— Senhor Shion – falou Betinho, o cavaleiro de Sagitário, de repente. – Por acaso somos só nós que teríamos que tomar a frente contra essa nova ameaça? Ou o acordo entre os deuses do Olimpo ainda será levado em consideração?

Shion o fitou.

— O acordo permanece de pé, meu rapaz. Porém, pela tradição, como representantes da deusa da justiça e da guerra, cabe ao Santuário tomar a iniciativa em caso de uma guerra ser deflagrada. Uma guerra que, neste caso, seria direcionada contra todos os Olimpianos e seus seguidores. Nós nos defenderemos, sim, mas também defenderemos os demais deuses. Bem como eles também terão que se prontificar para proteger o mundo, proteger seus domínios, e os domínios de todos os demais deuses abrangidos pela aliança. Se for preciso. Se chegar a esse ponto, é o que será feito.

Betinho fitou o chão. Os cavaleiros de Ouro pareciam divididos. Alguns assentiam com a cabeça, parecendo dispostos a se colocar de prontidão. Outros, porém, desviaram o olhar, voltando os olhos para o chão ou para outros pontos do salão.

— Bom, com isso, é claro que muito em breve eu precisarei me ausentar pessoalmente do Santuário para ir ter com os deuses. Levarei Joana comigo, e o mestre Gomes ficará encarregado das minhas funções até que eu retorne. Assim sendo, devem obediência a ele durante o período de minha ausência, Cavaleiros de Ouro. Entendido?

Todos os Cavaleiros de Ouro assentiram e se curvaram respeitosamente para o Mestre do Santuário, ainda que alguns deles ainda exibissem um semblante contrariado.

— Muito bem. Agora que já deixamos isso claro, Atena tem algo a dizer para vocês.

Os doze se sobressaltaram; Luísa não havia ainda se dirigido a eles em uma situação de caráter tão formal e oficial como aquela.

A encarnação de Atena levantou-se do trono. Vestia as roupas brancas tradicionais da deusa e segurava o cetro de Niké na mão direita. Todos voltaram seus olhares para ela instantaneamente.

— Cavaleiros de Ouro... Sei que não tenho vindo falar com vocês o bastante. Saibam, porém... que todos vocês estão sempre em minhas preces. Quero agradecer, sempre, pela disposição e pelo serviço de vocês ao Santuário.

Alguns dos Cavaleiros de Ouro assentiram entusiasticamente e até sorriam para a garota, porém, outros ainda olhavam para ela com um semblante bastante sério e compenetrado, como se ainda não tivessem total confiança nela.

— Face a essa possível nova ameaça que nos aguarda no horizonte... é essencial que estejamos em sintonia e unidos. Sei que não tenho ainda a total confiança de todos vocês, pela minha juventude e por ainda estar aprendendo sobre os preceitos de Atena e a hierarquia do Santuário e dos cavaleiros. Contudo, faço a vocês uma promessa de que serei digna dessa confiança, especialmente pelo fato de que a geração de vocês se mostrou ser uma das gerações mais vitoriosas que este Santuário já viu. Se entraremos no campo de batalha, seja lá contra quem for, entraremos unidos e em harmonia, como se fossemos um só; é esse, afinal de contas, o propósito das tropas de Atena.

O discurso dela surpreendeu os Cavaleiros de Ouro. Eles sabiam que Luísa estava tomando aulas, mas o progresso que a menina havia feito em tão pouco tempo desde que fora reconhecida como a encarnação da deusa parecia estar sendo mais eficaz do que eles poderiam ter imaginado. Ela estava soando quase como uma Saori mais jovem.

— Sei que podem estar surpresos..., mas andei me debruçando sobre muitas das anotações e documentos que a senhorita Saori nos deixou.

Aquela resposta pareceu fazer os Cavaleiros de Ouro se tranquilizarem brevemente, mas, ainda assim, parecia mesmo que Luísa progredira mais rapidamente do que o previsto.

— Ela pensou de fato muito à frente do tempo. Como se tivesse pressentido que passaríamos por uma situação assim. Então, lendo as anotações dela, é como se eu estivesse lendo um diário meu, pois ambas somos Atena; ela no passado, e eu hoje. Mas ao mesmo tempo, é o trabalho de outra pessoa, lições deixadas para que eu aprendesse com elas. Minha missão é manter a continuidade. Para isso, preciso do apoio de vocês, e estou fazendo por onde para consegui-lo. Se tenho que liderar vocês, uma geração forte e bem-sucedida de cavaleiros, em batalha, preciso fazer isso da melhor maneira possível. E a srta. Saori mostrou o caminho. Temos que honrar a memória e o legado dela, legado esse que vocês conhecem tão bem. Eu peço o voto de confiança de vocês. Para caminharmos unidos perante as adversidades, é essa a única forma de triunfarmos e de conseguirmos êxito. Unidos. Juntos como um só. Agradeço por me ouvirem, Cavaleiros de Ouro.

Mesmo os cavaleiros dourados mais céticos se mostravam, agora, impressionados com o discurso de Luísa. Instantaneamente, como se tivessem ensaiado, mesmo possuindo opiniões diferentes sobre a nova Atena, todos eles fizeram o mesmo gesto: se ajoelharam cerimonialmente em respeito e perante à deusa.

— Eu agradeço, Atena, em nome dos Cavaleiros de Ouro, pelas palavras de encorajamento e esclarecimento – disse o mestre Shion categoricamente.

Os cavaleiros de Ouro foram se levantando aos poucos, ao ouvir a fala do Grande Mestre.

— Eu chamei Atena para esta reunião porque acreditei que o discurso dela seria a motivação ideal para todos vocês, diante deste momento de iminência a uma nova crise, que requer a nossa resposta mais adequada possível. É como ela vos disse, temos de estar unidos e em consonância. Precisamos deixar nossas diferenças à parte e nos colocar lado a lado no campo de batalha para garantir, mais uma vez, a sobrevivência do mundo. Só conseguiremos isso se nos apresentarmos com unidade e harmonia. Reflitam bastante, Cavaleiros de Ouro. Precisamos de todos vocês para alcançarmos êxito nessa empreitada. O mestre Gomes os manterá informados dos próximos passos a ser tomados, principalmente quando do meu retorno da reunião no Olimpo. Por hoje, isso é tudo. Estão dispensados.

Os Cavaleiros de Ouro levaram o braço direito ao peito e inclinaram a cabeça respeitosamente, primeiro em direção a Luísa, depois em direção ao Grande Mestre. Em seguida, saíram ordenadamente do salão.