Never Gonna Be Alone

7 Capítulo 7: Never Gonna Be Alone


Notas iniciais
Oiiiii, gracinhas! Queria começar agradecendo à Ana Black pelo review! Foi uma delíiiicia saber que alguém ainda lê isso aqui e que não estou postando para fantasmas, ahuahuahua. Estou feliz da vida! Acho que esse capítulo está um pouco grande, mas tenho a sensação de que vocês vão gostar, hihihihihi. Esse é o capítulo musical que será acompanhado pela música que deu o nome à fic: Never Gonna Be Alone, do Nickelback! Aqui está o link no YT: https://www.youtube.com/watch?v=1GWQ-oDMG6g Mas ouça como achar melhor, Spotify, se vc tiver... À vontade. Já sabe, né? A deixa de dar play na música está aí no meio! Hihihi, não vou falar mais nada. Quero que vcs descubram lendo. Até as notas finais!

Flashback on

Mark olhou para seu relógio. Por mais que gostasse das aulas de Engenharia Mecânica Avançada do Programa de Astronautas Ativos da NASA, tinha de admitir que as aulas teóricas poderiam ser bem maçantes.

Apenas sete minutos haviam se passado desde o início da aula. Que merda! Como podia ser assim? Sua teoria era que, quando o professor era um babaca narcisista que acreditava ser o rei do mundo só por causa das credenciais importantes, que era o caso, a aula se tornava infinitamente pior.

O professor, Dr. George Townsend, PhD em Engenharia Espacial, mestrado em Encheção de Saco e pós-doutorado Pinto Grande, falava mais palavras chatas sobre tungstênio ter o ponto de fusão mais alto ou coisa assim quando foi interrompido por uma batida na porta.

Uma garota apareceu por trás da porta da pequena sala. Estava encolhida e hesitante, provavelmente também não estava confortável com o fato de ter interrompido a aula.

— Com licença, Dr. Townsend – pediu. – Me desculpe pelo atraso. Posso assistir sua aula daqui para a frente?

O Dr. Townsend não pareceu satisfeito com a atitude invasiva da garota.

— Onde estava, garota? – perguntou, olhando-a de cima abaixo como um tubarão prestes a destruir sua presa.

A garota saiu de trás da porta, entrando oficialmente na sala. Mark deu uma boa olhada nela. Vestia calças jeans e uma camisa xadrez vermelha e branca e tinha os cabelos castanhos soltos por cima dos ombros. Parecia muito jovem para estar ali. Mark olhou para os outros empregados da NASA no ambiente. Realmente, ela era a mais nova e ele soube que ela sofreria por isso.

— Estava no banheiro. – ela esclareceu. – Encontrei com o senhor antes de iniciar aula e avisei que estava indo. Não se lembra?

— Sim, sim, eu me lembro. – Dr. Townsend colocou as mãos na cintura. – E levou esse tempo todo? Apenas no banheiro?

A garota arqueou as sobrancelhas.

— Olha, amigão, se você visse o barroso que eu soltei, não estaria contestando o tempo.

Mark precisou tapar a boca para que suas risadas ficassem presas por lá mesmo. Cacete! Não era essa a réplica que esperava. Definitivamente, não era. Olhou ao redor e viu que não era o único que achara graça da atitude inesperada.

Dr. Townsend, no entanto, não se divertira.

— Qual o seu nome, criança?

— Carter, senhor. – respondeu a garota.

Carter. — disse o sujeito, com desgosto. – Carter, me diga: o que você acha que é isso aqui?

Carter olhou ao redor da sala, como se procurasse alguma coisa

— É a aula de Engenharia Mecânica Avançada, né? Porque, se não for, eu vou ficar bem perdida.

— Escuta aqui, Carter, eu não sei o que você acha que está acontecendo, mas isso aqui é conversa séria. – rosnou o professor em um tom baixo e sutilmente assustador. – Você não usa esse rostinho bonito pra chegar onde quiser na hora que quiser e não podemos resolver isso fazendo trancinhas e falando de rapazes.

— Por que simplesmente não deixa ela assistir a aula?

Todos os olhos da sala se voltaram para Mark.

Os pensamentos dos outros astronautas giravam em torno da mesma coisa: Como ele tinha coragem de se manifestar? Não achava que era uma atitude ousada de sua parte? Queria ser esculachado como a pobre garota estava sendo?

Dr. Townsend virou-se para ele com um semblante sombrio.

— Filho. – disse. – Aqui é a minha aula. Na sua aula, fique à vontade para deixar o caos correr solto. Mas eu gosto de ordem. E ordem pra mim não inclui garotinhas chegando atrasadas porque comeram sorvete demais na noite anterior porque o namorado não está pronto pra um relacionamento sério.

Mark olhou para Carter. Pela primeira vez, reparou que a pequena garota tinha olhos verdes, como os seus. Apesar de assustados, aqueles olhos lhe passaram outra mensagem: sabiam se defender sozinhos. Com um movimento minúsculo e quase imperceptível, Carter fez que não com a cabeça e Mark entendeu que não deveria interferir.

— Desculpe, senhor – pediu.

— Senta, Carter – mandou o professor. – Vamos estabelecer limites depois dessa aula.

Em silêncio, Carter se sentou em uma das carteiras de frente para Mark no semicírculo que estás formavam. Dr. Townsend retomou sua palavra e continuou a aula, para qual Watney não estava dando a mínima. Qual é, já tinha um PhD em Engenharia Mecânica. Tinha mesmo que assistir mais aulas?

Depois de mais alguns minutos maçantes, Mark foi cutucado pela pessoa que se sentava ao seu lado. Virou-se para esta pessoa que apontou para o lado o posto da sala.

Carter acenava para ele, tentando chamar sua atenção. Quando conseguiu, levantou seu caderno e Mark se esforçou para ler o que estava escrito.

Valeu, dizia a letra que misturava cursiva e de fôrma. Não precisava.

Mark olhou para Carter e viu que a garota tinha um sorriso um pouco triste no rosto. Abriu seu caderno em uma página branca aleatória e escreveu uma resposta.

Não tem de quê, leu Carter quando ele levantou seu caderno. Esse cara é um C-U-Z-Ã-O. Sou Watney.

Ao terminar de ler, a garota riu em silêncio e começou a escrever a tréplica.

Prazer, Watney. Sou Carter.

Mark acenou para Carter. Ela era bonitinha e parecia ser uma pessoa agradável e bem humorada. Esperava ter a oportunidade de conhecê-la melhor. Deveria ter, se realmente fizessem as aulas de Engenharia Mecânica juntos.

Só torcia para não voltar a sofrer nas mãos do Dr. Pinto Grande.

...

Jessica sugou mais um gole através do canudo de seu chai latte com canela. Uma das vantagens de sua melhor amiga trabalhar no Starbucks do Centro Espacial Johnson: não precisava se sentir envergonhada por ser a única pessoa do mundo que não gosta de café e tomar chai latte em uma quantidade excessiva.

— E como foi o primeiro dia? – perguntou Nina, sentando-se sobre o balcão vazio do Starbucks. Na hora do almoço, praticamente ninguém tomava café, portanto, as duas ficavam com o espaço inteiro apenas para elas. E, claro, ninguém via Nina quebrar todas as regras que existiam para serem quebradas.

— No geral, foi da hora – respondeu Jessica, apoiando os pés sobre uma cadeira de frente para a que estava sentada. – O treinamento é bem interessante. Mas acho que vou sair da Engenharia Mecânica Avançada. Vou ficar só com a básica mesmo.

— Por quê? Ah, minha nossa, não tem nenhum gatinho lá pra você paquerar? – disse Nina, preocupada, colocando o cabelo loiro atrás da orelha.

Jessica hesitou antes de responder. Nina era cheia dessas. Às vezes, tinha vontade de socá-la.

— Até tem – respondeu, tentando recuperar a paciência. – Tem esse cara que me defendeu do professor machista, achei bem legal, e ele é bem gato. Mas não é pra isso que eu estou aqui. O problema é o professor machista. O cara é um daqueles bostas que se acham no direito de desrespeitar os alunos por causa das credenciais. Além de ser mulher, eu ainda sou mais nova que ele. Basicamente, acho que não vai rolar. Ele disse que queria conversar sobre estabelecer limites depois da aula, mas eu fugi. Vamos ver na próxima aula. Dependendo de como for, eu devo largar a aula.

— Ah, é uma pena. Eu realmente estava me animando quanto ao seu cavaleiro de armadura reluzente. – disse Nina, com um sorriso infantil no rosto.

Jessica riu, remexendo seu chai latte com o canudo.

— Aqui é bem diferente de Chicago – comentou.

Em um impulso, Nina arregalou os olhos e seu queixo caiu teatralmente de forma exagerada.

— Você é de Chicago? — perguntou.

— Sou – respondeu Jessica, estranhando. – E daí?

— Jessie! Meu namorado é de Chicago! – a outra falou, animada, batendo palminhas.

— Puxa, que mundo pequeno, não é mesmo? – ironizou, torcendo para que a amiga não percebesse. Era difícil ter apenas uma amiga no lugar inteiro. Principalmente quando a personalidade da amiga não batia nada com a sua.

— Minúsculo. – disse a outra, fazendo um sinal que indicava coisas pequenas com a mão. – Espera um minuto, eu vou mandar um SMS pra ele vir até aqui. Você vai conhecê-lo!

— Pensei que esse fosse ser o almoço das meninas. — rebateu Jessica.

— E é! Mas ele não tem muitos amigos aqui. Vai ser bom se conhecer outra pessoa de Chicago, vocês podem fazer amizade! Isso seria tudo de bom.

— Adoro fazer amizade – murmurou Jessica com sarcasmo.

Depois de mais alguns minutos em que as duas conversaram, o sininho da porta tocou, indicando uma nova presença. Um cara, provavelmente o namorado de Nina, entrou.

Imagine a surpresa de Jessica ao descobrir que o namorado de sua única amiga era Watney, seu cavaleiro de armadura reluzente.

— Oi, gato! – exclamou Nina, animada, levantando-se e indo até a porta. Abraçou o namorado que, pela primeira vez, reparou na presença de sua companheira de turma. Os olhos dos dois se arregalaram. Aproveitando que a amiga estava virada para trás, Jessica levou o dedo indicador aos lábios, pedindo que Watney não contasse nada sobre ser o cavaleiro de armadura reluzente. Em um movimento minúsculo, ele assentiu, indicando que tinha entendido o pedido.

O casal separou-se do abraço.

— Oi, Nina – ele die, com um sorriso sem graça no rosto.

— Mark – disse Nina, puxando-o pela mão na direção de sua amiga. – Eu quero que você conheça uma pessoa. Você não tem muitos amigos por aqui e acho que ela pode mudar isso, porque ela também é de Chicago! Que louco, não é mesmo?

— Que louco – repetiu Mark, em seu modo automático. Tinha seus olhos grudados na companheira de turma que tentava, timidamente, se esconder atrás da própria não que segurava sua têmpora.

— Essa é a minha amiga, Jessica! – apresentou Nina, vibrando.

Jessica — disse Mark, finalmente descobrindo o primeiro nome da garota. – Prazer em conhecer, Jessica. Sou Mark. Mark Watney.

— Oi, Mark. – disse Jessica, com um aceno rápido. – Jessica Carter.

Ah! — suspirou Nina, juntando as mãos. – Sinto que fiz a diferença hoje. Conversem entre si! Falem sobre suas infâncias em Chicago! Eu preciso ir ao toalete, mas volto num zip!

Nina desapareceu Starbucks adentro deixando Mark e Jessica num ambiente desconfortável, embora mais confortável do que seria se a jovem barista ainda estivesse lá.

— O que será um “zip”? – disse Mark, pensando alto.

— Uma medida de tempo que só existe na cabeça dela – respondeu Jessica, também pensando alto.

Os dois trocaram uma pequena risada.

— Então... – ele começou, sentando-se em uma cadeira na mesma mesa que ela. – Você é de Chicago.

— Sou de Chicago – ela repetiu. – Quem diria, não é mesmo? Parece que temos mais uma coisa em comum, além de ter tomado um esporro do Dr. Forço-Minha-Masculinidade-Pra-Esconder-que-Gosto-de-Pau hoje cedo.

Mark não conseguiu esconder as risadas que pularam para fora de sua boca. Já era a segunda vez naquele dia em que ela o fazia rir com uma atitude inesperada e espontânea. Sim, era bem espontânea. Tinha gostado dela, não podia mentir.

— Combina com ele. – comentou. – Desculpe a pergunta, mas você não é...

— ... um pouco jovem para estar no programa espacial? – completou Jessica. Mark não quis mais falar. A pobre jovem deveria ter ouvido essa pergunta milhões de vezes. Deu de ombros. – Sou. Sim, eu sou. Sou uma garota prodígio, Mark. Entrei pra Universidade de Chicago com 13 anos. Tenho 18 anos e já sou astrofísica e meteorologista. Mas de que isso adianta pro Dr. Emprego-de-Alta-Patente se eu posso ter um desempenho horrível porque meu útero não concebeu um bebê há duas semanas?

Mark suspirou Inclinou a cabeça em compaixão.

— E como terminou essa história pra você?

Jessica deu de ombros.

— Eu meio que fugi depois do fim da aula. Provavelmente vou ter que dormir com ele se quiser assistir a outra aula. Mas acho que não vou continuar.

— É uma pena. – disse Mark. – A sua participação realmente foi o ponto alto da aula hoje. Costuma compartilhar a sua rotina intestinal assim abertamente?

— Na verdade, eu senti que essa foi uma das minhas melhores performances – ironizou ela, com um sorriso de canto.

A partir dali, naquele diálogo, consolidou-se uma relação indireta com um quê a mais. Mark e Jessica sentiram uma empatia imediata um pelo outro. Aproveitavam a companhia um do outro e até se sentaram juntos na aula seguinte de Engenharia Mecânica Avançada.

Todas as vezes em que Nina precisava sair para fazer algo de importante, tinha a companhia de sua amiga inteligente (que sempre estava disponível porque não tinha outros amigos) e seu namorado. Os dois que não entendiam de maneira alguma como funcionava o mundo na cabeça da barista passavam o tempo todo fazendo piadas um com o outro, sussurrando ironias e rindo juntos. As piadas internas surgiram e, no final de tudo, os dois gostavam praticamente mais um do outro do que de Nina. Tornaram-se grandes amigos, quem diria?

Mas com todas as tarefas, aulas e treinamentos que o Programa de Candidatos a Astronauta oferecia, Jessica, a garota prodígio, tinha de dedicar todo o seu tempo a isso. Estava 100% dentro ou não estava. Passava cada vez menos tempo ao lado de Nina. Não ia mais com ela e Mark fazer compras (!) em uma tarde livre, porque não tinha mais tardes livres. A amizade das duas foi diminuindo a um ponto em que as duas apenas perguntavam uma à outra como estavam suas vidas quando Jessica comprava um chai latte. Além de tudo, a garota prodígio deixou de frequentar as aulas de Engenharia Mecânica Avançada, como previra. Nisto, ela e Mark perderam o contado.

Com o tempo, Nina e Mark terminaram. Apenas no pequeno mundo da barista loira aquele relacionamento sem nexo teria algum futuro. Até se divertiram, mas não dava pra ir além disso.

Algumas semanas depois, Mark viu Jessica olhando o quadro de anúncios do Centro Espacial enquanto passava pelo corredor.

— Jessica! – chamou.

A garota prodígio virou-se para ele e um sorriso cresceu em seu rosto.

— Mark! – disse, andando na direção dele. – Oi!

— E aí? – cumprimentou Mark, abrindo os braços para envolvê-la. Jessica colocou a mão sobre seu peito, impedindo-o. Os sorrisos dos dois sumiram quase em sincronia.

— Desculpa, é só que... – Fez um gesto que apontava para todo o tronco de Mark. – Eu não me sinto confortável com contato físico excessivo. – disse, com um sorriso sem graça.

Mark recolheu os braços e anuiu.

— Entendido. Sem contato físico excessivo – Levantou a palma da mão direita. – É demais um high-five?

O sorriso de Jessica tornou-se verdadeiro.

— Tem sempre espaço para um high-five. – bateu a palma de sua mão contra a de Mark. – Já faz um tempo, né?

— É! Quer dizer... Você ficou mais ausente... Parou de frequentar as aulas do Dr. Orpimo-Cientistas-Mulheres-Porque-no-Fundo-Queria-Ser-Uma-Delas...

Jessica soltou risadas.

— Definição interessante. É, eu... Bem, lembra que eu disse que provavelmente teria que dormir com ele para continuar frequentando as aulas?

Mark ergueu as sobrancelhas.

— Lembro – falou, com cuidado.

Pois é. Acontece que ele demonstrou que eu realmente teria que dormir com ele se quisesse continuar vendo as aulas. Aí eu resolvi pular fora.

— Boa ideia. Mas acho que você entendeu tudo errado.

Jessica piscou, confusa.

— Entendi... errado?

— É, entendeu tudo errado. Quando ele olhou pro seu gluteus maximus, não estava olhando com pensamentos impuros, estava se perguntando onde você comprou esses jeans maravilhosos.

Jessica riu abertamente da explicação inesperada. Mark era engraçado, tinha se esquecido disso. Era o ponto alto das saídas com Nina. Não sentia falta de sair com Nina. Sentia falta de rir com Mark. Sentia falta até de olhá-lo desinteressadamente, apenas pelo prazer de apreciar a beleza de alguém.

“Desinteressadamente.”

Jessica tentou espantar esse pensamento estranho.

— Ahn... – gaguejou, coçando a nuca. – Mark, eu... estava indo almoçar. – Apontou para a lanchonete por cima do ombro com o polegar esquerdo. – Por acaso você... Quer dizer, já almoçou?

Mark abriu um sorriso sincero.

— Eu adoraria almoçar com você, Jessica.

Os dois se viraram e começaram a caminhar na direção da lanchonete.

— Ah, e como vai a Nina? – perguntou Jessica. – Faz um tempo que a gente não conversa.

Mark coçou a nuca.

— Prometo que pergunto pra ela da próxima vez em que a vir.

Jessica franziu o cenho, confusa.

— Como assim? Você não sabe como ela está?

— Acontece que a Nina e eu não estamos mais juntos.

Aquela foi a primeira vez em que Jessica sentiu um zing.

Por alguma razão, o fato de Mark estar solteiro causou uma certa euforia nela. Tentou espantar essa euforia. Sentiu sangue corando suas bochechas. Mandou sua euforia embora.

— Puxa... É mesmo? – disse, tentando soar decepcionada. Mas não se sentia decepcionada. – Que pena.

Mark deu de ombros.

— Eu nunca achei que fosse dar em alguma coisa.

— Oh, como não? Vocês dois tinham tanto em comum – ela ironizou. Mark riu de escárnio.

— Realmente.

Naquela tarde, Mark e Jessica almoçaram juntos. Foi incrivelmente divertido, como costumava ser. Dali em diante, não se separaram nunca mais mas, em seu primórdio, tiveram a mesma sensação: aquele era apenas o começo de uma história.

Flashback off

...

Watney mordeu a caneta um pouco mais. O pobre utensílio já estava destruído devido às mordidas de tensão do astronauta. Seus olhos não desgrudavam da linda moça de pernas cruzadas sentada sobre uma banqueta no balcão, onde analisava amostras geológicas em um microscópio. Aquela era a moça mais linda do planeta. A moça mais linda de todos os planetas. Não existia moça mais linda que aquela. E não existia nada que Watney quisesse mais que ela.

Exceto por conseguir dizer o que queria para ela. Queria aquilo muito mesmo.

As palavras estavam lá, entaladas em sua garganta. Mas sua boca inútil não conseguia fazer nada além de morder e estragar a maldita caneta, enquanto ela, é claro, analisava. Pesquisava. Descobria coisas em um planeta novo. Era uma astronauta de verdade. Durante todo o dia ela consertou coisas, estudou coisas, fez coisas, foi útil! Até cuidou da plantação. Aquilo era tão sexy. Uma mulher útil que cuidava de toda a sobrevivência dos dois: consertava máquinas essenciais para a sobrevivência, colocava pão na mesa, buscava conhecimento... E, aos olhos de Watney, qual é... Uma mulher que mexe com mecânica e botânica? Nada poderia ser mais sexy.

E ele? Ele mordia e estragava canetas.

Era aquilo. Era a hora de levantar. Não tomaria nenhuma atitude útil sentado ali e a encarando.

O primeiro passo era largar a caneta.

Levantou-se bruscamente e caminhou até Carter com decisão no olhar. Parou ao lado dela, que se assustou quando percebeu a presença.

— Ui! – disse, com a voz esganiçada. – Mark! Você me assustou! – começou a rir. – Precisa de alguma coisa?

— Eu amo você. – recebeu em resposta.

Parou de rir.

— Isso foi repentino – observou, surpresa.

— Foi mal, é que... Eu não tinha ideia de como começar esse monólogo que tô ensaiando na minha cabeça desde ontem de manhã. – confessou Watney, rindo. – É esse o efeito que você causa em mim. Eu meio que deixo de saber o que fazer, o que falar, o que sentir! Jessica, você faz com que eu seja um garoto de doze anos se apaixonando pela primeira vez, é uma coisa muito absurda! Eu te amo a cada milésimo de segundo da minha existência e passei os últimos dois anos tentando ignorar que você estava por aí e que eu estava sem você. Porque cada milésimo de segundo sem você é um lixo. Quando você saiu de casa, todos os meus amigos, que eram umas três pessoas, me disseram que isso era bom porque eu estava livre pra ficar com qualquer garota sem compromisso, mas eu não me sentia assim! Eu não queria nenhuma outra garota, Jessie, eu não dou a mínima pra nenhuma outra garota, eu só quero você! Você é a minha liberdade. E eu sei que nesse tempo todo eu fui um tremendo babaca de bosta com você, te tratei muito mal e falei coisas horríveis mas acho que estava mais bravo comigo mesmo por não ter sido bom o suficiente para te manter comigo do que com você por ter priorizado seu trabalho e acabei descontando em você de qualquer forma. Hoje eu percebo que, se tivesse te apoiado mais, se tivesse sido um marido melhor, você não precisaria ter focado tanto no trabalho que, de certa forma, hoje está salvando a minha vida. [N/A: Coloque a música agora!] Então eu não espero que você me perdoe por ser tão filho da puta mas se você estiver disposta a me dar outra chance, eu quero ser o melhor e mais apoiador marido do mundo. Quer dizer – Riu de si mesmo. – Desse mundo e do outro também. Eu amo você, Jessica Carter-Watney, pra cacete.

Ao final daquilo tudo, um sorrisinho se abriu no canto dos lábios de Carter.

— Tá ensaiando esse monólogo na sua cabeça desde ontem de manhã? – confirmou.

— É – respondeu Watney, rindo. – Espero que tenha funcionado porque eu realmente não sei mais o que dizer.

— Não precisa dizer mais nada.

Finalmente realizando o que há tanto tempo sonhava, Carter avançou para cima de seu marido e grudou seus lábios nos dele. Passou seus braços ao redor do pescoço dele que retribuiu abraçando sua cintura, tentando destruir todo e qualquer espaço que pudesse existir entre os dois.

Carter e Watney se beijavam com uma paixão e furor inexplorados enquanto seus corações barulhentos retumbavam dentro de si. Todo o desejo, toda a necessidade, toda a dependência que fora contida nos últimos dois anos em que não tiveram acesso aos beijos um do outro estavam expostos ali, naquele momento, enquanto seus corpos matavam a saudade um do outro.

Não que houvesse dúvida antes, estava confirmado: para os dois, o amor um do outro era uma droga na qual estavam cronicamente viciados e não tinham o menor desejo de deixar de alimentar esse vício. Suas línguas passeavam todos os cantos, navegando em território conhecido e familiar, do qual não enjoavam de maneira alguma. Tudo era familiar: o cheiro, a sensação, os toques... E nada parecia-lhes ultrapassado.

Em um momento rápido, as jaquetas dos dois voaram para longe. Tinham caído sobre a terra no chão e as mudas de batatas, mas quem ligava?

— Mark – chamou Carter, ofegante, em meio aos beijos maravilhosos. – Você quer... fazer amor comigo?

— Fala menos e despe mais.

— Ahn, tá bom. – ofegou.

Watney puxou Carter para cima de si e a capitã respondeu, enrolando suas pernas ao redor do quadril dele. Recostou-se sobre uma das hastes que sustentavam o Hab e, nisso, sua camisa voou para longe também. Foi tentando caminhar ao longo do Hab para chegar a qualquer cama que não estivesse coberta de terra e mudas de batata. Entre beijos e caminhadas, o paradeiro da camiseta de Carter também se tornou desconhecido.

Caindo de costas sobre a cama, Watney começou a distribuir beijos pelo rosto de Carter, passando por seus olhos, nariz, boca e outros enquanto esta cuidava de se livrar do resto das roupas. Logo, apenas três peças os separavam. Olhando sua esposa nos olhos, Watney se afastou do rosto dela enquanto lutava contra o fecho de seu sutiã.

— Como você faz isso? – perguntou, sem conseguir tirar o sorriso do rosto.

— É feito pela NASA, gato. – ela respondeu, com um sorriso tão largo quanto o dele. – É mais difícil do que parece.

Sentando-se sobre seu marido, Carter ficou ereta sobre sua coluna – ou pelo menos tão ereta quanto o espaço delimitado pela própria cama acima daquela permitia – e desvencilhou-se do próprio sutiã. Watney a olhou com admiração.

— Cara, você é linda! — observou.

Carter riu, feliz.

— São tão grandes quanto você se lembra? – perguntou.

— São, sim, eles são... Enormes. – Ele começou a rir também, divertindo-se mais que tudo.

Entre risos e mais beijos, as duas últimas peças de roupa foram embora, juntando-se às outras em lugar nenhum.

E então os dois eram um. A união entre os dois foi selada por definitivo. Um beijo e várias formas de prazer comprovaram que Mark e Jessica completavam um ao outro. Mas, acima de tudo, tanto literal quanto metaforicamente, não seria, nunca mais, fácil de separá-los.

...

Watney brincava com os cabelos longos de Carter e eventualmente baixava o olhar para os olhos verdes da esposa que os mantinha fixos em seus dedos que passeavam pelo abdômen nu do marido. Aquela era uma cena familiar para os dois. Sabiam exatamente por onde navegavam mas, ainda assim, tudo parecia novo. Sentiam-se como dois adolescentes entregando-se ao amor pela primeira vez na vida.

— Me desculpa – ele disse, quebrando o silêncio.

— Pelo quê? – perguntou Carter, desfocada.

— Por ter sido tão babaca esse tempo todo. – disse, sua voz grave e baixa soando em meio ao Hab escuro. – Por ter te tratado tão mal. Por ter te deixado.

— Você não precisa pedir desculpas. – ela afirmou, levantando o olhar. – Não foi culpa sua. Foi minha. Eu tenho que pedir desculpas.

— Você é minha Kayleigh.

Carter arqueou uma sobrancelha.

— Kayleigh?

— É, da música do Marillion, sabe? Na música, ele pede desculpas à Kayleigh por ter quebrado o coração dela, mas ela quebrou o dele primeiro.

— Ah, acho que já ouvi a música. – disse Carter, lembrando. – Kayleigh, is it too late to say I'm sorry...

— And, Kayleigh, could we get it together again? — completou Watney.

I just can't go on pretending — os dois cantaram juntos. – that it came to a natural end.

— Sou sua Kayleigh. – falou ela, ao terminarem o refrão. – E você não precisa de perdão. Só... me explica: por que agora? O que mudou?

— Eu me apaixonei por você. – contou Watney, devoto ao sentimento. – Me apaixonei por você outra vez e é uma sensação absurda porque eu nunca não estive apaixonado por você. Mas sinto que me apaixonei de novo, de uma forma completamente diferente. Você funciona como uma droga pra mim, mulher. Sou completamente dependente de você, viciado em você. Eu respiro você, Capitã Watney.

— Você é tão romântico. – Carter riu, encantada e sutilmente debochada. – E gato. Principalmente gato. Eu comeria você todos os dias.

— Adoro sua concepção rudimentar e sutilmente bruta de romantismo.

— Obrigada. Sinto que sou o homem da casa.

Carter levantou o olhar para os olhos também verdes do marido e os dois trocaram um sorriso.

— Isso foi bom. – observou.

— Foi muito bom. Tenho pena de quem não pôde participar e sentir isso que acabou de rolar.

Carter riu.

— Quem mandou nos deixarem pra trás? Que se danem, eles.

— Que se danem. Fizemos história hoje.

— A melhor transa depois de dois anos de abstinência da história?

— Jessica, somos as primeiras pessoas a fazerem sexo em Marte!

Os olhos de Carter se arregalaram em entendimento.

— Cacete, nós somos! Somos história, Watney! Somos ícones! Somos... sex symbols!

— Somos incríveis, Carter. – disse Watney enquanto os dois batiam um high-five.

— Muito incríveis. Quem são Beyoncé é Jay-Z perto de Carter e Watney?

É! Quem são Senhor e Senhora Smith perto de Doutor e Capitã Watney?

— Exato! Eles são bem bacanas. Mas nunca fizeram sexo em Marte.

— Não só nunca como não foram os pioneiros. — apontou Watney, orgulhoso.

— Não são os pioneiros.

Os dois se entreolharam e riram juntos da própria estupidez.

— Gosto de como Capitã Watney soa. – observou Carter ao cessarem as risadas.

— É meio sexy.

— Bem sexy. Acho que vou começar a usar assim se a NASA concordar em levar a público que somos um casal.

— Espera, somos? – ele perguntou com o cenho ironicamente franzido. – Nós? Eu e você? Porque, até onde me lembro, eu tinha pedido pra gente se separar. De repente, estamos juntos de novo?

Carter olhou-o com uma incredulidade sobre algo que já conhecia.

— É sério que eu você vai me obrigar a fazer isso?

— Você faz o que você quiser, Jessica. Não tem ninguém te obrigando a nada. – rebateu Watney, inexpressivo.

Carter revirou os olhos. Realmente, era muito ridículo.

Levantou-se da cama e vestiu a camiseta de Watney que estava no chão, a alguns passos de onde estava. Ao voltar para lá, sentou-se sobre seus calcanhares, de frente para seu marido que estava deitado de lado na cama.

— Mark Richard Watney – começou.

— Não está ajoelhada – contrariou.

— Cala a merda da sua boca e vai se ferrar. Mark Richard Watney... – disse, e bufou ao perceber que realmente teria de fazer aquilo. – Deus da botânica e Imperador Supremo Soberano de Marte, Terror das Novinhas e... Pai de todos os pintos grandes da humanidade – Pegou a mão de Watney e a segurou como se fosse pedi-lo em casamento. – Quer não se divorciar de mim?

Watney sorriu inocentemente para sua esposa.

— Você colocando desse jeito, não tem como recusar.

Aliviada, Carter começou a rir. Passou a mão na testa. Aquilo, finalmente, tinha acabado. O maior peso de seus ombros tinha ido embora. Deitou-se novamente na cama e foi envolvida pelos belos braços de Watney que se divertia com o encantamento da capitã.

— Você é tão romanticamente solitária e patética que chega a ser fofo – disse, rindo.

— Nossa, você realmente sabe como encantar uma mulher – ironizou Carter.

— Sei, eu sou ótimo. Agora, minha amada esposa, seria pedir demais a gente fazer de novo?

— Não, Mark, vamos. Na moral, vamos. Eu não faço há dois anos, quatro meses e dezesseis dias terrestres. Em dias marcianos, o número diminui um pouco.

— Você contou o número de dias? E eu é que sou patético por ficar esse tempo todo sem fazer? Ah, Carter, você é muito virgem.

— Sou. – admitiu ela, com orgulho. – Sim, eu sou. Sou muito virgem e patética, agora será que a gente pode foder logo?

— Com prazer.

Notas finais
WOW! Não acredito! Cartney chegooooooou! Hihihihi AHUAHUAHUAHUA. Que delícia! Esse capítulo foi dedicado à minha amiga, Gigi. Sei que o sexo não está do jeito que você gosta mas, bem... Está do jeito que eu gosto! Huehuehuehue. Oh, minha nossa, esses dois finalmente pararam de enrolação! Finalmente! Será que agora será pra valer? Vocês terão de descobrir nos próximos capítulos, huehuehue. Mais uma vez, eu gostaria de pedir que comentassem com suas opiniões. Hoje tivemos o primeiro flashback e teremos mais alguns daqui pra frente com cenas bem fofinhas. Quero opiniões! Não gostaram de alguma coisa? Acham que algo pode melhorar? Essa fic é de vocês! QUero fazer algo que gostem, hein? Até daqui a duas semanas! Mamain ama vcs ♥