Nevoeiro
36 Renesmee - De volta a vida
Notas iniciais
Acordei com uma sensação opressiva, como se algo pesado estivesse me prendendo ao colchão. Cada movimento parecia difícil, como se meu corpo estivesse envolto em correntes invisíveis. Minha garganta queimava intensamente, seca e desconfortável, e quando tentei engolir, foi como se estivesse arrastando cacos de vidro pela garganta, cada tentativa um lembrete doloroso de que algo estava terrivelmente errado.
Abri os olhos devagar, piscando repetidamente enquanto tentava ajustar minha visão à luz suave e difusa que preenchia o quarto. As paredes eram de um branco clínico, quase estéreis, e havia um silêncio pesado, interrompido apenas pelo bip ocasional de algum monitor. A sensação de desconexão tomou conta de mim, como se estivesse flutuando fora do meu próprio corpo, observando tudo de longe.
Olhei ao redor, meus olhos vagando pelas máquinas ao meu lado, as telas mostrando números e gráficos que não faziam sentido para mim. Havia uma cadeira próxima à cama, ainda com marcas no assento, como se alguém tivesse acabado de se levantar. O cheiro estéril do desinfetante invadia minhas narinas, me trazendo de volta à realidade fria do hospital.
Tentei mexer as mãos, os dedos, sentindo-os pesados e dormentes, como se estivessem acordando de um longo sono. Cada parte do meu corpo parecia estranha, desconectada, como se eu estivesse me reencaixando em mim mesma aos poucos.
Tudo ao meu redor parecia ao mesmo tempo familiar e estranho, como se eu estivesse presa em um sonho, tentando desesperadamente me agarrar à realidade. A consciência vinha em ondas, trazendo fragmentos de memória que eu não conseguia juntar. O que havia acontecido? Por que eu estava ali?
Eu ouvi uma voz feminina ao meu lado e, quando virei a cabeça com esforço, vi Lily. Ela sorriu para mim, seus olhos brilhando com emoção.
— É bom ver você acordar novamente — disse ela, e eu podia ver o alívio em seu rosto.
Minha mente estava confusa, como se tentasse colocar as peças de um quebra-cabeça em ordem.
— O que aconteceu? — Perguntei, minha voz rouca e fraca, como se tivesse sido usada para gritar por horas.
Lily se inclinou um pouco mais para perto, mantendo seu sorriso, mas seus olhos refletiam preocupação.
— Você está no hospital, Nessie. Houve um incidente na universidade...
De repente, a lembrança do ocorrido me atingiu como um golpe. Minha respiração acelerou, e eu senti uma dor aguda em meu abdômen ao tentar me mover.
— Ayla? — Minha voz saiu em um sussurro desesperado.
— Ela está bem. Esteve aqui o tempo todo, mas você estava sedada — Lily respondeu rapidamente, tentando me acalmar.
Tentei me levantar, mas a dor no meu abdômen me impediu, me fazendo gemer de dor. Lily se apressou a apertar o botão de chamada.
— Você precisou fazer uma cirurgia — explicou ela, tentando manter a calma. — Mas vai ficar tudo bem.
Assenti, mesmo que o medo ainda apertasse meu peito. Pouco depois, uma enfermeira entrou no quarto, avaliando a situação.
— Vou chamar o médico — disse ela antes de sair novamente.
Minutos depois, o médico apareceu. Ele se aproximou com um olhar profissional, mas amigável.
— Como você se sente? — Perguntou ele enquanto me examinava.
— Como se tivesse sido virada do avesso — respondi, minha voz um pouco mais firme, mas ainda cansada.
Ele sorriu levemente, assentindo.
— Isso é normal.
Depois que ele me medicou, a dor começou a diminuir, tornando-se mais suportável. O médico saiu, deixando-me sozinha com Lily novamente.
— Matt está a caminho. Ele foi buscar algumas coisas em casa — Lily informou, sentando-se ao lado da cama.
Eu ainda estava tentando entender tudo.
— Mais alguém se machucou na universidade? — Perguntei, preocupada.
Lily hesitou, seu olhar desviando ligeiramente antes de voltar para mim.
— Depois a gente conversa sobre isso meu amor — disse ela, tentando me tranquilizar.
Seu tom calmo me fez perceber que a situação era mais complicada do que eu gostaria de admitir.
A medicação para a dor fez efeito mais rápido do que eu esperava. Quando abri os olhos novamente, o quarto estava silencioso, exceto pelo som baixo da TV. Pisquei, tentando clarear a mente. Estava sozinha, e as roupas do hospital haviam sido trocadas por algo mais confortável. Suspirei, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Tanta coisa havia acontecido na última semana, e eu não fazia ideia de quanto tempo estive naquele hospital.
A porta se abriu, e meu tio Matt entrou no quarto. Seus olhos estavam embargados, e ele se aproximou lentamente da minha cama. Sorri para ele, tentando tranquilizá-lo, mas o peso do momento estava claro no seu rosto. Ele se sentou ao meu lado, segurando minhas mãos com firmeza.
— De todos os sustos que você já me deu desde que tinha dois anos, esse foi o pior de todos — disse ele, sua voz rouca de emoção. — Você está de castigo pelo resto da vida.
Tentei sorrir, mas meu coração estava pesado.
— Eu já tenho dezenove anos... Vou fazer vinte em breve, sou velha demais para ficar de castigo — brinquei, mas minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
Tio Matt sorriu, mas seus olhos ainda estavam cheios de preocupação.
— Eu te amo, Nessie — disse ele, beijando minhas mãos com ternura.
— Eu também te amo, tio Matt.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Lily entrou no quarto, carregando um prato com minha sobremesa favorita. Ela sorriu, tentando aliviar a tensão no ar.
— Olha o que eu trouxe para você — disse ela, colocando o prato na mesinha ao lado da cama.
— Obrigada, Lil. — Sorri, tentando mostrar gratidão, mas a sensação de que algo estava errado não me deixava em paz. — Quanto tempo eu fiquei desacordada?
Lily hesitou por um segundo antes de responder.
— Sete dias.
Isso me surpreendeu. Eu sabia que havia sido um ferimento sério, mas não esperava que tivesse ficado inconsciente por tanto tempo.
— E meus amigos? — Perguntei, a preocupação crescendo em meu peito. — Mas alguém se machucou, a Ayla... E Aaron?
Meus tios trocaram olhares, e meu estômago deu um nó. Matt segurou minhas mãos novamente, mais firme desta vez.
— Ayla está bem. Ela está lá fora e veio te ver — disse ele, e eu senti um alívio momentâneo. Mas algo no tom dele me deixou inquieta.
— E Aaron? — Repeti, meu coração batendo mais rápido.
Matt desviou o olhar por um instante, respirando fundo antes de voltar a me encarar.
— Infelizmente, seu amigo Aaron foi ferido... Ele não resistiu.
O chão pareceu se abrir debaixo de mim. Tudo ao redor ficou embaçado, e uma dor indescritível tomou conta do meu peito. Aaron... Ele não podia estar.... Não podia ser verdade.
— Não... — Minha voz saiu em um sussurro quase inaudível, e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto antes que eu pudesse contê-las.
Tudo que senti foi um vazio imenso, como se uma parte de mim tivesse sido arrancada. Aaron, com seu sorriso fácil e brincadeiras, seu jeito de iluminar qualquer ambiente. Ele estava realmente... Não resistiu? Não conseguia acreditar. Não queria acreditar.
Meus tios estavam ao meu lado, mas nada que dissessem poderia preencher o vazio que agora habitava em meu coração.
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