Never Wanna Dance
1 Never Wanna Dance
Notas iniciais
Sejamos sinceros. Eu sequer a conheço. Sim, eu sei que estou do lado desse celular esperando uma mensagem há horas, mas isso também não quer dizer muita coisa. A gente ficou algumas vezes antes, mas desde aquele dia... sei lá. Não ando sabendo muita coisa sobre mim esses dias. Eu me joguei nessa de cabeça e agora das dores da pancada estão começando a surgir.
“- Vamos! Essa música é incrível!
— É... então... sabe aquele pessoal que adora dançar? Eu não sou bem esse pessoal. – eu disse.
— Vamos lá, não vai me dizer que você é um daqueles caras que gostam do papel “sou bom demais para essa música e esse lugar”, vai?
—Não é isso, eu só... só não curto.
—Nunca?
—Nunca.
—Nem bêbado? Porque eu posso providenciar isso. – ela disse enquanto rodopiava com a boca no canudo do copo que segurava, provavelmente uma daquelas batidas de limão e vodka.
—Nem bêbado.
— Viiixe, entendo que você não queira dançar, mas desculpa, essa música é boa demais para eu não viver esse momento.
— Alice, vai lá. Eu estou de boas, sério.
— Vou mesmo, até já já, Jake.”
E ela foi. A música que tocava era um pop extremamente forte e o som estava altíssimo. A voz feminina ecoava algo sobre alguém a ter feito fazer algo, qualquer coisa assim. E ela... ela estava esplendida. Seu vestido preto parecia reluzir na luz da boate, coisa que eu já não sabia se era porque ele realmente brilhava ou porque eu estava ficando meio alto, mas tudo bem. Eu me perguntava como ela conseguia ser tão sexy e ao mesmo tempo não fazer o tipo “usual” do ser sexy. A gente não namorava, a gente não ficava (só algumas vezes em festas, mas isso nem conta), a gente sequer tinha uma linha contínua de conversas, mas quando tinha, algo de bom me parecia surgir. A sensação de não estar tão sozinho no mundo, talvez.
Enquanto eu refletia se o vestido dela realmente brilhava ou se eu estava bêbado, alguém chegou perto dela. Eles estavam dançando, ele a rondando e claramente dando um sinal, e, quando eu vi, eles já tinham começado a se beijar. Preferi virar o olhar, não era uma cena que eu queria ver. Para falar a verdade, algo surgiu em mim, coisa que eu realmente preferi não ficar ali para saber o que era, fui me sentindo meio sufocado e na mesma hora me dirigi à porta dos fundos da boate em busca de um pouco de ar fresco.
Coloquei minhas mãos no joelho e inclinei minha cabeça para o chão, mas mais que merda foi aquela? Uma coisa é me sentir estranho em ver uma menina que eu estava ficando a ficar com outra pessoa. Até aí tudo relativamente normal (embora não deva ser, porque né, não temos nada). Mas aquela sensação vinha me rondando há algumas semanas, um queimar estranho. Não posso me envolver. E eu sempre me envolvo, mas tenho um problema sério com pessoas, tenho essa capacidade de transformar um simples “oi” em um verdadeiro conto de fadas, acho que os montes de filmes românticos que minha mãe via se impregnaram em mim. Mas tenho noção de não posso sentir nada, isso sempre me traz problemas.
E eu ando fugindo deles.
Mas isso já tem um tempo. Duas semanas, para ser mais exato. Eu preferi não mexer nisso, sabe como é, melhor evitar a fadiga. Até que recebi a bendita mensagem:
“- Olar, queria saber se você está bem. Ah, e porquê você saiu da festa e nem me disse um “tchaaau”.
E lá fui eu explicar da forma mais mentirosa possível. Uma bebida que não caiu bem aqui, um sono acolá e tudo bem. Mas a conversa foi rendendo. Quando eu vi já era 4 da matina e ainda conversávamos das coisas mais variadas possíveis, desde as filosofias de vida até qual dedo seria o melhor para se limpar o nariz – coisa que definimos que o dedo indicador ganha de lavada. O fato é: a conversa fluiu.
E foi fluindo.
As semanas passando e ela ainda fluía.
E os convites para os encontros surgindo e acontecendo. Alguns beijos? Vários. E eu só conseguia pensar em como eu não poderia estragar tudo.
Mas estraguei.
Uma semana eu tive uns problemas de ansiedade fudidos e, quando eu tenho esses problemas, eu simplesmente me isolo do mundo. Falar com alguém só piora as coisas, e minha psicóloga é a única exceção para essa regra. Eu sei que Alice também poderia ser, aliás, eu queria que ela fosse, mas eu simplesmente não me permitia a inserir nessa situação fudida. Ela era uma parte muito boa da minha vida para ser misturada em uma parte muito ruim da minha vida.
O problema é que Alice claramente queria falar comigo, afinal eu desapareci, não atendia as suas ligações, não respondia as suas mensagens e sequer a atendi quando ela apareceu no meu apartamento. Mas as coisas foram melhorando, as crises diminuindo de frequência e eu – algum tempo depois- a respondi no whatsapp.
“- Não dá para simplesmente você desaparecer por dias e me deixar no escuro dessa forma, Jake.
— Alice, me desculpa se fui muito escroto, mas esse é só meu jeito. Às vezes eu fico sem saco para as pessoas e me tranco em meu próprio mundo. — eu ainda não me sentia bem para ser sincero com ela, embora eu quisesse pra caralho.
— Mas porra, não é como se eu fosse qualquer pessoa.
— Por que? – tudo o que eu precisava era só uma frase, só uma luz.
— Sinceramente eu precisar responder essa sua pergunta é a prova que na verdade eu é que estou enganada.”
E nessa conversa do whatsapp tudo se esvaiu. Se eu fui um cuzão de ter desaparecido? Com certeza. Mas eu realmente não estava bem. Tentei argumentar, mandei zilhões de mensagens, liguei, pedi desculpas pessoalmente e quase fiz a linha cantor de sertanejo e pedi música na rádio para ela escutar, porém ela não respondia. Infelizmente ou felizmente, cheguei a uma conclusão melhor nessa situação. Alice merece alguém melhor. Ela realmente merece alguém muito melhor. Ela não precisa de um cara como eu, fudido em crises existenciais e ansiedades, que nunca quer dançar.
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