Never Gonna Be Alone
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Minha primeira e creio que única fanfic de Perdido em Marte. Eu amooooooo esse filme desesperadamente e acho incrivelmente perturbador saber que só achei duas fanfics desse fandom, sendo as duas da mesma autora. (AstronautWatney69, brilhante! Qual outro seria o username do Mark?) A Jessica Carter-Watney é minha personagem original e eu me divirto muito escrevendo sobre ela. Espero que gostem dela tanto quanto eu, tem mais ou menos a mesma personalidade de todas as minhas protagonistas.) Leiam e divirtam-se! Mamain ama vo6.
PS: De vez em quando vai aparecer um "é" em alguma frase bem sem sentido. Era "e", mas corretor ortográfico é uma merda.
Mark Watney, o botânico e engenheiro mecânico da missão para Marte Ares 3, dormia tranquilo em sua cama. Mexeu-se um pouquinho enquanto algum sonho agradável punha um sorriso em seu rosto. Ele havia feito três Atividades Extra-Veiculares – chamadas de AEVs no jargão dos astronautas – no dia anterior, todas repletas de trabalhosas caminhadas pelo Planeta Vermelho carregando um pesado traje espacial. Então, dormia profundamente e bem, como havia muito não acontecia.
— Bom dia, tripulação! – gritou a Comandante Lewis, a geóloga do grupo. – Um novo dia! Sol 18! Vamos levantar!
Watney uniu sua voz a um coro de gemidos.
— Vamos – insistiu Lewis. –, nada de reclamações. Vocês dormiram quarenta minutos a mais do que na Terra.
O piloto Rick Martinez foi o primeiro a sair da cama. Sendo da Força Aérea, era fácil pra ele acompanhar Lewis e seu horário da Marinha.
— Bom dia, comandante. – falou, decidido.
A astronauta Beth Johanssen se sentou, mas não fez nenhum outro movimento rumo ao árduo mundo fora dos cobertores. Com uma carreira em engenharia de software, as manhãs nunca foram o forte dela.
Alex Vogel, químico e astrofísico reserva, desceu da cama devagar, verificando o relógio de pulso. Sem dizer nada, vestiu o macacão, esticando os amassados que podia.
Watney virou-se para o outro lado, cobrindo a cabeça com um travesseiro.
— Gente barulhenta, suma. – murmurou.
— Beck! – berrou Martinez, sacudindo Christopher Beck, o médico da missão. – Hora de levantar, companheiro!
— Ei! Praga!— a voz feminina da capitã gritou da cozinha, e todos sabiam que era com Beck que falava. Era a estranha forma de tratamento entre os dois: Praga e Miséria. – Sai dessa cama! Se eu não posso dormir mais tempo, você também não pode!
— Sim, tudo bem. – falou Beck, confuso.
Johanssen caiu da cama e ficou no chão.
Puxando o travesseiro de Watney, Lewis disse:
— Trata de se mexer, Watney! O tio Sam pagou 100 mil dólares por cada segundo da nossa estadia aqui.
— Mulher má, arrancou o travesseiro. – resmungou Watney, relutando em abrir os olhos.
— Lá na Terra, já derrubei homens de 100 quilos das suas camas. Quer ver o que consigo fazer em 0,4g?
— Não, acho que não – respondeu Watney, sentando-se.
Após acordar a tropa, Lewis se sentou na estação de comunicação para verificar as mensagens que Houston enviara durante a noite.
Watney estranhou ao ver que a cama acima da sua já estava vazia. Por mais que sua cabeça ainda não estivesse funcionando direito, reparou que ainda não tinha ouvido a voz da capitã por perto naquele dia.
Enquanto se arrastava até o armário das rações, encontrou o que procurava involuntariamente, se não realmente contra sua vontade: a Capitã Jessica Carter, astrofísica principal e meteorologista da NASA, estava sentada em uma cadeira giratória, já devidamente vestida e com os cabelos espalhados. Entretanto, seus olhos vermelhos e expressão confusa denunciavam que não se encontrava em seu pleno funcionamento. Por ser a capitã, acordara antes de todos, até mesmo de Lewis – ou a Maníaca das Manhãs, como chamava – mas, conhecendo-a como conhecia, Watney sabia que ela não se dava bem com isso de acordar.
Pegou um café da manhã qualquer para si no armário.
— Pegue uns “ovos” pra mim, por favor – pediu Martinez
— Você consegue notar a diferença? – perguntou Watney, passando uma embalagem para Martinez.
— No fundo, não.
— Beck, o que você quer? – prosseguiu Watney.
— Não importa – disse Beck. – Qualquer coisa.
Watney jogou uma embalagem para ele.
— Vogel, as salsichas de sempre?
— Ja, por favor – respondeu Vogel.
— Você sabe que é um estereótipo, não?
— Não me importo com isso. – disse Vogel, pegando o café da manhã oferecido.
— Ei, docinho – falou Watney para Johanssen. – Vai tomar café da manhã hoje?
— Argh – rosnou Johanssen.
— Tenho quase certeza de que isso foi um “não” – interpretou Watney. Sem interesse em virar-se para Carter, perguntou: – E você, doçura? O que quer?
— Catorze horas a mais de sono em vez de quarenta minutos – a capitã respondeu, com os olhos fixados em lugar nenhum. – E qualquer coisa com um monte de calorias, por favor.
Watney jogou uma embalagem para ela.
A tripulação comeu em silêncio. Johanssen acabou se arrastando até o armário das rações e pegou uma embalagem de café. Desajeitada, acrescentou água quente, depois foi tomando golinhos que a fizeram acordar aos poucos.
— Quais são as chances de você já ter visto as atualizações de hoje? – Lewis perguntou quando a capitã deslizou sua cadeira para o lado dela na estação de comunicação.
— Zero – Carter respondeu, prendendo os longos e escuros cabelos castanhos em um rabo de cavalo alto para não atrapalhar seu café da manhã. – Eu... ainda não tô funcionando. – disse, confusa. – O que a Gossip Girl mandou de bom?
— Os satélites mostram uma tempestade a caminho, mas podemos realizar operações de superfície antes que ela chegue aqui.
— Hum, tá. Martinez – Carter disse alto, voltando a se comunicar com a tripulação. – vai inspecionar o VAM, certo?
— Sim, capitã. – Martinez respondeu.
— Ok, continuamos com isso. Você e Vogel vão com a comandante pro lado de fora. Watney, vai pra grade 14 coletar suas amostras de solo. Johanssen e eu vamos ficar aqui dentro e eu vou monitorar a meteorologia. Beck, analisa as amostras da AEV de ontem com o espectrômetro.
— Entendido, capitã. – Beck respondeu.
— Acho que... já tô meio funcionando. Deixa eu dar uma olhada no aviso. – Carter pediu, aproximando-se da tela do computador. Como meteorologista, entendia melhor as proporções da tempestade. Franziu o cenho ao ler o aviso. – Tem certeza de que é uma boa ideia sair com uma tempestade a caminho?
— Houston autorizou – respondeu Lewis. – Algum problema?
— Não, é só... Não sei, me parece um risco desnecessário.
— Vir a Marte foi um risco desnecessário. – rebateu Lewis. – O que você está querendo dizer?
Carter olhou para Watney que estava completamente entretido imerso no mundo dos waffles falsos. Não era segredo para ninguém da tripulação – também, a não-privacidade parava por aí – que ela se importava com ele de uma forma diferente da que se importava com os outros. Ficava tensa ao mandá-lo para fora com uma tempestade. Mas ele já era grandinho. Sabia se virar.
— Nada. Só tomem cuidado.
...
— Atenção: não percam os outros de vista. – a voz de Lewis soou nos comunicadores. – Vamos deixar a NASA orgulhosa hoje.
— Como é que estão as coisas aí, Watney? – Martinez perguntou com um tom zombeteiro.
— Você vai gostar de saber que – Watney começou. – no setor 14/28 da grade as partículas eram, em sua maioria, ásperas, mas no 29 elas são bem mais finas e devem ser ideais para análise química. – Sua voz soava feliz e animada com a possibilidade. Carter sorriu de onde estava. Sabia como ele se animava com essas coisas.
— Ah, ouviu isso, pessoal? O Mark acabou de achar terra! Vamos avisar a imprensa? – o outro zombou de volta.
— E o que foi que você fez hoje, Martinez? Verificou se o VAM ainda estava de pé?
— Fique sabendo que a inspeção visual do equipamento é fundamental para o sucesso da missão; e eu aproveito pra informar que o VAM ainda tá de pé.
Watney soltou risadas pelo comunicador, risadas estas deliciosas, na opinião da capitã.
— Watney – Lewis interveio. –, você vive deixando seu canal aberto. Aí o Martinez responde e todos nós escutamos, o que acaba me deixando chateada.
— Entendido. – Watney respondeu. – Martinez, a comandante quer que você pare de gracinhas inteligentes.
— Eu usaria um adjetivo diferente pra me referir às gracinhas do Martinez. – Beck manifestou-se pela primeira vez na conversa.
— Uh. Beck me ofendeu? – Martinez disse, e ouvia-se por sua voz que tinha um largo sorriso no rosto.
— Dr. Beck. – Watney corrigiu, rindo. – Ofendeu.
— Mocinhas, as senhoritas podem fofocar sobre quem tem o filho com o melhor emprego à vontade no chá das cinco, mas agora estão atrapalhando o trabalho dos astronautas de verdade. – Carter surgiu na conversa.
— Ui.— Beck ironizou.
— Essa foi pra você, Martinez. – Watney disse.
Martinez gargalhou.
— Ah, não foi não. – respondeu.
— Tenho 98% de certeza de que foi pra você, Watney. – Beck opinou.
Watney franziu o cenho.
— Não foi, não.
— Sim, foi, sim. – Martinez confirmou.
— Não existe outra explicação lógica. – Beck ressaltou.
— Faz todo o sentido. – Lewis observou.
— Est tu, comandante? – Watney questionou.
— Foi para as três Gossip Girls. – Carter especificou, rindo da atitude infantil de querer culpar alguém. – Ninguém está isento.
— Puxa, essa foi forte, capitã. – Martinez disse.
— Miséria – Beck chamou. Carter virou seu pescoço para olhar o médico. – Qual é a dessa sua fixação estranha por Gossip Girl?
— É uma série maravilhosa, Beck. Prefiro ouvir as gracinhas do Chuck Bass às do Martinez.
— Eu posso silenciar os rádios daqui, comandante. – Johanssen informou. – É só me pedir.
— Espera aí, Johanssen – Watney interveio. –, comunicação constante é um atributo fundamental pra equipe...
— Isola eles. – Comandante Lewis ordenou.
— Não, não... Espera aí...
Ouviu-se o barulho dos rádios sendo fechados.
— Johanssen, tem certeza de que eles não podem nos ouvir? – Carter confirmou. Apenas ela, Johanssen e Beck encontravam-se dentro do Hab.
— Absoluta, Capitã Carter. – Johanssen confirmou.
— Ótimo, porque seria muito humilhante se os outros estivessem ouvindo isso. – Beck riu, sutilmente, ao ouvir o desabafo da capitã. – Eu não tô pedindo pra ele me tratar como se estivesse tudo bem, como se fôssemos um casal feliz e alegre que está vivendo um sonho de estar junto em Marte, o casal modelo de astronautas e tal... Mas, fala sério, ele não precisa me olhar como se eu fosse um poste, precisa? Na boa! Nós temos uma história, nós temos um lance todo, ele é o meu melhor amigo!
— Obrigado. – Beck ironizou.
— Eu te amo. – Carter disse, intensamente com uma expressão selvagem. – Sabe que mora no meu coração. O que eu tô dizendo é que ele podia pelo menos admitir a minha existência!
— Acho que está exagerando. – Johanssen comentou virando sua cadeira giratória para olhar diretamente a amiga. – Ele admite a sua existência. Ele até te chamou de doçura hoje de manhã, foi um progresso e tanto.
— Isso não é nada, ele te chamou de docinho. – Carter deu de ombros, fazendo bico.
— Quando um cara quer fazer com que uma moça se sinta especial e única, ele a trata como especial e única. – Beck apontou.
— Viu? – A capitã concordou.
— Não está ajudando. – Johanssen disse para Beck.
— Trabalho com fatos. – ele defendeu-se. – Sou o Consultor de Atitudes Masculinas dessa rodinha de tranças e sentimentos. Meu trabalho é apontar os fatos.
— Conheço o Mark, ele sabe fazer com que eu me sinta especial e única. – a palavra voltou para Carter. – E ele está me evitando muito. Ele fica me mandando indiretas! Eu... O que eu vou falar agora vai parecer incrivelmente idiota: a cada segundo que passo sem ele, a minha dor aumenta. Nossa, isso soou ainda mais imbecil do que eu esperava, mas é como me sinto! Ah, não sei. E meio que parece que ele fica muito melhor sem a minha existência. Não sei se vocês repararam mas ele está lindo hoje. Incrivelmente lindo. Viram como ele ficou animado quando achou terra apropriada? Faz tanto tempo que não o vejo animado assim! Eu só... Só queria que ele achasse essa animação em mim.
— Tem que dar espaço a ele, Carter. – Beck disse se aproximando de sua capitã e deixando um beijo rápido na testa dela. – Há dois anos, ele te pediu um tempo de distância porque você o machucou, mas logo depois desse tempo já veio a notícia de que vocês iam passar quase mais três anos e meio juntos. Ficaram presos juntos no treinamento no Centro Espacial, depois passaram 123 dias confinados numa nave, agora estamos 31 dias aqui, num espaço de 246m². Ele ainda não teve o espaço que pediu. Mark meio que não aguenta mais você ainda mais do que nós não aguentamos mais uns aos outros. Estamos confinados há dois anos. Ele pediu por liberdade de você e ganhou confinamento.
— Eu sou... uma prisão? – Carter perguntou, colocando a mão sobre o coração, chateada.
— Não! – Beck negou, sentando-se de lado no colo da capitã. Johanssen segurou-se para não franzir o cenho; aquela intimidade dos dois era estranha e a incomodava de uma forma mais estranha ainda. – Você cometeu um erro e o abandonou. Não é a prisão: é a solitária. Agora, Mark precisa de um tempo livre da solitária pra poder avaliar como fica sem você. E quando ele perceber que você é uma garota incrível, inteligente e divertida, ainda mais do que ele imaginava, aí sim vai conseguir voltar pra você.
Carter sorriu para o amigo. Era ótimo ter um Consultor de Atitudes Masculinas.
— Você é ótimo com palavras. – disse, baixo, para que Johanssen não ouvisse. – Agora quero ver criar um monólogo bonito assim e ir dizer isso pra ela. – Inclinou a cabeça sutilmente apontando para a amiga.
— Vai se ferrar. – Beck mandou, levantando-se e voltando para o laboratório onde estava trabalhando.
— Me respeita, eu sou sua capitã. – ela disse, com um sorriso malicioso no rosto.
– Acho que perdi alguma parte da conversa. – Johanssen comentou ao não entender a mudança súbita de assunto.
— Só pudemos concluir que o Beck é rude. – Carter riu, voltando para seu trabalho de testes e afins no posto da meteorologia.
— Peço desculpas por meus conterrâneos, Vogel. – Lewis pediu, enquanto aquela conversa acontecia no Hab.
— Aceitas. – Vogel disse e emendou: – De quantas amostras precisamos, comandante?
— Sete. – ela respondeu, ofegante. – De 100g cada.
— Comandante, atualizando registro da missão. – Carter informou. Assim que registrou a mudança, um alarme soou pelo Hab. Virou-se para Johanssen e falou: – Tô atualizando o aviso de tempestade.
— Comandante, é melhor vir aqui, vai querer ver isso. – Johanssen disse, assustando-se com o que via na tela de seu computador. Beck se juntou a ela, lendo as atualizações que a capitã acabara de publicar.
— O que é, capitã?
— Aviso de tempestade.
— Já tínhamos visto no resumo matinal; vamos entrar antes dela chegar.
— É, mas eu fiz testes e estou atualizando a previsão: a tempestade vai ser bem pior. Quero que venha dar uma olhada, preciso da sua opinião como comandante.
Lewis suspirou, preocupada. Virou-se para a direção do VAM, a alguns quilômetros, onde Martinez se encontrava.
— Martinez. Como é que tá?
O astronauta virou-se para a enorme nuvem de poeira e areia que vinha em sua direção.
— Nada bem. – respondeu.
...
— 1200km de diâmetro a 24,41 graus. – Lewis leu na tela em voz alta.
— Está vindo direto pra nós. – Carter observou.
— Se mantiver esse ritmo estima-se uma força de... 8600n. – a comandante disse, surpresa com o que lia.
– Quantos pra cancelar a missão? – Watney perguntou.
— 7500. – Beck respondeu, desanimado.
— Acima disso, o VAM vira. – Martinez informou pelo comunicador.
Carter e Lewis se entreolharam. As duas tinham o mesmo plano em mente, embora fosse decepcionante.
— Abortamos? – Vogel perguntou. Todos os olhos da sala se viraram para a capitã, que passou a palavra de volta para a comandante.
— Iniciar o cancelamento. – Carter ordenou ao ver que Lewis concordava.
— A estimativa tem uma margem de erro. – Vogel observou. – Poderíamos esperar mais.
— Vamos esperar. – Watney sugeriu, olhando para a comandante. Aquele era o tipo de situação que Carter descreveria como ele ignorando sua existência. Um vento forte soprou o Hab, fazendo com que a tela que os envolvia estremecesse. – É, vamos esperar.
— Capitã. – Johanssen chamou.
Carter suspirou e olhou de volta para Lewis. Era uma decisão difícil, mas sabia o que era melhor para sus tripulação. A comandante pôde ver um pedido de socorro nos olhos da capitã.
— Sabe que concordamos. – disse, tentando ser o socorro de que Carter precisava. – E sabe que a decisão final é sua.
Capitã Carter respirou fundo. Lewis estava certa. Por mais que Watney discordasse – e, acredite ou não, Watney tinha uma forte influência sobre ela – a palavra final era a dela. Era a capitã e tinha de pensar como tal; tinha de fazer o que era melhor para sua tripulação. Faria o que tinha de fazer.
— Preparar partida de emergência. – declarou, prendendo o cabelo novamente em um rabo de cavalo malfeito.
— Comandante... – Watney tentou contestar, olhando para Lewis.
— Você ouviu. – esta reafirmou, se retirando do ambiente. – Abortar.
— Capitã... – Olhou para Carter. Deveria estar realmente desesperado para recorrer a ela.
— É uma ordem. – Carter reforçou, autoritária. Também começou a caminhar para se preparar.
Watney começou a bufar repetidamente ao ver Carter saindo sem mais nem menos. As palavras estavam bem ali. Precisava colocá-la pra fora.
— Acontece que não pode resolver tudo com suas ordens, sabia? – disse um pouco alto demais. Carter parou de andar. – Você não pode mandar em tudo, Jessica.
— Capitã... – murmurou Beck, entredentes, vendo o rumo daquilo.
— Sabia que algumas coisas simplesmente fogem do seu controle? – continuou Watney, ignorando completamente. Carter se virou, claramente irritada. – Que nem tudo acontece ao seu bel-prazer? Sabia que não pode ter tudo o que quer exatamente como quer?
— Acontece que, aqui, eu posso, sim. – ela finalmente interrompeu, em defesa. – Eu sou a capitã, Mark. Enquanto estiver em Marte, você é meu subordinado e eu posso resolver tudo, sim, com as minhas ordens. Eu estou pensando como capitã no que é melhor para todos. Esse é um risco absolutamente desnecessário e posso garantir a segurança de todos vocês dessa forma. Surpreso? É, eu me importo individualmente com a segurança de cada um de vocês, especialmente a sua. Então, cumpra a merda da ordem.
Watney riu, sarcástico.
— Aí está ela. Incrivelmente controladora, como de costume. Pode até ser que, aqui, você mande em tudo, mas ainda vai tomar um monte de surras da vida não conseguindo o que quer. É como eu acabei de dizer: nem tudo ao seu redor obedece a sua vontade! Desistir não é a saída.
— Desistir? – Carter perguntou, nervosa. Começou a dar passos pesados na direção de Watney. – Desistir? Não, não venha falar pra mim de desistir! Não venha com essa bosta de papo de indiretas pra cima de mim falando em metáforas, dizendo “Marte” mas querendo dizer do nosso casamento pra me falar de desistir. Você quis desistir! Não eu. Pode ser que não tenha reparado mas eu ainda não desisti, continuo lutando por você a cada segundo da minha vida! Okay, Mark! Eu entendi! Não vou poder ter você e ser uma cientista brilhante, eu sei que sou incrivelmente controladora e vou tomar surras da vida por não ter tudo o que eu quero, eu entendi! Você não vai se amoldar ao meu querer! Posso sobreviver com isso. O que acontece é que, agora, estou lidando com uma questão maior que você me amar ou não; preciso salvar a sua vida e a de cinco outras pessoas. Isso vai muito além do nosso lado pessoal, entende? Então, se você me odeia tanto assim, voltamos pra Hermes agora e, quando chegarmos à Terra, assinamos o maldito divórcio e você se livra de mim de uma vez por todas! – Carter sorria largamente de escárnio, mas Johanssen e Beck viram que seus olhos estavam marejados. – Devia estar pulando de alegria por estar mais perto disso. Eu lutaria por você a cada dia da minha vida, enquanto houvesse fôlego de vida em mim mas agora eu tenho que lutar pela sua vida! E pela vida de toda a tripulação.
— Basta!— interrompeu a Comandante Lewis ao chegar, já devidamente preparada com seu traje para AEVs, exceto pelo capacete. – Os dois, basta! Estão sendo antiprofissionais e colocando a vida da tripulação em risco a cada segundo que atrasam o cronograma. Eu esperava mais de você, capitã.
Watney e Carter não desgrudaram os olhares de decepção um do outro. Ele sentiu-se culpado ao ver que ela lutava para não derramar as lágrimas.
— Peço desculpas por contestar sua autoridade, comandante. – Carter disse, sem deixar de sustentar o olhar penetrante para Watney.
— Aceitas. – disse Lewis. – Watney, vá se preparar. É uma ordem.
Insatisfeito, Watney Desviou o olhar, como um adolescente birrento. Carter limpou uma lágrima que escorria por sua bochecha e virou-se, retomando a caminhada que havia sido interrompida pela discussão.
— Eu te odeio por me fazer chorar. – murmurou. – Devia te matar. Sabe que eu detesto chorar em público.
— Martinez. – Beck sussurrou em seu rádio. – Ouviu tudo?
— Cada segundo. – Martinez respondeu, cuidando para que apenas Beck ouvisse. – Estou sem palavras. Só consigo dizer... não, estou completamente sem palavras. A tensão sexual foi tão palpável que eu consegui sentir daqui. Quem precisa de novela mexicana quando se tem Carter e Watney?
Beck recebeu um olhar feio que Johanssen.
— Deem privacidade aos dois, seus enxeridos. Que vergonha de vocês.
— Não existe privacidade aqui. – rebateu Martinez. – Eu já superei. Acho que os dois também já superaram.
...
Carter fechou a porta da Eclusa de Ar 1 atrás de si e Lewis iniciou a despressurização. Estavam indo embora.
— Martinez. – Carter chamou, sabendo que o astronauta estava a postos, dentro do VAM, apenas aguardando o resto da tripulação para partir. – Quanto tempo pro lançamento?
— Doze minutos. – respondeu Martinez.
O alarme de descompressão da eclusa soou.
— É o seguinte – começou Carter. – Visibilidade quase nula. O vento está muito forte, portanto, preparem-se pro pior. Se alguém se perder, sintonize na telemetria do traje da Comandante Lewis.
— Estão prontos? – Lewis perguntou.
— Prontos. – respondeu Watney em nome de toda a tripulação, na retaguarda seguido por Carter.
Na frente da fila indiana, Lewis abriu a porta mas foi violentamente lançada para trás pelos ventos fortes e pedras.
— Comandante! – gritou Carter.
— Comandante, se machucou? – perguntou Watney.
— Eu tô bem! – Lewis respondeu, levantando-se com a ajuda de Beck.
Saindo do Hab, os astronautas lutaram para permanecer em pé. O vento forte os castigava mas, arduamente, eles conseguiram prosseguir.
Dentro do VAM, Martinez iniciou os protocolos de lançamento. Ia apertando diversos botões, checando e relatando.
— Capitã – chamou. – Ângulo de 10 graus; o VAM vira em 12.
— Capitã! – gritou Watney. – Talvez a gente consiga impedir que o VAM vire!
— Como? – gritou Carter em resposta.
Ela parou de caminhar ao prender seu pé em uma pedra. Pouco mais de dois metros à frente, Watney parou ao ver que ela estava presa quando virou-se para responder.
— Usando os cabos do mastro de comunicação como amarras... é ancorando com os rovers...
— Cuidado! – Lewis gritou.
Watney foi interrompido de seu raciocínio ao ser atingido por detritos.
— Watney! – berrou Johanssen.
— MARK! – gritou Carter a plenos pulmões.
No rádio de Beck, foi doado o alarme de descompressão:
Aviso, disse a voz do computador no rádio. Detectado vazamento no traje.
— O que houve? – perguntou Lewis.
— Ele foi atingido! – Johanssen respondeu.
— Na escuta, Watney? – Carter gritou, desesperada. – Responda!
— Responda, Watney! – repetiu Lewis.
A comandante sabia que aquilo estava nas mãos dela; a capitã não teria condições emocionais para lidar com aquele problema.
— Antes de perder a telemetria, o alarme de descompressão disparou. – informou Beck.
— Capitã! – Lewis chamou, na esperança de que fosse respondida. Decidiu mudar a tática. – Johanssen, quando o viu pela última vez?
— Eu perdi o contato, não sei onde ele está! – respondeu Johanssen.
— Capta sinais vitais no traje? – Carter perguntou, tentando se recuperar.
— Está sem sinal! Não tem sinal!
— Negativo – Beck disse ao mesmo tempo. – Perda total dos sinais do Watney!
— Beck! – Vogel chamou.
— Que é?
— Quanto tempo ele sobrevive em descompressão? – perguntou, com medo da resposta.
— Menos de um minuto. – respondeu Beck com a voz embargada.
— Fila indiana! – Carter ordenou, retomando o controle. – Vão pra oeste. Ele pode estar caído, não queremos pisar nele.
Com a visibilidade baixa e as lanternas acesas, os astronautas caminharam na direção comandada, abaixando se para tentar ver o chão melhor. Todos pisavam cuidadosamente para não atingir Watney. Carter queria surtar de várias formas diferentes, mas sabia que aquele não era um momento apropriado e não seria nada produtivo. Não acreditava que dera um discurso fantástico sobre como queria garantir a segurança dele para acabar assim! Não, não ia acabar. Não conseguiria sair de Marte nem se quisesse sem ter a certeza de que fez tudo o que pôde para que Watney saísse com ela. Entretanto, a tempestade se mostrou um inimigo mais forte do que a tripulação esperava.
— Estamos a 10,5 graus. – Martinez avisou lembrando uma Carter já frustrada de que tinha um tempo limite. Era uma corrida. – Inclinando para 11 com as rajadas de vento.
— Copiado. – respondeu ela. – Quero que todos sintonizem no traje do Martinez para chegar às comportas. Entrem e se preparem pro lançamento.
— Mas e você, capitã? – Beck perguntou.
— A comandante e eu vamos procurar um pouco mais. Se apressem! Vão!
Seguindo as ordens, embora não seguros de que era a decisão certa, todos começaram a seguir a telemetria do traje de Martinez até o VAM.
— Watney! – chamou Carter.
— Watney, responda! – pediu Lewis.
—O VAM está a 11,6 graus. – Martinez informou. – Mais uma rajada forte e viramos.
— Copiado. – respondeu Carter. – Comandante, quero que siga para o VAM agora. Eu vou um pouco mais distante. Se eu ou Watney não voltarmos em dois minutos ou o VAM correr risco de tombar, quero que decolem.
— O quê? – Lewis questionou.
— Acha que vou deixar você aqui? – disse Martinez.
— É uma ordem. – falou Carter, autoritária.
— Capitã... – Lewis tentou contestar.
— Melissa, você sabe que eu não vou conseguir sair desse planeta sem saber que eu tentei de tudo, sem saber que eu fiz tudo o que podia pra levar o Mark de volta pra casa. Não posso ir sem ter certeza de que ele não podia mais ser salvo, então, enquanto houver uma chance de eu ainda encontrá-lo e salvá-lo, eu vou me agarrar a essa chance. Agora, vai, o VAM está tombando.
Sem contestar mais, a comandante obedeceu às ordens. Enquanto seguia atrás da tripulação para o VAM, Lewis olhava para trás constantemente, assim, podendo ver a lanterna do traje de Carter acesa e saber que a Capitã estava bem. Ainda assim, encontrava-se preocupada: desejou ardentemente que Carter encontrasse Watney logo, porque sabia da enorme dor que seria para a capitã deixar seu amado para trás.
Ao mesmo tempo, o resto da tripulação da Ares 3 se ajeitava em seus respectivos assentos no VAM.
De repente, em um segundo de distração em que olhou para seu caminho para o VAM, Lewis ouviu um bramido em seu rádio, seguido por silêncio. Virou-se de volta e viu que a lanterna de Carter não estava mais acesa. Franziu o cenho.
— Capitã, perdi o contato visual. – informou. – Responda.
Sua resposta foi o silêncio.
— Capitã, responda.
Silêncio de novo.
— Não, não, não, não, não – Lewis ouviu Beck murmurando em seu rádio.
— O que aconteceu? – perguntou, preocupada.
— Perdemos o sinal dela! – gritou Johanssen, desesperada.
— Estamos perdendo o sinal do biomonitor. – disse Beck. – A última mensagem que recebi foi uma queda súbita de temperatura do traje.
— Sem aquecimento, ela vai congelar em alguns segundos. – concluiu Vogel, murmurando.
— Capitã, responda! – pediu Lewis novamente, sentando-se angustiada. – Carter! Watney! Respondam! Carter! Watney! – Respirou fundo, tensa. – Vou até o lugar onde vi a capitã pela última vez. – disse. – Se precisar, você decola.
— Comandante, a capitã especificou que deveríamos decolar se ela ou Watney não voltassem em dois minutos. – relembrou Beck. Estava tentando agir racionalmente, mas encontrava-se altamente perturbado; estava tentando admitir para si mesmo que tinha acabado de perder sua melhor amiga.
— Só vou até onde a vi pela última vez. Enquanto isso, Martinez, e o radar de proximidade? Ele detectaria o traje do Watney?
— Ele é feito pra ver a Hermes em órbita, não um pedacinho de metal num único traje. – respondeu Martinez.
— Mas tenta aí.
Incapaz de ver o chão Lewis prosseguia com esforço. Lembrando-se de algo, ela levou as mãos às costas e pegou um par de brocas para perfurar rochas. Lewis acrescentara as brocas de um metro ao equipamento naquela manhã prevendo a coleta de amostras geológicas mais tarde. Com uma broca em cada mão, ela as arrastava pelo chão ao caminhar.
Depois de chegar ao ponto em que vira Carter pela última vez, seu coração se apertou. Andou mais alguns metros à frente na esperança de que a capitã pudesse ter sido atingida por algum destroços e levada, mas não encontrou nada.
— Ela tá achando o quê? – contestou Vogel enquanto a comandante procurava. – O infravermelho não enxerga em tempestade de areia.
— Tá se agarrando a qualquer esperança. – explicou Beck, torcendo ardentemente para que desse certo.
— Não captamos nada no radar de proximidade. – disse Martinez.
— Nadinha? – perguntou Lewis, decepcionando-se.
— Não. Mal dá pra ver o Hab.
— Comandante – Beck chamou. –, eu sei que não quer ouvir isso, mas o Mark e a Jessica morreram.
Lewis suspirou, perturbada. Ainda não conseguia aceitar aquilo.
— Ei. O que foi que deu em você? – Martinez repreendeu.
— Meu amigo e minha capitã morreram, não quero que minha comandante morra também. – respondeu Beck, tentando agir racionalmente.
— Aviso de instabilidade. — disse a voz do computador.
— Vamos tombar! – anunciou Johanssen, preocupada.
O suporte do VAM emitiu um som perturbador. Estava entortando e as chances da tripulação da Área 3 de escapar eram cada vez menores.
— Comandante, precisa voltar pra nave agora!— disse Beck.
— 13 graus! – Martinez lembrou.
— Se passar do centro de equilíbrio, não volta pro lugar. – informou Vogel.
— Eu ainda tenho um truque na manga e depois só cumpro ordens, comandante. – disse Martinez.
Esticou o braço e apertou alguns botões, realizando seu truque. Os membros da nave puderam senti-la voltando pro lugar no ponto de estabilidade.
— Você ativou o SMO? – Vogel perguntou, indignado.
— Claro. – Martinez respondeu, tranquilamente.
— Comandante! – Johanssen chamou.
Lewis sentiu-se derrotada.
— Já tô indo! – disse, virando-se e voltando para a direção do VAM.
Quando chegou à nave, agarrou-se à escada e decidiu tentar uma última vez.
— Jessica! — gritou. – Mark!
Não houve resposta. Não houve aparição. Os dois não voltariam para a nave, ela finalmente admitiu para si.
— 11,5 por enquanto. – informou Martinez, apertando mais botões para a sequência de lançamento enquanto Lewis se prendia a sua cadeira. – Pronto pra partir a seu comando.
Outro botão fez barulho. Aqueles sons nunca foram tão perturbadores.
— Pronto pro lançamento.
Houve silêncio.
— Comandante. Tem que dizer se é pra partir ou não.
— Decolar. – ordenou Lewis, destruída.
O VAM decolou. Todos sentiam-se devastados pela enorme perda. Martinez teve o impulso de olhar para a cadeira vazia de Watney enquanto Beck teve o mesmo impulso ao olhar pra cadeira vazia de Carter. O silêncio prevaleceu além dos soluços de Johanssen. Não eram só as cadeiras que estavam vazias: toda a tripulação sentia que havia algo faltando.
...
Por volta das 4h30 da manhã, horário central, nossos satélites detectaram uma tempestade se aproximando do local da missão da Ares 3 em Marte. Às 6h45 a tempestade foi classificada como grave e só nos restou cancelar a missão. Graças à ação rápida da Capitã Carter e Comandante Lewis os astronautas Beck, Johanssen, Martinez e Vogel conseguiram chegar ao Veículo de Ascensão de Marte e realizar uma decolagem de emergência às 7h28, horário central. Infelizmente, durante a retirada, o astronauta Mark Watney foi atingido por destroços e morreu. Em uma busca na esperança de encontrá-lo vivo, a Capitã Carter também foi dada como morta por hipotermia após a perda de seus sinais vitais e sua temperatura no traje. A Comandante Lewis e sua equipe conseguiram interceptar em segurança a Hermes e estão voltando pra casa mas Mark Watney e Jessica Carter estão mortos.
...
Que merda. Por que aquele alarme não parava de tocar? Watney sentiu-se furioso ao perceber que seria obrigado a acordar.
Nível de oxigênio: crítico.
Abriu seus olhos subitamente. Sua respiração quase queimava. Não estava esperando ouvir o alarme de oxigênio excessivo. Sentia dor, uma dor grande. Lembrava-se da tempestade. Lembrava-se de ouvir Carter gritar desesperadamente seu nome. Não lembrava-se de nada muito além disso.
A tempestade já havia acabado. Esforçou-se para levantar. Deu um passo à frente mas um peso o parou. Um peso dolorido. Algo o impedia de andar. Foi quando percebeu que estava preso: a antena de comunicação tinha se soltado do Hab e voara longe, mas uma haste, ainda presa à antena, estava dentro dele. Cacete! Como doía!
Tirou um alicate do bolso de seu traje e cortou a corda que o prendia à antena.
Virou-se e viu que o Hab não estava longe. Começou a andar e urrou de dor. Saber que teria de subir toda a colina para chegar ao lugar seguro era incrivelmente desanimador.
Depois do que pareceu uma eternidade andando, Watneu finalmente chegou ao Hab. Entrou na Eclusa de Ar 1 e acionou a pressurização.
Pressão: estável, disse a voz do computador.
Ele meio que odiava aquela voz naquele momento.
Entrou no Hab e imediatamente começou a despir-se. O traje espacial era difícil de se livrar. Tirou apetrechos, apertou botões livrou-se de travas. Parecia não terminar. Tirou a pequena touca que os astronautas usavam em seus trajes. Só faltava um fator para se livrar do traje de vez.
Watney começou a respirar fundo. Respirou repetidamente, como uma mulher em trabalho de parto. Estava muito tenso é, de uma vez, tirou a antena de dentro de si. Soltou um grito de dor e tampou a ferida. Como algo tão pequeno podia fazer um estrago tão grande?
Despiu-se do resto do traje e foi andando até a ala médica, onde pegou uma tesoura e começou a cortar a parte superior da roupa interna do traje: não tinha tempo, paciência ou energia para tirá-la corretamente. Livrando-se dela pegou um pequeno pano que usou para tentar estancar o sangramento, fazendo pressão na ferida. Pegou mais utensílios que usaria e jogou-se sobre uma cadeira em frente à mesa da ala médica. Virou o pequeno espelho para o próprio abdômen para saber o que estava fazendo.
Ao tirar o pano, tratou de aplicar rapidamente a anestesia local. O corte expeliu um pouco mais de sangue que Watney tentou limpar com o pano já ensopado. Aí vinha a parte mais dolorosa: sentia que ainda havia um estilhaço dentro de si.
Pegou o separador e, gemendo de dor, o usou para abrir mais seu corte. Sentiu-se muito idiota por estar fazendo isso. Parecia doer cada vez mais. Com a pinça, se esforçou para agarrar o estilhaço, sentindo por dentro como se todos os seus órgãos estivessem sendo revirados. Quando conseguiu segurar o estilhaço, tirou-o de dentro do corte e já tirou o separador, ficando aliviado. Parecia até que um estranho enjôo havia passado. A pior parte acabara.
Apesar disso, nem todas as coisas ruins tinham acabado. Pegou o grampeador e, com os próprios dedos, ajuntou a pele que havia sido rasgada. Grampeou o corte uma, duas, três vezes. Suspirou. Agora, sim, tinha acabado.
— Porra. – disse, espatifando-se sobre a cadeira. Seus colegas de tripulação tinham ido embora. Estava sozinho ali.
Sua página na Wikipedia diria: Mark Watney foi o primeiro ser humano a morrer em Marte. E a informação estava correta. Só não em Sol 18, como acreditavam.
A pior parte tinha acabado? Não. Estava apenas começando.
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