Never Grow Up
1 Darling, dont you ever grow up!
Notas iniciais
Your little hand's wrapped around my finger and it's so quiet in the world tonight…Your little eyelids flutter cause you're dreaming, so I tuck you in, turn on your favorite night light.
Naquela noite de verão, Lily estava particularmente incomodada com uma borboleta que voava perto de seu nariz. Harry acabara de chegar do trabalho trazendo uma imitação de um pomo de ouro de pelúcia para a filha. Fantasiara, desde que vira que a filha tinha os cabelos ruivos como os da mãe, que Lily seria jogadora de quadribol como Gina.
Lily ainda tentava afastar a borboleta com as pequenas mãos, mas gargalhou como nunca quando a mesma pousou em seu dedo. Harry não poderia parecer mais babão do que parecia naquele momento. Procurou a máquina fotográfica para registrar o instante. Sua garotinha tinha três anos e para o desespero de Gina, a primeira palavra que dissera fora ‘papai’.
Lily pulou nos braços do pai assim que o viu, e Harry, interessado, a ouviu contar tudo o que aconteceu no seu dia.
Aquela sempre fora sua parte favorita do dia.
Harry não podia se sentir mais feliz. Tinha um emprego estável, uma esposa maravilhosa e três filhos fantásticos: o arteiro James que com sete anos já aprontara o bastante por uma vida; o que mais parecia com ele, tanto fisicamente quanto na personalidade, Alvo, que tinha cinco anos e estava sempre abraçado a um livro, normalmente presente da sua tia Hermione; e Lily, sua única menina. A garotinha de olhos castanhos claros, cabelos ruivos intensos e sardas espalhadas pelo rosto. Com três anos de idade se mostrava parecidíssima com a mãe, mandona até com as bonecas e tão persuasiva que por várias vezes Harry fora surpreendido com a imagem dos três filhos tomando chazinho de mentira.
Aliás, isso contribuía para sua felicidade: ver como os três filhos eram unidos, mesmo quando James estava implicando com Alvo, ou quando estava preocupado com a mania de Lily de se jogar dos móveis da casa. Lily, mesmo com aquela idade, se atrelara a imagem de que sempre que pulava o irmão mais velho estava lá para segurá-la.
Queria que os filhos ficassem daquele tamanho para sempre.
Após alimentar a filha com um purê de batatas, sentira a pequena mão de Lily envolvendo e apertando seu dedo indicador.
– Está com sono, Lil? – A filha respondeu coçando os olhos com as pequenas mãos. – Vou te levar para o quarto.
Envolveu-a nos braços e cantou até que ela dormisse. Não era tão afinado quanto Gina, aliás, não era nem um pouco afinado, mas Lily se acalmava com a voz do pai e isso era gratificante para ele.
Harry sorria todas as vezes que via as pálpebras da filha se agitando: significava que ela estava tendo um bom sonho. Desligou as luzes e com a varinha encantou o teto para que desenhasse pequenas estrelas e uma grande lua como a que estava no céu aquela noite, as luzes favoritas da filha.
To you everything's funny, you got nothing to regret, I'd give all I have, honey, if you could stay like that…
Gina o procurou assim que colocaram todos os filhos nas camas. James mostrara resistência para dormir: dissera que já era bem grandinho e que queria continuar acordado até os pais irem dormir.
Por fim, ela o encontrou no quarto de Lily e o abraçou cansada.
– Eu queria que ela ficasse desse tamanho para sempre, Gin. – Harry sussurrou para a esposa. – Olha que linda!
– Deixe-me trocar seu babador. – Gina ironizara rindo. – Ela é linda mesmo, não é?
– Igualzinha à mãe. – Harry dissera e Gina corara.
– Hoje ela riu por pelo menos cinco minutos quando Alvo brincou de se esconder e de aparecer para ela. – Gina disse olhando com os olhos brilhando para o berço onde a filha dormia pacificamente. – Ela se diverte com qualquer coisa... A risada dela é tão gostosa de ouvir.
Harry beijou a testa da esposa que ainda olhava amorosamente para a filha.
Oh darling, don't you ever grow up, don't you ever grow up, just stay this little. Oh darling, don't you ever grow up, don't you ever grow up, it could stay this simple…
Antes de ir para o quarto com Gina, Harry olhou para o berço da filha mais uma vez e murmurou:
– Ah minha linda, nunca cresça, nunca cresça... Continue pequeninha assim. – Harry abaixou-se na altura do berço. – Tudo poderia continuar simples assim. – dissera com pesar. Daqui a um tempo Lily estaria lhe dando trabalho, pensando em namorar e em sair de casa. Só em pensar nisso, sentia seus músculos se retesaremm, além de arrepios de horror. Não, não pensaria nisso ainda.
Naquela idade tudo era divertido, não existiam arrependimentos ou coisas que a filha preferiria esquecer... Não existiam medos além do escuro ou grandes monstros para combater.
Era lindo como ela ainda acreditava em tudo, quando seu pai era seu maior ídolo e ela dizia querer ser exatamente igual à mãe quando crescesse.
Harry não duvidava que quando ela crescesse seria igualzinha aà Gina, mas preferia que ela não crescesse.
I won't let nobody hurt you, won't let no one break your heart and no one will desert you… Just try to never grow up, never grow up.
Ela sempre seria sua garotinha. A imagem de Lily envolvendo seu indicador com a mãozinha minúscula, ou bocejando após se lambuzar toda com a papinha de abóbora aquela vez que teimara em comer sozinha, nunca se apagaria de sua mente.
Ele a ensinou a andar de bicicleta e cuidou dos diversos ferimentos da menina que vivia caindo, mas não desistia, era determinada como a mãe. Estava ao seu lado quando esta resolveu se aventurar e subir na vassoura pela primeira vez. Ou quando Lily aprendera a ler e insistia em fazer leituras de histórias para os pais, mas se cansava e acabava inventando as coisas mais engraçadas e improváveis ao fim delas.
Nunca deixaria ninguém a machucar, nunca deixaria ninguém partir seu coração. Ninguém nunca a abandonaria se quisesse continuar vivo. Na verdade, ninguém jamais a mereceria.
Só queria que ela nunca crescesse.
You're in the car on the way to the movies and you're mortified your mom's dropping you off…
Queriam que ela nunca crescesse.
A aparência doce da filha quando ela tinha três anos era muito diferente dessa irritada que ela apresentava agora, ponderou Gina enquanto a levava ao cinema em Londres.
Lily insistira que poderia ir sozinha, que podia pegar um metrô ou um ônibus. Não queria ser vista com a mãe quando Debra McBeans se dizia tão incrível por saber como chegar sozinha a qualquer parte da Inglaterra. Não importava o quão desenvolvido estava o corpo da filha, ou o detalhe do brilho labial que ela usava todos os dias antes de sair de casa... Aquela ainda era sua garotinha.
– Para qual cinema você está indo Lily? O da Cornhill ou o da King’s Road? – Gina perguntou quando saíram de casa.
– O da Cornhill. – Lily respondera de mau humor.
– Hey, vamos desamarrar essa cara e essa atitude. – Gina dissera rindo, olhando para o trânsito a sua frente. Lembrou-se que era exatamente assim que agia quando os pais a levavam a qualquer lugar.
– Desculpe mamãe, é só que... – Lily ia se justificar, dizendo que não queria dar a Debra o gostinho de vê-la chegando com a mãe, mostrando que ainda era uma criança. – Você não vai entender.
– Você não é uma criança só porque tá de carona com sua mãe. – Gina dissera exatamente o que estava na mente de Lily, que por sua vez sorriu. – E de quem foi a ideia de ir ao cinema?
– De Debra. – Lily disse simplesmente e Gina esperou que ela continuasse. – Ela nasceu trouxa e aí ela chamou todos para irem ao cinema. Eu não queria ir, mas o Hugo vai e... E a Debra tá dando em cima dele.
– E daí? – Gina disse sem entender por que a filha estava tão indignada com aquilo. Lily apenas contorceu o rosto em uma careta.
– E daí que ele é meu melhor amigo e a Debra não é boa o bastante. – Bufou e cruzou os braços.
At 14 there's just so much you can't do and you can't wait to move out someday and call your own shots.
Quando Harry dizia que não queria que a filha crescesse, Gina sempre fazia graça e dizia que ele só estava com medo dos milhões de pretendentes que ela teria quando ficasse mais velha. Mas agora que Lily tinha quatorze anos entendia completamente qual era o ponto.
Tentou lembrar-se de si quando tinha aquela idade: estava apaixonada por Harry, sempre estivera... Não havia muito que fazer quando se tinha quatorze anos, lembrava-se que tentara persuadir sua mãe a deixa-la pintar o cabelo de preto, porque achava que Harry preferia as morenas.
Obviamente Molly não deixara, disse que a filha se arrependeria e que ela não ficaria bem com cabelos escuros.
Mal podia esperar para ser maior de idade, sair de casa e poder pintar o cabelo da cor que quisesse, escutar as conversas que quisesse e namorar quem quisesse.
Naquela mesma idade uma amiga a aconselhara e Gina resolvera mudar: deixaria que o mundo visse quem ela era de verdade, não uma versão que ficava sempre desconcertada quando se via na presença de Harry, ou que fosse fraca e vulnerável como as mocinhas dos filmes trouxas que precisavam ser salvas o tempo inteiro. E quando parou de fazer planos em sua mente para chamar a atenção Harry, conseguiu seu amor. Estavam juntos desde então, pelo menos no coração.
Queria saber se a filha já estivera apaixonada por alguém, ou se ela estava apaixonada naquele momento. Se já tinha pensado em fazer alguma loucura ou se já escrevera um poema ridículo e humilhante para algum garoto. Só não sabia como perguntar.
– Mãe… — Lily quebrou o silêncio, mas parecia desconcertada demais para perguntar.
– Sim, Lil. – Gina disse ainda olhando para frente. Sabia que se olhasse para a filha ela nunca continuaria. Sabia por que seu marido também era assim. De soslaio viu quando a filha fechou os olhos para continuar a falar.
– Você já se apaixonou por alguém? – Lily resolveu fazer uma pergunta mais fácil e se sentiu idiota logo depois.
– Claro que sim, Lily. – Gina sabia que aquela não era realmente a pergunta da filha. – Eu sou apaixonada pelo seu pai desde... Sempre, eu acho.
– Mas você nunca namorou outras pessoas? – Lily perguntara interessada.
– Ah, namorei... – Gina corara, não estava acostumada a falar sobre a vida amorosa na adolescencia. – Namorei dois rapazes antes do seu pai. Nunca é uma boa ideia namorar uma pessoa para esquecer a outra, anote isso.
– Eu acho que sei como é. – Lily fitara a estrada a sua frente – Mas e se não há nenhuma possibilidade de ficar com a pessoa que você gosta?
– E a pessoa que você gosta não sabe que você gosta dela? – Gina resolveu ser direta.
– Só não sabe se for um idiota. – Lily revirou os olhos. – O que eu estou achando que ele é.
– Então de repente ele precise de uma ajuda para deixar de ser idiota. – Gina disse simplesmente.
– Mas e se... – Lily começou. – Deixa para lá.
– Eu já tive a sua idade Lily. – Gina dissera simplesmente. – E nem me venha com 'faz muito tempo'.
Lily rira e Gina sorrira, há tempos a filha só andava irritada ou triste. Era como se não a reconhecesse mais. Aquele riso trouxera, de certa forma, paz e familiaridade. Era como se a garotinha que ria de qualquer coisa nunca tivesse parado de sorrir. Nunca tivesse crescido.
But don't make her drop you off around the block… Remember that she's getting older too and don't lose the way that you dance around in your pjs getting ready for school.
Estavam quase em Londres e Lily, apesar de sorrir, não tocara mais no assunto. Gina ainda esperava que ela continuasse, mas não a forçaria a falar. Lily falaria quando estivesse pronta.
– Mas e se ele deixasse de ser idiota e a gente namorasse... – Lily enrubescera, mas continuou olhando para a mãe. – E se você e o papai, e os pais dele não apoiassem?
– Ele é algum tipo de ladrão ou assassino? Ou um idiota que bate em mulheres? – Gina disse olhando para frente. – Porque se não for, eu não vejo motivos.
– Não, nada disso. – Lily disse nervosa. – Na verdade vocês gostariam muito dele. Vocês gostam muito dele.
– É mesmo? – Gina dissera divertida. – E quem é? William Lightsmart? Joey Freewish?
– Não... Na verdade não. – Lily fechou os olhos e disse de uma vez. – É o Hugo.
Freada brusca. Cara de desespero. E silêncio.
– Aqui estamos a um quarteirão do cinema, você vai poder fingir que veio de ônibus. – Gina dissera tentando fazer piada da situação. Não soara nada como piada. Claro que não se sentia bem sabendo que a filha tinha vergonha de ser vista com ela.
– Mãe, você não... Precisa parar aqui, pode me deixar lá na frente.
Gina reprimiu um sorriso, de repente a filha não tivesse vergonha, só estivesse irritada com a tal da Debra que estava tentando tirar o Hugo dela.
Lily e Hugo.
Não era grande surpresa na verdade. Os dois eram grudados desde antes de aprenderem a andar, faziam tudo juntos há muito tempo e era um erro pensar que agiam como irmãos... Não, Lily não precisava de outros irmãos, ela tinha James e Alvo.
Gina quis atirar sua própria cabeça na parede por não ter pensado nisso antes, é claro que isso aconteceria. Só que ainda não sabia o que pensar.
– Ér, mamãe... – Lily tentara dizer, mas ainda estava irritada por ter aberto a boca grande. – Não conta para papai sobre o Hugo.
– Lils eu... Eu não acho que há algo para contar. – Gina disse.
– Como assim? – Lily perguntou, surpresa.
– Se você gosta do Hugo e ele gostar de você... – Gina começou, não tendo certeza do rumo que daria a conversa. – Não estou dizendo que seria fácil aceitar a ideia, mas acho que não devemos nos preocupar com apenas uma hipótese.
– Hipótese? – Lily bufou, semicerrando os olhos. – Então se de alguma maneira desse certo você não me apoiaria?
– Lily, não é isso. – Gina apressou-se em dizer.
A paz durara apenas alguns minutos.
– O que foi mamãe? Será que é difícil assim alguém se apaixonar por mim? – Lily perguntou de braços cruzados.
– Claro que não, meu amor, só estava dizendo que não devemos preocupar seu pai antes de algo de verdade acontecer. – Gina tentou se explicar.
– Ah, sempre com a esperança de nada acontecer. – Lily disse vermelha de raiva.
– Quer saber, Lily? – Gina disse em um tom um pouco mais elevado. – Saia do carro antes que eu mude de ideia sobre essa sessão de cinema.
– Ok. – Ela disse se levantando e batendo a porta do carro. Gina colocou a mão na testa tentando se acalmar e quando controlou a respiração viu Lily voltar. – Esqueci-me de pegar o dinheiro.
– Aqui está. – Gina disse estendendo as notas de dinheiro trouxa. – Estarei te esperando na casa da sua tia Hermione, que horas pretende chegar?
– Não sei. – Lily respondeu em um tom petulante.
– Pois então descubra. – Gina disse, irritada com o tom atrevido da filha. – Nove horas deve ser mais que o suficiente. Não se atrase.
Gina dera a partida no carro antes de ouvir mais alguma coisa que a tirasse do sério; dirigiu até a casa do irmão e conversou amenidades com Hermione até se acalmar.
Lily tinha quatorze anos e dava um trabalho imenso. Imaginou o tanto de dor de cabeça que a filha poderia trazer nos próximos anos e desejou profundamente que ela não crescesse mais.
No one's ever burned you, nothing's ever left you scarred and even though you want to, just try to never grow up.
Agora Lily, para o desespero dos pais, estava em um relacionamento sério. Aliás, para desespero do pai e dos irmãos. Gina sabia como a filha se sentia, por isso tentou aliviar a situação dela com a família quando Lily apresentou Hugo como namorado. Proibiu, na presença de Lily, as palavras: errado, primos e jovens demais.
– Esse não é e nunca será o único casal de primos formados na face da Terra. – Era sempre o argumento final de Gina.
Enquanto Gina zelava pela paz da filha dentro de casa, Harry monitorava de perto os encontros, o namoro no sofá e os horários que Lily chegava em casa.
Todas as vezes que Lily demorava muito tempo no lado de fora com Hugo, Harry apagava e acendia a luz da varanda até que Lily entrasse em casa; depois fingia que nunca havia tocado em sua varinha. Todas as vezes que Hugo e Lily se sentavam no sofá, Harry começava a ler uma versão sem fim do Profeta Diário, e como se não bastasse, gostava de atrapalhar qualquer clima fazendo perguntas inconvenientes para Hugo. Todas as vezes que tinham um encontro fora da cidade, Harry ia junto e ficava em outro lugar só para checar o que estava acontecendo.
Por mais que os olhos de Lily fizessem sempre uma volta completa quando o pai tomava certas atitudes, ela, agora com dezessete anos, entendia que ele só estava cuidando dela.
Ninguém nunca a havia machucado, deixado marcas ou a feito sofrer e Harry não queria que isso acontecesse jamais. Mas sabia que isso poderia acontecer, fazia parte do crescimento e por isso não queria que ela crescesse.
Take pictures in your mind of your childhood room, memorize what it sounded like when your dad gets home. Remember the footsteps, remember the words said and all your little brother's favorite song… I just realized everything I have is someday gonna be gone.
Os anos passam rápido demais. Parecia ser ontem quando era adolescente e batia todas as portas da casa quando os pais teimavam em acompanha-la a Londres quando tinha um encontro com Hugo.
Agora estava ali, empacotando suas coisas... Prestes a formar uma nova família com Hugo.
Lembrava-se dos céus estrelados que o pai produzia todas as noites quando ela já estava dormindo, lembrava-se de acordar no meio da noite e contar as estrelinhas. Sabia que o pai fazia isso até hoje. Sentiria falta disso. Sentiria falta do seu quarto antigo.
Lembrava-se do cheiro dos sapinhos de chocolate que o pai trazia todos os dias depois do trabalho para o desespero de Gina, que discursava duas horas sobre os filhos não comerem direito e que ele só vivia trazendo bobagens. Lembrava-se também de que ele chegava em casa fazendo alarde e era sempre recepcionado com um abraço apertado de cada filho, sabia que isso o deixava feliz, mas ela achava que ele não sabia o quanto a deixava feliz também.
Com pouco esforço, enquanto enchia as caixas de substâncias, enchia a mente de memórias, como a de quando estava aprendendo a andar e sua mãe fez praticamente uma festa, com direito a bolo e tudo quando ela finalmente aprendeu a andar; ou como os pais diziam que a amavam todos os dias quando a colocavam para dormir.
Eles diziam que a amavam até os dias de hoje, por mais insolente que pudesse ser.
Se lembrava de como James enchia sua paciência ouvindo o CD d’Os Desordeiros de Merlin, sua banda bruxa favorita, ou quando Alvo insistia em tocar as coletâneas muito antigas das Esquisitonas na porta seguinte a sua. No fundo gostava das duas bandas, mas gostava ainda mais de gritar e pedir para abaixar, implicando com os irmãos.
Mas primeiro James se mudou, depois Alvo saiu de casa e agora era ela.
Lily percebeu que tudo o que ela tinha um dia acabaria.
Que estava na hora de crescer e começar uma vida nova.
So here I am in my new apartment, in a big city, they just dropped me off. It's so much colder that I thought it would be, so I tuck myself in and turn my night light on
Casara-se e mudara-se com Hugo, se sentia maravilhosa, nunca tinha experimentado a sensação antes. Dormir e acordar ao lado de quem amava não tinha preço.
Queria que tudo fosse perfeito nessa vida nova, mas a primeira sensação que tivera ao girar a maçaneta do apartamento novo em Londres foi que ele era muito menos aconchegante e mais frio que seu casarão no subúrbio. Queria evitar comparações, mas imaginou que no futuro quando tivesse filhos com Hugo voltariam ao subúrbio.
Claro que apesar disso, se sentia feliz. Tinha um lar que podia chamar de seu, um marido que podia chamar de seu e finalmente começaria uma família que poderia chamar de sua.
Queria uma família exatamente igual a que tivera, queria o cheiro de torta de abóbora vindo da cozinha, mesmo sem saber como fazer isso; queria vários filhos, um tanto que desse para montar um mini time de quadribol para jogar contra os primos; queria uma casa na praia e viagens com a família.
Antes de dormir, Lily desligou as luzes do apartamento e admirou o marido dormindo. Sonhando com a vida que poderia ter, ligou sua luz noturna favorita: a luz do céu à noite, com suas estrelas e lua brilhante, dormiu pacificamente.
Wish I'd never grown up… I wish I'd never grown up
Oh I don't wanna grow up, wish I'd never grown up, I could still be little! Oh I don't wanna grow up, wish I'd never grown up, it could still be simple.
Mas a vida de casada não era simples e Lily agora dirigia de volta para a casa dos pais para esfriar a cabeça. Poderia ter aparatado ou usado pó, mas dirigir a acalmava.
Tudo tinha escapado de suas mãos. Discutiam por causa das contas, discutiam porque Hugo sentia a necessidade de comemorar até tarde cada noticia boa que recebia ou pela pouca vontade de Lily de contar o que estava sentindo ou simplesmente discutir a relação.
– O começo nunca é fácil, Lily. – Harry dissera depois de preparar um chá para a filha.
– Mas tudo era tão mais fácil antes, papai. – Lily dissera chorando. – Discutíamos por coisas banais e idiotas, agora parece que não conseguimos falar sobre outra coisa além de contas.
– Faz parte do crescimento, minha filha. – Harry a consolou, afagando seu cabelo. – Quando eu e sua mãe nos casamos, passávamos por um momento delicado... Eu tinha pesadelos o tempo todo e... Enfim, no começo ela não falava como se sentia em relação a tudo e nós discutíamos o tempo inteiro.
– Mas eu não consigo estender minhas mãos e conversar como se estivéssemos em uma terapia, papai! É difícil. – Lily dissera enxugando as lágrimas.
– Isso também faz parte de crescer, meu bem. – Harry dissera.
– Talvez eu não queira crescer, sabe? – Lily constatou e Harry sorriu. – Era tudo bem mais fácil quando eu era criança.
– Esse sempre foi meu desejo. – Harry comentou, consertando os óculos no rosto. – Até o dia que eu te conduzi ao altar no dia do seu casamento e eu vi que já era tarde demais, que você já era uma mulher. Uma mulher capaz de tomar as próprias decisões, uma mulher decidida e determinada, uma mulher que daria conta do que o futuro pudesse reservar.
– E você acha que eu sou isso tudo mesmo, papai? – Lily perguntou se sentindo vulnerável.
– Claro que sim. – Harry a abraçou e beijou sua testa. – Mas não importa quão mulher você seja, você será para sempre minha garotinha.
Lily sorriu e apertou forte o pai.
Naquela noite voltou para casa e encontrou Hugo transtornado.
Pediram perdão um para o outro e conversaram de verdade. Se reconciliaram e não voltaram a brigar seriamente.
Lily se empenhou para ter uma família feliz como a que tivera. Secretamente, quando se via diante de um problema grande, desejava nunca ter crescido, mas sabia que tanto sua criança interior quanto a mulher que era hoje tinham forças para resolver qualquer coisa.
Oh darling, don't you ever grow up… Don't you ever grow up, it could stay this simple. Won't let nobody hurt you, won't let no one break your heart and even though you want to, please try to never grow up!
Ali estavam em sua nova casa no subúrbio, Hugo chegara do trabalho com um saco de jujubas que mudavam de sabor assim que colocadas na boca.Lily fez uma careta e beijou o marido, após recrimina-lo por trazer doces antes do jantar.
A pequena Gin brincava distraidamente com suas bonecas: as fazia voar em uma formação muito peculiar para um time de quadribol de mentirinha.
Assim que vira o pai, Ginevra Hermione Weasley largou todos brinquedos e pulou no colo do mesmo.
A primeira palavra que dissera fora ‘papai’. Estava numa mania de só jantar se o pai lhe desse a comida, era grudada nele. Mas Lily não se incomodava, sabia como era e desejou mais que nunca que a filha nunca crescesse, assim poderia ouvir as histórias que ela lia e que ganhavam sempre um fim duvidoso.
Assim ninguém jamais a machucaria, ninguém jamais quebraria seu coração. E mesmo sabendo que a filha queria crescer, implorava internamente para que ela nunca crescesse.
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