Notas iniciais
Com este capítulo, quero presentear para meu amor - a minha Flor de Liz, e para minha amiga Bruna. Abraços, meninas. Phoenix Matt

Em seu sonho, Matt estava no meio de uma multidão. Voltara a ser criança; tinha 11 anos. Havia sido uma idade mágica, de treinos árduos com Ikki, mas com algumas boas lembranças.

Enquanto sentia-se cada vez mais envolvido pela escuridão que o engolfara ao perder a consciência, Matt foi aos poucos se recordando da situação que aquele sonho em específico lhe estava mostrando.

Ao longe ainda avistava um pontinho branco, como se sua consciência estivesse despertando — e seu ódio por Unity, também. Uma estranha sensação, um formigamento, tomou conta dele. Aquele sonho era do seu passado — então por que se lembrara de Unity tão vividamente nesse momento? Era simplesmente por estar acordando e isso significava que, em breve, estaria novamente de frente com seu inimigo?

Ikki e ele haviam feito muitas missões pelo exterior durante a infância de Matt. Sempre voltavam para o Havaí, ou para sua cabaninha de férias na Califórnia, ou para Angola no período em que estiveram estacionados lá — mas o garoto se lembrava de cada missão com orgulho. Algum dia precisava contar a seus amigos que tivera uma missão na Grécia, na ilha de Creta, antes até de se tornar cavaleiro de Bronze... Mas isso era história para outro dia.

Naquele momento eles estavam no Líbano. Ikki havia se voluntariado para ajudar alguns refugiados a sair do país. Havia conseguido até mesmo um acordo de cessar-fogo com um grupo guerrilheiro local. Ele sentia como se o grupo fosse trair o acordo a qualquer momento; porém, Ikki lançava um olhar assassino a cada um que tentasse se aproximar dele, de Matt ou dos refugiados para fazer alguma besteira. Isso tinha sido o suficiente para afugentar a guerrilha até o momento. Matt havia aprendido esse mesmo olhar com Ikki — mas ainda não tivera a oportunidade de testa-lo ou usa-lo.

Matt e ele estavam conseguindo conduzir com sucesso a operação até ali. Nenhum bandido os havia incomodado.

Durante a comoção para chegarem aos navios, barcos, aviões e helicópteros disponibilizados por governos estrangeiros — inclusive, como Matt notou através de uma das bandeiras, o brasileiro — uma cena em particular chamou a atenção do garoto.

Uma garotinha estava andando sozinha, se arrastando e engalfinhando no chão quente, tentando chegar até o ponto onde a guarda estava de prontidão. Não parecia ter mais do que 5 ou 6 anos. Ela parecia estar cansada e com dificuldade para continuar. Chorava copiosamente, e seu choro fora o que Matt havia ouvido primeiro.

O garoto se viu tomado por um impulso. Abandonou seu posto e foi até a menina.

Ikki se virou e fez menção de chama-lo, mas se conteve. Alguns dos outros guardas que ajudavam com a evacuação até gritaram na direção dele, mas Ikki fez um sinal com a mão, silenciando-os, como se dissesse para não se preocuparem. Apesar da tenra idade do garoto, o antigo cavaleiro de Fênix confiava no seu discípulo. Já o treinava há quase 3 anos.

Matt alcançou a menina e estendeu os braços para ela.

A menina cessou de chorar e aquiesceu, subindo nos braços do menino.

Enquanto ele se afastava em direção a Ikki, um dos guerrilheiros gritou algo. Matt não dominava tanto o árabe na época, mas ouvira algo como: "A garota está sem seus pais, deixe-a! Não faz parte do acordo de seu mentor conosco!"

Isso havia deixado o garoto lívido de raiva. Virou-se a tempo de ver um dos guerrilheiros em sua direção, com a arma em punho, como se quisesse recolher a garota.

O guerrilheiro estava marchando firmemente quando estacou no meio do caminho. Seu olhar encontrara o de Matt.

O garoto estava enfim usando o olhar de lobo, feroz e assassino, que Ikki tanto lhe ensinara e que ele ainda não havia experimentado numa situação à vera. Seu rosto se transformava quase que numa máscara fria, passando uma mensagem nítida ao interlocutor: se você se acha mau, eu sou pior ainda. Matt mandava um recado claríssimo ao bandido: você não irá encostar na garota, que agora estava recostada tranquilamente no colo do menino brasileiro.

Ikki o ensinara a usar esse olhar para evitar que delinquentes encrenqueiros das ruas do Havaí e da Califórnia implicassem com ele. Pelo visto, aquela tática funcionava também com guerrilheiros fundamentalistas. Ikki sempre dissera a Matt: sempre busque ser bom, meu garoto. Mas, se tiver que ser ruim, contra alguém que é nitidamente mau, se for muito necessário, então seja ótimo em ser ruim. Se você é bom sendo bom, ao ser ruim, seja melhor ainda. Há pessoas que só entendem esse tipo de linguagem e só percebem que estão incomodando quando alguém se dirige a elas nesse tom.

O homem engoliu em seco e deu meia-volta, correndo apavorado de volta para seu pelotão.

Matt rumou novamente para a direção de Ikki, com a menininha em seus braços.

— Obrigada, tio — disse ela, falando num inglês com sotaque. Matt se impressionou — ela já fala outro idioma com essa idade!

Era fofo vê-la chamando-lhe de tio ainda que fosse só um menino de 11 anos.

— Não tem de quê. Eu estava cumprindo meu dever — disse ele.

— Você me salvou — respondeu ela. — Meu nome é Tunab. Prazer em conhece-lo, tio.

— Meu nome é Matthew. Para onde você estava tentando ir?

— Vi meus pais lá longe, eu tinha me perdido deles. Eles estavam indo em direção ao avião com uma bandeira verde. Quero ir pra onde eles estão.

O avião com a bandeira do Brasil, Matt se deu conta. Precisava logo encontrar os pais da menina — seu olhar encontrou o de Ikki, que o esperava no posto de guarda. Um entendimento tácito ocorreu entre eles e Ikki se afastou, se misturando à multidão que rumava em direção ao avião brasileiro.

— Por que o homem mau estava falando aquelas coisas? Por que quer impedir que a gente vá embora? — perguntou-lhe a menininha Tunab.

— Há pessoas ruins no mundo... Mas o importante é mantermos a cabeça erguida. Não ceder ao que dizem ou fazem. Não ligue. Continue sendo uma boa pessoa e fazendo seu bom trabalho. É o que importa.

— Certo. Obrigada, tio — e ela acariciou o lado do rosto do garoto.

Matt colocou-a no seu cangote, para que ela pudesse ver do alto o caminho que tomavam até chegar no posto.

Ao olhar de volta para o local da guarda, viu que Ikki retornara, acompanhado de um casal de libaneses. Ao ler a mente de Matt, ele vira o nome da garotinha. Achara seus pais antes que eles embarcassem no avião do Brasil.

Matt os alcançou e entregou Tunab ao casal. Ela beijou-lhe levemente no rosto e foi para os braços da mãe. Seus pais agradeceram a Matt, apertaram a mão de Ikki e se apressaram em voltar para a fila do avião, após Ikki ter garantido que eles não perderiam seus assentos — intimidando, até mesmo, alguns militares brasileiros para conseguir isso.

Uma sensação de paz tomou conta de Matt ao se lembrar disso... Entendia o porquê de ter visto aquele sonho, logo antes de voltar a enfrentar o traiçoeiro Unity...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.