Next Dimension
54 Através dos olhos do mundo

Why should it matter, your dreams of a child?
Por que deveria importar, seus sonhos de criança?
Innocence is gone. Only fear to play with.
A inocência se foi. Somente o medo de jogar.
Faces are changing, but nothing is changing the pain
Faces estão mudando, mas nada está mudando a dor
Too late
Tarde demais
[...]
Over and over it calls to your soul
Mais e mais sua alma é chamada
Say it isn't so. Emptiness surrounds you
Diga que não é assim. O vazio te rodeia
No one can help if the angels refuse to come here
Ninguém pode ajudar se os anjos se recusam a vir aqui
Who's there?
Quem está aí?
Acceptance — Mary Elizabeth McGlynn
Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto. — William Shakespeare
TESTEMUNHAR ALGUÉM QUE AMA de todo coração apodrecendo aos poucos, uma morte lenta e degradante do que um dia foi um espírito caloroso e agraciado de virtudes, lhe trazia dor — tanto emocional quanto física. Nilin assistia em silêncio enquanto Ace, o homem que a acolheu, perdia sua essência e se consumia por emoções vis e intoxicantes e focar todos os seus esforços em um objetivo egoísta.
A princípio, quando tudo era novo e cheio de promessas, acreditou que o auxiliaria para um bem maior entregando sua confiança e fé, sua principal força motriz, para executar o plano. Agora nem tinha mais tanta certeza de qual papel desempenhava nesse caos, apenas que as coisas estavam fugindo do controle e tomando formas além da compreensão e temia o resultado disso.
Sua mãe, uma senhora gentil e respeitável, lhe ensinou sobre o augúrio; destrinchando conhecimentos repassados a todas as descendentes femininas em uma tradição familiar que perdurava inflexivelmente por séculos até chegar na mais velha, a própria Nilin. A dedicação de sua mãe ao lhe contar sobre a inspirou a conservar essa determinação mesmo após perdê-la, ficando somente sua irmã, Nina, para proteger. Cada memória, ensinamento, carinho refletiu nas decisões e ações que a conduziram até ali.
“Sempre que estiver sozinha e assustada, cante a Canção do Herói e alguém virá para resgatá-la”
Ela cantava todos os dias — não por medo e sim por confusão. Talvez a pessoa que ouvisse seu clamor pudesse tirá-los desse mar turvo repleto de ondas revoltas e traiçoeiras. Reunia sua coragem e desespero nos versos que escutava tantas vezes antes como uma música de ninar, crendo que viria um sinal, um feixe de luz que lhe preenchesse com esperança.
“Você é a discípula da deusa, mas também está sob sua égide”
Repentinamente, arquejando, recordou de Diva e sobre ela tê-la ouvido. Ace usou esse fato para tentar atraí-la, na verdade, muito provavelmente foi por suas mãos que ela foi trazida. Nilin uniu as mãos e entrelaçou os dedos em oração, implorando por discernimento a sua deusa e perdão pelo que tinha feito com uma garota inocente.
Não foi minha intenção, pensou em alarde.
Ela falhou. Desde tenra idade sabia de suas designações a serem cumpridas, foi criada para aceitar e agradecer aquele fardo, com a sina de viver como uma Oráculo, alguém que pavimentaria o caminho para a deusa pudesse assumir eventualmente, sendo uma representante, uma sacerdotisa nesse plano e esperar o momento adequado chegar.
“Quero poder mudar o final” Ace lhe confessou. “Fazer uma novo início onde não existiria nenhuma dor e sofrimento”
Quando o conheceu a energia que ele emanava parecia com o fluxo de um rio tranquilo de águas cristalinas, mas, ao fechar os olhos, tudo que sentia dele era uma chama bruxuleante escura nascendo do centro de seu âmago e impossível de deter.
— Está pensando? — a voz desdenhosa de Amon estilhaçou sua cúpula segura, obrigando-a a retornar a realidade. — Ah. Espero não ter te assustado.
— Não. Não assustou. — não queria dar o prazer de vê-la ansiosa. — Deseja alguma coisa, Sr. Amon?
Amon sempre foi uma incógnita; surgiu do nada com um propósito para Ace realizar. Ele não costumava se envolver demais nos assuntos, mas tinha uma forte presença em como as coisas funcionariam — ele servia de engrenagem para as demais peças se moverem de acordo com sua vontade. Diria com convicção que Amon puxava as cordas nos bastidores.
— Não. Estou apenas me refrescando, falta pouco pra finalizar minha obra prima, só alguns retoques e ficará perfeita.
— Fico feliz por você.
A simples ideia de tê-lo a cercando, monitorando seus passos, contando sua respiração a agitava de uma maneira que não tinha palavras para descrever. Ele não agia despretensiosamente, mesmo seu comportamento excêntrico, por trás, carregava uma motivação implícita. Seus músculos travaram pela tensão instintiva e lutou para controlar o coração que batia em galopes selvagens.
— Eu me pergunto o que aquele garoto está tramando — comentou, apoiando os cotovelos no peitoril. — O filho de Sparda realmente rompeu uma fibra nele. A essa altura é meio difícil saber o que ele fará e honestamente nem me importo muito. Se minha missão der certo não vou precisar lidar com isso mais que o necessário.
Ela quis indagar sobre essa suposta missão, mas optou por não se intrometer. Sua intuição lhe avisou que se envolver, ainda que superficialmente com esse cara, lhe traria grande infortúnio.
— Se cuide, Nilinzinha. É sempre um prazer conversar com você. — a malícia venenosa escorreu dos lábios de Amon.
×××
COM OS OLHOS FIXOS no elaborado espelho, Ace vislumbrou a hipótese do seu futuro. O verde de sua íris faiscaram em um verde vivaz a medida que sua ansiedade e poder expandiram, mas que ele precisava manter sob controle. As palavras de Amon despertaram uma curiosa sedutora nele e um sentimento de deslocamento que vinha do mais íntimo de si. Inoculado pela dúvida, percebeu que havia duas forças antagonistas que moviam suas ações: a raiva da criança abandonada e a desesperança. Junto com essa miríade de emoções tinhas as lembranças aceleradas e intensas como um livro aberto qual as palavras se desenrolavam facilmente sem restrições. Permitiu que elas viessem e o engolfassem.
As chamas devoravam seu lar e todas as memórias boas que teve com sua mãe.
Esticou o braço para tentar alcançar, lutando com tudo de si e com toda força que seu pequeno corpo possuía. Ignorando os apelos fervorosos e os braços que o impediam de ir onde necessitava ir, segurando-o com firmeza. Simplesmente não podia entender o motivo de não o deixarem entrar no casarão. Será que ninguém via? As pessoas são tão estupidamente cegas para não verem?
A sua mãe estava lá dentro. De algum modo, ele tinha que ajudá-la. As altas chamas engoliam a construção, o fogo alastrou-se com velocidade e fome implacável e destruindo tudo sem distinção. Ver aquilo deixou o garoto mais desesperado para salvar a mãe. Isso, porém, de nada adiantou. Por que não fizeram nada? Por que eles ficaram só olhando? Por que não o deixaram morrer junto com a mãe?
É dessa forma desde o começo, as pessoas da cidade nunca gostaram de sua mãe. Ela nunca fizera mal algum a ninguém, uma mulher bondosa de boa índole. No entanto, por ser mãe solteira as pessoas a desprezavam e via tanto ela quanto a criança com seres impuros. Soava tão irônico que pessoas que acreditavam serem escolhidos de deus, pateticamente fossem tão hipócritas suficientes para desprezá-los. Não passavam de repugnante escória.
Os vidros das janelas explodiram devido à alta temperatura.
O pequeno garoto negou a si mesmo a verdade, e um grito atravessou o ar como se pudesse rasgar os céus. E o que sentia era somente ódio — o mais puro e destrutivo ódio. Agora não tinha mais nada, perdeu a única coisa que lhe era valiosa: Lyssa, sua mãe.
Os seres humanos sempre seriam criaturas vis e egocêntricas. Cadê todo amor que eles ensinavam em suas igrejas? E tudo que falavam sobre compaixão?
Ace jurou a si mesmo que desse dia em diante odiaria os seres humanos. E que limparia a terra de todos eles, eliminando um por um.
Ele permaneceu imóvel quando as pessoas iam embora voltando a suas ridículas vidas como se nada tivesse acontecido.
Nada sobrara.
O fogo reduziu a enorme casa a nada.
Então o garoto estava sozinho no mundo.
Não. Não era isso.
Lyssa lhe ensinou sobre a piedade, viver nos preceitos e virtudes humanas independente de qualquer coisa.
Ace abriu os olhos. O reflexo do passado havia se manifestado de repente em sua mente, quase o atordoaram. As memórias pareciam vividas demais e ele considerava que estariam mortas e enterradas. Mas, não. Elas estavam vivas e pulsavam com força e nelas encontrava a resposta para cada ação e atitude tomadas até então. No espelho pode ver a imagem do seu antigo eu, fraco e destruído.
“As vezes o ódio pode ser igualmente belo como o amor. Mas só quem conhece tão bem o ódio quanto o amor sabe quando algo precisa ser reescrito para vir algo melhor.” Amon afirmou certa ocasião, observando Ace. “Você pode ser aquele que trará um novo começo e tudo que precisa é da Diva...”
Seu real propósito.
Ele tinha testado a dimensão dos poderes dela, experimentado as nuances da energia dela.
Poder para dominar tudo. Poder para proteger... Não!
Deixou-se novamente levar pelas antigas reminiscências. De inicio fragmentos aleatórios de memórias flutuavam em sua mente, conforme se aprofundava novas imagens começaram a aparecer.
Os pequenos e melancólicos olhos vagaram pelas ruínas da antiga mansão. Havia paredes que se mantinham em pé, embora muito decadente e antiga. O garoto sentiu a raiva transfigurar pelo seu rosto, até o gosto amargo do ódio em sua boca era pungente e repugnante. Mas não podia evitar estar assim, de sentir aquilo. Meramente era mais forte que ele.
Cada passo que dava vinha uma nova lembrança, nítida e alegre. Lembranças de uma época cheia de expectativa e paz.
E novamente, era tragado ao presente.
Se ele tivesse sido mais forte teria feito alguma diferença?
Não!
A culpa de tudo não fora dele, e sim daqueles humanos miseráveis que não moveram um músculo sequer para socorrer. Agora tudo que sobrou são somente destroços e o ódio. Ele tinha perdido tudo: sua casa, sua identidade, sua vida e o principal, a única pessoa no qual ele realmente se importava. Lyssa era uma mulher nobre que fez todo possível para criar o filho e guiá-lo pelo caminho da benevolência. No entanto, nada teve sentido. Sua morte marcou profunda e permanentemente a vida de seu filho.
Ace decidiu que o melhor a ser feito é recomeçar do zero, nunca mais lamentaria por esse dia e jurou para si mesmo que não criaria laços com ninguém.
Lágrimas e tristeza não mudaram o mundo e nunca irão.
Em seus oito anos de idade, seguiu-se dessa forma. Ele tentou sobreviver com o que tinha e aprendeu a verdadeira natureza sórdida e inferior dos seres humanos, que não passavam de seres manipuladores e egoístas.
Lutar pela sobrevivência fora tortuosa, porém nunca desistiu.
Não diziam que anjos possuíam o grande amor e capacidade infinita de perdão? Ace não somente e negou como todo e qualquer sentimento semelhante.
Ace passou as mãos tremulas pelos sedosos cabelos negros e respirou profundamente.
Nenhuma criança sobrevive se não existir uma fagulha, ainda que diminuta, de força de vontade para sustentá-la mesmo após perder sua única referência de família e humanidade — ele se tornou mais um ser desamparado que crescerá a margem da sociedade em uma realidade cruel.
Embora se recusasse a viver nas sombras negligenciado e morrer a esmo, ele não tinha opções tampouco alguém que se comparecesse de sua situação para lhe dar abrigo. Na verdade, percebeu desde cedo, que as pessoas ignoravam sua existência, fingindo que ele não estava ali para manchar o quadro perfeito de uma tela urbana.
Era uma manhã fria quando ele conheceu o estranho homem que possuía uma aura poderosa e cálida.
Ninguém o via. Exceto o estranho de cabelos dourados que brilhava sob a luz opulenta do sol como a auréola vibrante de um anjo. O homem, com roupas modestas, mas de bom material, se agachou a sua altura com a benevolência materializada em seu olhar — enxergando os males passados e o acolhendo em ternura. As mãos deles pousaram gentilmente no topo de sua cabeça em um gesto afetuoso, arrumando o cabelo desalinhado e sujo do garoto.
Alexander Lockhard estendeu a mão para Ace, e sorriu de uma forma quase paternal. Impossível um mero estranho lhe ajudar e ainda sem querer nada em troca. Ace ignorou a tentativa do homem em dar-lhe apoio. Não podia confiar em nada e nem em ninguém. As pessoas não são confiáveis e ponto.
Persistentemente o homem continuou tentando até finalmente o garoto ceder. Alexander era muito diferente de tudo que Ace conhecia, talvez pelo poder ou pela capacidade que possuía de amar e colocar as necessidades dos outros acima das próprias. Alguém digno e verdadeiramente honrado. É dessa maneira desde que ele que uniu a Alexander.
— Você pode ir junto. Se é dá sua vontade, então lhe darei um propósito. Um propósito pra viver.
Talvez uma das poucas coisas que lamentara na vida: a morte de Alexander.
— Ace! — gritou a garotinha correndo desastrada em sua direção. Rain tinha pouco mais de seis anos e sempre seguia Ace para onde quer que fosse, a menina via nele um segundo irmão e aparentemente uma pessoa para aguentar suas brincadeiras. Juntamente com Vincent — o mais velho e irmão de sangue de Rain —, Rainy e o próprio Ace formavam uma família. E mesmo fazendo todo que podia para não se apegar, acabou que a convivência tornou-os muito próximos.
Sem contar que sendo órfãos conseguiam entender o que os outros sentiam.
— Por que não posso brincar com vocês? — perguntou Rain, fazendo careta.
— Não vamos brincar, estamos treinando!.— a voz de Vincent era firme e estoica. Como uma pessoa de poucas palavras. Vincent, de fato era assim, distante e mostrava pouco de suas reais emoções e chegava a ser intrigante.
— Eu também quero treinar! — Rain cruzou os braços, revoltada.
— Rain é perigoso — Ace alertou, balançando a cabeça descontente.
Nunca foi muito bom em lidar com crianças.
— Fico contente que estejam animados para treinar — Alexander comentou.
— Quero treinar também, papai!
— Eu sei, Rain, mas tente não se preocupar com isso. Quando tiver a idade adequada lhe treinarei assim como faço com Ace e Vincent.
— Nah! — ela cruzou os braços. — Não quero ser protegida, quero ser forte para protegê-los também!
Ace entendia o ponto de vista da menina. Alexander cuidou e ensinou a cada um a usar suas habilidades, mas nunca quis acabar com suas infâncias e impedi-los de ver uma vida feliz.
Ace sentia uma forte afeição por Alexander equivalente a considerá-lo seu verdadeiro pai, já que nunca conheceu o seu. A única coisa que sabia era que não fora humano e sim um anjo.
A ruiva resmungou baixinho, Ace nunca vira Lyana tão irritada e tudo por Alexander não ter tempo para ficar com ela. Era estranho para ele ver uma jovem de quinze anos tão imatura. Normalmente quando as pessoas crescem tornam-se maduras e responsáveis, certo?
Levando em consideração tudo que aprendeu lendo, as garotas tendem a amadurecer mais precocemente que os garotos e, no entanto, isso não se aplicava a Lyana.
Como tempo passa depressa, pensou Ace. Lembrava-se das perguntas absurdas e das invasões de Rain, da rivalidade com Vincent, a impulsividade e o carinho de Lyana e é claro o amor inerente e acolhedor de Alexander.
No auge dos seus doze anos, Ace melhorou e muito suas habilidades e se tornou um especialista em batalhas corpo a corpo. E ainda tentava sempre superar Vincent, que agora beirava aos quinze anos. Conforme os dias passavam, Alexander parecia estranho. Seu rosto jazia expressões de felicidade e paz interior. Algo novo e diferente estava para acontecer. Ele sonhou com isso, pois uma das suas incríveis capacidades era prever o futuro, embora não fosse tão preciso quanto gostaria.
— Esse é um pequeno presente — Alexander anunciou, dando a todos os presentes um pingente.
Lyana ficou com o de coloração roxa salpicada de ouro.
Rain ficou bom o de coloração rosa em pequenos pigmentos de vermelho.
Vincent ficou com o azul celeste.
Por fim, Ace ficou com o vermelho intenso como sangue.
— O que é isso, Alexander? — a ruiva questionou, seus olhos refletindo confusão. Na verdade, todos se faziam essa pergunta.
— Esse pingente contém partes das minhas habilidades como Unchant. Com ela vocês poderão atravessar qualquer dimensão.
— Papai, agradecemos a confiança, mas... — Rain travou.
— Há coisas nesse mundo que somente posso confiar a vocês. Além disso, eu tenho pensado muito... Sei que fui severo nos treinamentos e quero pedir algo muito importante; vocês estão livres para escolher se querem ou não.
E de repente, Ace abriu os olhos a tempo de se salvar. Aquela angustiante sensação semelhante a estar prestes a cair de um precipício e ser puxado antes que caísse. Havia alguém que o chamava, a voz doce e familiar lhe trouxera de volta.
Seu futuro... Ace vislumbrou a imagem de um homem de cabelos negros com uma expressão apática e olhos que reluziam como duas pedras de rubi. Uma névoa escura o seguia a medida que se movia, encurtando a distância que o separava. Assim que se alinharam, o estranho o mirou de soslaio e continuou o percurso para algum lugar, sumindo nas sombras que ele mesmo criou.
O que foi aquilo? Quem era aquele homem?
— Senhor Ace? — Nilin chamou-lhe, sua voz engasgada de preocupação. — Está tudo bem?
— Sim, esta. — era hora de continuar com que planejou, sem pausas para reflexões desnecessárias.
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