New Siege
1 Capítulo 1 - A segunda etapa.
Cidade de Morroc, Sul do Reino de Rune-Midgard.
O dia amanhecia, mas o calor era escaldante como sempre na cidade cravada no coração do deserto de Sograt. Cercada por muros altos de pedra, a cidade era uma fortaleza à distância. No centro, estava o imponente castelo que servia de sede da Guilda Oficial, a polícia local sob ordens diretas do prefeito. Em volta, dezenas de casas feitas de tijolos, madeira e palha, em ruas estreitas e descaracterizadas. A cidade ainda tinha muitos becos, alguns sem saída, onde sujeitos mal encarados passavam boa parte do dia bebendo ou planejando furtos; outros levavam até a faixa mais extrema da cidade. Lá ficavam os prédios comerciais, como lojas de utensílios em geral, de armas e armaduras, a taberna e diversas barracas de vendedores ambulantes.
A população era simples, e devido ao calor constante usavam roupas de tecidos leves e arejados. Os mais jovens costumavam usar peças mais ousadas. Muitos usavam lenços nas cabeças para se protegerem das tempestades de areia que se chocavam contra a muralha da cidade.
Sob o arco de pedra do portão norte da cidade, um rapaz alto permanecia parado, de braços cruzados. Sua pele queimada de sol contrastava com os cabelos longos e acinzentados, que balançavam com a brisa quente; seus olhos castanhos, semicerrados pela claridade, fitavam o horizonte de areia. Usava roupas escuras, camufladas com os tons do deserto, e carregava uma adaga embainhada na cintura. Pelo porte físico e posição em que estava, era facilmente tomado por um guarda local, apesar de sua aparência jovem. Tinha apenas 19 anos.
Contemplava o horizonte, imóvel, até perceber o som de rodas de madeira triturando areia na passagem. Uma carroça se aproximava. De soslaio sobre o ombro direito, viu uma jovem puxando seu carrinho de mão, feito de madeira e bem ornamentado com flores e lacinhos.
– Oi! Oi! Oi! – gritava a jovem. – Humpf! Mas que coisa! Por que não me esperou, eu disse que só ia encher meu carrinho e te acompanharia...
Mesmo com a careta de descontentamento, ela era encantadora. Tinha olhos prateados e brilhantes, em harmonia com seus longos cabelos brancos arranjados em tranças. Sua saia longa e clara dava uma elegância ímpar a seu andar, contrastando com as luvas grossas que chegavam quase aos cotovelos, e a camiseta justa, que acentuava suas curvas femininas. Apesar de sua baixa estatura – que ficava evidente diante do carrinho abarrotado de itens – era dona de uma força incomum. Não demonstrava nenhum cansaço, mesmo puxando aquele carrinho pesado por boa parte da cidade, e sozinha.
– Bah, você sabe ser lerda quando quer, Heda – respondeu o rapaz em tom sereno.
– Aff, Hanne! Eu não posso fazer nada quanto à isso. Uma Mercadora deve sempre estar com seu carrinho de prontidão, afinal, não se sabe quando ou onde vai surgir um bom negócio – disse com orgulho.
– Tá bom, tá bom. Vamos indo então, porque já está quase na hora.
Juntos deixaram a cidade, rumo ao nordeste do deserto. Durante a caminhada, conversavam sobre os três anos anteriores nos quais Hanne havia fracassado no mesmo teste que estava prestes a repetir: mudança de classe para Gatuno.
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Em Rune-Midgard, entre muitas tradições, há uma em especial, herdada da 1ª geração de reis, que consiste em semear entre os cidadãos o espírito guerreiro dos deuses da antiguidade. Para isso, ainda jovens, os cidadãos eram iniciados como Aprendizes, recebendo treinamento básico de combate. Aqueles que atingiam certos níveis de habilidade eram encaminhados para um teste de aptidão, onde descobriam em qual das seis classes de guerreiros traria mais desenvolvimento. Apesar disso, alguns escolhiam sua própria classe, e outros preferiam seguir uma vida mais pacata.
As seis classes possuiam aptidões extraordinárias com seus elementos: os Arqueiros dominavam os ares com a precisão de seus arcos e a capacidade de observação; os Noviços eram mestres das artes medicinais que desenvolviam seus poderes físicos e/ou espirituais através da fé; os Magos controlavam os poderes arcanos e os elementos da natureza; os Mercadores eram mestres das artes de barganha, regendo a economia no reino, e capazes de desenvolver uma força descomunal com seus machados; os Espadachins eram senhores das técnicas de combate com espadas e lanças, mantendo vivos os ensinamentos religiosos nos corações de suas armas; e os Gatunos eram experts na agilidade e furtividade, adquirindo habilidades ímpares no manuseio e criação de venenos, bem como antídotos.
Dentro dessas classes, era possível desenvolver habilidades e evoluir a níveis alcançados somente pelos melhores guerreiros de Rune-Midgard.
As classes possuem raízes nas cidades do reino, prestando homenagens aos fundadores e suas origens. Os que escolhem os caminhos das classes também definem seus lares. Morroc era a cidade dos Gatunos.
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Heda, nascida na cidade de Alberta, já era Mercadora há cinco anos, mesmo tempo pelo qual cultivava sua amizade com o Morroc’ar.
Ele ainda era Aprendiz, e aquela seria sua última tentativa de se tornar Gatuno. Não era uma decisão desesperada, mas uma aposta em seu próprio futuro: era vencer ou vencer.
– Enfim, chegamos – disse Hanne, olhando para a entrada de um prédio similar a um templo, feito de pedras brancas. – É isso, agora vou me tornar Gatuno.
– Boa sorte! Estarei aqui fora torcendo por você – disse Heda tentando passar tranquilidade, apesar da apreensão que sentia naquele momento, tão importante para o amigo.
Hanne sorriu e entrou no prédio. Era um local minúsculo, com uma escadaria rumo ao subterrâneo, iluminada por poucas tochas.
Heda viu o amigo desaparecer na escuridão e se acomodou na sombra de um coqueiro que havia no pequeno oásis, a alguns metros do prédio. Após alguns instantes, o barulho do vento carregando a areia começava a acalmar a Mercadora.
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Hanne chegou no final das escadarias e avistou um homem já conhecido de longa data. Um sujeito barbado, trajando um chapéu surrado e carrancudo, o saudava.
– Olha só quem está aqui... De novo – ironizou o homem responsável pelo teste. – Hanne Guile... tenho que admitir, você realmente é um sujeito persistente. Venha comigo, repetente!
Apesar da provocação, Hanne se manteve inalterado. Passou pelo homem sem dizer uma única palavra e atravessou a abertura na parede que levava para outra área ainda mais escura e misteriosa. Chegando lá, o responsável pelo teste explicou por alto seu objetivo e suas regras.
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O teste para Gatuno consistia em duas etapas. Na 1ª delas – na qual Hanne sempre era aprovado – era feita uma entrevista, onde o Aprendiz tinha seu passado investigado para identificação de seu perfil. Caso fosse alguém com um histórico muito sujo ou tivesse qualquer tipo de pendência junto às autoridades do reino, era reprovado; mas se fosse alguém excessivamente correto, sem nenhum tipo de pecado anterior, também era reprovado – afinal, um Gatuno é aquele acostumado a agir nas sombras e cumprir tarefas nem sempre politicamente corretas. Era necessário ter um equilíbrio.
Na 2ª e última etapa, era exigido do Aprendiz conciliar várias características: capacidade física, perícia em identificar venenos, intuição natural e eficiência. Ele era levado até um labirinto de onde deveria conseguir sair sozinho no tempo estipulado pelo aplicador do teste. Além disso, precisava coletar pelo caminho uma certa quantia de cogumelos venenosos e não–venenosos, que também era decidida pelo responsável dessa etapa.
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– Assim que eu fechar a porta, você começa o teste. Terá três minutos para me encontrar na saída com 100 cogumelos, sendo 49 venenosos. Boa sorte, rapaz. Espero não te ver aqui novamente – disse o homem ao entregar uma tocha para Hanne e sair.
Hanne deu uma rápida olhada à sua volta. Seu raio de visão era limitado pela luz do fogo, mas pôde perceber que à sua frente havia três caminhos, separados por muros cobertos por plantas e musgos. Decidiu seguir pelo caminho da direita e avançou cauteloso, pois precisava identificar e coletar os cogumelos que brotavam no lodaçal que se estendia.
Durante o percurso se deparou com diversas interseções. Prosseguia concentrado em coletar os cogumelos; não podia descartar nenhum cogumelo arrancado e nem colher além da quantia exata exigida pelo aplicador do teste. Desperdiçar tempo analisando também não era uma opção, tendo em vista que aquele labirinto era um completo mistério: não existia um mapa capaz de descrevê-lo, pois suas paredes eram como seres vivos que se locomoviam de dias em dias, alterando totalmente a configuração do lugar.
Outro empecilho eram os constantes insetos que surgiam. Não insetos comuns, estes eram do tamanho aproximado de um gato adulto, e ao contrário do normal, agiam de forma agressiva. Uma espécie era um tipo de lagarta conhecida como Fabre e a outra uma mosca chamada Chonchon. Por isso, Hanne empunhava sua adaga na mão direita enquanto colhia os cogumelos e guardava nos bolsos com a esquerda.
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Do lado de fora, Heda procurou fazer de tudo para matar o tempo de espera: desembalou e reorganizou os itens de seu carrinho várias vezes, amolou as duas lâminas de seu enorme machado, cantarolou músicas de Bardos e Odaliscas, atirou pedras no pequeno lago, caminhou de um lado para o outro, correu em torno do templo; por fim, se atirou para trás de costas no chão, com os braços e pernas abertos.
– Ai, por Odin, como isso tá demorando! Não aguento mais esperar... Acho que não vai fazer mal se eu entrar pra dar uma olhadinha, né? – falou sozinha. – Não, Heda Hermansen! Você vai é ser expulsa pelo fiscal do teste. Como espera que ele repare em você se agir feito uma louca? Comporte-se, mulher!
Dito isso, fechou os olhos e começou a pensar em Hanne e no tempo que passaram juntos desde que se conheceram. Os treinamentos, as farras, as broncas que receberam quando ele se metia em áreas perigosas e ela ia atrás. Todas essas lembranças boas e que a faziam sonhar acordada.
– Ai, Hanne...
– O quê?
– Nossa, preciso parar com essa mania de ficar falando sozinha... Agora ouço a voz dele aqui, que loucura – disse a si mesma, ainda de olhos fechados.
– Tá tudo bem com você, Heda? Tá sentindo alguma coisa?
Heda abriu os olhos e viu o rosto sério do rapaz muito próximo ao seu. Nos segundos seguintes, o rosto dela mudou completamente de cor, assumindo um vermelho vivo, quase brilhante. Subitamente, ela se levantou, e os dois bateram testa com testa.
– Argh! Por que fez isso? – se assustou Hanne, levando as duas mãos à testa.
– Ai! O que você pensa que tá fazendo? – gritou constrangida com as mãos no rosto, reduzindo bruscamente o tom de voz em seguida. – E há quanto tempo você tá aqui?
– Droga – resmungou Hanne, ainda esfregando a testa. – Eu voltei agora mesmo. Vi você estirada aqui no chão, falando coisas sem sentido, pensei que estivesse passando mal ou algo do tipo...
– Coisas sem sentido? – perguntou enquanto mexia no carrinho, tentando disfarçar a vermelhidão de seu rosto.
– Bah! Não tava preocupado em dar atenção pro que você dizia, mas sim em saber se você tava bem. Com a força dessa cabeçada, pelo menos fisicamente já deu pra notar que você tá bem saudável.
– Ah, quem manda você aparecer assim do nada na frente da gente... – disse aliviada por ele não ter escutado seu pequeno monólogo. – Mas vamos esquecer isso. Me diz! Como foi o teste? Você conseguiu?
– Sim, consegui. Agora sou um Gatuno! – respondeu Hanne, com orgulho no sorriso largo que se abria em sua face.
– Meus parabéns! Eu sabia que você ia conseguir! – felicitou a jovem, também sorrindo enquanto voltava à sua tonalidade natural de cor.
– Pois é, não foi nada fácil. Lidar com os insetos foi tranquilo, mas aquele caminho confuso e escorregadio complicou bastante as coisas. E aquele barbudo miserável também pegou pesado dessa vez, pediu 20 cogumelos a mais que antes. Eu acho que dessa vez só consegui porque na hora pensei em você...
– Pensou em mim? – perguntou Heda, sentindo o coração acelerar novamente.
– Sim – disse Hanne, cerrando os olhos e falando com naturalidade. – Eu lembrei do último Natal, quando você inventou de cozinhar cogumelos. Aquele gosto horrível só podia ser de cogumelo venenoso. Foi só lembrar do cheiro, que consegui identificar sem problemas quais eram os venenosos.
– Ah, isso – disse Heda, sentindo uma mistura de decepção com vontade de golpear o novo Gatuno. – Bom, chega de papo e vamos voltar logo pra Morroc!
– Tá legal. Não vejo a hora de passar na sua loja e ganhar aquela Damascus elemental de fogo que você havia me prometido...
– Não senhor! – interrompeu Heda. – Eu te prometi aquela adaga caso você se tornasse Gatuno em até 14 tentativas. Como essa foi a 15ª, o máximo que posso fazer por você é dar um desconto no preço dela.
– Tá bom... Obrigado – agradeceu Hanne, um pouco menos animado após as palavras da amiga.
Notas finais
A alegria de Hanne, sua preciosa Damascus e o surgimento de uma nova personagem.
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