New Romantics
3 Você mal sabe
Notas iniciais
São 17h38min quando ouço o ronco do motor do Ford Fusion de meu pai. Ele o estaciona frente à porta da garagem e entra rapidamente em casa, como se estivesse esquecido de algo.
Desço alguns degraus para poder ouvir a conversa deles sem que notem a minha presença.
– Por que tanta pressa? – pergunta minha mãe sentada no sofá da sala assistindo o final da novela. – Aconteceu alguma coisa?
– Não, só vim buscar um documento para levar para os compradores da casa do centro. – diz ele. – Finalmente consegui vendê-la.
– Que ótima noticia. — diz minha mãe abaixando o volume da TV.
– Preciso que você esteja pronta as oito, pois iremos jantar no novo Bistrô que inaugurou no centro. – pede meu pai.
Quase dou um grito de alegria. Finalmente meu pai estava agindo de maneira correta com minha mãe. Gostava de perceber isso.
Ela se empolga e espera ele sair novamente. Eu subo a escada correndo e entro em meu quarto e logo em seguida ela entra também como se fosse me contar uma novidade.
– Filho, eu e seu pai vamos jantar fora hoje.
– Que bom. – digo como se não tivesse tanto interesse no programa deles dois. – Vão aonde? – pergunto.
– Iremos ao novo bistrô do centro. – ela diz empolgada. – Comporte-se como um jovem adulto. – instrui ela.
– Sim, senhora presidenta. – brinco tirando um sorriso imenso de seu rosto.
Minha mãe corre para seu quarto e começa a vasculhar em seu armário uma roupa adequada.
Apenas a ouço dizendo: “esse não”, “muito chamativo” e assim por diante.
Fecho a porta do meu quarto e ligo a música em uma altura que não possa ouvir sua voz de indecisão.
Pego meu telefone e abro o whatsapp, clico no nome de Daiana.
– Olá “paixão”!
Ela demora alguns minutos para ver a mensagem, e espera de dois minutos parece ser eterna.
“Oi”
– O que você vai fazer hoje?
“Além de ficar em casa deitada, nada.”
“E você?”
– Vou ficar em casa, sozinho, minha mãe vai sair pra jantar com meu pai.
– Não quer vir aqui?
Mais uma vez ela demora alguns longos minutos para responder.
“Que horas?”
– Ali pelas oito.
“Pode ser”
“Agora vou ter eu ver o que minha mãe quer, porque ela está gritando igual há uma louca que fugiu do hospício.”
Ela me manda um áudio com sua mãe gritando e consigo ouvir apenas: “larga essa porcaria e vem logo aqui”.
Largo meu telefone em cima da cama e decido abrir meu facebook e uma mensagem do bate-papo ilumina meus olhos quando a abro.
“Oi, tudo bom?”
– Oi, tudo sim e com você?
“O que você vai fazer hoje à noite?”
– Vou assistir a um filme com minha amiga.
“Só amiga?”
– Sim, ela não faz o meu tipo.
“E qual é o seu tipo?”
– Alto, moreno, com o nariz meio arrebitado.
– Igual a você.
“Bom saber”
“Preciso me arrumar, meus pais vão levar minha irmãzinha ao circo e eu vou com eles.”
– Divirtam-se.
“Você também”
A conversa termina naquele “você também”.
Logo mais a noite, minha mãe entra em meu quarto. Paro para olhar bem para ela que veste um vestido preto até os joelhos com uma bolsa prata e um sapato preto com prata e os cabelos presos no alto da cabeça.
– Você está linda. – digo a ela que fica corada de vergonha.
– Juízo garoto, e não faça besteira. – ela me aconselha.
Ela desce as escadas e pela janela do meu quarto a vejo entrar no carro com meu pai e saírem para se divertirem.
Fico mais feliz do que eles próprios, eu acho.
A campainha da casa toca e vou correndo para abrir, é Daiana que já está lá. Ela mora a três casas da minha então não tem problema ela sair da minha casa tarde da noite.
– Oi, achei que tinha mudado de ideia. – digo.
– Minha mãe está meio chata hoje. – ela diz colocando sua bolsa em cima do sofá.
– Eu notei pelo áudio que você mandou. – nós dois rimos.
Ligamos a TV e colocamos os dois filmes em cima da mesinha de centro.
– Qual nós assistimos? – pergunto – Guardiões da galáxia ou Se eu ficar?
– Se eu ficar. – diz ela. – Acho a história muita linda. – complementa.
Decidimos assistir Se eu Ficar, que conta a história de Mia Hall.
Ligamos o DVD e fazemos pipoca com cobertura de chocolate, a minha favorita. Sentamo-nos e começamos a assistir ao filme.
Assistimos ao filme com uma caixinha de lenços de papel do lado. Daiana é uma manteiga derretida e chora sempre quando assiste a dramas.
– É lindo esse filme. – diz ela.
– Claro que é. – concordo com ela alcançado a caixinha de lenços. – Tenho que te falar uma coisa.
– Pode falar. – ela me abertura para contar sobre Ian.
– Eu conheci um garoto. – inicio. – O nome dele é Ian e estou gostando dele.
Ela faz uma pausa que me tortura por achar que ela não vai me dar apoio.
– Que bom. – diz ela. – Agora é a chance perfeita de contar a seus pais sobre você.
– Eu sei, mas quero esperar para ver o eu vai acontecer entre mim e ele. – digo colocando uma pipoca na boca. – Tenho medo de me iludir e acabar dando de cara no chão.
– Eu sei, mas quanto mais tempo você demorar pra falar, mais difícil vai ser. – ela diz como se já tivesse passado por isso.
– É complicado, você sabe como são meus pais. – digo a ela. – A única pessoa da minha família que sabe é minha irmã e todos os dias me arrependo de ter contado a ela.
– Por quê? – ela simplesmente pergunta.
– Porque tenho medo que ela conte para meus pais antes de mim. – respondo. – E se ela fizer isso pode ser que tudo vire de cabeça pra baixo.
– E esse Ian, ela já assumido pra família? – pergunta.
– Não sei, não perguntei ainda. – falo para ela pegando mais pipoca. – Eu o encontrei na livraria do shopping e depois no supermercado.
– E já está gostando dele? – ela pergunta espantada.
– Eu tive um sonho noite passada com um garoto e esse garoto era ele e estava vestido como ele. – conto a ela que presta atenção em todos os detalhes. – Não acredito no destino, mas dessa vez parece que ele está armando alguma coisa pra mim.
– Que fofos, mas pensa bem antes de se jogar de cabeça. – ela me aconselha. – Já está ficando tarde, é melhor eu ir pra casa.
– Também acho. – digo. – Vou te levar até um pedaço.
Levantamo-nos e saímos de minha casa com a lua brilhando linda e cheia no alto do céu estrelado.
– Até amanhã. – digo a ela frente a sua casa.
– Até. – ela responde fechando a porta.
Volto para casa observando a noite perfeita para um romance.
Quando entro em casa, subo direto para meu quarto e fico na janela observando a lua brilhante por um bom tempo.
A imagem de Ian na livraria vem a minha cabeça. Não consigo tira-lo de minha cabeça. A única coisa que penso é em mim e ele.
Poderia estar isso acontecendo mesmo, ou eram apenas meus pensamentos me iludindo novamente.
Uma brisa entra em meu quarto e me arrepia como se alguém tivesse soprado em meu pescoço.
Deito-me na cama com a janela aberta e fico observando o céu de onde estou. Adormeço em seguida com meu rosto sendo iluminado pela luz das estrelas no reflexo na lua cheia.
[...]
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