diferente.

— Não importa o quanto tempo isso dure e quanto tente evitar, o resultado não será mais o mesmo. Passamos tanto tempo separado que, ao menos, tivesse uma recepção calorosa. É bastante decepcionante — ralhou severo e venenoso.

Sem escolha, envolvi Ayden num escudo semelhante a um casulo para protegê-lo. Já com ambas as mãos livres, disparei sem piedade. As balas sumiam muito antes de tocá-lo. E sabia que algo assim não era simples de acontecer, balas feitas de energia maciça são mais poderosas e potentes que as normais. Surpreendentemente era que elas desapareciam, desfaziam-se em pleno trajeto. Aquele indivíduo não podia ser comparado com outros oponentes que enfrentei ao longo do tempo. Tinha que acabar com isso antes que perca totalmente a sanidade. Senti o chão estremecer por um forte golpe e devastadora pressão. Poeira desceu e espalhou-se no ar enquanto pequenos pedaços do teto começaram a desmoronar. Aproveitei a chance e chutei um desses contra a cópia. A pedra o acertou em cheio, mas não foi o que esperava, pois ela o atingiu e quebrou. Nenhum ferimento. Disse a mim mesma para manter a calma. Estava determinada a lutar independente de quem fosse meu oponente, não podia estragar tudo pelo medo e a ansiedade.

— Você deveria experimentar um pouco... — sua respiração roçou em meu rosto quando ele apareceu num flash de frente a mim. O terror me dopou, e deixando-me, literalmente, presa a ele. Sem saída — fim da linha. A incrível velocidade que se moveu se equiparava a fugaz piscar. Não soube se ele usou as mãos quando me atingiu. Um golpe duro e violento na altura do coração, e senti meu corpo jogado para trás. Meu corpo escorregou no chão áspero, rasgando e queimando. Por um momento não conseguia, de modo algum, respirar. As batidas ficaram irregulares e o ar não passava. Concentrei-me, acalmado minha mente para que o desespero excessivo não me atrapalhasse.

Ele ergueu um pingente com uma pedra vermelha que emitia uma vibração ritmada como batimentos cardíacos.

— É quase um prazer perverso ver o medo estampado em seu rosto, faiscando em seus olhos. — contemplou afável, um sorriso angelical desenhado em seu rosto. — Mas não é o meu objetivo. Por mais que eu queira que sofra pelo que fez no passado, não é o momento, não ainda. Continue brincando de ser uma garota normal, mas lembrei... Você não é e nunca será. — completou agarrando rudemente meu rosto, erguendo-me para ficar ajoelhada diante de si.

Pisquei desnorteada, os olhos desse Ayden faiscavam feroz.

— Se tiver alguma centelha de razão, ficará fora do meu caminho. Afinal, você não terá outro Lockhard pra te proteger dessa vez.

Arregalei os olhos, estupefata.

— O quê? Você conheceu o Alexander? Quem é você e como sabe tanta coisa?

O garoto me encarou com desprezo.

— Vamos ter que repetir isso até quando pra ficar satisfeita? Quantas pessoas mais vai deixar que morram em seu nome? Você me fez um vilão, mas você é a pior de todas, Arya. Quem é a sua próxima vítima? O filho de Sparda?

— Eu nunca machucaria o Dante e não permitiria que alguém o faça.

— Ele não precisa. — os olhos rubis dele escureceram em deleite. Entrei em pânico. Um soluço irrompeu pela minha garganta. — Isso é inevitável, é o que você é. É o que você atraí.

Minha mente ficou em branco, abismada.

Entrei em estado de total letargia. Minha mente processou cuidadosamente cada palavra dita por ele, analisando-as. E, de repente, tudo que aconteceu fazia sentido; Ace dizendo que minha existência trazia mortes e calamidades, o fato de Lyana ter inicialmente me odiado. E se Alexander morreu por minha culpa? É por isso que ninguém me contava nada?

Me sentia pior quando pensava no quão bondoso e paciente Alexander tinha sido comigo. Meu mundo confortável quebrou em milhares de fragmentos, arruinados e doloridos. A verdade nunca foi tão desprezível e bárbara. Engoli em seco, tentando fazer o súbito nó na garganta desaparecer por completo. A culpa fez minha cabeça se curvar e os ombros caírem. Uma parte minha ainda estava convicta em não acreditar, negando veemente, contudo conforme juntava as informações elas ficaram claras demais. Não há como rejeitar algo tão óbvio. As lágrimas rolaram pelo meu rosto e aos poucos meus sentidos iam me abandonando. Eu me perdia gradativamente naquele pesar.

— Não. Você deveria ser um pesadelo. — murmurei em um fio de lucidez.

— Eu nunca deixei de ser. — ele ergueu meu rosto para encará-lo e em sua mão livre uma luz vermelha ressoava, eu compreendia que ele estava disposto a por um fim definitivo.

— Eu já estava ficando cansado de esperar.

Um rombo abalou as estruturas do local, derrubando mais poeira e pedras. Em meio a tantas auras presentes, uma se destacava entre todas. Quente como sol, cheia de poder e furor ilimitado.

— Seja lá quem você for, é melhor ficar longe. — proferiu em tom hostil. A raiva que a voz emana é quase palpável. Eu não queria ser inimigo de uma pessoa com esse poder.

— A cavalaria chegou. — caçoou. — Claro.

— Eu não vou repetir. — pude ouvir sons de tiros e não havia mais ninguém me segurando. Meu corpo cedeu e cai pesadamente no chão.

Voltei minha atenção para onde Ayden dormia. Ele estava seguro. Tudo parecia girar ao meu redor. E Ayden sumiu.

Não!

Queria poder me mexer. Levaram Ayden, tinha que fazer algo. Enquanto estava debilmente inerte, vozes me chamavam, até me balançaram para me por de alerta. No entanto, nada funcionou parecia que estava presa dentro de mim mesma. Sei quão absurdo isso soa, mas não deixava de ser a realidade.

— Doçura? — a voz de Dante atravessou dimensões da minha consciência e trouxe-me de volta. As mãos quentes dele seguravam delicadamente meu rosto. O alívio de ver seus olhos azuis gentis e familiares me esquentou. — Diva!

— Dante — murmurei lentamente, rouca e confusa. Minhas mãos tocaram o rosto dele, sentindo o calor e o leve roçar de sua barba. Analisei seus traços, verificando se não era uma imagem projetada pela minha mente. Tentei a todo custo impedir que as lágrimas viessem, mordendo meus lábios, afim de, evitar que saísse algum som indesejado. — Sinto muito... Levaram o Ayden.

Sabia que essa atitude repentina o pegou desprevenido, porém ele não mostrou aborrecimento ou nada semelhante. Dante me abraçou forte. Levou mais tempo que esperava para recuperar-me do susto. Embora ainda carecesse de sentidos, acreditava que se pudesse ao menos me mexer com facilidade isso fosse aliviar. Dante me pressionou contra seu peito para amparar. Meu estado de inércia não permitia que retribuísse o gesto dele. Sentia-me tão desconectada com o resto do mundo. Era como se minha alma tivesse, de algum modo, separado do corpo.

Uma mudança brusca na atmosfera tornou-a fria e concentrada. O teto começou a ceder com ensurdecedores ruídos de desmoronamento e espalhar nuvens de poeira, cobrindo meu campo de visão. Tossi para desobstruir minhas vias respiratórias. Estava um pouco mais ciente do que acontecia e forcei-me a despertar desse deplorável estado de meio termo — semiconsciente. Não podia me dar ao luxo de ficar incapacitada diante disso. Eu tinha coisas muito mais importantes para lidar, como o desaparecimento de Ayden, no qual sem dúvida alguma era obra daquele ser. Dante pegou-me nos braços e junto com Arya e Sparda seguiram para saída. Dava para sentir vagamente a aura de Ayden se afastando.

Pude contemplar a lua meio encoberta na escuridão. O cenário se assemelha a de um filme de terror: escuro, congelante, assustador e muito perigoso. Com um pedido mudo Dante colocou-me cuidadosamente no chão. Somente um longo e esclarecedor suspiro foi necessário para expulsar o incômodo que pairava sobre minha cabeça. Alexander era o único que poderia me explicar tudo, então não há por que ficar paranoica, certo? Escovei meus cabelos rebeldes nervosamente para trás.

— Temos que ir — Arya quebrou o tenso silêncio.

Digeri a atual circunstância pensativa.

Nos breves momentos seguintes, tudo que queria era mostrar que podia ser forte. Para sobreviver tinha que ser durona e encarar o que me aconteceu como um teste de coragem e aptidão. E claro, minha mente não cooperava em nada apesar de fazer que estivesse ao meu alcance para apagar esse terrível incidente, mas voltava a pensar nele. Era uma ferida que exigia minha total atenção. Como posso ser minha própria inimiga? É ridículo ficar remoendo.

Cerrei os punhos.

Chega de perder tempo com lágrimas e lamentações desnecessárias. Eu, acima de qualquer problema pessoal, tenho uma missão. Dante passou por diversas crises e nunca desistiu ou entregou-se ao desespero. Convicta e esperançosa, senti minha força de vontade renascer das cinzas. Então encarei a noite com olhos febris. O vento rodopiou em minha volta, jogando meus cabelos no meu rosto. Havia um calor abrasador em meu coração que ignorava a rajada impetuosa. Raios rugiam no céu ameaçando uma inevitável tempestade. As primeiras gotas caiam suaves e quase imperceptíveis, em seguida iniciou um fluxo mais intenso. Passamos por uma trilha que se estendeu até um enorme pátio, nele a água proveniente da chuva formará um rio raso. Dessa tempestade uma parte minha foi lavada e algo novo surgiu, talvez tenha sido um poder ou objetivo.

Para todos os efeitos a sensação era muito agradável.

— Arya. — guinchou a voz feminina, preocupada e receosa. Subitamente um par de pequenos braços me puxou num abraço desajeitado. — Que bom que voltou sã e salva.

Percebendo que não a retribuía, se afastou olhando-me direta e confusa — não tanto quanto eu.

— Você não é Arya, embora seja assustadoramente parecida com ela. — constatou aturdida. A jovem me lembrou muito a Lady em muitos aspectos: rosto ingênuo, cabelos negros — no caso dela eram longos —, os olhos analíticos e cheios de perplexidade infantil saturados em tons de castanho, trajava um vestido cerimonial branco. Tirando algumas mínimas diferenças é claro, Lady e essa mulher eram parecidas. Como a aura dela não possuía força e consistência conclui que ela seria uma humana.

— Astrid, estou aqui. — Arya informou docentemente abrindo os braços para acolher a jovem. — E meu pai?

— Ele esta te esperando, é algo urgente.

Astrid seguiu na frente indicando onde deveríamos ir. Chegamos a uma longa escadaria que dava direto a um castelo arruinado, mas ainda era belo e luxuoso.

— Pai. — Arya exclamou contente. Não fiquei surpresa nem impressionada em ver o homem rigoroso e intimidador. Gael observou-me com a testa enrugada, e seus olhos repousaram no anel preso ao meu dedo. O mesmo que ele usava. Por um minuto senti-me perigosamente exposta. Joguei contra o temor interno, e mais impetuosa que jamais estive em minha vida o encarei sem pestanejar com o queixo erguido. Em resposta a minha tentativa de parecer inabalável, ele sorriu.

— O que queria dizer, pai?

— Venha — ele guiou Arya para longe e permanecemos desconfortáveis no lugar. Ocasionalmente olhava Dante disfarçadamente para ver como estava, ter certeza da sua situação e como era de se imaginar ele demonstrou, não apenas, o quão indiferente e tranquilo estava, mas também que nada podia afetá-lo. Questionei-me se aquilo não era uma máscara para camuflar o que realmente sentia, pois o conhecendo bem sabia quanto era difícil para ele demonstrar suas emoções mais vulneráveis. Ele prefere guardar aquilo para si e isso o fortalecia de uma forma até absurda.

Arya retornou com a expressão séria, mas nada significativamente importante. Astrid resolver ficar com Gael, considerando que ela não poderia nos ajudar em nossas batalhas.

— Temos que ir a torre, meu pai também se reunirá conosco Sparda. — informou.

×××

Ninguém disse que seria fácil.

— Você está muito calada, doçura.

— Eu? Só não quero atrapalhar falando alguma bobagem, sabe? — inventei a desculpa mais aleatória que me ocorreu. Mal conciliei as coisas e não serviria de muita ajuda compartilhar algo que nem eu mesma compreendia em sua totalidade.

— Nós vamos conseguir achar o garoto, tem a minha palavra.

Parei.

— Eu não sei o que faria sem você, Dante. — ele estendeu a mão e a segurei como se minha vida dependesse disso.

A ansiedade diminuiu de tom, no entanto, sentia a frustração pulsar feito um organismo vivo exigindo atenção. Para piorar o quadro, não tinha a mínima ideia por onde começar a busca. Temia pelo que poderia acontecer com Ayden e esse pensamento repetitivo me torturava. Meu pessimismo, pra variar, era um péssimo companheiro de jornada.

Nossos pés apressados devoravam a distância entre a passarela e a torre do relógio que se erguia a nossa frente. Ainda havia resquícios de energia que sumia lá dentro. A chuva não facilitou, pois além de nos ensopar ainda congelava com as frequentes correntes tempestuosa de ventania. Pensei em Ayden para manter meus pés se movendo um atrás do outro. Existia uma relutância que queria me fazer desistir, mas pensava que se chegasse a fazê-lo me culparia pelo resto da minha vida por ter sido covarde e egoísta.

Egoísta como sempre, não é?” as palavras dele se repetiram em um mantra de mal gosto.

Não. Vai dar tudo certo, menti para mim mesma tentando soar mais convincente possível. Atravessamos a entrada principal rapidamente e incerta, parei. Minhas pernas não queria obedecer meus comandos, recusando-se a mover.

Eu tenho que ir, gritei internamente.

Não queria me encontrar com ele novamente. Meu objetivo se centrava em salvar Ayden, mas... Rever aquele ser quase soava como um gatilho pra descarga de medo. Ele conseguiu despertar os piores e mais primitivos sentimentos em mim. E com pensamento fixo, aqueles intermináveis minutos foram um dos mais difíceis da minha vida. Se pudesse escolher preferia enfrentar o Inferno inteiro, só para não seguir o poder desconhecido e assustador que vibrava no ar quando o Ayden maligno esta presente. A confiança sumira como um frágil castelo de areia ao vento.

— Eu não posso — murmurei insegura, meu coração saltou no peito.

— O que houve, doçura? Você nunca foi de desistir — Dante se aproximou e instintivamente recuei. Ele notou isso e não tentou novamente.

— Estou com medo. Eu não... Sei se sou capaz como vocês.

Arya voou em mim.

A queimação no lado direito do meu rosto foi quase surreal. O local ardeu e a sutil dor me tirou do estado de medo. Assim que conseguia analisar corretamente, toquei a parte dolorida.

— Todos aqui vão sacrificar algo essa noite, talvez ninguém aqui saía vivo. Perdemos amigos, perdemos pessoas que amamos e mesmo assim a guerra não para. — Arya cerrou ou punhos. — Se você se dá ao luxo de fraquejar no meio do caminho, você é só mais um estorvo. Fique aqui chorando por estar com medo... — Arya rosnou agressiva e apertou meus ombros. — Eu também estou com muito medo. Muito medo. Caramba, sinto minhas mãos tremendo e a sensação constante de perigo, mas tem pessoas que dependem de mim e não posso desistir. Não estou lutando por mim, estou lutando pelo que preciso proteger. É essa a verdadeira força.

Sparda sorriu.

— Não vou tentar te convencer se você deve ir ou não. — abri a boca sem emitir um único som. — Você sou eu, não é? Se chegou até aqui, significa que teve que percorreu um longo caminho, mas a luta precisa continuar. Afinal, se o destino reuniu todos aqui, talvez seja para encontrarmos coragem e forças uns nos outros. — a pressão nos meus ombros foi enfraquecido — Vamos todos continuar mesmo com medo.

O olhar severo de Arya se amenizou para um repleto de compaixão.

— Temos um maravilhoso mundo para salvar e poupar vidas inocentes. Esse é nosso dever.

As palavras dela me encorajaram e, subitamente, estava correndo mais veloz que era tolerado. Passamos por alguns corredores estreitos e iluminados unicamente com as tochas de fogo estrategicamente posicionados em respectivos lugares na parede de mármore.

Eu sabia que poderia encontrar e estava preparada.

Porém destino costuma jogar cartas que não me favorecem nem um pouco.

Acho que é carma.

— Não... Pai. — Arya gritou em aflição e assombro ao ver a cena. — Papai!

Arya correu para onde Gael estava caído com um ferimento bastante grave.

— Não, papai — sua voz embargada de tristeza e inquietação. — Pai, por favor, não me deixe.

— A noite está tão linda... — ele divagou. — Fazia tanto tempo que não parava para admirar as estrelas... Costumávamos fazer isso juntos, você se lembra?

Arya assentiu.

— Se tiver a chance, queria fazer um último desejo... — seu olhar vagou de Arya para mim antes de voltar a ela. — Eu fiquei tão preso no meu luto que mal vi você crescendo. — ele tossiu resistindo a exaustão. — Quero que tenha uma longa vida feliz... Seguindo o que você desejar. Não quero que perca sua vida presa... Principalmente... Não desperdice o seu potencial.

— Não diga isso, você ainda precisa me ensinar como cuidar das coisas aqui. Preciso de você, por favor.

— Tem tantas coisas pelas quais me arrependo, Arya. Uma delas foi não cuidar de você, de não estar mais tempo do seu lado. — ele riu sem jeito. — Sparda... Você trouxe luz pra minha filha e não tenho palavras pra agradecer. Se puder... Se houver em seu coração a benevolência de atender um último pedido meu... Cuide de Arya, ela vai precisar de você mais do que tudo.

— Tem a minha palavra — Sparda se ajoelhou respeitosamente.

— Meu pequeno rouxinol — com dificuldade ele retirou o anel e estendeu a ela, suas mãos tremulas. — Pegue, é seu agora.

Ela recusou e lamentou ainda mais.

— Você precisa ser forte, sobretudo, precisa descobrir por si mesma seu propósito.

Uma lágrima solitária rolou pela minha bochecha sendo enxugada por Dante que me encarava com simpatia.

Presenciar a aquela situação também não foi bom para mim, era reviver algo que não devia — um passado enterrado. Repousei a mão sobre o peito e respirei fundo para me recompor depois do assalto de emoções que me engolfou.

Um portal se abriu.

Dante segurou minha mão levando-me para perto do portal. Sparda e Dante se encararam por um longo tempo. E algo que jamais pensei que veria ou ouviria: Dante chamou-o de pai, mas de modo que somente eu o escutasse. Depois nos olhamos, Dante me transmitiu segurança e nos impulsionamos para dentro. Estávamos correndo disso tinha certeza, mas não sabia como era possível. O próximo segundo determinou que chegávamos ao fim da trilha. Senti minha mão vazia e a falta de algo me incomodou. Foi a mesma coisa da primeira vez. A força temporal nos separou novamente. O portal ficou para trás. O céu estava encoberto por densas nuvens que anunciavam o começo de uma tempestade. E estava começando a detestar isso: na minha concepção chuvas eram sinais claros de mau agouro, o tempo frio é uma estação rancorosa.

Nem foi de se admirar que — para variar — caia de céu. Estava tão irritada com tudo isso que nem me importei tanto. O vento percorreu meu corpo e tudo que via em meu entorno eram os rápidos borrões. Algo impediu minha inevitável queda, parando-me no meio do trajeto.

Nossa, que Dejá vu!

— Ora, hoje é mesmo meu dia de sorte. Só espero que dessa vez não ganhe outro tiro por salvar uma donzela de virar uma linda mancha — Essa voz... — e estou aberto a uma negociação de agradecimento.

Foquei minha atenção no meu salvador e vi perplexa, nada mais nada menos que Dante jovem. O Dante de Devil May Cry 3.

Agora entendi por que a situação era familiar.

Notas finais
~ Pequenas informações: Judith (personagem original) é a humana — sacerdotisa — que Sparda sacrificou para selar o mundo demoníaco junto com seu próprio sangue e tudo isso que já estão cansados de saber. Isso mesmo que vocês estão pensando: Lady é tatatatatatatata ~depois de muitos tatara~ descendente dela xD ~ Yeah baby! Finalmente postei o capitulo, e olha que escrever ele foi meio tenso: Imagine um momento tenso, escrevendo algo tenso com pessoas mais tensas ainda. (Ok, isso foi confuso @__@). Na hora que escrevia a parte que o gêmeo malvado ~feel like a Paola Bracho~ revelou a verdade, eu incorporei a Diva. Até fiquei abismada (Para vocês verem como entro mesmo no personagem xD). Imaginei a morte de Alexander e estou um pouco triste por conta disso (Mal de escritor, valha-me Sparda!) e pior é quando para para pensar quando chegar na reta final onde vai ter somente situações tristes... Porra, fiquei sentimental '-' Até a próxima!