New Siege
2 Capítulo 2 - Colhendo os frutos.
Notas iniciais
Hanne Guile finalmente passa no teste, após 14 tentativas frustradas. Um novo mundo se abre para o jovem Gatuno.
Algumas horas mais tarde, a noite escura de Morroc era iluminada por fogos de artifício e pelas chamas da imensa fogueira acesa na praça central, próxima ao castelo. Era de costume da população comemorar formandos Gatunos com muita comida e bebida, numa festa que se estendia madrugada adentro.
Hanne, que nas festas anteriores experimentara o sentimento amargo da derrota, mal podia conter o entusiasmo. Falava alto e mexia com todos, fazendo sua simpatia de outrora soar como mau–humor comparado ao seu estado atual.
Heda também estava muito feliz pelo amigo, ainda que uma parte de si estivesse apreensiva. Ela conhecia os planos de Hanne para quando se tornasse um Gatuno, sabia que ele não ia ficar para sempre acomodado em Morroc...
– Toma, Heda, vira um gole disso aqui – disse Hanne, sentando-se ao lado da Mercadora, que estava em um local um pouco mais afastado do aglomerado de pessoas.
– Ah, obrigada – sorriu por educação enquanto recebia o copo.
– O que foi? Você parece um pouco desanimada... Tá com dor de barriga depois de comer tanto? – perguntou Hanne, tentando tirar a seriedade da amiga.
– Não, besta – respondeu com uma pequena irritação na voz. – Ah, é que agora que você se tornou Gatuno vai poder finalmente realizar o que você sempre quis, que era criar sua própria guilda. É claro que eu estou feliz com isso, é só que... você vai viajar por várias cidades, conhecer muitas pessoas novas e interessantes, fazer amizades, conhecer outras garotas... não vamos ter o mesmo contato, sabe?
– Vem comigo? – propôs Hanne, virando um gole da bebida à base de cactos enquanto olhava as estrelas.
– Eu não posso – respondeu Heda com um sorriso discreto. – Tenho minha loja pra cuidar...
– Bah, você pode contratar alguém pra tomar conta – insistiu Hanne. – Pensa bem no quanto seria divertido a gente sair por aí, sem rumo certo, sem pressa de chegar a lugar algum. Você tem seu carrinho, poderia continuar fazendo seus negócios normalmente. Aposto que iria desbancar qualquer concorrência! Além disso, a gente podia achar um pessoal legal e convidar pra nossa guilda. Seria como começar uma família!
Heda ruborizou de imediato e passou a olhar o copo que segurava sobre o colo.
– Olha, vamos fazer o seguinte: você não precisa decidir isso agora. Não é como se eu fosse embora amanhã ou depois, não é mesmo? Ainda vai levar no mínimo mais alguns dias até que eu esteja preparado pra partir. Até lá, eu continuo te perturbando e você pensa mais no assunto antes de me responder – disse Hanne, se espreguiçando em seguida. – Eu vou dar um pulo ali embaixo, ver se os caras ainda tão jogando cartas. Quer vir?
– Não... Pode ir. Só vou ficar aqui mais um pouquinho, depois vou pro meu quarto. Mais tarde a recepção da hospedaria vai estar cheia de gente caindo pelos cantos, prefiro ir enquanto ainda tá mais tranquilo – explicou Heda.
– Tudo bem. Nos vemos amanhã – despediu-se Hanne, partindo em disparada na direção de uma mesa de madeira rodeada por alguns homens visivelmente bêbados.
– Uma família, hã... – disse Heda em voz baixa para si mesma, virando de uma só vez toda a bebida.
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Hanne sentiu uma ponta de preocupação com o comportamento da amiga, geralmente sempre bem disposta, ativa, mas naquela altura da noite – e após a quantidade de suco de cactos que havia ingerido – já não conseguia manter pensamentos sérios por mais que alguns instantes. Sua euforia era evidente e sentia vontade de botar toda aquela alegria para fora, mesmo que fosse numa simples mesa de carteado.
Hanne se aproximou dos quatro homens sentados à mesa. Eram três Mercenários e um Arruaceiro, evoluções alcançadas com o desenvolvimento pleno das habilidades de um Gatuno. Todos tinham uma aparência intimidadora: roupas escuras, lâminas embainhadas na cintura, cicatrizes pelo rosto e braços; e falavam alto, muito alto. Proferiam frases de provocação uns aos outros que de longe poderiam ser interpretadas como o princípio de uma briga, mas na verdade eram apenas palavras de desafio antes – e depois – de cada jogada.
– Eu sabia que era um blefe, seu porco fedido! – esbravejou um dos homens.
– Tua mulher nunca reclamou do meu cheiro, safado! – respondeu outro.
– E nem do meu! – completou um terceiro.
– As frangas vão namorar a noite inteira ou vão dar as cartas logo? – interrompou um quarto homem – E não falem da minha amante desse jeito durante o jogo!
Os quatro homens gargalhavam, quando Hanne parou ao lado da mesa.
– Como vão, caras? – perguntou Hanne. – Posso jogar com vocês?
– Como é, moleque? – perguntou o Mercenário de aparência mais velha.
– Ora essa, um maldito Gatuno! – disse o Arruaceiro, medindo Hanne com ar de desprezo. – Puxe uma cadeira, noob, e vamos jogar!
– O que estão jogando? – perguntou Hanne já igualando seu tom de voz aos dos jogadores.
– Nem faço idéia. Só sei que estou ganhando! – respondeu o Mercenário que usava uma bandana pirata preta.
Novamente todos cairam em gargalhadas, dessa vez acompanhados por Hanne.
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A música, as danças e os jogos continuaram por mais algumas horas. Hanne já havia deixado seus parceiros de jogo – todos bêbados – e agora andava entre as barracas de bebidas, comidas e jogos espalhadas ao longo das calçadas de pedra.
Ao passar por uma dessas barracas, percebeu o alvoroço em torno dela. Resolveu parar e ver do que se tratava.
– Aêêê! – comemorava a torcida da jovem que acabara de acertar o alvo de madeira, fixado em uma palmeira a pouco mais de dez metros dali.
– Impressionante, não é mesmo? – perguntou um homem que estava ao lado de Hanne. – Essa moça acertou todos os dardos que jogou até agora bem no centro do alvo! É incrível! Já tem pelo menos 15 minutos que ela tá jogando e sequer passou perto de errar um arremesso!
Hanne ergueu as sobrancelhas em reação às palavras do homem e observou com atenção a jogadora.
Era uma mulher jovem, alta, esbelta, com uma pele tão alva quanto os extintos elfos; seus cabelos, quase loiros, desciam lisos pelas costas para além dos quadris. Vestia trajes bem diferentes do costumeiro naquela região: um colete justo no corpo, saia curta com discretas aberturas nas laterais e botas de cano longo, um belo uniforme de couro azulado. Carregava nas costas uma aljava e segurava na mão direita um objeto longo enrolado em um pano negro.
A jovem fez mais dois arremessos precisos e se voltou para o dono da barraca.
– Acho que seus dardos se esgotaram – sorriu com delicadeza.
– 180 arremessos... 180 acertos! – disse o homem, espantado. – Incrível! Toma aqui sua recompensa: uma Velha Caixa Azul!
– Muito obrigada – disse a jovem ao receber o objeto, em meio aos aplausos e assobios dos que estavam em volta.
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A Velha Caixa Azul era um dos vários tipos de itens mágicos existentes em Rune-Midgard. Seu interior era vazio, mas dizia-se que uma vez aberta, materializava um presente para seu senhor. Feito isso, sua essência mágica era consumida e ela se tornava uma caixa velha e comum. Assim como a Velha Caixa Roxa, uma versão mais rara, eram itens altamente cobiçados no reino.
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A jovem desembrulhou o objeto que carregava – um arco prateado talhado com figuras de dragões – e usou o pano negro para envolver a caixa. Seus olhos verdes observaram a pequena multidão a sua volta com alegria, antes dela dar as costas para aquela barraca e partir.
– Que Arqueira incrível – pensou Hanne em voz alta.
O Gatuno fez menção de ir atrás dela, mas um breve instante de hesitação foi o suficiente para perdê-la de vista.
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Na manhã seguinte, não havia quase nenhum sinal de uma festa em Morroc. Apenas bêbados dormindo em alguns becos, como se estivessem mortos. A rotina da cidade prevalecia.
Na loja de armas e armaduras, Hanne observava com fascínio a variedade de itens à disposição dos compradores. De armaduras de metal pesado à roupas feitas de liga leve e couro; de punhais e adagas à longas espadas e lanças; havia também alguns poucos tipos de arco. Tudo devidamente etiquetado com seu preço em Zeny, a moeda do reino. Mas o foco da atenção de Hanne era uma adaga especial: a Damascus.
– Já tá aí babando, né? – perguntou Heda, chegando de repente por trás de Hanne.
– Claro! – sorriu Hanne. – Foi duro juntar grana pra comprar uma dessas, mas agora que me tornei um Gatuno não posso andar por aí com uma simples Main Gauche.
– Eu aceito essa adaga como parte do pagamento! – propôs Heda enquanto seguia para trás do balcão.
– Espero que uma grande parte... – disse Hanne, meio sem jeito.
Heda destrancou uma gaveta e retirou dela uma caixa retangular de madeira com detalhes metálicos nas bordas. Abriu-a e retirou do forro branco, com cuidado, a adaga de lâmina espelhada.
– Aqui – disse Heda ao oferecer-lhe a Damascus.
– Minha nossa! – maravilhou-se o Gatuno. – Olha que guarda bem feita! Que fio de corte! E mais leve do que aparenta... Não vejo a hora de sair pra treinar com ela!
– Realmente, é uma das melhores adagas fabricadas em Rune-Midgard – disse Heda. – Acima dela estão somente as adagas de nível 4; e do mesmo nível a mais próxima é a Gladius, que é um pouquinho menos eficiente, segundo dizem.
Hanne agitava a adaga de um lado para o outro, como se pudesse cortar o ar. Nesses movimentos, sua lâmina assumia um tom avermelhado.
– Por Odin! É a primeira vez que empunho uma Damascus Flamejante, jamais havia visto uma de tão perto! – disse Hanne com brilho nos olhos. – Bah, não me importo o quanto ela vai custar. Dou todo o dinheiro que tenho e ainda trabalho de graça aqui na loja pra pagar o que faltar!
– Uma Damascus comum custaria em torno de 49 mil zenies. Porém, como essa é forjada com o elemento fogo, feita sob encomenda por um Ferreiro de Geffen, não se acha por menos de 800 mil em parte alguma – explicou Heda.
– Uau, 800 mil! – disse Hanne. – Mas você disse que faria um descontinho, né? Preciso deixar nem que seja uma merreca guardada pra quando for partir.
– Sim, eu disse – respondeu Heda, pausando por alguns segundos. – Vou te cobrar 200 mil.
– Só isso!? – espantou-se Hanne. – Mas é ¼ do preço! Isso seria um baita prejuízo pra você, não?
– Na verdade, não – sorriu Heda, corando um pouco. – Ah, considere isso um presente meu pela sua formação. Além disso, esse valor cobre praticamente o custo da matéria-prima e o trabalho do artesão, então não tem problema.
Hanne colocou a Damascus sobre a caixa de madeira, ainda aberta, e tomou Heda em seus braços.
– Valeu mesmo, Heda! – disse Hanne acariciando os cabelos da Mercadora. – Por essas e outras é que você é minha Mercadora predileta!
– De nada... – disse Heda completamente corada, retribuindo o abraço timidamente.
Nesse instante, um cliente entra na loja e se dirige ao balcão.
– Oi, Heda, pra que lado mesmo você disse que ficava a esfinge?
– Oi, Yuvia! – cumprimentou Heda, afastando-se de Hanne. – Fica a oeste da cidade. Mas, não vá ainda, espera! Deixa eu te apresentar antes... Prima, esse é o meu melhor amigo, Hanne. Hanne, essa é minha prima lá de Payon, Catrin Yuvia. Ela é uma Arqueira...
– ...Incrível – balbuciou Hanne ao reconhecer a jovem à sua frente.
Notas finais
A procura de Yuvia, os perigos da esfinge e o início de uma bela parceria.
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