New Siege

7 Capítulo 7 - Honey.


Notas iniciais
No capítulo anterior...
O trio escapou de uma situação de extremo perigo, graças à ajuda do misterioso Mercenário Albu, que não pareceu se preocupar muito com o feito.
No final do dia, Hanne e Albu tiveram uma conversa privada que vai alterar a rotina do Gatuno...

Yuvia estava à beira da cama, perto da janela. Fluffy estava encolhido em seu colo, recebendo afagos quase involuntários da Arqueira. Ela tinha os olhos fixos e opacos na lua crescente, em contraste com as esmeraldas sorridentes e faceiras do dia, antes da caçada. Seus pensamentos não estavam na lua ou na conversa com o Mercenário na pirâmide. Apesar dos incômodos daquela tarde, os ânimos da jovem Arqueira pesavam com coisas mais longínquas e profundas. Foi quando uma lágrima brotou solitária e desceu pelo rosto, fazendo-a despertar do seu transe.

Todas as noites eram assim para Yuvia. Por mais agradável que fosse seu dia, era na solidão de sua cama que os fantasmas do passado se faziam presentes, trazendo consigo o vazio e a saudade. Eram velhos companheiros. Não que Yuvia desejasse tais amizades, mas já se esquecia de como era a vida sem eles.

Yuvia pegou carinhosamente seu Lunático e o colocou sobre uma pequena almofada, próxima ao pé da cama estreita. Checou seus objetos para o dia seguinte e se deitou, na esperança de uma noite rápida e sem sonhos. Ainda ouvia os passos de Heda no corredor, menos de duas horas depois de se deitar; e alguns minutos antes de pegar no sono. De olhos fechados, um sorriso discreto se formou no canto dos lábios, como se a presença da prima, do outro lado da parede, lhe dissesse que ela não estava tão sozinha.

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O dia logo chegou, o que era um alívio para o coração de Yuvia. A Arqueira terminava de amarrar os longos cabelos com uma fita vermelha, quando ouviu quatro batidas na porta do quarto:

– Oi, Heda! – disse Yuvia, esboçando um sorriso tímido, enquanto dava passagem. – Acordou bem cedo hoje, algum plano especial?

– Na verdade, eu mal dormi – respondeu Heda, entrando com pressa e sentando-se na beira da cama. – Precisava te contar algo, pensei em fazer isso ontem, mas cheguei meio tarde, não quis te acordar... Prima! Ontem, lá na taberna, eu e Hanne encontramos aquele Mercenário esquisito, que quase matou a gente à tarde...

– Não seria mais correto dizer que ele nos salvou? – sorriu Yuvia, meio sem graça.

– Tá, tá, tanto faz... – disse Heda, acenando para a prima, como que encerrando o assunto. – Enfim, Hanne conversou com ele, algum papo secreto de machos que ele não quis me contar, e o tal Albu concordou em conversar novamente com você!

Yuvia arregalou os olhos, no que uma pequena chama de entusiasmo se fez notar.

– É verdade isso, Heda? Mas eu insisti tanto, e ele parecia tão... Resoluto...

– Fiquei tão pasma quanto você, prima! – disse Heda, contagiada pela expressão de Yuvia. – Mas agora pode devolver o tal favor que você e Hanne enxergam que ele fez... Pega logo suas coisas, e vamos atrás do Hanne! Acho que ele combinou algo com o Mercenário pra agora cedo!

Yuvia fez sinal positivo com a cabeça e sorriu, agora com espontaneidade. Pegou seus pertences que estavam sobre uma cadeira, deu um beijo em Fluffy e deixou o quarto com Heda, a passos largos.

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Hanne estava sentado em um banco, próximo à loja de Heda; sabia que a amiga viria direto da hospedaria, assim que acordasse, para abrir as portas do estabelecimento. Muito antes do imaginado, avistou a dupla acenando ao longe.

– O que tá havendo, alguma emergência na cidade? Porque pra Heda acordar cedo assim...

– Não, besta – cortou Heda. – Já contei pra prima da sua conversa de ontem com o Mercenário, então viemos saber onde ele está.

– Heda me disse que vocês conversaram e ele aceitou nos encontrarmos hoje, é isso mesmo? – perguntou Yuvia.

– Sim, ele me pediu para encontrá-lo agora cedo. E ele tá disposto a se entender com você também, disse que não era a intenção ser rude.

– Imagina se fosse... – comentou Heda, cruzando os braços.

– Bom... – disse Yuvia corada, tamanha sua excitação. – Estou preparada, é só me levar até ele!

– Certo, crianças, vocês vão lá resolver isso, pois os adultos precisam trabalhar! – disse Heda, pondo gentilmente os dois guerreiros a caminho, enquanto seguia para a porta da loja. – Nos vemos depois!

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Hanne e Yuvia rumaram para norte da cidade. Em alguns minutos, chegaram no local desejado: um pequeno lote com nada mais que algumas poucas palmeiras agrupadas, e as ruínas de um barracão abandonado. O Mercenário estava à sombra de uma parede, com seu chapéu cobrindo o rosto.

– Vieram cedo – disse Albu, erguendo um pouco a aba do chapéu.

– Olá! – cumprimentou Yuvia, parada um pouco atrás de Hanne.

– Como combinamos ontem, trouxe minha amiga, Yuvia – disse o Gatuno, continuando. – Acho que vocês agora podem se entender melhor, e esquecer a outra conversa. Tínhamos acabado de combater aqueles monstros, não era o melhor momento praquilo.

– Hm... – fez Albu.

– Eu também acho – disse Yuvia, se aproximando. – Albu, eu gostaria de retribuir a ajuda que você nos deu ontem, na pirâmide. Já entendi que você não tem necessidades, mas eu realmente ficaria muito feliz se pudesse lhe fazer algo em troca...

Albu endireitou o chapéu na cabeça, deixando o rosto totalmente visível. Os olhos dourados e serenos do dia anterior refletiam os olhos verdes de Yuvia.

– Eu pensei melhor e aceitaria uma katar – disse ele, pausando um pouco. – Hm... Na verdade, Arqueira... Há alguns dias, eu procurava uma katar nas lojas... Mas os Mercadores estão em falta dela, acabei deixando pra lá...

– E que katar é essa? – perguntou interessada.

– A Katar da Espinheira Empoeirada – respondeu o Mercenário. – Uma katar encantada com a magia da terra... É uma das poucas que me faltam... E bem difícil de conseguir.

– Certo, então é essa katar que eu vou lhe conseguir! – disse Yuvia, determinada.

– Bah, eu sei que os Mercadores da cidade realmente estão sem unidades disponíveis – disse Hanne. – Eu rodei em todos eles antes de virmos aqui, e todos deram respostas parecidas: há algum tempo ninguém tá fornecendo itens encontrados naquela faixa do deserto. Várias pessoas desapareceram por lá nas últimas semanas... E se bem me lembro, são os Arenosos quem guardam essas katares.

– Arenosos... – disse Yuvia, puxando pela memória. – Meus mestres falavam de seres misteriosos, feitos de argila e areia, que habitam o deserto de Sograt. É deles que falamos?

– Sim... – confirmou Hanne. – Muitos Mercenários novatos costumam treinar ali, pela proximidade com a guilda dos Mercenários. Alguns perdem as armas em combate, isso quando não acabam mortos... Os Arenosos absorvem metal e, magicamente, encantam quase tudo que absorvem com a Terra. Não vai ser fácil arrancar uma katar de dentro dessas criaturas, mas... Podemos tentar se quiser, Yuvia! Afinal, ser de uma guilda é justamente pra coisas assim!

Yuvia encarou o largo sorriso de Hanne com um pouco de surpresa. Até imaginava que ele fosse oferecer ajuda, mas não pensara que sentiria tamanha boa vontade de sua parte.

– Hm... não precisam se preocupar ainda... Tenho assuntos a tratar, ficarei na cidade por... uma ou duas semanas... Eu aviso quando partiremos.

Partiremos?! – estranhou Yuvia. – Você pretende nos acompanhar?

– Não se engane, Arqueira... Meu destino era a guilda dos Mercenários antes de encontrá-los – respondeu Albu, levando as mãos para trás e se afastando lentamente. – Eu iria para lá, com ou sem vocês... Ninguém garante que não irão morrer no caminho, e agora fiquei realmente interessado na katar. Vou junto, para garantir. Até.

– Bom, você ouviu, não é? Ele só vai acompanhar a gente porque é caminho dele! – disse Hanne, preocupado com a reação de Yuvia. – Ele é forte, seria bobagem da nossa parte recusar...

– Tudo bem, eu entendi. Não tenho nada contra isso – sorriu a Arqueira, perdendo Albu de vista num piscar de olhos. – Certo, então temos algum tempo antes de deixarmos a cidade... O que pretende fazer, líder?

Hanne sentiu um frio na barriga ao ouvir aquelas palavras. Mal podia acreditar que em pouco tempo, assim que conseguissem o dinheiro necessário para o Emperium, teria sua própria guilda; seu sonho estaria a um passo de se realizar.

– Bah, e o que poderia ser? Vamos arranjar mais missões pra cumprir e juntar toda a grana necessária! Se você precisar de algum equipamento, pode falar, que a gente inclui no orçamento!

Ambos sorriram e continuaram trocando idéias durante o caminho de volta. Falavam sobre os possíveis gastos com o dinheiro extra que conseguissem após as missões que fariam e a compra da pedra, e sobre os locais que iriam conhecer assim que a guilda fosse criada. Yuvia sugeriu de irem para Payon ou Alberta, cidades que costumavam receber muitos aventureiros, e por conseguinte, candidatos em potencial para ingressar na guilda. A Arqueira também criou coragem para iniciar um outro assunto...

– Ei, Hanne... Já que resolveu criar uma guilda, o que você pensa sobre os feudos e seus castelos?

– Como assim? – perguntou Hanne, intrigado.

– Dizem os jornais que grandes guildas mantém o domínio de castelos dos principais feudos de Rune-Midgard – respondeu Yuvia, tentando parecer casual. – Os donos dos castelos recebem valiosos prêmios do Rei semanalmente, e por isso eles são muito disputados. Você pensa em, quem sabe, entrar nessa disputa futuramente?

Hanne permaneceu em silêncio, de braços cruzados e fitando o chão.

– Bom... Eu nunca pensei sobre isso. Eu vivo imaginando uma guilda com muitos membros, verdadeiros companheiros, fortes... Para explorarmos todo o reino, e quem sabe além, até deixar nosso nome gravado na história – disse o Gatuno. – Mas... Talvez, conquistar um castelo possa encurtar esse caminho... Tem algum da sua preferência, senhorita conselheira?

– O Feudo do Bosque Celestial possui castelos maravilhosos! – disse Yuvia, excitada.

– É uma idéia a se pensar – disse Hanne. – Mas antes, temos que criar a guilda oficialmente! Precisamos de recursos...

– Em Payon, os pedidos com recompensas são recebidos pela guilda dos Caçadores... Aqui em Morroc, como funciona?

– Que eu saiba, pedidos desse tipo são levados pra arena – respondeu Hanne, continuando. – Heda é que tem o costume de pegar as missões de lá, toda semana.

– Vamos lá, então! – sugeriu Yuvia.

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As arenas eram os lugares mais populares de Rune-Midgard. Espalhadas pelas principais cidades, não faziam qualquer distinção; a partir do momento que se inscreviam para os combates, eram todos iguais, sob as mesmas regras e condições. Os guerreiros podiam entrar nas arenas sozinhos, ou em grupos. Os confrontos ocorriam em galerias subterrâneas com mais de 300 anos, construídas a mando de Tristan II para treinar seus cavaleiros. Agora, os combatentes iam até a rendição ou morte, na presença de platéias numerosas e ávidas por sangue.

Apesar de ser um costume brutal aos olhos de muitos, as arenas eram permitidas pelo Rei, e controladas pelos prefeitos por impostos diários, arrecadados com as taxas de inscrições e apostas feitas. Além disso, não permitiam a inscrição de membros de Guildas Oficiais ou da realeza.

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Hanne e Yuvia foram para nordeste de Morroc. Logo na entrada da arena, foram abordados pela recepcionista, que explicou como funcionava tudo por ali, tentando convencê-los a se registrarem para os duelos daquela manhã. A dupla recusou, e foi direto ao quadro de anúncios, no outro extremo da sala. Estava cercado por uma dúzia de homens mal encarados, que também procuravam por missões.

– Seria bom escolhermos as missões mais simples, mas com uma recompensa que valha a pena – cochichou Yuvia, ignorando os olhares maliciosos que atraía.

– Você tem razão – sussurrou de volta Hanne, esticando o pescoço para ter uma melhor visão do quadro. – Melhor pegar missões menores, mais rápidas, que assim temos tempo de realizar muitas; do que escolher alguma missão muito complicada só pelo valor da recompensa e correr muitos riscos. Vamos pegar alguns desses cartazes e levar conosco, pra mostrar a Heda. Depois devolvemos os que sobrarem, que tal?

– De pleno acordo!

Hanne se infiltrou entre os homens e chegou até o quadro, de onde retirou vários folhetos e retornou para junto de Yuvia. Todos olharam para ele com estranheza: era raro um Gatuno se interessar por missões como aquelas. Preferiam lutar na arena, vender itens conseguidos em caçadas ou mesmo de formas menos convencionais no uso de suas habilidades; e mesmo quando recorriam ao mural de anúncios, procuravam sempre pelas grandes recompensas.

– Pera aí, rapaz! – disse um dos homens segurando Hanne pelo ombro, que se dirigia até o balcão da entrada. – Não acha que pegou muitos cartazes, não? Divida um pouco com a gente!

O homem estendeu o braço para tomar os panfletos do Gatuno, que prontamente, os escondeu atrás do próprio corpo. Yuvia colou a seu lado, com os olhos atentos às expressões hostis que os homens em volta agora exibiam.

– Aff, seu ladrãozinho infeliz, vou te ensinar só uma...

Antes que pudesse sequer completar a frase, o homem fora arremessado contra a parede do fundo da sala, sob o olhar atônito de todos os presentes. Hanne e Yuvia continuavam imóveis. Ao lado deles, o braço ainda estendido e de punho cerrado da recepcionista.

– Não sejam rudes, homens! – disse a mulher, com o mesmo sorriso gentil de antes. – Se eles querem todas essas missões, que as peguem! Elas já estavam aí antes, vocês tiveram tempo de sobra para escolher, e não pegaram, não é verdade? Não sejam mesquinhos!

Yuvia olhou pasma para a boa senhora, que não parecia ter mais que 35 anos. Agora entendia como era possível que aquela senhora robusta, de cabelos curtos e loiros, sozinha, conseguisse manter a ordem naquele ambiente, mesmo diante dos tantos tipos ameaçadores que frequentavam o local.

– Obrigado, senhora! – agradeceu Hanne, enquanto a mulher lhe entregava um termo de compromisso para assinar. – Sou amigo de Heda! A senhora deve conhecer, ela vem sempre aqui e...

– Escute, rapazinho – interrompeu a mulher, sem qualquer alteração no doce timbre de sua voz –, você pode ser amigo do Rei Tristan IV, isso não interessa. Se não me devolver todas essas missões concluídas, ou trouxer os folhetos conservados como estão, serei obrigada a te ensinar a voar também – completou. – Ah! E diga àquela baixinha fofa que a Mira mandou um beijinho, ok? Vão pela sombra!

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Na noite daquele mesmo dia, Hanne, Heda e Yuvia se encontraram na taberna para decidirem quais missões realizariam ou não; por fim, optaram por todas. Os dias seguintes foram intensos para o trio.

Se aventuraram mais uma vez na esfinge, para conseguir uma Essência de Matyr; e acabaram conseguindo duas, ao que as garotas decidiram presentear Hanne com a segunda. Dessa vez foram mais eficientes: permaneceram menos tempo no prédio e coletaram mais que o dobro de itens valiosos que na vez passada.

Retornaram também à pirâmide. Coletaram dúzias de ossos de esqueletos, requisitados pela guilda dos Magos, em Geffen. Não tiveram problemas e nem surpresas, enquanto derrotavam as hordas de mortos-vivos. Mesmo as temidas Isis, com seus ataques rápidos e traiçoeiros, não foram páreo para a trupe; Heda fazia questão de dar o golpe fatal em cada uma das criaturas demoníacas. Confiantes, decidiram arriscar outra investida no pavimento dos minotauros, mas não se afastaram tanto da porta de entrada, dessa vez, e conseguiram manter a situação sob controle. Tiveram a sorte de obter uma Essência de Minorous, e após insistência da Mercadora, também levaram para casa uma das enormes marretas de aço, sob o pretexto de que fosse ser adaptada para uso próprio. Conseguiram ainda um Bracelete da Obediência, que havia sido ingerido por um dos vários Verits que Hanne derrotara. O item mágico era utilizado para subjugar demônios-serpentes, e era extremamente cobiçado por velhos solitários da nobreza.

Fizeram outras missões nas redondezas da cidade, caçando criaturas selvagens ou objetos raros, todas realizadas com muito sucesso pelo trio, que além de mais forte e experiente, se mostrava cada vez mais entrosado. Entrosamento este, que era reforçado todas as noites.

Como de costume, o trio se reunia na taberna da cidade para comemorar as realizações diárias. Estranhamente, Hanne deixava o estabelecimento bem mais cedo que as garotas naqueles dias. Alegava treinar sua técnica de invisibilidade, Hiding, através de meditação.

A calmaria do sucesso nas missões escondia o real motivo das escapadas do gatuno: Hanne e Albu sempre se encontravam em segredo no deserto, onde costumavam treinar até o amanhecer.

Os trabalhos eram intensos, e árduos. Todos os dias, Hanne tinha mais uma prova disso tatuada no corpo: as feridas abertas não tinham tempo de cicatrizar, e novas marcas despontavam pelo torso e braços do Gatuno. Mas não se deixava abalar, e tinha todo o cuidado para que suas amigas não o vissem. Às vezes, era inevitável enfrentar a fúria de Heda, com manchas de sangue em suas camisas, e as perguntas despretensiosas de Yuvia sobre as bandagens em seus pulsos; mas Hanne conseguia se desvencilhar das duas, sem muito esforço. Elas confiavam nele, e era suficiente. Nesse ritmo, 12 dias se passaram...

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Era uma manhã normal, ou o mais próximo da normalidade de Hanne nos últimos dias. O sol tentava, a todo custo, despertar o gatuno exausto, com seus raios impiedosos da aurora. Tinha se deitado há menos de quatro horas, e além do sono, era divertido ouvir Heda se vangloriar por chegar antes dele para as jornadas; se atrasar alguns minutos era irrelevante. Principalmente, porque naquele dia fariam a última missão que lhes restava dos panfletos retirados da arena, e por conta disso, haviam decidido não partir tão cedo.

O quarto era quente, mas após algum tempo, um calor incomum tomava conta da nuca do Gatuno. Ainda sonolento, tentou ignorar aquilo e descansar por mais alguns minutos, mas a sensação ia se espalhando pelo pescoço de maneira irregular, e não era apenas quente: havia umidade; e agora chegava até sua orelha esquerda.

– Bom di-a, Ho-ney – sussurrou a voz melodiosa.

– Woah! – fez Hanne, ao rolar da cama e cair, se chocando contra o criado-mudo – Mas o quê...?!

Se ergueu rapidamente, empunhando sua adaga com uma das mãos e pressionando o supercílio esquerdo com a outra, de onde escorria um grosso filete de sangue. Não compreendia como – e quando – aquela presença estranha havia adentrado seu quarto sem que ele fosse capaz de percebê-la. Bem era verdade que estava esgotado pelas sessões noturnas de treinamento, mas aquilo já seria uma total incompetência como Gatuno.

Sua perplexidade aumentou quando teve a visão daquela figura feminina deitada sobre sua cama, de lado, com a cabeça apoiada por uma das mãos. Um corpete negro lhe cobria os seios e os quadris. Na cintura, uma grossa echarpe de seda emoldurava suas pernas, enquanto tremulava com a brisa que agora invadia o quarto. Suas botas de cano longo faziam tudo mais provocante... E ameaçador. Hanne notou duas katares encostadas ao pé da cama, também possuiam faixas de seda negra na empunhadura. Eram dela.

– Desculpe se te assustei – disse a garota, com um sorriso insinuante. Seus cabelos negros estavam espalhados por toda a cama e tinham um brilho azulado. Os olhos carmesins encaravam-no como se a qualquer momento fossem cuspir labaredas.

Everhart?! Qu-quando... O que faz aqui? – perguntou Hanne, procurando por sua camisa em todos os cantos, enquanto engolia a seco.

– Ah, me desculpe quanto a isso – disse ela, sentando-se de pernas cruzadas. – Eu e os outros instrutores retornamos a poucas horas, mas eu tava com tantas saudades que não resisti e vim passar a noite com você... E se estiver procurando por isso... – continuou, enquanto girava uma blusa no dedo – Saiba que você fica bem melhor sem!

Hanne puxou sua camisa das mãos de Everhart com extrema agilidade e se vestiu, quase num piscar de olhos.

– Bah, você não devia entrar assim, na casa dos outros! – disse Hanne, tentando manter a firmeza enquanto enfaixava a testa. – Muito menos no quarto! Eu podia estar completamente nu...

– Você não tinha esse tipo de pudor nas várias vezes que tomávamos banho juntos – lembrou Everhart, deitada de bruços, enquanto checava as unhas das mãos. – Além disso, somos noivos...

Irmãos! – esbravejou Hanne, regulando o tom de voz em seguida. – Somos irmãos, e naquela época, éramos crianças!

– Não temos o mesmo sangue, apenas fomos criados juntos e jamais te vi como irmão – retrucou Everhart, cerrando os olhos. – E relaxa, Honey! Já te vi no banho tantas vezes depois disso, que consigo fazer uma perfeita imagem sua em minha mente. Você não deve ter mudado tanto nesses dois anos que estive fora...

Hanne levou a mão à testa e sacodiu a cabeça, em sinal de reprovação; e também para cobrir o rosto, que ardia como nunca...

– Bah, seja como for, agora não tenho tempo pra conversar. Preciso me apressar.

– Onde você vai? – interessou-se Everhart, rolando da cama e pondo-se de pé num instante.

– Me siga, que eu vou contando no caminho.

Notas finais
Well, pequeno atraso na postagem, mas faz parte. Se bem que, de modo geral, ainda tô na média de 1 cap por semana, pois já postei mais de um juntos... XD~
No próximo capítulo...
O passado de Hanne e da cidade de Morroc.
Não percam! :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.