New Dawn

1 Prólogo — "Departamento de Verificação Documental"


Você não queria desaparecer... queria continuar existindo.

A viagem já havia cruzado aquele limite silencioso onde o tempo, exausto, desiste de fazer qualquer sentido.

Em algum lugar entre o frio de Edimburgo e a manta cinzenta de nuvens sobre o Atlântico, Rose Ainsworth parou de contar as horas.

Não que isso importasse.

Ao pisar em solo americano, houve o alívio imediato de atravessar uma fronteira que homem nenhum demarcou, mas que o sangue, pesado e ancestral como o dela, sabe reconhecer no instante em que a cruza.

Longe dali, através da estática de um telefone celular, Kessler — um homem a quem o Ministério nunca dera um rosto, mas que o submundo chamava educadamente de Curador — ditava as regras do novo mundo:

— Continuar existindo custa mais caro... mesmo pra quem contrata meus serviços pela primeira vez.

Sob o carro (um sedã cuja cor e modelo foram cuidadosamente escolhidos para serem esquecidos cinco minutos após vistos), o asfalto da interestadual se desenrolava tal como uma fita molhada rumo ao nada.

— Entenda, senhorita Ainsworth. Desaparecer é um truque barato — continuou Kessler. — Algumas assinaturas falsificadas, um feitiço de desilusão, um corpo que ninguém mais encontra... e pronto.

O Curador fez uma pausa, o tipo que geralmente custa alguns milhares de galeões.

— Mas existir, não. Existir exige coerência.

No banco de trás, Rose manteve os olhos na janela.

Ela encarava o que o vidro lhe devolvia: um reflexo pálido e ligeiramente desalinhado do próprio corpo, como se a garota no vidro tivesse chegado ali segundos antes da Rose de verdade.

Kessler estava certo, é claro.

Não havia em Rose Ainsworth a menor intenção de se curvar à indignidade de se tornar outra pessoa.

Ela era a Sétima Filha, afinal.

— A senhorita agora tem um histórico sólido: Registros escolar e médico, movimentação bancária...

Ele listava aquela mediocridade corriqueira como quem lista ingredientes de uma poção complexa.

— Há memórias suas em lugares onde nunca pôs os pés, e há pessoas, neste exato momento, dispostas a jurar que lembram do seu rosto sem nunca terem a visto.

O motor do sedã, de repente, mudou de tom.

À margem da estrada escura, uma placa verde despontou através da neblina espessa, anunciando:

FORKS — 8 KM

— Quando o Ministério começar a procurar... ele vai encontrar — garantiu Kessler.

O vidro do carro embaciou por dentro — não pelo frio externo, mas pela repentina pressão que irradiou da pele de Rose.

Ela desviou o olhar.

— Mas não vai ser você.

Do outro lado da linha, ouviu-se um som que não chegou a ser um riso, mas que certamente zombava da inteligência de todo o Departamento de Execução das Leis da Magia.

— Não... eles vão encontrar versões esplendidamente coerentes espalhadas por Paris, Londres ou Tóquio. Todas plausíveis. Todas prontas pra serem interrogadas.

— Já estamos entrando nos limites da cidade, senhorita. — anunciou o motorista, subitamente.

O homem não olhou pelo retrovisor.

Rose percebeu, com um calafrio incômodo na base da nuca, que não saberia descrever os traços dele... nem sua voz.

Ela não saberia nem dizer se ele era um bruxo, um trouxa ou uma ilusão bem vestida.

Exatamente como o planejado.

— Sua casa fica na trilha norte. Combina maravilhosamente com o seu perfil — disse o Curador, pondo fim aos negócios. — Você fala pouco. Expõe-se pouco. Perfis assim não geram investigação.

A linha estalou, ameaçando morrer na neblina de Washington.

— E, senhorita Ainsworth?

Dessa vez, Rose respondeu.

— Sim?

— Agora, o mundo concorda com você — avisou Kessler, subitamente sério. — Não faça com que ele precise provar o contrário.

E a ligação morreu no exato momento em que um raio clareou todo o firmamento, ameaçando rasgar os solos férteis da terra.

A chuva pesada recomeçou a bater contra o teto do carro.

Rose mergulhou de volta no encosto do banco, sem saber que estava prestes a adentrar o único lugar na Terra onde os mortos tinham o sono mais leve que os vivos.

E onde a liberdade pela qual ela acabara de pagar tão caro seria a primeira coisa a ruir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.