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10 A guardiã das correntes
Notas iniciais
Rina de Andrômeda respirou fundo, se esforçando para não tremer nas bases. Finalmente ia entrar em ação! Talvez por ser a única garota, sentiu-se um pouco mais obrigada a mostrar serviço do que os homens, para deixar bem claro que não viera ao torneio à toa.
Quando Bore anunciou seu nome, ela se dirigiu a passos largos ao ringue antes mesmo do árbitro ordenar.
Sua armadura era rósea com detalhes prateados, idêntica a que seu mestre Shun havia usado na última Guerra Santa. De seus braços pendiam duas correntes, uma com a ponta em forma de triângulo e outra com a ponta circular. Por baixo ela vestia uma camiseta roxa de manga longa, que seria horrível para um homem, pois poderia transpirar muito durante a luta e a roupa ficaria encharcada e pesada, por causa do suor. Mas Rina tinha uma tática que a fazia não transpirar muito em combate.
Seu oponente, Lauro de Unicórnio, parecia tranquilo. Depois de quase perder a primeira luta, ele demonstrava que queria provar que não estava ali por sorte ou por acaso.
- Cavaleiros de Unicórnio e de Andrômeda, subam ao ringue – orientou o árbitro. Rina já estava praticamente com os pés nele.
Lauro subiu logo em seguida, e estudou a adversária.
- Enfim temos a estreia de Andrômeda! – anunciou Bore. – Mas o Unicórnio vem embalado pela vitória sensacional na preliminar. Algum favorito, companheiros?
- De forma alguma, Bore – disse Freitas. – É possível que Andrômeda vá se aproveitar de seu fator defensivo e induzir o Unicórnio ao erro...
- Porém, também é possível que o Unicórnio use sua esperteza mais uma vez como na luta anterior – sugeriu Lewis. – Assim, ele furaria a defesa da adversária quando esta baixasse a guarda e aí atacaria.
- Muito bem, só vendo o duelo para termos certeza! – bradou Bore. – A atenção do estimável público é essencial! Cavaleiros, em suas posições... Olho nos guerreiros, pessoal! O árbitro ergue o braço...
Uma pausa dramática. Rina estava começando a gostar da locução de Bore. Fazia com que ela se sentisse igual, talvez superior, aos demais Cavaleiros, e segura o suficiente para enfrentar qualquer um deles. Agora, o Unicórnio. O próximo, quem sabe?, o Dragão, o Cisne, o Fênix...
- E aponta para o ringue! – completou o locutor japonês. – Que comece a luta!
Lauro avançou rapidamente, mas Rina sacudiu as correntes e elas caíram ao chão, enroscando-se ao em volta da garota, formando um círculo defensivo. O movimento repentino fez Lauro cessar o ataque, observando Rina no meio das correntes, segurando-as como se orientasse sua movimentação.
- Ora, tire os brinquedos da arena! – ralhou Lauro. – Como vamos lutar se você ficar atrás dessa corrente?
- Posso enfrentá-lo desse jeito – retrucou Rina. – A pergunta é se você consegue me enfrentar.
Ele cerrou os punhos e lançou um olhar de desprezo às correntes.
Ele não entende a finalidade da corrente.
- Para mim, isso não passa de enfeite – disparou ele. – Está apenas me fazendo perder tempo, em vez de me enfrentar logo!
- Enfeite? Então pode passar, Unicórnio, e me atacar – desafiou Rina. – Aí veremos se não consigo enfrentá-lo.
Lauro não hesitou. Avançou para a oponente e pisou entre as correntes.
No momento em que seus pés tocaram o solo, as correntes se agitaram e brandiram contra ele, disparando descargas elétricas de 10.000 volts. O cavaleiro se contorceu de dor pelo choque e foi jogado para longe das correntes.
Apesar do choque intenso, Lauro rapidamente se levantou, embora estivesse cambaleando. Rina o fitou com um olhar duro.
- Eu te avisei. Acha que não posso enfrentá-lo só por que não luto com os punhos? Não se deve debochar do adversário só por que ele, ou ela, utiliza uma forma pouco convencional de lutar.
Lauro não parecia disposto para responder. Mesmo assim, avançou novamente contra a corrente, ainda trôpego.
Dessa vez, Rina fez a corrente se levantar, formando uma barreira em torno dela.
- Chifre de Unicórnio!
- Defesa Circular! – disse Rina; as correntes bloquearam o golpe de Lauro, soltando faíscas de eletricidade que queimaram a mão do cavaleiro.
Lauro assoprou e sacudiu a mão queimada, mas os choques tinham sido muito intensos e causaram queimaduras graves. Estava indefeso. Rina não ia perder a chance.
Ele percebeu tarde demais que as correntes haviam se levantado por completo, e que Rina estavas brandindo-as na direção do oponente.
- Corrente de Andrômeda!! – disse ela, e a corrente do braço esquerdo, com forma de lança na ponta, atacou Lauro, perfurando sua armadura e a pele do garoto.
Lauro foi lançado fora do ringue, abatido e vertendo sangue. O árbitro correu até ele, fez um rápido diagnóstico, e ergueu os braços.
- Acabou! – bradou Bore. – E a vencedora... É A ANDRÔMEDA!!
O público vibrou com a vitória de Rina com a mesma animação como quando aplaudira os outros cavaleiros, e ela, revigorada pelo sucesso no combate, acenou para a torcida inocentemente.
O visor fez o nome de Rina subir para a lacuna restante da semifinal, onde estava também o nome de Matt de Fênix. Bore estava completamente surpreso com o resultado da luta.
- Meu Deus, eu nunca imaginaria que um rosto tão inocente fosse capaz de causar tamanho estrago! – exclamou ele para o público, enquanto observava o cavaleiro de Unicórnio ser conduzido pela equipe médica. – Mas já diziam os sábios: “as aparências enganam...” Bem, parabéns à jovem pela vitória, e agora estamos diante das semifinais da competição! Apenas uma etapa separa os quatro últimos cavaleiros da grande final! Aqui, eu me despeço do meu carismático público, esperando ansiosamente pelo seu regresso amanhã para as semifinais da nossa Guerra Galáctica, e desejando a todos uma boa noite! E não se esqueçam de acompanhar mais uma rodada do nosso UFC Japão hoje à noite.
- Ha! Eu sabia que a Rina ia vencer! – dizia Isabella para Tatsumi, enquanto Bore se despedia da audiência. – Estou torcendo por ela.
- Seu favorito não era o Fênix? – comentou Tatsumi.
Isabella fechou a cara e cerrou os punhos.
- Olhe aqui, velhote, nem uma palavra sobre isso, ainda mais em público, OK?
Era duro para ela saber que o diretor tinha um trunfo contra ela depois de tantos anos de serviço. Mas ele limitou-se a rir.
- Hahaha, então tudo bem, mocinha. Não vou estragar seu conto de fadas a menos que tenha uma boa razão!
E ele saiu do camarote, deixando a garota para trás, bufando lívida e impaciente.
Betinho de Pégaso havia saído da enfermaria assim que a luta entre Rina e Lauro havia acabado. Os médicos da Fundação não encontraram nada de errado nele; não estava muito ferido a ponto de precisar dormir na enfermaria, como se Gustavo não tivesse lhe dado nenhum golpe. Ele respondeu a todas as perguntas dos médicos sobre como se sentia, e eles não encontraram nada de anormal no rapaz. Deram-lhe alta, e Betinho apenas tomou banho e vestiu sua roupa marrom.
Ainda conseguiu falar com Cícero antes de sair. O primo lamentava o fato de que Betinho não vencera a segunda luta, e garantiu que não estava chateado com a luta entre eles na primeira rodada. Trocaram um abraço, e Betinho também abraçou Jonathan antes de sair.
Chegou à arena no momento em que Rina saía do ringue, e ficou na arquibancada observando a movimentação. Alguns fãs vieram cumprimentá-lo e lamentar a má sorte que tivera contra Gustavo. No entanto, alguns cliques de câmeras e repórteres passando correndo desviaram a atenção dos fãs: parecia que Vitor Belfort finalmente havia sido flagrado pelos paparazzi no meio do público.
O cavaleiro de Pégaso achou melhor assim. Preferia refletir sozinho por enquanto. Sua autoestima ainda estava um tanto ferida.
- Ei, Pégaso – disse alguém à sua direita.
Gustavo de Dragão estava andando tranquilamente pela arquibancada como se a frequentasse todos os dias. Parou ao lado de Betinho.
- Gustavo? O que você quer?
- Nada demais, estou contente em ver que você, hm, está totalmente recuperado – afirmou. – Se bem que eu já esperava.
- Como assim?
- Quando nos enfrentamos, eu senti que não venceria você com facilidade. Não iria conseguir feri-lo muito. Mesmo com meu golpe mais forte, eu sentia que você era forte o bastante para aguentá-lo. Consegui fazer você sair do ringue, mas esperava que você se levantasse logo e reagisse.
- Seu golpe me pegou de surpresa – confidenciou Betinho. – E o seu escudo também.
Gustavo riu levemente e passou a mão no escudo.
- É, ele me surpreende às vezes, também. Enfim, posso estar sendo humilde demais, mas eu esperava mais de você como oponente, embora você também tenha me surpreendido. Espero que... Que tenhamos a chance de nos enfrentarmos de novo algum dia.
Betinho sorriu, tranquilo.
- Eu também espero.
- Parabéns pela recuperação rápida, Betinho, e se me dá licença, vou ver se descanso para as semifinais – disse ele, e saiu andando pela direção em que viera.
Betinho ficou ali, ainda contemplando a multidão que esperava pelo UFC e por uma chance de ver Vitor Belfort antes das lutas da noite.
- Pégaso! – chamou uma voz.
Agora era Tatsumi que vinha caminhado na direção dele, vindo pela outro lado da arquibancada.
- Já está aqui fora? Você se recuperou bem rápido.
- Os médicos disseram que eu não tenho nada de mais. Deram-me alta.
- Estou vendo! Até parece que você nem lutou. Aquele que eu vi saindo daqui a pouco tempo era o Dragão?
- Sim, era.
Tatsumi olhou-o, parecendo preocupado.
- Devo falar com ele sobre algo...?
- Não, está tranquilo – retrucou Betinho. – Foi apenas uma conversa amigável.
- Entendo – disse Tatsumi, ainda meio desconfiado. – Bom, Pégaso, é bom vê-lo inteiro outra vez. Nunca se sabe quando o Santuário pode precisar de vocês, então vocês devem sempre estar... De prontidão. Aquele sujeito ali embaixo é o tal Belfort?
Betinho fez que sim com a cabeça.
- Imaginei que ele fosse mais musculoso. De qualquer maneira, embora tenha sido eliminado, seu desempenho na Guerra Galáctica foi muito aceitável, meu caro. Fiquei muito satisfeito e tenho certeza de que você dará um grande cavaleiro. Você deveria repousar... As lutas de amanhã serão promissoras. Se me dá licença, tenho que continuar a administrar o nosso evento.
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