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72 Entre o bem e o mal

EM UMA FOLHA AVULSA, esmiucei a planta da mansão baseado no pouco que meu cérebro gravou — minha experiência nula em cartografia não me contemplava com o primor de produzir uma réplica exata com detalhes perfeitamente desenhados. Diria que meu mapa não abrangia nem metade do local tampouco por onde os corredores, passagens ocultas e salas terminavam. Minha bússola deficiente me restringia a poucas rotas prováveis e precisava ter uma ideia mais concreta sobre a localização do Santo Graal e reivindicá-lo.
Ace não explanaria onde a espada estava e nenhum dos seus aliados forneceria qualquer informação, sobretudo, por eu ser uma prisioneira. Talvez, portando-a, teria alguma chance para uma batalha mais balanceada ou me render ao desespero irracional e usar uma das magias sacras que residem no interior dela para acabar com tudo. Esfreguei os olhos um pouco irritada com a falta de energia constante que me obrigava a passar horas em estado de sono profundo. Não fazia muitas atividades que pudesse drenar minha fonte de energia em poucas horas, na verdade, ser uma ilustre convidada a contragosto não me dava muitas opções de entretenimento.
Uma hipótese bastante provável seria alguma doença, como gripe ou uma anemia. Com um metabolismo em frangalhos, sem muitos recursos acessíveis, eu era basicamente um ratinho enjaulado.
Inspirei profundamente, puxando o ar cortante e gélido direto para os pulmões. Enquanto ponderava, alimentando uma paranoia ininterrupta, revivi a última conversa com Dante imaginando o que ele diria ao me ver naquele estado deplorável — além de ficar muito bravo com Ace.
Por anos achava que o amor se definia delimitadamente pelo conceito fugaz de paixão, no qual você devota o que sente por outro e tem uma parceria. Quando se é uma novidade, você quer enfeitar o mundo e viver uma fantasia utópica com o objeto do seu afeto. Obviamente uma perspectiva errônea e ingênua, a única fórmula real de que o sentimento não é somente uma amostra de dopamina liberada em episodio pontuais com data validade é a certeza de que, independente das ações e consequências, as coisas funcionam em harmonia até mesmo no caos.
— Tenho que pegar de volta o Santo Graal, mesmo que... — levantei e fui para a varanda. Fechei os olhos com uma excruciante sensação, rasgando a as fibras, de que a terrível e insondável penumbra preenchia o mundo com seu manto opressor como se tudo estivesse gradualmente sendo tragado para um mundo de pesadelos. Me afogava nas trevas e me agarrei a sanidade que do elo que, um dia, me ligou a Dante, tomando fôlego.
Não há o que temer, sou mais forte que a escuridão que ameaçava engolir tudo, não é?
Abri os olhos, morando a paisagem.
Essa deve ser a vista que Alexander teve durante anos. Dividindo seu tempo em registrar incansavelmente a história e criando os filhos com aquele vazio de ser o único capaz de carregar um legado tão pesado.
Ergui a cabeça para usufruir da imensidão azul que revestia o céu em todo seu resplendor, uma beleza inigualável e pureza sublime. A mesma cor que usava para comparar aos olhos de Dante: as duas pequenas gemas que possuíam uma tristeza discreta e o poder inexplicável de hipnotizar, de transmitir paz independente de quão terrível seja a situação na qual enfrenta. Ele nunca deve ter se dado conta que sua essência solitária e generosa fazia com que as pessoas confiassem nele sem pestanejar, depositando a fé nele.
Dante não precisava ser um herói no molde clássico, um mocinho perfeito e cheio de virtudes. Ele era imperfeito, atolado em dívidas por se preocupar em manter as pessoas próximas que se prejudicaram por ele, tem hábitos alimentares pouco saudáveis e conseguia se sujar com sundae igual uma criança feliz, se isolava por se culpar demais e prezava pelos laços que tinha ainda que em uma distância segura... E era o homem mais altruísta de todos.
Ao reabrir velhas lembranças, a dor há muito trancafiada, controlada e escondida reviveu em um acesso tempestuoso, causando um incômodo ansioso. Apesar expulsar as memórias com todas minhas forças para longe, no limbo e na escuridão do total esquecimento, elas insistiam em voltar para me atormentar e condenar pelo meu erro. Seria esse meu castigo e terei que arcar por todas as consequências pelos meus atos e minhas escolhas. E certamente admirar o céu por horas a fio não era um plano razoável para ficar longe de relembrar coisas, daquilo que deve permanecer enterrado. Contudo, pelo simples fato de sentir uma mera proximidade de Dante só por fazer um gesto comum e através de pequenos momentos compartilhados, deixava-me contente para suportar qualquer provação durante o dia.
O ar gelado acariciou delicadamente minha pele e instintivamente encolhi-me devido ao frio, meus braços se arrepiaram e meu corpo tremeu. A temperatura baixou um pouco, embora claramente o sol emanasse seu típico e ardente brilho amarelado. O cenário que se estendia diante de mim, sem dúvida, era de tirar o fôlego em outras circunstâncias dos quais não estivesse cheia de buracos e severamente ferida por dentro, onde nenhum remédio ou poder pudesse curar, teria dedicado atenção adequadamente.
Flores exalavam um aroma doce que se espalhava pelo ambiente ao meu redor, o vento balançava a copa das árvores e jogando folhas pendentes por diferentes direções enquanto rodopiavam elegantemente através da corrente de ar, pequenas nuvens semelhantes a algodões macios formavam-se no céu. Muito bonito para se apreciar com riquezas de detalhes, mas não o suficiente para prender a minha atenção por um longo tempo. Ter a oportunidade de ver algo assim apesar das circunstâncias adversas, foi revigorante a ponto de renovar minha coragem. O insuperável desejo de cumprir minha promessa de proteger a todos e acabar com as ambições de Ace de uma vez, segurando firmemente a vontade de Dante.
A tristeza e as lamentações terminaram e lutaria usando o que aprendi depois de meses de preparação, mostrar a minha verdadeira cara. A brisa vigorosa passou por mim chacoalhando o longo vestido branco que trajava e meus cabelos revoltos mexiam de acordo com o poder do vento que parecia girar ao meu redor. A varanda tornou-se um lugar no qual tinha liberdade para pensar mais coordenadamente, e ótimo também para ganhar mais paz de espírito. Com um suspiro de determinação, entrei no cômodo sombrio reafirmando o que realmente queria e como faria para dar um resultado. A partir de agora irei ser meticulosa em cada movimento e ação, isso será suficiente para pôr um ponto final nesse assunto que tomara proporções inimagináveis e teria que ser parado imediatamente. Tanto por mim, Dante e aqueles que precisam — pela humanidade. Estava tão convicta da minha decisão que era como uma nova força se apoderando de mim, adicionando consideravelmente uma parcela de audácia e queimando a hesitação. Não precisei mais temer absolutamente nada. Farei minhas falhas tornarem-se a principal fonte de meu poder. Quero trazer a queda de Ace.
Em um movimento brusco, minhas pernas cederam à súbita fraqueza enquanto o mundo rodava vertiginosamente. Fiz o possível para manter-me firme, e com a mesma pressão com que resistia contra esse mal estar, mais me tragava em dobro para o chão frio totalmente frágil. E aconteceu rápido demais: as primeiras ondas de enjoo emergiram, meu estômago revirava-se dolorosamente e meus sentidos estavam atordoados. Minhas percepções encontravam-se debilitadas e mal podia identificar com exatidão o que houve nos segundos seguintes, ainda presa nas borbulhantes náuseas e tontura. Só voltei a ter consciência do ocorrido quando uma mão quente tocou meu ombro, despertando-me do profundo estado de inércia. Nilin encarava-me com que supus ser preocupação e Nina — para meu assombro — receio, ambas mostraram estar tensas. Julgando pela postura rígida de Nilin e a máscara que ela colocou sobre si, havia uma razão muito obscura e ela não estava disposta a revelar. Não sei o porquê, todavia pressentia que Ace tinha relação com isso. Nilin fez um sinal para Nina, esta se retirou do quarto, porém não saiu sem antes de me dar um beijo estalado na bochecha e um gentil "Melhoras, Diva". Respirei fundo, absorvendo a fragrância suave que permeava o ar. Os olhos de Nilin analisaram-me, procurando um indício de algo que não soube afirmar com clareza o que seria.
— Sei que não é da minha conta questioná-la sobre algo tão sério... — começou enrubescida, sua voz diminuindo um quarto à medida que a encarava confusamente, então depois de engolir em seco algumas vezes, ela prosseguiu: — mas tenho reparado que você está mais cansada, enferma e sonolenta... — pausou e espirou o nosso entorno pra se certificar que estávamos sozinhas. — Tem alguma hipótese de você estar... Grávida?
Congelei.
Não vou ser tola de deduzir que seria impossível de acontecer se for dissecar minha vida sexual e o fato pertinente de que, desde a minha primeira vez, nunca usamos preservativo — o que dentro da lógica se enquadrava como uma irresponsabilidade. Nós éramos um casal com quase um ano de vivência e uma história de cumplicidade e tudo que se propõe num namoro sério, definitivamente a maternidade não estava nos meus planos atuais.
— Acho que... — contei nos dedos as possíveis datas de concepção e nada ficou certo pra afirmar se a teoria seria realmente ou não.
Tinha certeza que estava com a expressão extremamente mortificada, tanto que fiquei imóvel feito uma estátua de gesso. A princípio eu até cogitei a possibilidade, mas nunca deixaram de ser somente preocupações e fantasias. Nada que atingiria proporções gigantescas dessa forma. Vendo por um ângulo diferente, tudo desmoronava frente a mim pelo óbvio. Embora quisesse dizer uma única palavra para negar, minhas ações lentas denunciaram as evidências. Com tantos problemas em mente nem sequer pensei apropriadamente sobre o assunto. A ficha fora caindo gradativamente e meu cérebro retornava ao normal, eu havia me esquecido de situações e fatos. Várias imagens desconexas passaram pela minha cabeça como filmes de câmeras antigas, incontáveis filas de momentos.
— Eu não sei...
Imaginei o quanto uma criança mudaria não só minha vida como também toda a maré de azar, meu ponto de vista, escolhas e destino proposto. Se existia a chance de estar grávida, estava no pior cenário pra gerar uma criança e Ace notaria a minha barriga crescer, isso se ele me permitir viver tempo suficiente. Não há como deixar algo dessa magnitude em sigilo. Intuitivamente pousei minha mão sobre meu estômago plano sem sinal de alterações ou qualquer perceptível diferença em relação aos dias anteriores.
Prolongados minutos se seguiram antes que conseguisse coragem para pronunciar uma frase coerente para que, finalmente, respondesse Nilin com mais propriedade:
— Não. Certamente não. — forcei um sorriso, este fora bastante doloroso, sentia que estava prestes a mentir para mim mesma. Não por uma suposta gravidez, e sim pela falsidade que estampava minhas feições. — Quem tipo de futuro desastroso daria a esse bebê?
A circunstância não ficou agradável para nenhuma das duas, seria desnecessário e desconfortável manter a linha de assunto já que ambas estavam com ânimos exaltados. Nossos olhares se encontraram, muito para ser dito e tanta dor escondida de ambos os lados. Nilin olhou tristemente para o chão, seus olhos se comprimiram em visível angústia. Ela sofria e esse terrível fardo não a deixaria, e na obrigação e dever de retribuir os gestos gentis e cheios de companheirismo, decidi ajudá-la.
— Tem alguma coisa te incomodando? Se quiser, pode desabafar comigo. — sugestionei invertendo os papéis, sendo eu a pessoa que aconselharia em vez de o contrário. Ela apertou o tecido do vestido de uma forma que cheguei a pensar que fosse rasgar devido à força das unhas que se fincaram ali.
— Você tem coisas maiores pra pensar. E não se preocupe, eu vou ficar bem. — seu sorriso fora mais falso que o meu.
— Não que eu seja acostumada a supostas desconfianças sobre gravidezes, porém... — argumentei, esperando uma resposta positiva. Ela deu de ombros, voltando à postura rígida e sofisticada de uma dama da realeza. Se ela preferia o silêncio, não seria eu a insistir. — Bem... — chamei recebendo um olhar atento e instigante. — Por acaso você já viu... Não, esquece...
Nilin não deve estar ciente dos eventos recentes e não fazia sentido questioná-la, principalmente sobre o Santo Graal que desconfio que possa estar em algum lugar escondido por aqui. Se conseguir recuperá-lo, poderei facilmente cuidar das constantes dores de cabeça em minha vida. Para todos os efeitos, tinha como objetivo concreto de achar a arma a utilizá-la para bens imprescindíveis. Nilin aguardou pacientemente que me arrumasse, queria dar a ilusão de estar de acordo com aquele teatro. Escovei vagarosamente meus cabelos, criando uma distração para meus pensamentos conflituosos e assim estabelecer as metas a serem seguidas, eu teria que ser persuasiva e insensível para jogar com Ace. Ele é o tipo de pessoa que tem o poder de manipular a todos, significando que tentaria de todas as formas possíveis me influenciar — o que está bem longe de acontecer, estou me auto declarando imune a esse poder.
Preparada psicologicamente, acompanhei Nilin por intermináveis corredores desertos e irritantemente silenciosos a um nível que poderia ouvir o som do sangue correndo em minhas veias ou mesmo o bater de asas de uma borboleta.
— Como é um prazer imensurável revê-la — a voz cheia de floreios cantarolou. Se antes Nilin já apresentação sinais claros de tensão com a nova presença, foi como se um interruptor tivesse ligado e substituído por um medo irracional. — Ah, Nilin, querida, pode deixar que eu cuido dela daqui pra frente.
Amon emergiu das sombras com um sorriso que denominaria como “encantador” e Nilin desviou o olhar em um ato de coragem a meias.
— Eu tenho que acompanhar a Diva — explicou com a voz tremida. — É um pedido...
— Não seja tão rígida, posso muito bem cumprir esse papel.
Nilin cerrou ou punhos em desvantagem.
— Se assegure que nada aconteça a ela.
Amon riu observando Nilin partir.
— Ela é muito sisuda, não acha? — ele perguntou pra mim. —Eu sou o maior interessado em zelar por você, não preciso de instruções óbvias.
— E o que você quer? — franzi o cenho.
— Conversar. Você quase nunca me dá o prazer da sua digníssima presença.
— Não sou adepta a etiqueta social que me obrigue a conviver com gente que não gosto.
Essa figura enigmática que ficava rondando a mansão não parecia alguém com um caráter que se afetava com qualquer indecoro, ele permanecia em uma névoa de indolência difícil de penetrar. Nem mesmo minha cara hostilidade o abalou, na verdade, ele achava graça das minhas palavras cortantes.
— Está certa. — pontuou.
— O que você é? Você trabalha com Ace, não?
— Trabalhar? Essa é uma palavra muito forte, talvez corrigindo seria “associado”. — disse como se estivesse se apresentando pela primeira vez. — Ace é um garoto bastante emocional, não concorda?
— Não sei, me diga você, parece que o conhece muito bem.
— Eu? Eu sou um mero expectador, senhorita. Além disso, eu só sirvo a um mestre e ele não é Ace. — Amon ajeitou uma mecha do meu cabelo, acariciando minha bochecha no processo. — A parceria, no entanto, me proporcionou a oportunidade de assistir seus avanços. Sempre tive curiosidade em ver seu florescer, de quando atingisse seu ápice. Esperava até mesmo que despertasse os Caminhos antes desse dia chegar. — ele segurou minha cabeça com delicadeza, me imobilizando no lugar. — Esse Alexander atrasou tudo, sua interferência foi um grande pecado a ordem natural das coisas...
Saindo do torpor, o afastei de mim com raiva. Não permitiria que ele manchasse a reputação de Alexander.
— Você não tem direito nenhum de falar dele, alguém como você não é digno nem de citá-lo.
— É mesmo? Que gracinha. — provocou, rindo.
Apertei o passo. Cheguei a uma porta dupla de madeira polida adornada por peças de ouro, desenhos minúsculos e suaves se estendiam desde onde começara a abertura da porta ao final. O ruído que fizera ao abrir ecoou, quebrou o silêncio e despertando indesejáveis atenções para minha entrada um tanto quanto triunfante demais para meu gosto. Curiosamente, meus olhos vagaram impressionados pelo extenso cômodo: janelas altas no qual a luminosidade envolvia estrategicamente cada ponto, dois andares de prateleiras com livros de diversos temas e conteúdos organizados minuciosamente, e elas eram tantas que mal se podia se ver a cor das paredes, havia uma mesa de chá devidamente preparada no centro da biblioteca.
Ace conversava com um homem desconhecido e quando me viu, pediu para o tal estranho ir e acrescentou algo como "conversamos outra hora". Olhei de soslaio o homem sair, ele passou perto de mim e sua aura agressiva — ativando meus sentidos de precaução — que conscientemente não pude ignorar, identifiquei-o imediatamente sendo um demônio. Entretanto, não seria correto classificá-lo no patamar dos demônios que já enfrentei: ele estava acima de qualquer outro, o poder demoníaco que insurgiu dele supera os mais sinistros escalões existentes. Sem dúvida, ele é um inimigo formidável. Dante ficaria ansioso por uma batalha com alguém desse nível, que valesse a pena lutar de verdade. Ele nem notou minha presença ou fingiu não ver, somente seguiu seu caminho.
Sinceramente preferia não ficar sozinha com Ace, me sentia péssima e desgostosa na companhia dele, embora quisesse passar uma imagem mais conformada. Essa atuação exigia muito de mim, fazendo com que me sinta exausta física e psicologicamente a cada tentativa. Para mim era uma espécie de prova de fogo, não poderia cometer erros e tenho que ser o mais discreta possível. Testarei minha sanidade e o sangue-frio que confiava possuir: serei uma peça de extrema cautela nesse jogo, e que dará um passo definitivo no tabuleiro a fim de inverter os papéis.
Ace aproximou-se presunçosamente de mim, e puxou uma cadeira frente a seu próprio assento para que pudesse me sentar, chegou a me oferecer o chá quente e de forte aroma de canela. O jeito que ele me tratou dava a entender que eu era como uma peça rara de uma coleção de porcelana, dessa maneira teria que cuidar para que não quebrasse. Não compreendo exatamente aonde ele quer chegar com essa encenação de convivência pacífica, mas uma voz em minha mente me alertava — uma ideia meio insana — que Ace se interessa por mim. Por mais que buscasse outras razões, somente essa fazia sentido e se encaixava perfeitamente com evidências sobre as atuais investidas dele. Assim que Ace retornou a sua postura indiferente que fora interrompida pela minha chegada, pude ver que havia uma sombra nos olhos claros dele, assim como uma raiva contida. Aqueles olhos cruéis chamuscavam impetuosos mantendo escondido uma fera que está prestes a se revelar, a agressividade emanando pungente na aura dele. A sua postura aos poucos adquiriu rigidez e ao mesmo tempo, transparecia uma calmaria enfadonha. Nada nele era claro ou previsível, seu comportamento me intrigava e me irritava — só por não conseguir lê-lo facilmente. Ace bebericou rapidamente o chá sem olhar para mim e eu ainda o estudava, seja a sutileza das suas atitudes ou suas expressões. Os cabelos curtos negros emolduravam seu rosto, algumas mechas caiam livres e isso não o incomodava. Ace ergueu a cabeça e me flagrou o encarando fixamente, desviei o olhar constrangida.
— Tem algo em meu rosto que não lhe agrada? — indagou sem rodeios. Fiz um gesto negativo, não queria que ele levasse a minha inspeção para algum campo que não fosse unicamente curiosidade.
— Por que me chamou aqui? — perguntei nervosa, pensei que minha voz fosse vacilar. — O nosso último “contato” não foi desastroso suficiente?
— Foi apenas um pequeno contratempo, nada grave. — esclareceu, sua voz soando aveludada e cheia de compreensão. Um sorriso confiante iluminou seu rosto, sabia que por trás desse sorriso ele queria me persuadir. Através do semblante carregado de estranha benevolência e empatia se esgueira a maldade que espera uma brecha para entrar, afogando percepções e embriagando seu bom senso até que esteja sob seu controle e que não passe de um mero fantoche.
— Acredite ou não, aprecio sua presença, irmãzinha.
De novo isso.
— Que bom que ao menos um dos envolvidos se sente bem com a companhia do outro — ralhei, audivelmente sarcástica. Minha resposta não o abateu tampouco o enfureceu, causou um sorriso involuntário nele. Daqueles que são puramente provocativos.
— Colocando em pauta o que lhe disse: não há por que manter essa atitude defensiva, Diva. Se quisesse fazer algo contra você, naturalmente, já teria feito.
Estreitei os olhos, incerta.
— Isso é mais um circo e não tenho interesse em participar. — salientei enérgica.
— Você é mais teimosa do que imaginei. De qualquer forma, você não tem escolha. — anunciou fazendo seu trajeto para porta.
Permaneci imóvel e encarando a xícara de chá, o conteúdo oscilava devido à movimentação dos meus braços inquietos próximo a ele. Aqueles minutos refletindo foram cruciais para pôr em ordem minha mente, precisava de que uma pessoa em sã considera plano de emergência. O primeiro passo era o Santo Graal, achá-lo e depois pensaria no plano B. Pelas minhas conclusões garantiria que a arma sagrada estaria muito bem guardada em algum lugar dessa enorme prisão. Nesse período que Ace estiver inativo posso ter a vantagem e iniciar a busca. E bem como o Santo Graal tem minha energia vinculada nela, rastreá-la não seria uma grande dificuldade mesmo com meus poderes restringidos.
Fechei os olhos, apesar de me esforçar ao máximo eram tantas auras que quebravam momentaneamente minha concentração, porém não desisti e fui mais a fundo numa corrida acirrada contra o tempo. Eliminando do meu campo sensorial cada aura desnecessária, projetei naquela que mais se assemelhava a minha: a pulsante luz dourada, quente e radiante como o sol. Com o mapa que desenhei memorizado, pude encontrar as direções e caminho a percorrer até chegar finalmente ao alvo. Tinha que ser cuidadosa, já que terei encontros desagradáveis durante o percurso e graças a pulseira que drenava minha energia, não há outro remédio e se for o caso só usarei ataques diretos. De qualquer maneira, pretendia passar totalmente incógnita e sem causar complicações. Estava com o planejamento limitado e um erro seria prejudicial para colocar tudo abaixo.
O longo vestido era incomodo na hora de locomover-me com velocidade, e, infelizmente, no meu guarda-roupa essa é a única peça que existia. Podia parecer àquelas jovens mulheres de filmes como "Orgulho e Preconceito" — um dos meus favoritos. Por esse motivo sempre andava segurando as barras do vestido o mais alto que podia ser permitido — sem mostrar o que não deve. Sem deixar transparecer minhas reais intenções, rumei para o jardim. Além da espessa vegetação presente havia uma ruína, lembra vagamente um mausoléu antigo e a porta de mármore desgastado mostrava-se imponente e fortificada que nem mesmo o longo tempo pudesse removê-la ou sequer causar-lhe um dano. Um trinco pesado selava protetoramente o interior de algum invasor, toquei-o verificando sua durabilidade. O susto de vê-lo abrir com apenas um leve contato foi tanto que demorou poucos segundos para recuperar e recomeçar a procura, abaixo de meus pés uma escadaria escura se estendia e a luz solar não ia muito longe. A maior parte da escadaria descerei nas sombras sem nenhum tipo de luminosidade.
É uma oportunidade de superar o medo de escuro.
Meus pés moveram-se, a princípio, dando passos relutantes, mas ganharam firmeza na metade do caminho. A escuridão se e fez presente encobrindo as minúsculas frestas de luz que desapareciam por completo já no corredor frio e úmido. Ouvi sons de repetidas gotas caindo sobre o chão de pedras, o cheiro de mofo permeava o ambiente assim como a sensação de estar debaixo de água.
Inspirada por alguma razão que escapava da lógica, comecei a cantar a Canção do Herói como uma forma de conservar um pouco de coragem. A música fluiu tão facilmente e depois de escutá-la tantas vezes, consegui gravá-la, principalmente o refrão. Nilin mencionou, em certas ocasião, que tal cântico chamaria o herói para salvar o dia.
Não acreditava muito nisso, no entanto, gostava da confiança que cantar me transmitia.
As chamas se acenderam automaticamente conforme progredia pelo corredor, poderia jurar que existia um tipo de interruptor que liga cada lamparina e que era ativada pelos meus movimentos. Notei também que desde que entrei nessa catacumba, senti que estava sendo seguida e que eles persistentemente ficariam no meu encalço até me livrar deles. No entanto, não tinha condições para um combate: o espaço no corredor era mínimo, mesmo com a iluminação insuficiente ainda havia resquícios de escuridão — que possam camuflar-se — e sem meus poderes sou alvo fácil.
Apertei o passo ignorando as presenças que surgiam, forcei minhas pernas a correr mais rápido que poderia e sem pausas para descanso. Por sorte não houve obstáculos durante o tempo que adentrava o ponto central daquele inóspito lugar, isso era mais uma razão contundente para ficar alerta. Guiada por uma luz intensa e inesperada, cheguei ao meu objetivo. O salão grandioso com uma majestosa abertura — uma janela talvez — com desenhos de engrenagens continuamente girando, inúmeras estátuas de aspecto angelical outras mais sombrias. O Santo Graal estava preso e selado: uma redoma de energia protegia-o enquanto anéis circundavam-no continuamente. A arma que pertenceu a minha encarnação passada e que agora terei o prazer de usar, sentia-me honrada.
Quando cheguei perto o suficiente da espada para tirá-la, os seres que me seguiam saíram das sombras e cercaram minha passagem. Ironicamente e avaliando minha situação — que não é das mais favoráveis —, não deveriam ter tido todo trabalho de colocar um número tão grande de criaturas me seguindo sendo que nem posso usar meus poderes contando unicamente com a força física, eles devem me ver como uma verdadeira ameaça mesmo sem estar nas melhores condições.
A constatação fez minha confiança acender, esbocei um sorriso convencido. Os inimigos que pude ver eram aproximadamente trinta, eles conseguiram realmente me fechar a ponto de não haver saída — nenhuma brecha. Não é a primeira vez que algo assim acontece, porém como estou em terreno hostil tenho que ter o dobro de prudência nos ataque para não ser pega.
Desferi um soco certeiro num que saltou em minha direção, este voou longe acertando outros que estavam em seu caminho. Isso foi um sinal para começar a luta. Lidar com várias criaturas ao mesmo tempo supõe não ser a tarefa mais divertida e simples da minha vida — pelo menos ajuda a aliviar o estresse. Eu conseguia o feito de desviar e atacar sem sofrer nenhum dano, tudo usando a capacidade física. Depois de uma determinada quantidade já me sentia esgotada, mas persisti me defendendo até ouvir um som que cortou bruscamente o silêncio monótono. O ruído ficou mais claro e alto para que pudesse identificar sendo uma pessoa batendo palmas.
— Eu já estava prevendo que fosse atrás da espada, demorou um pouco do que estava inferindo. — Ace exclamou desafiador, seus olhos estavam escuros como a noite e as bordas vermelhas parecida com um eclipse solar. — E agora? Vai pegar a espada? Pegue-a, Diva.
Recuperando-me da surpresa, coloquei-me de pé e preparei para um ataque caso julgasse necessário.
— Meu erro foi ter cogitado que fosse ver a razão. — seu tom fora cortante e ríspido.
Por mais estranho e absurdo que fosse, senti minhas forças se renovando. A energia que vibrou veio diretamente do meu braço esquerdo, gerou uma espantosa intensidade que rasgou a manga do vestido.
A pulseira não tinha mais como reter minha energia.
— Vou te mostrar meus verdadeiros sentimentos — a vitalidade que alimentou minha esperança de vencer me impulsionou a depositar minha energia no punho, se conseguir golpeá-lo será o fim. Ace não se moveu tampouco ficou intimidado pelo meu atrevimento, quando seus lábios se projetaram num fino sorriso. Meu punho paralisou enquanto Ace simplesmente ergueu a mão, bloqueando o ataque nem me tocar. Como se uma fina parede invisível me impedisse.
Ele olhou satisfeito para a pulseira.
— Impressionante. Você conseguiu causar uma rachadura nesse bracelete, seu poder é maior do que pensei. — Tentei me mexer, aflita para me afastar dele. — Vejo que fez sua escolha, é uma pena.
Ace posicionou a mão livre no ponto exato do meu coração que batia acelerado, só senti uma compressão dolorosa antes de Ace me soltar.
— O que você fez? — indaguei em intervalos de respiração. Meu coração doía muito, como se estivesse pronto para arrebentar e os batimentos cardíacos pulsavam debilitado.
— Não se preocupe, minha cara. Eu apenas fiz com que seu ritmo cardíaco desacelerasse, isto é, ele bata com força reduzida. A sensação deve ser horrível, não é? — inquiriu com falsa preocupação, rodeando-me.
Pousei a mão sobre meu peito, vendo se assim abrandasse a dor. Meu peito se comprimia, apertando meus pulmões que exigiam ar. Era muito para assimilar: a cabeça rodava, minha visão tornou-se turva e estava sufocando pela falta de oxigênio adequado.
— Bem, não fique assustada, tenho interesse que permaneça viva... Por enquanto.
Arrastava-me para perto do Santo Graal, meus sentidos se distorciam e minhas pálpebras pesavam.
A névoa branca me levava para a inconsciência.
Numa ultima tentativa, estendi minha mão na direção da espada, era algo inútil, mas não deixei de tentar.
— Hora de dormir, Diva.
×××
“Esse é o meu coração e alma”
Tais palavras pertenciam a uma vida anterior — uma das últimas recordações cativas que guardou. Era uma promessa materializada em diversos fragmentos que foram divididos entre os familiares remanescentes com o propósito de vinculá-los mesmo se algo acontecesse. O juramento era para que, independente das consequências, cultivariam o elo e permaneceriam juntos mesmo que não fosse possível fisicamente. O presente servia para que possam se encontrar se alguém se afastasse — ou se perdesse. Lyana reviveu esse momento como se tivesse retornado àquele ponto no tempo onde tudo parecia promissor e ainda tinha a visão de unidade.
O artefato, Olho da Mente, possuía uma parcela significativa dos poderes de Alexander. Não exclusivamente a capacidade de se deslocar através de dimensões como estar em diferentes partes do globo em um piscar de olhos. A princípio, achou uma escolha bastante peculiar de nome, mas compreendeu a base ao se aprofundar sobre simbolismo, além do gosto do homem em mexer com alquimia. Na época pensava que se ele não morresse em alguma invenção mirabolante, ele teria uma vida longa com muitas histórias pra contar — e infelizmente estava enganada sobre tudo.
Emitindo um brilho fosco, seu pingente era um lembrete constante do que teve que abdicar. Ela ainda lembrava de como se sentiu ao recebê-lo e o estranho pressentimento que se esgueirava na fronteira de sua mente, como se fosse um recurso final e um adeus. Reviveu a impressão ao testemunhar a tensão em comunhão entre o grupo com a chamada urgente de Amara. A anciã, adepta ao esoterismo como Eryna, tinha sido uma das figuras comuns no período em que viveu com Alexander, ela respeitava muito a história da fundação da cidade e seu meio paranormal e esse carinho se estendia para os membros restantes da família Lockhard.
Lyana se questionou se tudo foi de caso pensado, que Alexander, através de outra pessoa, tivesse meios para descobrir que algo assim aconteceria ou se ele queria estar a frente de qualquer teoria e se prevenir. Seja qual fosse a verdade, sendo o visionário que era, não duvidaria de sua perspicácia em elaborar planos de contingência para todas as hipóteses possíveis.
— Obrigada por isso, Alexander. Farei uso do seu colar pra salvar a sua filha. — murmurou em uma oração baixa e íntima. — Não vamos mais perder tempo e ir direto ao ponto.
Em uma performance delicada e ágil, rasgou o véu do tempo-espaço, abrindo um portal que ia direto pra onde Amara os esperava.
Amara respirou fundo ao reconhecer Dante e Trish e a pequena Sylpha imediatamente correu para os braços do meio-demônio que a ergueu com cuidado e a girou, atuando com o melhor semblante de despreocupação.
— Parece que você cresceu um bocado, princesa. — Lyana se surpreendeu um pouco com a faceta “pai” que Dante esboçou com a menina nessa curta interação.
— Acha mesmo? — ela inquiriu com certa euforia. — Queria poder conversar com você, mas... — ergueu a cabeça para a cor difusa que se infundia no céu. — Algo ruim está pra acontecer.
As nuances de azul se tingiram ainda mais com o mais intenso vermelho fúnebre, as nuvens negras e maçantes propagando a vinda de uma tormenta. O vento se agitou inquieto, uma força inimaginável varreu o campo alertando todos de possíveis inimigos esgueirando-se, procurando um jus momento de distração. Dante franziu o cenho com a música que ouviu, do nada. Ela parecia repercutir pelo vento como se alguém sussurrasse em seus ouvidos. Aparentemente ele era o único capaz de captá-la ao examinar todos os presentes, exceto a menina que o fitou bastante surpresa.
— O que quer dizer?
—Vovó — Sylpha chamou Amara que assentiu.
— Alguém rompeu a redoma da cidade e profanou a moradia dos Lockhard... — ela balançou a cabeça com pesar. — Eu deveria ter visto esse mal chegando, mas...
— Mas? — Trish encorajou.
Lyana observou que o vermelho vivo, uma amostra estranha que se assemelhava a sangue, se converteu em ébano.
— Estão fazendo um ritual de invocação — sussurrou atordoada.
— Não é uma invocação, não como a que trouxe a garota pra cá... — Amara completou o raciocínio da ruiva. — As cartas dizem que alguma coisa muito ruim poderá aparecer, vocês precisam detê-lo... Antes que seja tarde.
Dante instintivamente pousou a mão no peito, havia algo o incomodando justamente naquele ponto: a pressão e a estranha e inexplicável sensação de perigo. Mas por que ele sentia isso?
— Algo errado, Dante? — a ruiva perguntou, seu olhar tão apreensivo quanto esperado. — Você não me parece bem...
Dante sorriu, transmitindo sua resposta sem a necessidade de palavras.
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