"Eu juro que se comer mais um pedaço de pizza nesta vida, vou fugir daqui", Astrian pensou. Realmente, faziam semanas em que essa foi a única alimentação da "família Lamperouge". Astrian pensava em contrariar a sua mãe, dizendo algo sobre "como ela deveria se preocupar mais com o desenvolvimento corporal do filho" ou algo assim, mas ele sabia que era impossível contrariar a Bruxa Imortal, que viu impérios serem erguidos e destruídos. Então, o que restou? Apenas a cara emburrada de Astrian.

Não que C.C. fosse uma mãe ruim. A verdade era que C.C. sempre estava feliz por ter um marido e um filho, ter companheiros que estivessem sempre com ela, mas às vezes Astrian tinha a impressão de que ela se esqueceu de traços essenciais de humanidade. Ele decidiu que dedicaria boa parte de sua vida a relembrá-la.

Lelouch, o Imperador Demônio, obviamente precisou se disfarçar do mundo para continuar vivendo, então pintou seu cabelo de branco, era o suficiente, já que, pelo menos, a face dele era bem comum. C.C. permaneceu como sempre, com sua beleza enorme e com um longo cabelo esverdeado. Astrian caminhava por uma estrada que ligava uma cidade do interior de determinado país a outra. Estava um pouco quente, então eles andavam nas sombras.

C.C. estava do lado esquerdo, Lelouch do direito e Astrian no meio, todos de mãos dadas. Uma grande quantidade de árvores lhes garantiam sombra.

"Se não fosse pela a inteligência do papai, jamais teria aprendido a ler, já que nunca frequentei uma escola. Até quando... até quando terei que viver escondido? O papai e a mamãe podem ser imortais, mas...", Astrian pensou, mas se interrompeu, ao notar que chegou nos portões da nova cidade.

Não haviam guardas, como era de se esperar. Lelouch tinha uma regra estranha: não permitir que Astrian usasse o Geass. Segundo Lelouch, o Geass te deixa entre a bondade e a maldade, bem no limite e muitos caem para a maldade e para erros.

"Sim, não preciso me conter, isso é injusto. Por quê todos estão felizes lá fora e só nós três temos que nos esconder de tudo e de todos? Isso não é um mundo bom, não pra mim", Astrian pensou.

– Chegamos, Astrian — C.C. falou e, surpreendentemente, deu um sorriso, embora fraco. Astrian suspirou.

E assim os dias se passaram, Astrian notou que, como de costume, foi parar numa vila, onde as pessoas eram singulares e faziam coisas comuns. Na verdade, se passaram três dias, ele teria mais ou menos dois meses para ficar naquele lugar com seus pais, embora o tempo de estadia sempre variasse. Por algum motivo, Astrian gostou muito daquela cidade, então começou a ter o hábito de esperar seus pais dormirem de noite e ir passear por aquele lugar.

Naquela madrugada em específico, Astrian caminhava pelo o campo. Ele vestia uma camisa social branca e uma calça negra e chinelos. Naquele campo, havia uma árvore, ele se encostou nela. Mas algo parecia um pouco errado, ele sentiu uma angústia estranha em seu coração e começou a explorar mais o lugar. "Devo estar louco", pensou.

E, então, ele começou a ouvir gritos. Seu coração acelerou-se, eram gritos baixos, mas ele ainda podia ouvir.

– Mamãe! Mamãe! — Astrian ouviu a voz de uma criança. Ele notou três homens cercando alguém.

Ele correu até aquela direção, parando pouco depois, ao notar a cena. Havia uma mulher com um vestido sujo e ensanguentado, ela estava no chão. E, ao lado, chorando, uma pequena garota, toda suja e em farrapos.

– Isso foi para a vadia da sua mãe aprender a pagar o que deve! — um homem falou.

– Ah... então foi isso... — Astrian disse, com desdém. — Eu realmente ouvi falar que essa cidade tinha um pouco do ódio que o papai matou. Claro, ninguém sabe que ele o matou.

Então, só então, a pequena garota, ajoelhada, notou o rapaz. Ela parecia ter cerca de oito anos. O rapaz a encarou, sentindo uma simpatia natural por ela.

– Você tá drogado, pirralho? — um dos homens disse, se aproximando dele em passos lentos. E então o tocou no ombro.

– Não me lembro de ter concedido-lhe a permissão de me tocar — Astrian disse, ainda com desdém. — Seu lixo — e sorriu.

– O que você disse!? — o homem disse, se preparando para dar um soco no jovem rapaz.

– Se importaria de sonhar um pouco? — Astrian respondeu, ativando o seu poder. Geass. Ele imaginou uma espada transpassando o corpo do homem e ele, imediatamente, desfaleceu, caindo no chão.

"Então meu Geass realmente é assim... eu sou capaz de criar ilusões que enganam o corpo e a mente do afetado", Astrian pensou.

– Os outros dois aí... vocês têm sorte — Astrian sorriu como uma criança, ao dizer isso. — Ainda não conheço as limitações do meu poder, vou tentar descobrir agora.

Ele olhou nos olhos dos outros dois homens e os matou igualmente.

– Regra número um: eu preciso olhar nos olhos das vítimas, como no Geass do papai — Astrian sussurrou, baixinho, apenas para si mesmo. Ele desativou seu Geass, ao perceber que a garota poderia ter olhado em seus olhos, mas felizmente, ela encarava o chão.

Ele foi se aproximando, para ver como ela estava. Também viu a mulher, que presumivelmente era a mãe da criança, mas logo percebeu que ela estava morta.

– Moço... você fez eles morrerem, né? — a criança dizia, entre soluços.

– Sim — Astrian respondeu, pesaroso por ela. — Você quer que eu traga sua mãe de volta, não é?

– Sim.

– Me desculpe, eu não posso fazer isso — o rapaz respondeu, se sentindo profundamente entristecido pela a criança.

Uma criança com roupas sujas e um cabelo até os ombros, mas desgrenhados. Ela tinha olhos castanhos, como os de Astrian, pareciam até mesmo irmãos.

Ele se levantou, saindo de perto da criança, sem olhá-la.

– Se quiser, eu acho que você pode vir comigo, assim, não ficará sozinha — o rapaz sugeriu e olhou para ela. — Se não quiser, pelo menos me diga seu nome.

Ele notou os olhos avermelhados de tanto chorar, da garota. Talvez fosse difícil para ela responder.

– Eu sou Katherine — ela disse. Astrian sorriu novamente, tentando ser simpático.

– O meu nome é Astrian. Infelizmente, só posso falar mais se decidir vir comigo — e ele desfez o sorriso.

– E-eu aceito, sr. Astrian — ela respondeu, se levantando e se aproximando dele, em passos frágeis.

– Você está fraca, Kate — ele já deu um apelido para ela. — Deixe-me carregá-la. — e então ele se agachou, lhe oferecendo as costas. Ela se jogou nele sem muita resistência e ele se levantou, indo carregá-la.

– A propósito, o meu nome é Astrian Lamperouge — o garoto disse, começando a andar. Teria uma longa conversa com seus pais, pelo o visto.