New Feelings

29 Capítulo 28 - A Tragédia das Ilhas do Sul


Notas iniciais
Título tenso, capítulo mais ainda... Capítulo final, sim. O próximo é o epílogo. Não é tão grande quanto eu queria, mas também não está curto demais. Acredito que eu tenha colocado tudo o que queria nele. Lamento a demora, mas como é o último capítulo (nem acredito ainda...), tinha que ser algo marcante, bom mesmo. Bem, sem mais delongas, aproveitem. Vemo-nos nas Notas Finais.

O amor da família e a admiração dos amigos é muito mais importante do que a riqueza e os privilégios.

Charles Kuralt

Um medo indescritível invadiu-me, começava a entrar em pânico. Outro grito cortou o silêncio devastador, um grito desesperado.

Mãe! – gritou Hans, com todas as forças que ainda lhe restavam.

A Rainha estava ali, na minha frente, caindo no chão. Sangue escorria do seu corpo pequeno. Perdi a voz; engoli em seco. Os guardas estavam igualmente impressionados, o que deu a Hans a chance de soltar-se e correr em sua direção.

– Mãe... Mãe, por favor... Fale comigo... – sua voz estava embargada como a de um bêbado, e um mar de lágrimas começava a formar-se nos seus olhos.

– Hans, Hans... – chamou ela, com dificuldade. – Perdoe-me, filho... Perdoe-me por ter o abandonado... Perdoe-me por ter sido uma mãe tão ausente...

– Mãe, não diga... – ela o interrompeu.

– Apenas diga que me perdoa, meu filho.

– É claro, mãe – ele derramou algumas lágrimas. – Por que fez isso...?

– Eu não poderia deixar que tirassem de você mais ainda do que já lhe foi tirado... Hans, você vai ter um filho, não cometa os mesmos erros que eu e seu pai cometemos...

– Devo a minha vida e a do meu filho à senhora – declarei, com os olhos marejados.

– Não, não deve nada. Minha dívida está paga... – ela agarrou a mão de Hans e disse, com a voz quase sumindo – Eu o amo, meu filho... Amo todos vocês, até mesmo Gardar... Prometa que vai perdoá-lo.

– Mãe, eu...

– Prometa.

– Eu prometo... – respondeu, dando início a um choro trágico. – Mãe...

O olhar da rainha perdeu-se no vazio, e sua voz rouca e calorosa calou-se.

– Um médico... – murmurou Patrick, e todos se viraram para mirá-lo, confusos. – Um médico, caramba! Precisamos de um médico agora! – exclamou.

– Ele está certo! Alguém chame um médico, pelo amor de Deus! – implorou Royd, desesperado.

– Magnor, você é médico, faça alguma coisa! – disse Styr para o irmão mais novo.

– E-eu não sei! Eu não posso! Não sou cirurgião! – argumentou, apavorado.

– Mas fez medicina, você deve saber alguma coisa! Por favor, Magnor! Você sabe que não dará tempo de ir buscar um médico!

– Eu... Eu... Posso tentar. Mas temos de levá-la para o seu quarto imediatamente!

Royd pegou a mãe no colo com cuidado e ele e Magnor saíram da sala, em direção aos aposentos reais. No lugar onde estava o corpo da monarca, uma pequena poça de sangue e lágrimas. Depois de mais alguns momentos soluçando, Hans falou, sem desviar o olhar do chão.

– Não me esqueci de você, desgraçado.

Ele levantou-se e olhou para Gardar, que se encontrava estacado no mesmo lugar. Ele deixou a arma cair no chão e deu dois passos lentos para trás.

– Eu vou te matar! – Hans avançou para Gardar com a fúria de um gigante, derrubando-o no chão a socos e gritando. – Seu monstro demoníaco! Você matou nossa mãe!

Todos nós estávamos apenas observando a cena, atordoados demais para reagir, e de repente, Gardar começou a chorar. Chorar como um coitado, por um segundo, acho até que senti pena daquele infeliz.

– Não foi minha intenção! Eu não queria! – berrou, aos prantos.

– Claro, sua intenção era matar a minha mulher, não é?! Seu louco, psicopata dos infernos! – ele começou a estrangular Gardar novamente.

– Hans vai matá-lo! Parem-no! – pediu Clarisse, assustada.

Como se tivessem saído de um transe, os homens ali presentes correram para agarrar Hans e separá-lo do irmão mais velho.

– Hans, controle-se, homem! Já chega! – disse-lhe o Almirante, segurando seus ombros.

– Eu não quero... Não quero vê-lo nunca mais – bradou com repúdio. – Eu ordeno que levem esse homem para as masmorras neste minuto, amanhã decidiremos o que fazer com ele.

O Duque suspirou com pesar e deu ordem aos guardas para que levassem Gardar dali. Eles não souberam como reagir, afinal, ele ainda era o rei, o governante máximo no ponto de vista deles.

– Ele não é mais rei – Yran pronunciou-se. – Hans o derrotou, agora ele é o rei. Não é assim que funciona, Duque?

– Eu imagino que sim, Alteza...

– Hans, você ouviu?... – perguntei, ajoelhando-me ao seu lado no chão. – Você é rei, não foi isso que você sempre quis? – brinquei tristemente.

– Não – ele balançou a cabeça. – Eu queria isso, não quero mais... Não preciso. A única coisa que eu preciso é você, hoje, amanhã e sempre – eu o abracei.

– Está tudo bem agora, vamos passar por isso, juntos. Eu te amo.

– Eu também te amo. Elsa, senti tanto medo de perder-lhe... Graças a Deus está bem, eu não sei o que faria sem você.

– Esqueça isso, estou bem agora.

– Obrigado por ter estado ao meu lado...

– Você também tem, e sei que estará quando eu precisar.

Yran pigarreou alto, anunciando que estava ali.

– Será que eu posso trocar uma palavra com meu irmão mais novo? – pediu gentilmente.

– Claro – Hans e eu nos levantamos e dei espaço para que Yran se aproximasse.

Ele mordeu o lábio inferior, olhou para as paredes, inspirou e expirou, e enfim começou a falar:

– Hans, eu nem sei por onde começar... Agi como um idiota ao não te dar o perdão que certamente merece, mas espero do fundo do meu coração que desculpe este seu irmão, que apesar de ter sido chato demais para aceitar que cometeu um erro e se arrependeu tem por ti muito apreço.

– Hein? – indagou Hans, confuso.

Yran suspirou e disse de uma vez por todas:

– Eu te amo, meu irmão. Desculpe-me por não ter te aceitado antes, nem perdoado seus erros. Desculpe-me. Eu não sei o que faria se você tivesse morrido.

– Está falando sério, Yran?

– Eu não brinco com assuntos como esse.

Eles ficaram se olhando por um tempo, sem saber o que fazer. Sussurrei para apenas eles ouvirem:

– Esta é a parte em que vocês se abraçam.

Tão estranho quanto fora o abraço de Magnor e Hans* foi o abraço de Yran e Hans. Apesar de meio distante e estranho, fora um abraço. Um abraço fraternal e belo.

– Eu estou aqui com você agora, irmão. E estarei sempre, a partir deste momento – ambos sorriram.

– Lindo, lindo... Mas ainda precisamos de um novo rei – interrompeu Styr. – Hans, você vai assumir o trono?

– Não, com certeza não – respondeu decidido.

– Quem então?

Hans permaneceu calado por alguns segundos, pensando. Até que disse, confiante:

– Eu acredito que ninguém seria melhor governante do que o meu irmão... Yran – ele sorriu.

– Eu?! Hans, o que está dizendo?! – indagou incrédulo.

– Estou renunciando ao trono das Ilhas do Sul, e entregando-o a você.

– Hans, ser rei é uma responsabilidade e tanto! Tem certeza de que eu sou a escolha certa?

– Não poderia estar mais certo. Você será um grande rei, Yran, tenho certeza.

– Confia tanto assim em mim?

– Sim, e o conheço também. Sei que nunca fará nada errado.

– Obrigado – disse Yran, com um sorriso de gratidão no rosto.

Alguns minutos de silêncio, até que Patrick pronunciou-se:

– Não aguento mais ficar aqui, preciso saber da nossa mãe – ele saiu da sala.

Ficamos nos olhando por um tempo, até que um por um, todos saíram da sala também. Fomos em direção ao quarto da Rainha, e esperamos no corredor até que tivéssemos notícias.

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Após todos os ocorridos, apesar de ainda haverem alguns problemas para serem resolvidos de vez, todos deixamos de lado tudo por um tempo, concentrando-nos em preocupar-nos apenas com a Rainha. E depois de um bom tempo trancado nos aposentos reais com uma grande equipe de médicos, enfermeiros e cirurgiões vindos de todas as partes das Ilhas do Sul, Magnor abriu a porta do quarto, trazia o semblante cansado e deprimido, tremia um pouco e suava. Em suas vestes, havia algumas manchas de sangue. Ele limpou a testa com o antebraço e disse, com a voz chorosa:

– E-eu lamento. Tentamos de tudo, mas... – ele soluçou, o choro já voltando. – Não deu resultado. Ela... Ela morreu – Magnor colocou a mão em frente aos olhos para esconder seu pranto.

Todos nós derramamos lágrimas naquele dia. Clarisse correu para abraçar o marido, confortando-o ao dizer que ele não tinha culpa. Bem, e realmente não tinha.

– O único culpado é Gardar. A culpa é dele e de mais ninguém. Você fez o que pôde, Magnor, obrigado – disse Hans, sorrindo tristemente para o irmão.

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Os príncipes passaram a noite inteira velando a Rainha, não foi difícil, afinal. Por mais que quisesse, estou certa de que ninguém conseguiu dormir naquela noite. Eu não dormi. Meus olhos sequer fechavam, estavam fixos no teto, como se ele tivesse alguma resposta sobre por que aquilo estar acontecendo. De manhã, criadas do castelo ajudaram-me a preparar-me para o enterro. Um bom banho, como os que eu já não conseguia tomar há alguns dias, deu-me forças para recomeçar.

Foi uma longa e tortuosa jornada até o vale onde a Rainha Brunnehilde foi enterrada, era difícil acreditar que estávamos sepultando a rainha, uma senhora com saúde de sobra, durona, agarrada à vida. Nem precisaria dizer isso, mas faço questão de deixar claro que Gardar não compareceu. Seu julgamento, aliás, realizou-se três dias depois, e ele foi condenado, a pedido de Hans, – que interferiu na pena de morte inicialmente decretada – a prestar serviços comunitários pelo resto de sua vida, além de viver numa clínica psiquiátrica, juntamente de Lydia. Os tais serviços consistiam em algumas coisas como construir prédios públicos, limpar o reino, alimentar animais e trabalhar no campo. Mas é claro que os seus queridos irmãozinhos não deixariam que ele saísse ileso dessa. Lembro-me perfeitamente de como Kelsig amarrou Gardar numa cadeira, e todos fizeram fila para dar-lhe um tapa na cara, até mesmo eu fiz isso, confesso.

Mas voltando ao funeral da Rainha. Trágico, é claro. Estávamos todos inconformados e profundamente tristes. O bispo rezou a missa, em seguida todos colocaram flores e um pouco de terra na cova. As nuvens nebulosas no céu daquele dia combinavam perfeitamente com o clima fúnebre que pairava sobre nós.

Embora eu ainda estivesse um pouco atordoada com todos os acontecimentos, fiz questão de escrever à Anna naquele mesmo dia, contando detalhadamente o que acontecera. Entreguei a carta ao encarregado de entregas no porto das Ilhas e juntei-me a Hans para assistir ao pôr-do-sol no jardim do castelo.

– E então? – perguntei apenas, sentando-me na grama, ao seu lado.

– Elsa... Você acha que ela pode... Pode estar “viva”? Em algum outro lugar? – perguntou invés.

– Ah, bem... Isso é muito pessoal de cada um, mas... Por que não? Eu acredito que sim. Esteja onde estiver, tenho certeza de que a sua mãe está feliz, com orgulho de vocês, está em paz. Assim como imagino que meus pais estejam... – ele pegou minha mão.

– Tem sido um percurso difícil para nós dois... Mas eu acho que aprendi que posso contar com você sempre. E estaremos juntos, não importa o que aconteça.

– Você acha que encontrou um “felizes para sempre”? – sorri.

– O tempo dirá... – ele sorriu de volta.

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Notas finais
*Capítulo 18 - Voltando Para As Ilhas Dramático, eu sei. Mas foi preciso fazer isso. Antes de qualquer coisa, deixem-me explicar-lhes porque a Rainha foi a vítima. 1- Hans estava demasiadamente fraco para livrar-se de dois guardas, ele levou uma bela surra do Gardar... Ele só conseguiu soltar-se depois porque os mesmos se descuidaram e acabaram o deixando escapar. 2- Eu sou uma autora clichê, mas nem tanto. O Hans era o primeiro na lista de possíveis vítimas, se fosse ele, não seria surpresa alguma. Além do que, minha intenção não era fazer do Hans um heróis tosco, e sim mostrar que a Rainha se redimiu e ama seus filhos, afinal, todos podemos mudar e nos arrepender. 3- A Rainha Brunnehilde é um personagem idoso, ela iria morrer mais cedo ou mais tarde... Preferível que fosse assim, como uma heroína. E ela também é muito inútil caso eu pense em uma outra continuação. Por fim, gostaria de dizer que quando comecei este capítulo, tinha uma grande dúvida: Matar ou não a Rainha? Aconselhei-me com quatro amigos próximos, três me disseram para matar, e um me disse que não sabia, pois estava em dúvida entre os prós e contras. Pensei bem, e eis o resultado. Espero que tenham gostado, bjs, comentem e até o epílogo, que como o da Feelings, também trará Curiosidades nas Notas Finais! Até lá!