Next Dimension

8 Melodia da Morte


Notas iniciais
~Hey povinho do morro o Para que não me matem por demorar já aviso de antemão que os próximos capítulos podem demorar bastante u___u Estou tendo uma coisa meio normal entre escritores hiatus criativo, uma doença gravíssima que faz com que percamos as boas ideias, triste né...eu sei u__u


ESTUDOU PEÇAS DIFERENTES de enciclopédias variadas, embarcou em contos mitológicos de épocas imemoráveis e até mesmo algumas obras de ficção um tanto questionáveis, nenhum tinha informações relevantes ou úteis que lhe fornecesse algo. Apenas uma inesgotável soma de informações pouco relevantes e meramente pouco verossímeis, nada que agregasse a sua leitura. Haviam livros espalhados pela mesa e mais outros sem do acrescentados na pilha conforme se aprofundava na busca infrutífera, mordiscando levemente o lábio inferior a cada investida fracassada. Era impossível que não existisse sequer uma explicação plausível para o ocorrido com a garota e que simplesmente fosse jogada naquele mundo sem uma razão aparente. Se a jovem detinha alguma capacidade sobrehumana, uma evidência, mesmo a mais minimamente circunstancial, deveria ter.

Considerou que, talvez, não procurasse no lugar certo e que restringia seu campo de busca a uma área muito pequena. Obviamente não teria sucesso se ficasse unicamente em um ponto específico. Recolheu e guardou os livros aos seus respectivos lugares nas prateleiras, então ajustou os óculos escuros de marca e subiu em sua moto, mapeando mentalmente seu caminho e por onde desejava recomeçar sua leitura.

Seu celular vibrou insistentemente e se viu obrigada a atender ciente de quem, se não o fizesse, a pessoa do outro lado acabaria se aborrecendo e, por consequência, a aborrecendo também.

— Achou? — indagou a voz feminina.

— Nada. — respondeu com monotonia. — Você conversou com sua amiga?

— Sim. Ela disse que esperava pela minha ligação e até sabia que pediria isso. — não precisava estar fisicamente presente para visualizar Lady dando de ombros. A morena era uma verdadeira, além de mercenária, mediadora. — Ao menos todas as partes estão acordadas. Depois desse favor, a dívida vai aumentar consideravelmente. Espero que Dante esteja ciente de que isso não será de graça.

Trish riu.

— Não conheço o potencial da sua conhecida, mas não sei se ela seria capaz de descobrir o que a menina seja. — olhou para o céu alaranjado. — Não há nada. Nem lendas, nem relatos, dados históricos… Nada que esclareça do que toda situação trata. Chega a ser estranho... Quase como...

— Como se a história tivesse apagada. — Lady concluiu seu raciocínio com astúcia e sobriedade. — É, agora as coisas estão começando a soar interessantes.

Trish recorreu a última cartada de seu plano: a pequena cidade no qual Dante atendeu no último trabalho. Ela teria ido junto com ele, entretanto, marcou com outro cliente e decidiu que cada um por si seria mais monetariamente benéfico que uma missão conjunta. A mulher demônio valorizava a companhia de Dante, ainda assim, gostava de ser independente e ter seus próprios logros. Acelerando a moto para chegar por lá o mais tardar possível, percebeu como a localização era distantes dos pontos mais movimentados, atribuiu isso ao fato de ser quase interior. As horas se arrastavam indolentes a sua corrida, se deslocando por entre os carros e veículos mais pesados na estrada. Sua chegada fora uma verdadeira atração para os moradores que circulavam pela rua, fitando-a incisivamente como se nunca tivessem testemunhado a chegada de forasteiros, sobretudo uma com uma aura feral e sedutora que atraía olhares masculinos. Se ocupou em buscar, através de orientações, uma biblioteca pelas redondezas, recebendo mais olhares.

—Precisa de ajuda, senhorita? — a jovem atendente gaguejou corada.

— Hm? — a mirou pensativa, avaliando os prós e contras de ter auxílio. Talvez fosse mais complicado se situar na busca e alguém que conhecia o acervo seria de grande valia. — Sim. Você tem livros sobre histórias antigas da cidade? Ou algo a respeito da fundação dela?

A jovem fechou os olhos brevemente e sinalizou para que a seguisse.

—Aqui está. — indicou uma área onde estariam livros do período histórico da região. — Não sei se está tudo completo, mas boa parte da história da cidade está nesses livros. Bem, eu vou deixá-la e qualquer dúvida, estarei no balcão, senhorita.

Trish assentiu educadamente.

Revisou livro por livro, identificando no mais gasto um nome: Alexander. Parecia uma espécie de conto de fadas sobre um homem que apresentava as mesmas características de habilidades que Diva — o leque único que ambos compartilhavam.

Bingo.

Havia extras também em outro livro, para sua sorte.

—Isso não é uma coincidência. Mas por que justamente nesse lugar? — resolveu aprofundar mais seu campo de busca. Os detalhes que Dante informou a conduziam a passos torpes. — Eu posso pegar esse livros?

— Oh, claro. — a atendente emitiu a nota para a reserva.

Cogitou ligar para Dante e deixá-lo a par do seu progresso, mas o meio-demônio estava em sua própria busca, embora a troca fosse até útil sabia que Dante ficava incontactável se assim desejasse.

— Essa cidade... Parece ter uma atmosfera diferente. — comentou para incitar a jovem a falar sobre.

— Dizem que esse lugar carrega algum tipo de magia. — sorriu timidamente, ajeitando o cabelo. — Minha família viveu aqui desde a fundação, eles sempre disseram que essa terra é cheia de misticismo e que, se existisse mesmo essas coisas, facilmente teria uma ligação com um plano além desse.

— Você não acredita?

— Não muito, é meio absurdo na verdade. As famílias fundadoras ainda preservam essa ideia. Claro que conforme os anos passam menos adeptos a esse costume os descendentes delas ficam. Alguns dos livros que pegou demonstram parte disso, até hoje acreditam que os Lockhards eram uma espécie de descendentes de santos com habilidades únicas.

Trish franziu o cenho, leu sobre essa singular percepção nos livros, embora eles também tratassem a família Lockhard como ocultistas.

— Agradeço pela ajuda.

— Ah! Não há de que! Volte sempre!

Marchou para as antigas ruínas que representavam vagamente um cenário de guerra que condenou aquela localidade a destruição e ser relegada ao esquecimento, assumindo esse fato como um percursor dos avanços de demônios ali. Não somente isso, havia algo misterioso pairando pelo ar, misturando-se aos escombros. Resquícios de magia... Não parecia demoníaca, no entanto.

Saltou graciosamente para um pilar parcialmente tombado e fitou o desenho que somente se veria em uma determinada altura — em um panorama mais amplo.

— Um ritual. Invocaram algo aqui. — cruzou os braços, meditativa. — Deve ter sido o demônio que atacou a garota. Ou algo ainda pior.

A loira escutou a movimentação sutil.

— Perdida, gracinha? — entoou uma voz sarcasticamente.

Trish se virou e encontrou a figura de aspecto sombrio e cabelos vermelhos, sorrindo com o ar arrogante.

— Talvez. Estava investigando as ruínas para ver se encontrava alguma coisa interessante e quem diria, acabei achando.

— Esse não é lugar para garotas perdidas. — o ruivo arqueou a sobrancelha. — Ainda mais do seu calibre. Claro, claro... Que coincidência, não é? Primeiro o filho de Sparda e depois você aparece. Devo concluir que são amigos ou aliados? — sacou suas lâminas gêmeas. — Não importa, você vai morrer aqui.

— Não tenho planos para morrer hoje. — sorriu jocosamente. — Mas se quer tanto lutar, venha!

O homem disparou com a destreza de um raio que corta o céu, sendo bloqueado por Trish.

— Raios? Você está me atacando com um elemento no qual sou especialista? — como uma amostra, a demônio descarregou uma carga elétrica contra o adversário que não sofreu dano algum.

— Decepcionada? — desdenhou.

— Não, muito pelo contrário, tenho mais interesse com a luta.

Precisava entregar os livros para Lady, pensou. Esse idiota só vai me atrasar.

Lady poderia esperar por enquanto, mas os livros tinham que ser entregues.



ME CONVENCI QUE SERIA mais que capaz de realizar a proeza de conseguir uma combinação perfeita, digna de um SSS, de combos do Nero para a próxima missão decorando todos os botões de execução dos itens que comprei com as orbes vermelhas que juntei arduamente. Como uma fã de longa data da franquia, estava mais que satisfeita em jogar tão bem após horas de fracassadas de gameplay e orbes douradas jogadas fora com minha falsa percepção de que se usasse botões aleatórios, magicamente, teria uma sequência legal de golpes — o que funcionava mais em games bem antigos e geralmente nos de luta como Mortal Kombat e The King of Fighters. Não podia ser um desastre absoluto como jogadora depois de um período tão longo me esforçando na campanha, tudo que precisava para que, finalmente, ficar mais confiante de minhas habilidades é chegar além do SS e continuar nessa média.

Adorava o Dante e seu estilo descolado até nas provocações, entretanto, com o Nero tinha o Devil Bringer que servia bem o propósito de nos alavancar, caso necessário, além de facilitar em puxar o inimigo pra perto para dar uma coça neles. O que me incomodava em termos de narrativa é o essa ideia de ter refazer o percurso todo feito pelo Nero, só que que com o Dante, isso era bem sem sentido pra mim. Apertei para ir logo para prosseguir com a missão para testar minhas novas combinações adquiridas e também ver as cutscenes lindas.

Distraída na jogatina, não percebi a presença até ouvir um pigarreio exagerado. Ajustei o fone o suficiente para prestar atenção em meu entorno e inclinei um pouco para trás para ver quem seria o intruso que invadiu meu quarto, me deparando com Lyana visivelmente aborrecida, batendo o pé e de braços cruzados.

— Jogando de novo? — ela se sentou no chão ao meu lado. — E que jogo é esse?

— Devil May Cry.

— Claro, eu já deveria saber. — Lyana riu, me assistindo jogar. — É um dos seus jogos favoritos.

— O quarto jogo tem seu charme.

— É mesmo? Posso tentar? — ela estendeu a mão e lhe dei o controle como costumamos fazer desde que éramos crianças. Era irônico Lyana não curtir nada de jogos e, ainda assim, ser uma excelente jogadora para os padrões. Ela exterminou os demônios que surgiam e fez alguns combos, que eu não pude reproduzir, com tanta destreza e graça que fiquei genuinamente encantada.

Com um sorriso, Lyana me devolveu o controle, me deixando com o resto do trabalho.

— E o que esteve fazendo todo esse tempo fora jogar? — ela indagou, esticando os braços.

Arregalei os olhos ao me dar conta de que não recordava de nada anterior ao começo do jogo. Tentei ignorar a inquietação que se alojava em meu peito me angustiando.

— Eu não sei... — a encarei aturdida. — Não me lembro... Eu não sei o que fiz...

— Mesmo, Diva?

— É bizarro. — suspirei longamente. — Eu vou tomar um copo de água. — voltei a lhe ceder novamente o controle a Lyana. Sai do quarto e, no mesmo instante, as luzes se apagaram. — Mas que...?

Liguei a lanterna do celular e, para meu horror, um agarre súbito me arrastou para a escadaria e me arremessou contra o corrimão. Tudo aconteceu tão rápido que mal tive tempo de esboçar uma reação concreta e gritar para denunciar o invasor para Lyana. Meu dispositivo voou para uma direção e eu outra, rolando pelo chão e permanecendo ali, chocada e com dores suficientes para me incapacitar — milagrosamente não desmaiei no impacto. O déjà vu me acertou com tanta força que não pude me levantar por alguns segundos. Imóvel pelo terror, escutei sons ritmados de passos, deslocando meu olhar para a origem da cacofonia, vislumbrei a sombra que se aproximava ardilosa e vagarosamente de mim.

Isso já ocorreu antes, pensei em frenesi.

Tentando me estabilizar, girei o corpo e rastejei, tomando impulso pelos sulcos do assoalho, para me mover — e ter a ilusão que poderia me safar se aplicasse mais esforço em minha empreitada. De acordo com minha memória, que não é das melhores, nesse ataque seria um demônio e um cara e eles me levariam a outro mundo, no qual Dante me acolheu... Por que estava repetindo?

Ergui a mão para me proteger e novamente senti algo fluir de mim, de algum ponto específico em meu âmago, direto para minha palma como se uma força incandescente quisesse sair, tão intensa e poderosa que drenou todas as minhas energias.

Um brilho cegante me engoliu.

E... Nada...

Descobri os olhos, confusa.

Guiada pela intuição, simplesmente, caminhei.

Andando sem rumo em uma trilha bastante linear, formada por um grupo de árvores cujos galhos se estendiam em diversas direções como se fosse uma prisão improvisada da natureza, me questionei o propósito da peregrinação e tentando recordar o que aconteceu para chegar até ali. Meu cérebro parecia ter uma falha, onde existia uma lacuna gigantesca que restringia minha busca a poucos minutos após despertar — o resto do conteúdo deletado e me restava poucas informações pela qual teria que me contentar.

Meus pés não doíam apesar de estarem feridos pelas raízes grossas, plantas espinhentas e pequenos relevos de terra que, ocasionalmente, me desequilibravam. Usava unicamente um traje branco que sequer seria categorizado como um vestido, o tecido era leve demais e seu formato bastante simples, nada que sugerisse luxo ou mesmo uma pista para me orientar. Aquela altura, queria terminar o percurso e esperava que no final a recompensa pelo esforço fosse reaver o que perdi. As nuvens acima de minha cabeça se acumularam em uma massa cinza em uma ameaça de tempestade se avizinhando e a rajada gelada, estranhamente uma só, avançou sobre mim impiedosamente.

Um sussurro trazido pela, desta vez, brisa tímida, me paralisou e não pude deixar de virar para trás para descobrir se teria mais alguém além de mim vagando pela região.

Nada. Somente eu.

Prossegui sem perder mais tempo com impressões tolas e infundadas, teorizando acerca do que estaria do outro lado, se teria alguém que me conhecia ou que me aguardava.

De repente, tudo que antes não acessava, jorrou sobre mim com a violência desgarradora de um tsunami, preenchendo o espaço vazio que deveria ser ocupado por lembranças. Girei nos calcanhares para retornar para o ponto de início, consciente de onde e quem ansiava rever, porém, indo contra meu desejo, o chão se desfez como produto de um sonho instável e que desmoronava sob meus pés exaustos e machucados. Meu corpo caia lentamente, feito um delírio no qual o tempo transcorria mais devagar e os pensamentos se potencializavam de tal modo que só temi, muito mais que a colisão possivelmente mortal com o solo, não poder estar mais uma vez com quem amava. Fechei os olhos, me agarrando à imagem de Dante que projetei com fervor como um salva-vidas.

Um aperto cauteloso e forte anteparou minha queda, me suspendendo pelo braço. Atônita e ofegante, olhei para meu salvador, surpresa e contente ao ver Alexander. Em outras circunstâncias, choraria profusamente pelo resgate e por ele estar de volta junto de sua aura acolhedora, entretanto, o turbilhão de emoções me impedia de processar adequadamente o ocorrido.

Sem muita dificuldade, apertando com firmeza meu pulso, Alexander me puxou para cima e tirou-me do que, pela minha visão, parecia um abismo sem fim. Em um impulso, o abracei desajeitadamente, cerrando as pálpebras para evitar que as eventuais lágrimas escorressem livremente.

— Você está bem? — a urgência em seu tom me alertou de que algo estava muito errado.

— Sim, eu acho. Que lugar é esse?

— É difícil definir exatamente, mas é como um purgatório. — disse com tristeza. — Você veio no momento que Ace usou um selo de controle. — apontou minha testa que porejou coincidentemente. — Sua alma foi dispensada temporariamente.

— O quê? — a secura em minha garganta fez minha voz sair rouca e atrasada. — Como assim? Alma? Estou morta?

— Não. — mostrou uma espécie de cordão preso ao meu peito. — Ainda está viva. Só que não domina mais seu corpo.

— Não, não, não. — repeti freneticamente. — Impossível. Não tem como… Isso ser real.

— Fica tranquila. Precisamos dar um jeito de quebrar o selo. — acariciou ternamente meu rosto com um semblante sério e convicto. — Vou te ajudar com isso, tem minha palavra.

×××


ACE NÃO PÔDE DEIXAR de se deleitar com a conveniente vitória — suas mãos enluvadas tocaram a cabeça da garota tão imóvel quanto uma estátua de cera. O vazio esculpia suas feições joviais e delicados exatamente como desejava, queria moldá-la a seu bel prazer, transformá-la no primeiro pilar de seu plano mestre no qual ela cumpriria um papel fundamental. Respirou fundo com uma persistente sensação de vigilância, como se uma sombra se espreitasse por onde a luz não tecesse sua influência, uma doentia impressão de algo pendente que não podia ignorar mesmo que ansiasse por tal... Uma escuridão tão densa que o tragou por um instante.

Estendeu a mão para tocar o pescoço delgado da garota que ainda estava congelada, pateticamente inerte, a mercê de um homem vil. Encostando nela, em um intervalo de segundos, uma descarga elétrica trespassou seu corpo, impedindo-o de prosseguir com sua ação impensada. A julgar pelo seu próprio comportamento dúbio, Ace recuou, evitando um contato direto entre ele e a mulher, independente do estado oco dela.

— Lamento ter que usar métodos mais sórdidos, mas você não me ouvia. Não queria ser uma boa garota e me obedecer. — com seu olhar dirigido a ela, se apiedou momentaneamente de sua condição. — Eu fiz tudo isso para que percebesse que sou a única pessoa que a entende e lhe dará um melhor propósito.

Ace se ajoelhou ante Diva, aquecendo as mãos da jovem entre as suas, sob a vigília devota e leal de Nilin.

— É por isso que pedi para que a buscasse. — levou a mão involuntariamente até o pingente que usava. — Era pra terem te levado até mim... Mas não aconteceu como planejei, você caiu nos braços daquele meio-demônio.

Seus dedos roçaram suavemente no cristal em uma apreciação muda, revivendo lembranças longínquas de sua vida passada.

— Agora ficará tudo bem. Você vai me ajudar, Diva. — depositou um beijo no dorso da mão da garota. — Antes preciso testar a intensidade e frequência do seu poder recém desperto.

Diva se levantou calmamente e se encaminhou para o quarto, ainda com o olhar temeroso da empregada em si.

— Nilin, vou deixar que cuide dela. Posso contar com você?

A mulher assentiu submissa.

A música melancólica ecoava por toda mansão soturnamente silenciosa, tão serena e triste que tocaria o coração do mais terrível e vil criminoso e assassino. Nina saltitou alegremente, apertando seu bichinho de pelúcia nós braços, pelo sinuoso corredor que se interligava ao aposento designado à Diva esperando poder brincar um pouco com a garota. A medida que seus passos largos e alegres prosseguiram, mais alta a canção ficava. Lenta e calmamente abriu a porta, encontrando Diva cantando sentada numa cadeira na varanda. A brisa soprava suavemente propagando o som.

Prostrada de frente a ela, Diva parecia ter saído de algum filme antigo no qual as damas trajavam longos vestidos — de alta costura e diversos modelitos. Tão belos e triunfantes que certamente não seria qualquer um que teria condições financeiras para adquiri-las. Ela tinha pescoço e os ombros nus pálidos em contraste por um leve rubor e o corpete apertado do vestido creme destacando suas curvas. As mangas longas eram recortadas aparecendo a seda branca por baixo, a saia comprida por cima do chemise roçando no chão a seu redor. Diva estava deslumbrante.

Encantada, Nina saltou graciosamente para perto para chamar atenção da mulher e esta continuou cantando sem nenhuma interrupção.

— Bom dia, Diva! — a saudou com euforia. Não houve resposta. — Diva?

A garotinha aproximou-se da jovem, encarando-a.

— Bom dia, Diva! — repetiu, mas nenhuma resposta. — Olá?

Diva olhava fixamente para o horizonte. Seus olhos outrora castanhos chocolate, agora negros e sem brilho — sem vida.

— Diva?

A porta foi aberta, surgindo à figura magra e com um longo vestido, um avental branco enrolado na fina cintura.

— Nina, não perturbe Diva! — repreendeu Nilin, os lábios de Nina tremeram como se fosse capaz de chorar.

— A Diva está estranha... — começou, puxando a barra da vestimenta de sua irmã.

— Deve ser impressão sua. — afirmou Nilin, sorrindo na tentativa de acalmar a menina. — Agora o senhor Ace quer levar Diva, bem, para seu compromisso.

Nina bufou reprimindo o ímpeto de choramingar. Nilin se deslocou para a penteadeira e Diva a acompanhou para se concentrar em alguns retoques em seu visual. A garotinha fitou angustiada seu irmã e depois para uma Diva mecânica e distante.

A jovem, operando no automático, encarou as próprias mãos com a ausência de emoções ou uma explicação lógica de suas ações, simplesmente atuava por um instinto primário. Fechou e abriu os punhos inúmeras vezes para verificar seu estado e quanto o seu corpo seria receptivo.

O selo que lhe fora imposto trabalhava com a intenção de remover a autonomia e o livre arbítrio para que fosse mais eficiente domá-la. Esse processo ocorria, em primeiro momento, arrancando a consciência e, por consequência, a alma para uma área desconhecida, contudo, ainda sob a tutela do membro dominante, e desta forma, inserir uma espécie de entidade para substituir a consciência removida.

O plano principal de Ace Clockwell consistia em utilizá-la para seu benefício e... Para... Algo. Sua determinação vacilou por um instante, como se existisse uma lacuna nisso e que nunca tinha reparado antes. Afugentou tais impressões, assegurando que somente pessoas medíocres se preocupariam com bobagens desse nível. Sem nenhuma sombra deturpando seu campo de visão, esperou presunçosamente pelas duas jovens que desciam a longa escadaria, ponderando sobre o que planejara para ocasião. Hoje seria importante. Ace queria averiguar até onde poderia manipular Diva. E o principal, seria o dia que testaria o poder da jovem — o poder de uma Peregrina pura em ascensão, a energia dela transbordava como uma cachoeira —, se o que suspeitava realmente funcionaria. O primeiro passo seria Riverside e logo depois a isolada ilha de Fortuna onde o nome de Sparda ainda ecoava alto pela devota população mesmo após anos de sua suposta morte.

Anos de uma extensa pesquisa através do que o próprio Alexander desenvolveu, teria agora uma chance para por tudo a prova.

Nilin acompanhou Diva até Ace. Pedindo licença, a criada partiu, mas não sem antes olhar ambos por cima dos ombros. Algo estava errado, Nina tinha razão quando acentuou aquilo.

Diva não parecia a Diva.

— Esse é o momento para que me ajude, Diva. Sei que posso contar com você. — murmurou, ciente que a pessoa ali inserida não era ela.

Riverside é uma pequena cidade independente, localizada nas proximidades de Falls Glenn e tem grande integração de ambas as cidades. É conhecida por ter um clima bastante diverso e ao mesmo tempo ameno, sem extremos no quesito temperatura o que proporcionava certa segurança para que morava pelas redondezas. Diziam que a cidade era envolvida por uma estranha magia, outros afirmavam que ela era uma cidade que abrigava um clã de bruxos. Tudo não passava de lenda, apenas fantasiosas fábulas que faziam os visitantes se impressionarem. Passavam das quatro horas, quando chegaram ao Riverside Gran Theater.

O Riverside Gran Theater era o ponto de encontro daqueles que queriam relaxar e apreciar um bom espetáculo; e para quem tem muito dinheiro para usufruir de tais regalias. Era muito conhecido por ter uma bela e magnânima arquitetura: uma pequena escadaria, a entrada de piso cerâmico e a grande portão de madeira fina, as paredes de mármore branco com detalhe simples e suaves, janelas altas e de vidro escuro. O carro parou de frente a entrada majestosa do local. Ace estendeu a mão para Diva, que a pegou imediatamente.

— Vamos, minha querida. Seu público a espera.

A casa estava cheia. O público ansioso pelo espetáculo principal. Um show de abertura estava no ato final. Quando os aplausos foram ouvidos, todo o palco escureceu. Passos no assoalho de madeira era um dos poucos sons audíveis, as respirações e os comentários sem grande importância também eram ouvidos. A luz acendeu revelando uma figura feminina. Seu rosto encoberto por um véu escuro. A música soou calma e suave, então a figura cantou.

"Que bela voz" disse uma das pessoas presentes.

"Parece um anjo" outra afirmou.

"Divina"

Numa nota mais grave, uma serie de eventos estranhos ocorreram. Gritos estridentes e sons de algo partindo se sobressaíram em meio a musica. A plateia entrou em pânico. E quase como inesperadamente, demônios estavam por toda parte. As pessoas começaram a fugir.

Diva ergueu os braços.

A destruição e o massacre não se limitaram ao teatro, englobando totalmente a cidade.

Naquela noite, Riverside City conheceu seu fim em meio a uma sombria canção.

Como se escapasse de um pesadelo — uma estranha sensação de perseguição que se seguiu no me encalço, nas minhas costas, quase me alcançando e, abruptamente, ser tirada a tempo dessa overdose de emoções conflitante. Pisquei para limpar meu campo de visão e, instintivamente, ergui minhas mãos trêmulas, vendo-as manchadas com sangue enquanto tudo que meus olhos captavam era um mar de caos e horror. Com um grito asfixiado na garganta, berrei com todas as forças.

Notas finais
Confesso que depois de escrever esse capitulo lembrei de Parasite Eve G__G E como deu pra perceber, não me dou muito bem com narração em terceira pessoa Ç__Ç Mas não me matem, pensem que pelo menos me esforcei o Agora algumas questões foram respondidas, ou quase xD E pra adiantar um personagem que muitos - sei-la se gostam ou não - poderá aparecer. Um velho conhecido. Até a próxima!