Nevoeiro
66 Jacob - A febre
A ameaça de um exército de vampiros recém-criados e o retorno dos Cullen a Forks tinha deixado a matilha em alerta máximo. As coisas estavam longe de serem simples; agora, tínhamos que lidar com mais do que apenas proteger nosso território. Os anciões da aldeia estavam preocupados, e não era para menos. Billy Black havia convocado uma reunião urgente com todos os membros da matilha, e eu já sabia o motivo.
Com o retorno dos frios, a febre também havia retornado, e, nos últimos dias, adolescentes acima de 14 anos começaram a passar pela transformação. O primeiro foi Sean Ulley, filho mais velho de Sam e Emily. O garoto tinha 17 anos e estava estudando na Inglaterra quando começou a sentir que algo não estava certo. Ele voltou imediatamente para casa, sem saber que estava prestes a se transformar.
Depois veio Peter, filho de Rachel e Paul, com apenas 15 anos. E, por último, Levi, filho de Embry, um garoto de apenas 14 anos que morava com a mãe. A matilha estava crescendo, mas isso também significava que nossas responsabilidades estavam se multiplicando.
Sam e eu decidimos dividir a matilha em duas. Sam se responsabilizou por integrar os lobos mais jovens, enquanto eu continuava focado na captura de Marco e Katherine, que estavam se tornando uma ameaça maior a cada dia.
Enquanto corríamos juntos pela floresta, senti a empolgação dos mais novos através do vínculo da matilha. Sean, Peter e Levi estavam animados, quase vibrando com a adrenalina da caça que eles imaginavam estar prestes a acontecer.
— Vamos caçar sanguessugas, Jake? — Sean perguntou mentalmente, sua voz cheia de entusiasmo juvenil.
— Claro! Já estou pronto para arrancar a cabeça de alguns — Peter acrescentou, a empolgação em sua mente quase palpável.
Levi, embora mais jovem, não ficou para trás. — Não vejo a hora de mostrar para esses vampiros o que um lobo de verdade pode fazer!
Sam e eu trocamos um olhar através da mente da matilha, compartilhando a mesma preocupação. Aqueles garotos não tinham ideia do que estavam prestes a enfrentar.
— Nenhum de vocês vai caçar sanguessugas — respondi, minha voz firme. — Vocês são novos nisso, e essa não é uma brincadeira.
A frustração deles foi imediata e clara.
— Mas, Jake! — Protestou Sean. — Podemos ajudar, estamos prontos!
— Eu sei que acham que estão prontos, mas a caçada não é tão simples quanto parece. Vocês precisam de mais tempo, mais treinamento — Sam interveio, tentando acalmar os ânimos.
Peter soltou um rosnado mental, claramente irritado. — Isso é injusto! Eu sou um lobo agora, posso lutar como qualquer um de vocês!
Embry suspirou pesadamente, e eu podia sentir a tensão aumentar. — Não é sobre ser justo, Peter. É sobre garantir que vocês estejam seguros e prontos para o que está por vir.
— Bem-vindos ao colegial, rapazes — Leah comentou secamente, sua voz carregada de sarcasmo. Ela sabia o quanto era difícil para os novos lobos aceitar as limitações impostas.
Os três garotos ficaram em silêncio, claramente aborrecidos, mas sabendo que não tinham escolha a não ser obedecer.
Sam, Embry e Paul suspiraram quase ao mesmo tempo, reconhecendo que teriam trabalho com aqueles jovens.
— Isso vai ser complicado... — murmurei mentalmente para Sam, sentindo o peso da responsabilidade.
— Não há dúvida — ele respondeu, exausto. — Mas vamos conseguir.
O clima da matilha estava pesado, mas tínhamos que seguir em frente. Havia muito trabalho a ser feito, e nenhuma margem para erros.
— Seth, preciso falar com você — disse, minha mente chamando a atenção do lobo mais jovem.
Seth assentiu, e nós dois nos afastamos do grupo, correndo até estarmos em um local seguro. Quando senti que era o momento certo, voltei à forma humana, Seth fazendo o mesmo logo em seguida.
Quando eu e Seth nos afastamos do grupo, o silêncio da floresta ao nosso redor pareceu se intensificar. Eu precisava falar com ele sobre algo que estava pesando na minha mente há algum tempo. Quando nos transformamos de volta em humanos, ele notou imediatamente a preocupação no meu rosto.
— Jake, o que está pegando? — Seth perguntou, curioso e um pouco preocupado.
Eu hesitei por um momento antes de responder, tentando encontrar as palavras certas. — Estou preocupado com Ayla.
Seth franziu a testa, claramente surpreso. — Eu vi isso na sua mente... também pensei sobre isso. Você acha que ela pode estar passando pela febre?
Soltei um suspiro profundo, sentindo o peso da preocupação crescer em meu peito. — Ela mudou muito no último mês, Seth. Cresceu, se desenvolveu fisicamente... Ela não parece mais uma menina de 15 anos. Parece uma mulher de 20.
O olhar de Seth se intensificou, a seriedade da situação clara em sua expressão. — Rebecca notou as mudanças também?
— Notou, sim. Ela mencionou o quanto Ayla amadureceu de repente e me alertou para isso. E se for a febre...? — Minha voz traiu a preocupação que eu estava tentando controlar.
Seth ficou pensativo por um momento antes de responder. — Vou ficar de olho nela. Qualquer mudança, qualquer sinal, eu te aviso na hora.
Assenti, sentindo um pouco do peso se aliviar sabendo que Seth estaria atento. — Agradeço, Seth. Não quero que ela passe por isso sozinha... e temo que Ayla não reaja bem, assim como Leah.
Seth assentiu, entendendo a gravidade da situação. — Vamos cuidar dela, Jake. Vamos passar por isso juntos.
Eu coloquei a mão no ombro dele, apreciando mais do que nunca a confiança e o apoio de Seth. — Obrigado, irmão. Isso significa muito pra mim.
Enquanto voltávamos para o grupo, eu não podia deixar de pensar em Ayla e no que o futuro reservava para ela. O desconhecido sempre foi algo que me deixava inquieto, e a possibilidade de que ela estivesse prestes a enfrentar uma transformação tão drástica era algo que me enchia de medo. Mas, com Seth ao meu lado, eu sabia que não importava o que acontecesse, estaríamos prontos para proteger Ayla e ajudá-la a enfrentar o que viesse pela frente.
Os dias seguintes foram tensos, tanto para mim quanto para Seth. Ficamos atentos a qualquer mudança em Ayla, procurando sinais de que a febre da transformação poderia estar se aproximando. Eu sabia que, se algo acontecesse, Seth estaria lá para ajudá-la, mas a preocupação não me deixava em paz.
Naquela manhã, eu estava voltando de Seattle. Passei a noite inteira seguindo Katherine, que, por algum motivo, continuava a correr em círculos, como se estivesse testando minha paciência. Embora a caça aos vampiros fosse uma prioridade, eu ainda tinha responsabilidades em minha vida humana e como homem de negócios. Conduzindo meu carro pela estrada de La Push, a mente ainda parcialmente presa aos eventos da noite anterior, fui surpreendido pelo toque do celular. Rebecca estava me ligando. Achei estranho, dado o horário, e atendi imediatamente.
— Rebecca? Está tudo bem?
— Jake... — A voz dela soava tensa, o que fez meu coração acelerar. — Algo está acontecendo. Seth está levando Ayla para encontrar o restante da matilha.
— O quê? — Apertei o volante, sentindo a preocupação se transformar em um nó no estômago. — Onde eles estão?
— Estão indo para a floresta, perto da velha trilha. Jake, eu acho que é a febre...
Meu coração disparou. — Estou na estrada, indo direto para lá. Vou chegar o mais rápido possível.
Encerrando a ligação, suspirei profundamente e acelerei o carro, o motor rugindo enquanto eu pisava fundo no pedal. Os quilômetros passavam rapidamente, mas cada segundo parecia uma eternidade. Eu precisava estar lá para Ayla.
Ao chegar à reserva, estacionei o carro perto da casa dos Clearwater e saí apressado, encontrando Olivia do lado de fora. Nossos olhares se cruzaram, e a preocupação em seus olhos era evidente.
— Você está bem? — Perguntei, sem poder esconder a urgência na voz.
Ela hesitou antes de responder, a voz baixa. — Sim... e você?
Assenti, embora não tivesse certeza se estava respondendo à pergunta dela ou tentando convencer a mim mesmo. O silêncio entre nós foi breve, mas carregado. Havia tantas palavras não ditas, mas agora não era o momento. Sem dizer mais nada, me virei e segui em direção à floresta, onde podia sentir a presença da matilha.
Quando deixei o lobo tomar conta, a transformação trouxe consigo uma avalanche de vozes e pensamentos que invadiram minha mente. Entre eles, algo chamou minha atenção imediatamente: Ayla.
Para minha surpresa, Ayla não estava confusa ou assustada. Pelo contrário, ela estava feliz, radiante até. Através dos olhos dela, vi algo que nunca imaginei. Ela sentia por Seth o mesmo que ele sentiu por ela desde o momento em que ela nasceu: um imprinting. E não era só isso—Ayla havia se transformado em uma loba com a mesma cor de pelagem que a minha, uma conexão que fez meu coração apertar de um jeito inexplicável.
A jovem loba cambaleou ao tentar se manter em pé ao me ver, mas logo se aproximou, balançando a cauda e com um brilho no olhar. — Isso é um máximo! — Sua voz ecoou na minha mente, cheia de entusiasmo.
Eu estava em choque, assim como os demais membros da matilha. Ayla não apenas havia se transformado; ela também havia encontrado sua alma gêmea em Seth, o mesmo lobo que havia sofrido um imprinting por ela há 15 anos.
O que eu deveria sentir? Tranquilidade por saber que ela estava segura e feliz, ou confusão por essa reviravolta inesperada? Não consegui decidir. Tudo o que sabia era que minha filha estava ali, radiante e confiante, e que, de alguma forma, tudo parecia ter encontrado seu lugar.
Fale com o autor