Notas iniciais
Parte 6 de 9

A mente de Matt flutuava, como se estivesse em dúvida se caía num abismo ou se ascendia rapidamente para o alto.

Matt não conseguia falar nem sentir nada à sua volta. A escuridão conjurada pelo espírito de Fênix o envolveu por completo.

Ele começou a sentir um formigamento, como se seus sentidos lutassem para voltar a imperar sobre seu corpo; talvez estivesse mesmo voltando a despertar, como prometido pelo espírito.

Seu pensamento estava muito acelerado; várias sensações e emoções passavam em sua mente como se ele estivesse assistindo a uma exibição de slides que era projetada de modo muito rápido. Ainda pensava em Doralice e Wagner e em quem seria, o modo com que falaram com ele. Era um modo afetuoso, carinhoso... Poucas pessoas haviam falado com ele daquela forma. Ele precisava saber mais sobre eles e sobre a importância que tinham para ele, ainda que não os conhecesse antes; pelo menos, não tinha memória de tê-los visto antes. Estava ainda com ódio do espírito em chamas que não lhe dera praticamente nenhuma pista sobre eles dois.

Contudo, ele precisava admitir que o espírito se havia revelado demasiadamente útil, mesmo com o contato mínimo que haviam tido.

Por mais que quisesse saber sobre Doralice e Wagner, infelizmente teria que descobrir em outra hora. Havia uma missão a ser cumprida... e nessa missão, um problema em específico para ser resolvido.

O problema se chamava Unity de Dragão Marinho.

A raiva que Matt sentia do espírito de Fênix em nada se comparava à raiva, ira, ódio, fúria, nojo e outras sensações ruins que tomavam conta dele ao se recordar do desgraçado príncipe do antigo reino de Graad Azul.

Unity sempre tivera de tudo. Uma boa educação, e instruído e orientado desde criança para liderar e assumir o trono de seu povo, para cuidar deles, numa terra cercada pelo frio e praticamente isolada do resto do mundo. Teve Dégel de Aquário como melhor amigo e que provavelmente lhe havia servido como um grande exemplo de inspiração, como pessoa e como cavaleiro de Atena. Tal qual seu pai, sua irmã e os Guerreiros Azuis. Ao invés disso, Unity escolheu jogar tudo fora e trair seu país e sua família, além de Dégel. Primeiro, se aliou a Poseidon. Duzentos e sessenta anos mais tarde, novamente foi iludido por promessas faraônicas, e se vendeu, dessa vez para Hades e o tal lacaio do manto negro que Matt havia visto na outra visão — o tal lacaio também era um ponto de interrogação enorme, que Matt desejava revisitar e descobrir o quanto antes. Algo muito suspeito emanava daquele cara, por não revelar nada sobre quem era e o interesse estranho que tivera em Unity, para ter se disposto a ir até Graad Azul e de alguma maneira, renovado sua vida e coloca-lo como "peão" importante naquela guerra santa.

Unity tivera de tudo na vida. Matt havia sido um órfão, de uma região pobre do Brasil que viera parar no Japão, passado pelo treinamento de Cavaleiro, até chegar à Grécia. Aquele contraste enorme também estava enrolado no mix de sensações e emoções que tomavam conta do garoto naquele momento.

O príncipe do norte havia traído seus próprios "votos" e jogado fora todos os ensinamentos que havia recebido, havia virado as costas para tudo o que lhe haviam ensinado. Matt fora acolhido pelo orfanato do Santuário, ganhou um mestre que lhe cuidara como um pai cuida do próprio filho, ganhara amigos, ganhara uma missão e um propósito, se tornara um cavaleiro de Bronze com diversos poderes, e se apaixonara pela amazona de Taça.

Era como se o universo tivesse colocado eles dois um contra o outro de propósito. Um choque de pensamentos, de ideias, de ideologias, de posicionamentos, de atitudes, e de posturas.

Com um sobressalto em sua mente, Matt se deu conta de que havia se lembrado de Isabella em meio a seus devaneios. Mesmo sentindo quase nada do próprio corpo, seu coração parou por um momento ao se lembrar da amada. Quando aquela batalha no Templo de Poseidon terminasse por completo, Matt precisava chama-la para terem uma conversa franca sobre eles dois.

Eu a amo, o garoto de 15 anos se deu conta disso e se pegou pensando nos próprios sentimentos. Não podia mais esconder. Precisava dar vazão àquilo e deixar claro para a garota o que ele sentia. Haviam se afastado por conta de uma mancada do rapaz. Mais importante, Matt sabia, acima de tudo, que não poderiam haver mais mancadas.

Enquanto pensava em Isabella, Matt se lembrou mais uma vez das palavras do Espírito de Fênix: dicas, conselhos e orientações, ainda que tivessem sido oferecidas de modo pouco comum ou ortodoxo.

E com base nas palavras do espírito, ainda não era hora de se preocupar com Poseidon ou Hades. Havia um problema mais iminente e imediato com que ele tinha de lidar. O tal lacaio encapuzado de Hades não havia escolhido o príncipe para ser seu serviçal por acaso; alguma coisa grande e importante poderia acontecer naquela guerra santa caso o príncipe não fosse parado, algo que não seria nada bom para as tropas de Atena e do Santuário. Matt podia sentir isso. O espírito de Fênix não o teria alertado nem lhe tentado advertir se o príncipe não fosse realmente perigoso, munido agora dos poderes de Marina e sendo "patrocinado" pelo misterioso servo de Hades.

Até mesmo as palavras daquele imprestável do Kanon faziam muito mais sentido para o garoto agora. Talvez até Kanon, sorrateiro e duas-caras como sempre, já soubesse de muito antes quem era o General Marina de quem Matt havia perguntado e apenas resolveu fazer o garoto de bobo, colocando enigma atrás de enigma quando haviam conversado.

O mal estava muito perto.

O mal precisava ser combatido.

O mal precisava ser detido e eliminado.

O mal estava ali entre eles, muito perto.

O mal estava ali, e o mal se chamava Unity.

Notas finais
Feliz dia de São Mateus - 21.09 A primavera está chegando.