Notas iniciais
Leitores,
se ainda estão aqui, por toda a demora que levo, agradeço a paciência. Como disse, muito se alterou na história. Vou ter de ler os dois livros novamente - acalmem-se! não demorará mais, acredite. - e verei o filme. Preciso de dados e fórmulas, porque estou saindo da pele de Carroll!
De agora em diante, essa parte será de avisos para o capítulo. Notas pequenas que precisarão ser levadas em conta na leitura. E o rodapé perderá sua importância. Podem pulá-lo, são notas minhas de autora.
Truth >> Notas rápidas:
* Vassoura de Porcelana e Marmota são juntos, o Oráculo.
* Vassoura, a faxineira, é diferente da Vassoura de Porcelana, mestra de Marmota.
* Eles ainda vão aparecer, de montes, nos capítulos seguintes.
* E sim, o último parágrafo de falas foi uma indireta a vocês...

O sol tardou a desaparecer do céu alaranjado daquele dia previamente fatídico. Som algum se emitia. Do tabuleiro ao castelo, do castelo ao jardim, do jardim a casa. Tudo e todos esconderam-se, inquietos, a espera. Dentro das casas, olhares ansiosos, ouvidos despertos, esticavam-se volta e meia a procura de alguma resposta. A onde estariam?

Ao final da tarde, um vulto saltitante apareceu no fim da estrada. O sino da igreja tocou, anunciando a chegada da estranha figura. Temerosos, os moradores saíram, um a um, de suas casinhas. As mulheres murmuravam apostas, os homens pegavam suas armas. E em toda a correria, as crianças, mais do que inocentes, foram as primeiras a reconhecer o estranho que vinha da estrada.

Mais pelo falatório do que pela imagem.

— Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais! – O Coelho Branco lamuriava. Ia tirar seu relógio do colete quando uma multidão atirou-se a ele. Soltou um grito assustado, que foi rapidamente sufocado por beijos e abraços dos habitantes. – Ora, mas que inconveniente. –Grunhiu timidamente, ao reluto.

E como num passe de mágica, a cidade de laranja foi para vermelho, depois para azul marinho e então a um intenso dourado. – O pincel e a paleta discutiam vivazes sobre a celebração. – De toda a parte ouvia-se gritos de felicidades, o hino a ser proclamado e promessas de festas e vinho. As madames, que já se diziam viúvas, atearam fogo ao calabouço da Rainha Vermelha ao som da marcha fúnebre dos escoteiros. – Tempo depois, empalideceriam na hora da dança ao lembrar-se que seus maridos ainda estavam presos.

O alvoroço era tão grande que, do pequeno vilarejo, a notícia correu de boca a boca num veloz telefone sem fio até o cume da alta montanha, onde o Castelo Branco da Rainha Branca parecia equilibrar-se entre a cadeia de morros.

— Oh! – uma vassoura varria feliz, perambulando e gritando de porta em porta na imensa fortaleza – Estão de volta! Eles retornaram!

— Sim, sim, sim... Disso já sabemos. Diga a quem não sabe. — a governanta, um pavão gorducho metido num colete cinza, guinchou irritada. Vendo que a vassoura não se mexia, largou sua xícara e empurrou-a para a escada. – Vamos, vamos! Avise-o, embora já o deva saber.

Magoada — pode não parecer, mas vassouras são em maioria sensíveis e tem uma baixa auto-estima – ela varreu degrau por degrau da longa escadaria que dava para o aposento mais alto do castelo. Ela entrou sem bater, já ofegante pela subida.

— Senhor, desculpe-me incomodá-lo.

— Olá vassoura! – Uma figura esguia exclamou de trás das cortinas. – Venha cá! Vamos dançar um pouco...!

— Senhor, eu...

Debaixo da mesa repleta de apetrechos surgiu uma dama alta e desajeitada – seu pescoço dobrava-se em contato com o teto para que conseguisse ficar em pé. Estava enfiada numa batina branca adornada de jóias e laços, que deixavam seu corpo magricelo ainda mais languido. Seus olhos roxos cintilaram, numa felicidade muda ao ver o susto da vassoura.

— Todos estão comemorando! – ela agarrou o cabo, que chiou assustada. – Venha...

— Vassoura! Onde está ela? – A figura alta tornou a gritar, tentando desvencilhar-se da cortina.

— ... e um dois três. Um dois três – a menina ruiva sapateava pela sala colada a vassoura, que agora segurava-se para não chorar.

— Ai está você! Está tentando matar algum bicho de novo? – o Oráculo, a marmota baixinha e careca que há pouco desvencilhara da cortina, tateou a mesa atrás de seus óculos. – O Pavão lacaio vai vir aqui guinchar até nossos ouvidos sangrarem!

— Senhor, — a pobre faxineira continha-se em soluços, num sussurro suave — poderia pedir pra a Vaxoura de porcelana me soltar?

— Ah, você está ai vassoura. Bem que eu ouvi alguém cantar. Ou será que eu vi...?

— ...três dois um, três dois um.

— Por favor... – ela tornou a soluçar.

— Vassoura de Porcelana, vamos, deixe a coitada da vassoura... – o marmota quase perdeu seu óculos ao ser agarrado pelas mãos esqueléticas da ruiva. Soltou um grunhido de felicidade. – Cuidado aí! Por que está tão dançante?

— Por que eu não estaria saltitante? Você viu a festa legal que estão dando ao Coelho Branco?

— Sim... e no seu caso seria ouvir. Só eu tenho a visão perifericamente capacitada para fazer tal vocação.

— Não, não, eu sou alta o suficiente para ver pontinho de luz de natal gritante no fundo do vale. Você é cegueta como um morcego mesmo com seus três óculos.

— Ah sim, ah sim! Eu queria dizer prever. Muito obrigada por me corrigir.

— Não! Eu quero doce. – Grunhiu a menina, entristecida pelo bajulador.

Um pouco mais calma, — e secretamente louca para fazer uma fofoca, — a vassoura intrometeu-se, chorosa:

— Perdoe-me por interrompê-los, mas pelo que sei, a festa é pela vitória do exército branco no tabulheiro de xadrez.

— Não é! Meu doce! – A menina com cabelo de espanador ergueu um pé em direção a doceira.

— Fofocas distorcidas do telefone. Isso sempre acontece. – a marmota murmurou com desânimo. — A verdade é simples, cara espanador de chão; o Coelho chegou umas duas horas a mais que antecipei. O exército deve chegar daqui umas cinco horas por imprevistos no caminho.

— Atrasos?

— A Rainha Vermelha e seu valete exigiram muitos requisitos difíceis como terem a chave da cela e várias idas ao banheiro. Os pobres peões tinham em mente as duas ordens da Rainha Branca: — A marmota pigarreou enquanto a menina o erguia suavemente do chão. Sua voz fina entortou-se mais ainda num cantar agudo: – Não soltem-na, mas realizem seus pedidos para que a viagem torne-se amena.

— E os peões não a soltaram-na, é verdade. – O marmorta encarou a menina com uma cara alarmada — A própria Rainha Vermelha abriu a porta.

— Eles são tão bocós. – a menina sentou-se no chão, cansada. Largou os dois muito entretidos na discussão.

— Não fale bocós. Prefira a palavra retardados. – o marmota a corrigiu — Seus cérebros são um tanto atrasados em comparação a outros.

— Ora, mas, — a vassoura apoiou-se na parede, sem deixar desparecer-se extremamente intrigada. – a senhorita Alice jamais permitria tamanho desmazelo.

— Porque ela não está com o exército, sua tonta! – o Orácuo articulou a última palavra bem devagar, olhando para Vassoura de Porcelana, que procurava no dicionário uma palavra melhor que “tontos” para os peões. – Duh!

A vassoura ergueu-se da parede. A marmota comeu alguns doces da doceira, enquanto Vassoura de Porcelana ia e vinha nas páginas do dicionário, procurando freneticamente uma palavra que se encaixasse. Um silêncio incômodo se alastrou pela sala, ferido apenas pelo folhear do livro e o ruminar do Oráculo. Irritadíssima pela insensibilidade dos dois, explodiu:

— Como axim ela não está no exército!- A vassoura viu que todos a encaravam, e então encolheu-se. — Não me diga que ela... moreu no combate.

O oráculo terminou de comer a bala antes de perguntar:

— Do que está falando, — novamente lançou um rápido olhar desafiador para Porcelana antes de dizer: — desvairada?

— Você acabou de dixer que Alice morreu no combate e porisso não está no exército? – ela encolheu-se ao lembrar-se que desvairada não era uma coisa muito boa a se dizer a uma vassoura. — Ou por acaso ela traiu a rainha e fuxiu com o Chapeleiro para seu ninho de amor secreto?

— Ah. Eu disse sim. Sim, sim, isso está certíssimo. – “Não disse não!” interrompeu Vassoura de Porcelana. – Alice... Alice! Ela está vagando nas redondezas da casa da Duquesa.

— Tão... Longe! Por que ela está por lá?

— Ai, ai! Mas como você é chata! – Vassoura de Porcelana exclamou. – Pronto! Posso chamá-los de chatos não?

— A cabeça deles é redonda. Procure algo na sessão das palavras compridas. – O oráculo deu um risinho tímido. – As palavras de lá me fazem cosquinha.

Sentida pelo chata e os outros adjetivos que aderiram a ela no jogo de palavras, subiu-lhe ao cabo amargura. E quando sentia qualquer coisa, que não fosse medo e timidez, passava a varrer com impetuosidade tudo o que lhe vinha pelo caminho.

— E ela não virá para cá? Precisava reunir-se com o senhor... – vassoura encarou dos pés a cabeça a menina desastrada. — e a senhorita, não?

— Ah, ela se vira. – O marmota gargalhou enquanto comia mais doces. Deixou seus óculos caírem, acidentalmente. – Não é tão difícil achar as chaves.

— Como assim? Só o senhor sabe a localixação das chaves!

— Sim, certamente.

— Não é verdade! – Contrariou Vassoura de Porcelana.

— Ela não voltará a tempo da Lua cheia e ficará presa aqui para sempre senão auxiliá-la. – vassoura retrucou, varrendo o óculos da marmota para longe.

— Claro! Não há dúvidas! – o marmota concordou, virando o pote de doces.

— Mentira! – grunhiu a garota, jogando o dicionário pro lado. Sentou-se num canto e cruzou os braços.

— Se Alice não retornar do mundo subterrâneo... Ela deixará de ser ela, — vassoura parou imediatamente de varrer. — não é?

— Obviamente. Mas isso ocorrerá muito antes.

Os dois encararam Vassoura de Porcelana, que estava muito entretida com o óculos do Oráculo para o contradisser.

— Alice renderá sua humanidade para a eterna euforia dum mundo negro e obscuro... como o nosso. – continuou a marmota. – Isso está acontecendo, aos poucos, com seus devaneios tolos. Está se perdendo, — murmurou baixinho, olhando para os lados – para a maturidade.

— Errado. – Vassoura de porcelana empurrou o marmota cego para o lado. A pequena vassoura encarou a menina de óculos sentada a sua frente, com o cabelo ruivo controlado magicamente. – E a palavra correta seria inepto, obrigada por me lembrar marmota, com suas ações pouco dignas dum conselheiro.

— Senhorita? – vassoura se encolheu com a voz matura da menina.

— Não se assuste. Sou menos apta ao cargo, mas ainda dou conta. – gentilmente afagou o filhote careca — Ele tem ainda o que aprender como meu aprendiz.

— O que ele dixe então, seria falso, presumo... – Com o susto, ela tornou a varrer a sala, tirando os doces do chão e os apetrechos caídos.

— Em partes. – Vassoura de Porcelana respondeu enquanto arrumava a parte debaixo da mesa, com milhares de jóias e livros empilhados. Ela parou subitamente. – Ela tem outros métodos para encontrar as chaves. Inconvencionais, de certo, mas eficientes. – matutou, tentando relembrar-se de tudo o que fora dito. — Perdeu-se do exército, mas felizmente já perceberam sua falta e estão a sua procura. E creio que não, não, não. Tenho certeza de que não ocorrerá. – soltou um suspiro.

— ...e – já mais calma, a faxineira prosseguiu com delicadeza – o que o Oráculo quis dizer quando disse que ela estava se rendendo?

Vassoura de Porcelana se levantou. A mobília e luminárias balançaram com a força, mas não ousaram sair de seus lugares. Tinham muito medo da menina e sua impetuosidade.

-Sua fofoqueira! – Porcelana murmurou indignada de um lado para outro. – Como pôde fofocar tudo o que eu disse? Ah não, você não vai! Isso acaba com toda a surpresa!

— Do que está falando?

— Você tem que confiar mais em si mesma! Não deixe as pessoas te levarem para o lado errado menina! Estão tentando te usar! – Suspirou novamente. Encarou a vassoura e sorriu, num estado completamente diferente. – Eu também quero que ela acabe com o chapeleiro! Não num ninho, porque acho que são melhores do que pássaros, mas com certeza numa mesa de chá de árvore de cerejeira.

Já acostumada com o comportamento desenfreado da garota, recuperou-se do susto. As mudanças súbitas já lhe eram comum, visto que a toda visão nova que lhe vinha dava chiliques. Disso ela já estava acostumada às visitas passadas. Se ela não a agarrasse novamente pelo cabo, estaria tudo sob controle.

-Sim! Você viu isso no futuro também? Me dê detalhes!

— Diria a você... senão fosse tão fofoqueira. – Mostrou-lhe a língua marota. Encarou-a nos olhos e disse: — Espere. Você terá uma surpresa assustadora.

Notas finais
Não entendo a graça que vêem no Chapeleiro. Não gosto dele. Mas vejamos o que pode ser feito não?