Notas iniciais
Parte 4 de 9

Matt abriu os olhos. Estava de volta ao campo dimensional negro, aonde vira o corpo inerte de Unity, o vórtice e a fênix em chamas. Estava deitado, mas logo tratou de se levantar. Naquele espaço não havia um chão divisível, mas quando o garoto se pôs de pé, sentiu como se houvesse uma superfície invisível sobre ele, aonde podia andar. Unity não estava mais à vista.

Ele queria encontrar uma forma de retornar ao campo de batalha logo. Unity precisava ser detido. Tudo o que Matt descobrira lhe faziam perceber isso. Mas ele não conseguia enxergar uma saída dali. Precisava logo voltar ao Pilar do Atlântico Norte.

O vórtice que o conduzira pelas lembranças da vida de Unity também não estava mais à vista em lugar algum por ali. Por outro lado, mesmo que ele entrasse por aquele vórtice novamente, não havia garantia alguma de aonde ele iria parar, muito menos se voltaria ao Templo de Poseidon.

Então, a fênix em chamas que lhe aparecera antes voltou a tremeluzir diante dele. Novamente, ela se curvou como se o saudasse. O garoto retribuiu o gesto. Parecia o que o mínimo de cortesia lhe recomendaria a fazer, visto que a ave em chamas o havia levado para o vórtice e para as lembranças de Unity, afinal de contas. Agora, Matt estava munido o suficiente para enfrentar seu adversário.

Ele pensava em perguntar à ave se ela conhecia algum caminho para fora dali e que o levasse de volta ao Templo Submarino. Mas, antes que pudesse formular qualquer fala para ela, a ave fez algo pelo qual ele não estava esperando.

Então, moleque. Acho que enfim chegou a hora de conversarmos.

Matt se retesou. A ave literalmente falara. Achou que tivesse sido apenas no seu pensamento, mas depois notou que a boca da fênix se moveu, como se realmente estivesse pronunciando aquelas palavras.

— Q-quem é você?

Não sabe? Eu sou o espírito da Fênix. Acompanho a constelação e sua armadura desde tempos imemoriais.

— Então o que? Você é um espírito protetor??

Pode-se dizer que sim, talvez eu seja isso. Pode enxergar dessa forma, se preferir.

Com um sobressalto e um arrepio na espinha, Matt se deu conta de com o que estava falando.

— Era você quem controlava a maldição de Fênix. Você, graças ao treinamento brutal que o Ikki recebeu daquele mestre dele, o que matou a Esmeralda, foi você que fez o Ikki pender para o ódio, para o mal.

Ora, garoto. Eu concedi força e invulnerabilidade ao Ikki naquela época. O ódio e as outras coisas ruins, ele canalizou do próprio treinamento e daquele mestre. Eu concedo a força de fênix. O que vocês fazem com ela, é assunto de vocês.

— Não seja sonso — rebateu Matt. — O nome era "maldição de Fênix" por um motivo.

Espírito de Fênix, maldição de Fênix, que seja. Não me recordo de você reclamando dela e de todo o poder quando gozava da mesma por completo. Uma pena aquele cavaleiro de Câncer ter te forçado tanto a ponto de esgotar o poder do espírito.

— Usei o poder de Fênix apenas em prol de Atena, dos cavaleiros, e da paz na Terra. Nem vem. E depois do meu confronto com Gildson, consegui reconstruir o poder de Fênix ao alcançar o sétimo sentido à medida que passei por outras batalhas.

E fez muito bem. Seu cosmo cresceu bastante nesses poucos meses. Agora você está quase com a mesma capacidade de invulnerabilidade que detinha quando se tornou um cavaleiro. Está quase um Aquiles.

— Chega de enrolações. — Matt estava perdendo a paciência com aquela ave tagarela. — O que você quer? Se começou essa conversa, deve ter algum motivo. Deve ter algo que você queira ou algo de que queira falar.

Ca-ham. Está certo. Irei direto ao ponto. Sei sim como envia-lo de volta ao Pilar do Atlântico Norte e você terá a chance de enfrentar e derrotar o Unity. Porém, tem um detalhe.

— É claro — resmungou Matt, imaginando que, se ele realmente sabia como manda-lo de volta ao fundo do mar, não daria aquela informação facilmente. — Diga-me, o que você quer??

Eu posso conceder a você o escopo total do poder de Fênix, desde que permita que eu assuma o controle. Não haverá mais Matthew. Será apenas o espírito da Fênix, na forma de um cavaleiro de Bronze. Juntos, seríamos invencíveis, garoto. Já pensou nisso?

Matt hesitou por um momento.

— Eu seria como o Ikki era no começo. O mais forte de todos, e ninguém seria páreo para mim num combate mano a mano.

Sim. Seria uma adição esplêndida ao exército de Atena, ainda mais sabendo que Hades está prestes a atacar o Santuário com toda a sua força. Não acha? O que me diz?

— Não — respondeu o garoto, secamente. — Não tenho garantias de que você se seguraria em combate com essa força toda. Nem de que você continuaria fiel a Atena, mesmo que ajudasse a enfrentar Hades ou Poseidon. E depois? Caso Hades seja derrotado, o que acontece? Você se voltaria contra Atena? É um risco que não posso correr. Não vou colocar meus amigos em perigo, ou arriscar a integridade de Atena e do Santuário. Não posso admitir nem tolerar isso. Está fora de cogitação. Quer me ajudar, então, AJUDE. Mas não vou entregar meu corpo, minha armadura, meu cosmo, meu espírito a você de mão beijada para que você faça o que bem entender.

A ave silenciou por alguns momentos. Matt aguardou. Em silêncio, rezou para que sua ideia de peitar diretamente a ave em chamas tivesse funcionado e que a ave tivesse se sentido intimidada. Caso contrário, imaginava que, em breve, a ave o chamuscaria por inteiro, ou pior: lhe deixaria preso no espaço dimensional, sem apontar a saída para que voltasse ao Pilar do Atlântico Norte e pudesse ajudar seus amigos a terem sucesso na missão.

Você tem fibra, garoto. A ave parecia estar medindo as palavras com cuidado dessa vez. Posso ver porque Ikki te escolheu. Muito bem. Eu não assumirei nem tentarei assumir por completo, já que não tenho a sua concordância. Ajudarei sim você nas lutas e a reaver o poder de Fênix por completo. Levará tempo, uma vez que você não alcançou o Oitavo Sentido ainda.

— Oitavo Sentido?

Assunto para outro momento, garoto. Não seja curioso além da conta. Agora, antes de falarmos o que você quer saber, o caminho de volta para o Atlântico Norte, tenho uma última coisa para te oferecer.

— E o que é?

Você verá.

O pássaro de fogo bateu as asas.

Duas pessoas apareceram diante de Matt. Suas imagens estavam difusas, como se ele estivesse vendo hologramas cujas imagens estivesse piscando, mas ele conseguiu divisar a fisionomia de ambos. Um homem e uma mulher.

A mulher tinha pouco mais de 1,60 de altura e pele preta. Tinha um porte levemente musculoso. Seus cabelos negros eram encaracolados e seus olhos eram castanho-amendoados. Seu sorriso era largo e cativante, e ela o encarava com um olhar, talvez... maternal?

O homem, de pele caucasiana mas levemente bronzeado, tinha pouco mais de 1,70 de altura, cabelo preto e olhos pretos. Tinha o aspecto de alguém que havia sido gordo, mas que emagrecera em pouco tempo. Seu olhar fitava Matt com, aparentemente, um orgulho cujas feições joviais e sorriso juvenil não conseguiam esconder.

Matt ficou confuso. Olhou para o pássaro em chamas.

— Mas quem são...?

As duas pessoas estenderam a mão para ele, fazendo com que o garoto, por seu instinto e curiosidade naturais, olhasse novamente para eles.

— Eu sou Doralice.

— E eu sou Wagner.