Next Dimension
17 Destinados a ser um

REVISEI AS DEMANDAS do treinamento, imaginando se minha evolução, ainda que bem pequena em relação a um prazo maior, seria notória para os de fora do círculo de convivência — eu, Dante e Alexander. Não esperava virar uma guerreira de alto calibre versada nas mais complexas técnicas de luta e com um leque estupidamente grande de poderes sobre-humanos com uma semana de combates e desenvolvimento energético, mas gostava da ideia de sair do estereótipo de mocinha indefesa para alguém que sabe ser independente se a situação exigir. E como uma boa garota cheia de euforia pelo mágico mundo fictício não-tão-fictício-assim, queria mostrar o que aprendi nesse curto período e dar orgulho as duas pessoas com um papel ativo na minha metamorfose de lagartinha comilona e frágil a uma borboletinha mais do que capacitada.
O único problema desse elaborado plano de exibição pessoal era: não conseguir lidar com a tormenta de emoções que vinha nutrindo secretamente por Dante, ultrapassando a linha tênue do platônico e entrando no campo do romântico. Apesar de entender bem o que distingue ambos os conceitos, um parecia acender o outro de uma maneira bastante confusa, admirava ele e sentia que nunca estaríamos em pé de igualdade para sairmos do território de, no máximo, amigos, porém, dissonante dessa ideia pré-concebida, ansiava por mais e a cada momento que estávamos juntos a vontade crescia ainda mais. O amor não costumava ser tão complexo antes até conhecê-lo em essência.
Expulsando a insegurança e colocando a mente no lugar, marchei para perto do meio-demônio esboçando o semblante mais descontraído que minha aptidão cênica permitia. Dante emanava a aura confiante, sagaz e envolvente de sempre que me recebeu assim que nossos olhares se cruzaram, ativando todos os alertas de perigo e, por consequência, enrubescendo para variar. As vezes detestava o efeito que ele tinha sobre mim, mesmo com um gesto simples transformava meu corpo em massa de modelar, as pernas perderem a estabilidade, as famosas borboletas no estômago se atiçarem e o coração disparar, tudo em um intervalo de segundos.
Alexander franziu o cenho quando o fitei.
Não poderia esquecer o fantasma camarada, ele encorajava uma atitude mais comunicativa: revelar o que sinto para, se caso, não for correspondido seja eliminado e o contrário, se for aceito, ser cultivado. Não tinha nem ideia de que século ou década que ele veio para uma conclusão sofisticada de como o romance funciona, mas dizer com todas as palavras não era exatamente simples tampouco fácil.
— O que você tirou desse aprendizado? — Alexander lançou sem prévio aviso.
— Que treinar é duro e que tenho o talento de uma batata. — brinquei. — Posso não ter sido uma aluna exemplar, mas juro que dei meu melhor. E por quanto tempo tenho que usar esse frasco no pescoço? — puxei o cordão anexado ao pote. — Quero liberdade!
— Quando não parecer um pisca-pisca, poderá tirá-lo. — Alexander rebateu irreverente.
— Vamos? — Dante perguntou, abrindo passagem pra mim.
Diferente da primeira vez, no qual o percurso fora exaustivo, dessa vez não somente tive mais facilidade para passar como também acompanhei Dante mais de perto.
— Do que se trata essa súbita mudança de querer conversar com Eryna? Que negócios seriam esses? — tentei extrair alguma informação relevante dele. — Tem a ver com o que ela disse daquela vez?
— Não. São assuntos pendentes, fica tranquila.
— E não pode me contar?
— Na hora certa, talvez.
— E quando será a hora certa?
Dante riu do meu persistente interrogatório.
— É um pouco irritante ninguém me contar nada. — bufei. — É só... — suspirei. — Sinto como se, de repente, nem me conhecesse mais. — forcei uma risada. — Bem bobo né?
Houve um silêncio constrangedor antes de Dante resolver se pronunciar. Sua mão pousou suavemente em minhas costas provocando um misto de sensações que dividiram minha cognição.
— Estamos juntos nessa. Se há algo sobre você que precise descobrir, vou te dar uma mãozinha no processo. — afirmou, guiando-me pelo caminho.
Não contive o sorriso embaraçoso que despontou em meus lábios.
— Obrigada. — travei momentaneamente com vultos passando pela minha visão periférica, figuras de sombras com silhueta humana que zanzavam ao redor. Nada grave que capturasse minha atenção para que me amedrontasse — o que determinaria como um enorme avanço comparado ao meu eu anterior e seus terrores noturnos.
— Tem algo te incomodando?
— Você... — franzi o cenho, mirando Alexander que parecia tão confuso quanto o Dante. — Não é nada, acho que tive uma vaga impressão de ter visto alguma coisa...
Abri um sorriso tímido.
Durante o intervalo entre o início do treino básico e o final tive uma trovoada de alucinações aleatórias, porém, a mais bizarra eram as esporádicas alusões a Sparda que sequer mencionei a Dante. Ver vultos turvos a margem da minha percepção parecia o mais comum e mais simples de explicar, contudo, ao colocá-los em pauta para diálogo não soavam muito mais que algo beirando a loucura.
Respirei fundo.
Quando Dante me avisou que iríamos realizar uma expedição de volta, para conversar com Eryna, não especificou que, na verdade, me deixaria — literalmente — para escanteio. A real questão de todo mistério, para provar que não teria nada a ver comigo, permaneceu intacta sem nenhuma pista e o máximo que obtive da vaga interação fora um aceno leve de cabeça e um olhar de fascínio por parte de Maya. Se antes me sentia alheia, agora muito mais.
Maya, com uma animação contagiante disparou para meus braços e me puxou para longe de Dante e Eryna, arrastando-me em um passeio.
Aborrecida, vaguei de um lado para outro sob a supervisão intrigada de Maya que parecia genuinamente querer explorar a fonte do meu estresse — não perguntando diretamente e sim me oferecendo espaço para espairecer antes de me interrogar. Passeios por museus ativam meu lado “amante de história “ oculto em mim a maior parte do tempo e que aguardava o momento mais propício para emergir do limbo, mas nem isso me distraía o bastante. Não sabia as diferenças de um mundo e do outro no que abrangia a linha cronológica, nem os principais fatos, tudo que, em minha ignorância, tinha certeza era: Sparda influenciou enormemente o fluxo das coisas a ponto de virar uma lenda ou um personagem de contos de fadas.
Varri toda extensão do lugar com um mais ceticismo até ser atraída por uma pessoa, fitando a estátua — de Sparda — de mármore com uma fisionomia difícil de ler. O estranho direcionou o olhar para nós duas e seus lábios, com um brilho de gloss de um tom rosado suave, se ergueram em um sorriso extravagante o suficiente para enviar arrepios de alerta pela espinha. Sem parcimônia, ele caminhou para perto, uns bons centímetros, de ambas e mexeu ligeiramente a cabeça.
— Que estranho — Maya argumentou, rindo. — Mas não é a primeira vez que esse cara aparece, o que é ainda mais bizarro.
— Não é suspeito?
— Claro que é, mas não dá pra fazer muito a respeito. Existe certas regras tácitas sobre como não atuar sem ter certeza de algo. — esclareceu com seriedade. — Apesar da armadilha que tem aqui, não deixa de ser um museu aberto ao público, se ele não entrou no labirinto significa que é humano.
Mirei a porta de entrada, imaginando cenas com desfechos trágicos — um deles envolvendo Ace. Meu coração deu um solavanco abrupto ao recordar do sorriso ardiloso de Ace ao me abandonar nas mãos de Nero e como aquilo, pensando bem na situação, na verdade, representava ainda mais periculosidade que se ele tentasse ativamente me pegar.
Toquei minha testa, esfregando o centro ligeiramente dolorido.
— Há resquícios de magia em você — Maya comentou, franzindo o cenho. — Magia de manipulação.
— O que isso significa?
— Significa que ainda reside um pouco dessa magia, mas não vai causar mal. Então fica tranquila — sua fisionomia alegre fora substituída por preocupação. — Depois de tudo que houve... — ela chacoalhou a cabeça. — Você vai passar por isso!
Franzi o cenho, intrigada com as alterações de humor.
Alexander ergueu a cabeça, fitando com cautela alguns artefatos em exposição, imerso em pensamentos.
— Tem um lugar... — sussurrou disperso. — Que precisamos ir.
— Que lugar?
— Minha cidade natal. — proferiu com segurança, voltando sua atenção a mim. — A mansão Lockhard. Minha antiga residência.
Era o lugar que Dante comentou que Trish estava investigando antes e, agora, Alexander queria fazer a própria por lá. Talvez querendo descobrir mais coisas por conta, afinal sendo a moradia anterior dele poderia ser mais fácil para ele compreender a planta da casa e o que tiver por lá.
Não pensei muito antes de dizer, firme e inabalável:
— Iremos ver esse lugar para verificar.
Se Alexander lembrar de tudo, ele também terá as respostas pras lacunas na minha própria busca.
×××
— O que acham que estão conversando? — perguntei após alguns minutos de silêncio.
— Não deveria se preocupar com isso, Diva. — Alexander aconselhou.
— Provavelmente algo que só eles entendam. — Maya respondeu, mexendo numa pulseira. — Olha, não sou nenhuma especialista, mas minha intuição é afiada como uma bruxa deve ser e ela me diz que está caidinha pelo feioso.
Me calei perplexa.
— Está tão na cara assim...?
Maya arregalou os olhos e desatou em uma gargalhada ruidosa.
— Você é fácil de passar a perna, sabia? — franzi o cenho com a explosão de risadas dela. — Você disse sozinha. Eu estava te enganando pra testar.
Fechei a cara.
— Não fica assim, Diva. — ergueu as mãos em falsa rendição. — Mas... — suas feições alegremente joviais foram gradualmente substituídas por uma carranca séria que a fazia parecer mais velha. — Sabe que se envolver romanticamente com ele pode ser perigoso, não é? Nem digo só pelos inimigos, falo porque pode não ser recíproco e quando retornar a sua dimensão pode acabar virando uma ferida aberta. Está disposta?
— Eu não pensei no ônus — zombei tentando não transparecer o desconforto. — Pode ser muito imediato, talvez até seja minha admiração nublando a razão, só que é diferente... Nunca senti nada por ninguém como é com ele.
— É mais grave do que pensei — se prontificou a checar a temperatura da minha testa com a mãozinha delicada. — Está apaixonada. Não é só uma paixãozinha qualquer.
Tirei a mão de Maya de mim em um rompante, derrubando um vaso no processo.
Atuando no automático, me agachei para recolher os cacos e gani com a dorzinha que surgiu com o contato com um dos cacos espalhados pelo chão. Quase de súbito, o sangue brotou trazendo consigo o aroma metálico e enjoativo característico que invadiu minhas narinas e embrulhando meu estômago. Levei o dedo machucado a boca para conter o sangramento e um agarre gentil me trouxe a realidade.
— O que aconteceu? — a voz de Eryna se elevou.
— Um acidente, irmã. — Maya explicou. — Nada de grave, além do corte da Diva.
— Não é nada — mostrei o fio vermelho que já cicatrizava. Dante segurou minha mão e, com a sutileza de uma brisa, esfregou o polegar na área sensível. — Sou muito desastrada. Muito mesmo! — forcei uma riso.
— Preste mais atenção na próxima. — Advertiu, me dando um tipo de lenço preto. Ele parecia distante, com olhar preocupado, os olhos azuis focados na limpeza do corte. — Estavam fazendo o que pra chegarem aí ponto de quebrarem coisas?
— Conversando. — repliquei aérea.
— Conversando? — repetiu com certo desdém.
— Terminaram os assuntos secretos? — Maya implicou, cruzando os braços. Dante franziu o cenho por um instante breve, evocando em mim uma série de dúvidas.
— Ainda temos outras coisas para conversar. — Eryna cortou. — Sobre Ace.
Engoli em seco.
A menção daquele nome fez meu coração falhar uma batida e meu sangue gelar.
Tínhamos mesmo que falar dele?
— A propósito, consigo perceber as nuances da sua aura. Os treinos deram resultado pelo que parece. — ruborizei com o comentário de Eryna, meio envergonhada e orgulhosa do meu avanço. — Ainda assim, precisa continuar treinando para se desenvolver mais.
Assenti mecanicamente.
— Vamos para um local mais reservado.
Seguimos para uma sala em uma área mais interna do museu.
A tensão pairava no ar, tão densa e rarefeita que minha respiração exigia mais esforço que o normal. Uma bomba esta prestes a explodir, essa era impressão naquele momento.
— Andei seguindo os rastros de Ace, ele anda muito inquieto e sinto que planeja algo grande — Eryna anunciou, sua voz carregada de preocupação.
— O que Ace esta tramando então? — indaguei curiosa, mas ainda um tanto nervosa.
— Não sei ao certo, mas pelas minhas fontes e visões — pela sua expressão, ela parecia procurar medir seriamente as palavras — Ele pode estar atrás do Santo Graal.
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