Never
1 Again
Notas iniciais
Inspirou profundamente e sorriu quase nostálgico. Finalmente estava de volta ao seu país, como ansiava desde o dia que viajara.
Saiu do Japão para cursar a faculdade em Londres. Levou na mala sonhos, ansiedade e frustração. No dia em que decidiu mudar-se sabia que estava fugindo; fugindo de um sentimento não correspondido e que o fazia sofrer a cada segundo. Agora que voltava estava cheio de boas perspectivas. O Japão tinha uma nova cor.
- Miyavi! — Ouviu o grito animado de seu amigo e sorriu, tomado por uma felicidade nunca sentida antes. Observou o loiro correr à sua direção e correspondeu ao forte abraço. — Puta que pariu que saudade! — Desmanchou o enlace e o fitou. — Você voltou mais viado que nunca! — Ria enquanto olhava para os fios multicoloridos do maior.
- Uruha e sua doce espontaneidade! — O loiro deu de ombros e caíram na gargalhada. Não era as palavras ditas que os faziam rir, era a felicidade por estarem juntos novamente depois de tantos anos afastados.
- Vamos. — Puxou-o para fora daquela bagunça de pessoas e bolsas. — Eu organizei uma pequena festinha no meu apartamento. Nada demais, só os amigos de sempre, para te lembrar de como é boa a nossa companhia. — Explicou enquanto o ajudava a pôr as bolsas no carrinho de bagagem. — Você não viajou só com duas malas?
- Mas eu fiz faculdade! — Uruha limitou-se a sorrir. — Não podia largar meus livros lá!
- Espero que tenha presentes aqui também. — Confessou empurrando o carrinho em direção à saída.
Miyavi não conseguia tirar o sorriso do rosto. Não se lembrava de como era boa e divertida a presença do amigo. Sabia a quais ‘amigos de sempre’ Uruha se referia e mal podia esperar para vê-los, mas não pode evitar sentir um pequeno arrepio ao imaginar que talvez ele estivesse lá.
“Sentou-se exausto no chão, sentindo o calor quase sufocante do sol em suas costas, mas fora incapaz de andar mais do que o suficiente para sair do campo quando foi apitado o fim do jogo. Tinham perdido, seus companheiros de time já se espalhavam para os mais diferentes lugares, sem quererem se expor mais que o necessário depois do vexame de 5x1.
- Puta que pariu Miyavi! — Sentiu um pequeno chute em suas costas e olhou para cima, encontrando um meio sorriso na face de Uruha. — Trouxe meu novo amigo para ver o jogo e você me faz o papelão de não jogar!
- Não foi só culpa minha, sabe? - Ergueu a mão para que o amigo o ajudasse a se levantar.
- Você era o capitão do time. — Puxou-o e serviu de base até ele se equilibrar, tarefa que lhe pareceu difícil devido ao cansaço. — Tinha obrigação de fazer melhor que eles.
- Eu fiz, mas eles continuaram sendo ruins. — Deu de ombros e sorriu, encarando pela primeira vez o amigo de Uruha.
- Você e suas desculpas... — O loiro balançou levemente a cabeça. — Esse é o Kai, meu novo colega de quarto, ele entrou no colégio esse ano.
- E caiu logo no quarto do Uruha... Puta azar hein? — Seu sorriso aumentou ao ver as covinhas que se formavam nas bochechas quando Kai sorriu. — Acho que já sabe que sou o Miyavi. — Estendeu-lhe a mão e um pequeno choque correu seu braço quando suas peles se tocaram.
- Prazer em conhecê-lo Miyavi-san. — Continuou com o sorriso carismático em sua face.
- Me senti um velho com esse ‘san’... - Riu gostosamente acompanhado de Uruha quando Kai ficou vermelho e sem jeito, desculpando-se repetidas vezes. — Não tem problema, foi só uma brincadeira. Mas não me chame mais assim, só Miyavi está bom.”
Atravessou as portas de vidro e fora bombardeado pelas informações que apenas Tóquio podia lhe dar: luzes, cores, sons... A música do seu lar.
Ajudou Uruha a colocar a bagagem no porta-malas do carro e deixou o carrinho próximo a porta, desejando que um bom tempo se passasse antes de precisar utilizar um igual outra vez. Sentou-se no banco do passageiro e prendeu o cinto, Uruha já mexia no rádio, procurando alguma música para ouvir.
- Ainda com essa mania de sempre ter barulho? — Perguntou distraidamente ainda fitando os prédios.
- Você sabe que eu odeio a ideia de ter silêncio por um segundo que seja. — Ligou o carro e começou a guiá-lo pelas ruas e avenidas cheias.
Miyavi ainda pensou em um comentário para fazer sobre isso, envolvendo o namorado do amigo, mas as palavras morreram. Estava entorpecido demais pelo fascínio que a cidade lhe causava devido à saudade.
“Caminhava calmo pelo corredor do colégio, perdido em pensamentos, sequer via quem passava por si. Mal entrara no quarto e já descalçava os tênis enquanto jogava a camiseta em um canto qualquer. Pegou a toalha e abriu a porta do banheiro.
- KAI!? — Instintivamente deu um passo para trás, observando o outro terminar de escovar os dentes. — O que está fazendo aqui? — Miyavi deu licença para que o menor passasse e viu um sorriso levemente desconfortável em seu rosto.
- Sabe... Aconteceu algo no mínimo curioso... — Ele esfregava as mãos enquanto falava, atitude que o maior já havia percebido ser característica de quando ele estava nervoso. — Quando eu voltei da aula, as minhas coisas estavam aqui, e as do Yuu foram parar no dormitório do Kou... — Lançou-lhe um rápido olhar. — Eu não entendi muito bem porque, mas o Aoi disse que não tinha problema...
Miyavi o observou em silêncio por um instante, mas logo foi dominado por um ataque de riso. Kai assustou-se com sua reação, mas rapidamente a surpresa foi substituída pela impaciência. O maior apoiou-se na parede, tentando se controlar e parar de rir.
- Desculpa... — Pediu ainda com o sorriso no rosto, algumas lágrimas escapavam de seus olhos. Kai cruzou os braços e aguardou que ele se controlasse melhor. — Desculpa, Kai... Mas é que... É que você falou tão... Putz! — Ainda não conseguia falar sem rir. — Até pareceu que você realmente não sabia o que aconteceu. - Kai inspirou profundamente, como se buscasse calma.
- Isso foi porque eu realmente não sei o que aconteceu. — Frisou as últimas palavras para que Miyavi as ouvisse muito bem. O maior ainda esboçou um novo sorriso, que morreu frente o olhar de Kai.
- Você não estava sendo irônico?
- Não!
- Ah... — Foi o máximo que conseguiu falar. Kai o fitava impaciente.
- Vai me falar ou não por que minhas coisas foram trocadas com as de Yuu? — Já não demonstrava o nervosismo, mas era perceptível que ainda estava com raiva.
- O... — Pigarreou para a voz soar mais clara. — O Kou não te falou?
- Se ele tivesse falado eu não estaria perguntando Miyavi. — Inspirou profundamente mais uma vez. Parecia uma tarefa difícil responder calmamente às perguntas do mais alto.
- É... Faz sentido... — Coçou a cabeça, sem saber ao certo o que falar. Não conhecia Kai tão bem a ponto de saber qual seria sua reação. - Bem... É que o Kou e o Yuu... Sabe... Eles são mais, entende? — Kai meneou a cabeça, negando. — Eles são mais... Mais...
- Mais o quê?
- Mais que amigos. — Cuspiu as palavras antes que elas travassem novamente. Observou atentamente enquanto Kai parecia ligar os pontos.
- Ah... Eles são gays... E namorados... - Miyavi concordou ainda receoso. — Isso explica muita coisa.”
Piscou algumas vezes quando a porta ao seu lado foi aberta abruptamente. Não percebera que haviam chegado, e Kouyou já o puxava para fora do carro.
- Tava dormindo, porra? — Riu de forma debochada, caminhando para trás do carro. — Vem pegar tuas coisas, não ganho para carregar mala de macho.
- Se fosse do Yuu você não reclamaria... — Choramingou com um pequeno sorriso nos lábios.
- Como você não é o Yuu... — Jogou-lhe a mochila preta. Miyavi quase caiu devido o peso da bolsa. — Isso é para aprender a não trazer bolsas tão cheias, e a não falar do meu namorado. — Fez um pequeno bico, que arrancou gargalhadas do maior.
Tentando carregar as malas da melhor forma possível, caminharam até o elevador e aguardavam enquanto a caixa metálica os levava para o sétimo andar. Miyavi nunca conhecera o apartamento que Kouyou e Yuu dividiam; nunca os visitara, e tudo parecia novo e importante. Sabia que o amigo estava feliz, e ficava feliz por ele, mas também se sentia “de fora”, sentia que ficara longe durante momentos importantes para seus amigos. Precisava recuperar o tempo perdido.
- Então, tem alguma coisa que eu precise saber? — Perguntou quando o visor do elevador já mostrava o número 5.
- Como assim? — Kouyou parecia um equilibrista com as três bolsas que carregava.
- Coisas do tipo: não fale sobre isso com não sei quem, não toque nesse assunto... Coisas assim. Não quero dar mancada logo no meu primeiro dia de volta. — Sorriu calmo e arrumou as quatro bolsas que levava. Sabia que estava com muitas coisas, mas não iria simplesmente largar tudo no apartamento em Londres. Ainda tinha algumas coisas que pediu para um amigo inglês enviar-lhe por correio, fora as que ele mesmo despachara, e tudo estava no apartamento de Kouyou.
- Além do tamanho do Ruki e da faixa do Reita... Acho que o Aoi não vai querer que você fale sobre o cabelo rosa¹.
- Cabelo rosa?!?! — Quase caiu ao sair do elevador, tentando segurar a porta para que o loiro passasse.
- É... Foi um acidente, mas o cabeleireiro disse que não pode jogar química por cima durante uma semana, e o Yuu não quis raspar o cabelo... — Tentou dar de ombros e fingir que não se importava, mas o sorriso no canto de sua boca dizia a Miyavi que ele precisaria ter força de vontade para não rir.
Com muita dificuldade Kouyou conseguiu abrir a porta do apartamento, e ambos foram recebidos com assobios, aplausos e risos de alegria. Há muito Miyavi não sabia o que era estar entre amigos.
- E aí arco-iris, como foi a viagem? — Ruki o abraçou assim que ele deixou as bolsas no chão. Miyavi não controlou o riso ao perceber que o loiro batia em seu tórax.
- Tudo bem Ruki. — Abraçou-o de volta e decidiu esperar mais um pouco antes de começar com os apelidos. — E vocês? Como viveram sem mim durante esse tempo? — Cumprimentou Reita e realmente precisou se controlar para não gargalhar na frente de Aoi, embora ele tenha sido obrigado a admitir que o amigo ficara muito bem com a nova cor de cabelo.
- Ah... Sei lá... Muitas coisas aconteceram, mas você vai saber aos poucos. — Aoi lhe deu um copo com vodka e o mandou sentar. — Por que pintou o cabelo desse jeito?
- Por que pintou o seu de rosa? — Retrucou sem que as palavras passassem por seu cérebro antes de chegar à boca. Os outros três seguraram a respiração por alguns instantes. — Eu não ia falar do seu cabelo se você não falasse do meu. — Deu de ombros e Ruki começou a rir, acompanhado de Reita. — Pior é que ficou bom Aoi! — Encarou-o seriamente.
- Aproveite. Só vai ficar assim por uma semana! — Pegou a bebida que Uruha lhe oferecia.
- Se eu fosse você eu deixava assim. — Comentou dando-lhe um selinho.
- Por que não pinta o seu então? — Perguntou casualmente.
- Porque você ficou sexy, eu ficaria parecendo a Rita Lee² na juventude. — Miyavi quase cuspiu a bebida ao ouvir a comparação. Definitivamente não havia pessoas melhores do que seus amigos.
Conversaram durante muito tempo, relembrando coisas e contando novidades uns para os outros. Miyavi era o que mais ouvia, sentia uma necessidade infinita de saber o que havia acontecido na vida de seus amigos. Queria se interar o máximo que fosse, e também tentava não se apegar ao fato de Kai não estar presente. Sabia que Kouyou e ele haviam mantido a amizade, e a ideia de que ele não estava ali por não querer vê-lo o feria.
“Estava deitado com a cabeça voltada para os pés da cama, fitando distraidamente o companheiro de quarto, sentado à janela.
- Você já amou Kai? - a voz saiu sussurrada, levemente sonolenta devido à hora.
O outro ficou parado por alguns momentos, como se buscasse lembrar algum sentimento há muito guardado.
- Teve uma vez que eu achei que sim, mas hoje... Hoje eu sei que não. — Encostou a cabeça na parede. — Não Miyavi, eu nunca amei alguém de verdade. — Novamente o silêncio se fez presente, o único som que ouviam eram seus próprios corações batendo. - E você Meevs? — Virou-se para fitá-lo. - Você já amou alguém?
O maior observou o brilho dos olhos escuros, os fios negros iluminados pela luz da lua, algumas sombras desenhando seus traços e escondendo parte de sua pele alva.
- Não... Mas acho que estou começando a amar. — Sentiu seu coração falhar uma batida ao ver seu sorriso.
- Posso saber quem?
Seu corpo parecia pesar uma tonelada sobre o colchão. Seu coração gritava, implorava por alívio, mas seu cérebro lhe mostrava as consequências. Miyavi, porém, nunca fora bom em ouvir e obedecer à razão.
- Você.
O cálido sorriso desmanchou-se lentamente, à medida que as palavras adquiriam sentido.
- Miyavi... — Sua insegurança era visível. Estava com medo de que suas palavras o ferissem, mas ainda assim precisava dizê-las. — Eu não... Seria capaz de te corresponder. — Observou o outro virar-se na cama, desmanchando o contato visual entre eles. - Você sabe que eu sou hetero.
- Sim, Kai. Eu sei.”
Miyavi observou calmamente enquanto Ruki deitava no colo de Reita, que passou a acariciar os fios oxigenados. Era visível o sentimento que os envolvia, a cumplicidade que tinham... Um sorriso triste desenhou-se em seus lábios e uma vez mais Miyavi se perguntou se um dia teria alguém para amar e por quem ser amado.
- Eu tô com fome! — Ruki reclamou, ainda se aninhando no colo do namorado. — Quando é que o Kai pretende vir? — Miyavi sentiu seu corpo esfriar rapidamente.
- O Kai vem? — Tentou não demonstrar grande interesse, ao julgar pelo olhar que recebeu de Uruha, não fora bem sucedido.
- Claro que vem! Ele que vai trazer a comida! — Meneou a cabeça, sorrindo logo em seguida para o menor. Tentou não pensar em como seria quando o visse, mas essa cena sempre lhe vinha à mente, desde o dia em que viajara.
- Será que vai trazer alguém? — Reita mexia distraidamente no cabelo de Ruki. — Porque, se ele se atrasou desse jeito, é óbvio que não estava sozinho. — Completou ao notar as expressões confusas.
- O Kai nunca nos apresenta os “amores” dele... — Aoi fez aspas com os dedos. — Só conhecemos o Nao porque o pegamos no flagra.
- Nao?
- Um dos “namorados” que o Kai teve... — Miyavi sentiu o chão sumir debaixo dos seus pés.
- Namorados? — Não podia acreditar no que ouvira, desejava com todo o seu ser que tivesse ouvido errado.
- É Miyavi... Você perdeu muita coisa. — Comentou Ruki fitando o teto. Miyavi olhou para Uruha e percebeu em seu olhar que não era para ser assim, não era para ele saber daquele jeito. Tentou fazer um gesto que dissesse que estava tudo bem, mas não conseguiu, porque não estava tudo bem.
“Observava os amigos enquanto tocava o vilão, cantando uma música qualquer para distraí-los. Era o último dia das férias. O último dia que teriam para ficarem juntos fazendo nada. Por tanto resolveram fazer exatamente isso naquela noite, ficar juntos e fazer nada, apenas cantar.
Acenderam uma fogueira na praia e se sentaram em volta, o violão passava de mão em mão, conforme a vontade de cada um. Inevitavelmente ele ficava mais com Miyavi, o único que sabia cantar e tocar bem. Encerraram a música juntos, em um único coro. O maior sorriu e passou o violão para Ruki.
- Vou dar um mergulho. — Levantou e tirou um pouco da areia do corpo. - A saideira. - Sorriu alegremente e correu para o mar.
- Espera, Miyavi. Vou também. — Kai corria atrás de si.
Mal entraram no mar e já brincavam de jogar água um no outro, rindo enquanto recebiam as gotas do líquido salgado em suas peles. Havia sido um ótimo verão, e já faziam planos para o próximo, provavelmente o último que poderiam passar todos juntos. Cada um iria para uma universidade diferente e dificilmente seus dias de folga coincidiriam. Tudo tinha que ficar na memória, cada sorriso, cada brincadeira, cada raio de sol...
Kai mergulhou e se sentiu completo como nunca. Estava contente por passar aqueles dias com os amigos, fora com certeza suas melhores férias. Miyavi mergulhou atrás dele e passou a puxar seu pé, impedindo-o de nadar direito. Tiveram uma pequena briga submersa, que acarretou em um chute de Kai no peito do amigo e um tapa de Miyavi em sua perna.
- Quer me matar afogado idiota? — Questionou assim que se ergueu, observando o sorriso maroto de Miyavi.
- Você que quis me matar com aquele chute! — Ele massageou o peito. — Me fez perder todo o ar...
- Bem feito! — Uniu as mãos formando uma espécie de concha, enchendo-a de água e jogando contra o rosto do amigo.
- Filho da... — Novamente foi atingido em cheio pela água. Logo voltaram à brincadeira de se atirarem lufadas de água. — Chega! Não consigo respirar direito! — Reclamou entre os ‘tiros’ que recebia.
- Ok. Uma trégua então. — Kai se aproximou dele, mas não prestou atenção à onda que se formava e desequilibrou-se. Agarrou-se a Miyavi para se manter em pé, rindo descontroladamente. - Puta merda... Só eu para cair com uma onda, sendo que estou dentro do mar.
- Pois é... — A voz de Miyavi saiu fraca, quase inaudível. Kai ergueu os olhos para fitá-lo, mas tudo o que viu foi o rosto do maior se aproximando rapidamente do seu, unindo suas bocas. Sentiu seus lábios serem lambidos enquanto a língua lhe pedia passagem para explorar sua boca. Kai o afastou com um forte empurrão e cuspiu no mar. — Kai, desculpa, eu não...
- Cala a boca! — O rosto de Kai estava avermelhado pela raiva que sentia. — Você tem problema? Eu já te falei Miyavi, eu cansei de falar: EU SOU HETERO! Eu não tô nem aí para você! Foda-se! — Cuspia as palavras com a mesma vontade que cuspira após o beijo roubado. — Será que entendeu agora? Eu não sou viado! Se você é, parabéns, mas eu não sou!”
Sua cabeça girava como se tivesse acabado de sair de uma montanha russa com muitos loopings; seu corpo inteiro passara a pesar e doer, como se só agora sentisse o cansaço da viagem, mas ele sabia que não era bem isso.
Tentara não nutrir seu sentimento por Yutaka enquanto estava fora do país, e tinha acreditado veementemente que havia conseguido se esquecer daquele amor que só lhe levava a perder a razão; ao ouvir as novidades, porém, ficou muito claro que se enganou durante todos àqueles anos. Não podia garantir que ainda o amava como amara há tanto tempo, mas era impossível negar que não se sentira mal ao saber que ele estivera com homens, coisa que ele sempre fez.
Levantou e caminhou até a cozinha, onde tentou se distrair com um copo d’água. O líquido frio escorrendo por sua garganta o fez lembrar-se daquele último dia das férias de verão, quando, pela primeira e última vez, cedeu ao seu mais forte impulso de beijá-lo. Arrependera-se tanto depois daquele ocorrido.
- Meevs? — A voz de Kouyou o trouxe de volta à realidade. — E-eu... Não era para você... Saber... Dessa forma... — Passava o peso de uma perna à outra, aflito com as consequências que a revelação poderia trazer ao amigo.
- Eu sei Kou. Eu entendi seu olhar. — Sua voz transmitia uma calma que não sentia. — Eu teria que saber de qualquer forma. — Tentou sorriu-lhe e mais uma vez fracassou.
- Ah Meevs... — Kouyou se aproximou e o abraçou, Miyavi o apertou em seus braços. Era bom poder contar com os amigos novamente. — Eu nem sei o que te dizer...
- Então não diga. — Afastou-se do amigo e lhe sorriu, sincero e agradecido. — Eu vou ficar bem... Aliás, já estou bem.
Um silêncio agradável se instalou entre eles, como sempre acontecia quando todas as palavras já haviam sido ditas. Eram mais que amigos, eram cúmplices.
Estava deitado em sua cama, fitando o teto enquanto tentava não pensar em tudo o que estava acontecendo em sua vida, e em como as coisas mudaram para ele.
- Miyavi? - Uruha não se deu ao trabalho de bater na porta antes de adentrar o dormitório do amigo. - O que você tem? Nem quis ficar com a gente na piscina...
- Eu to bem Kou... Só um pouco cansado. - Respondeu quase de forma automática, sem pensar sobre suas palavras.
- Você anda muito cansado ultimamente. — Rebateu sentando-se aos pés da cama. Aquele era o jeito de Kouyou descobrir o que estava afetando o amigo outrora tão alegre e animado. Miyavi sabia que o loiro não iria embora enquanto não soubesse exatamente o que estava acontecendo, e graças a isso ele lhe era grato e o odiava, ao mesmo tempo. — O que está te cansando? — Miyavi se virou na cama e deitou a cabeça na coxa de Kouyou.
- Bem... Acho que é mais que óbvio que eu e o Kai brigamos. — Sua voz era um mero sussurro. — Eu me apaixonei Kou-chan... — Continuou após um murmúrio do amigo. — Eu me apaixonei por ele, e ele me rejeitou. Disse... Coisas que eu não gosto de lembrar... — Um suspiro frustrado e exausto saiu por entre seus lábios. — Ele é hetero, Kou... E por isso brigamos...
Kouyou acariciava calmamente os fios negros do amigo. Imaginou que a causa da briga fosse algo relacionado a isso, mas não acreditara que Miyavi estivesse realmente apaixonado. O moreno era emotivo e se apegava fácil, mas Kouyou acreditou que ele tomaria o cuidado de não se deixar levar demais por Kai. Muitas palavras sondaram a mente de Kouyou, mas nenhuma lhe pareceu apropriada, portanto manteve-se em silêncio, apenas consolando o amigo que começara a chorar baixinho.
- Por que tem que doer Kou? — O loiro não respondeu, não tinha o que responder. Isso era uma regra da vida: você ama, você sofre. — Eu... Eu não queria...
- Shi... — Acariciou suas costas. — Eu sei Meevs... Eu sei... Não se preocupa com isso, acontece. Apenas chore, deixe a dor sair do seu peito.”
E isso era tudo o que Miyavi queria fazer naquele momento. Deitar no colo de Kouyou como fizera há anos e chorar, só que dessa vez suas lágrimas seriam de frustração e não mais por culpa de um amor não correspondido. Esse “golpe” doera mais do que quando Kai e ele brigaram, doera mais do que ele poderia imaginar.
- Puta que pariu finalmente! — A voz animada de Ruki ecoou pelo apartamento, fazendo com Miyavi e Uruha retornassem à sala. — Eu já estava morrendo de fome!
Miyavi congelou assim que seus olhos encontraram Kai sorrindo para Takanori, que já havia pegado o pacote de suas mãos e o levava para a mesa. Se fosse há alguns minutos, o maior estaria preparado para enfrenta-lo, mas depois do que descobrira tudo o que conseguia fazer era fita-lo e se perguntar por quê.
- Eu não demorei tanto assim... — Seus olhares finalmente se encontraram e Miyavi viu o sorriso dele oscilar. — Oi Miyavi. — Cumprimentou sem esboçar vontade de se aproximar.
- Oi Kai.
Miyavi sentia como se houvesse uma mão apertando seu coração, cada vez mais forte, e a qualquer momento ele explodiria. Estava triste, magoado e com raiva. Mas esses sentimentos só evidenciavam o que ele já desconfiava: nunca conseguira esquecer o outro.
- Como foi a viagem? — Como foi a viagem? — Kai tentava ser agradável como sempre; para Miyavi, porém, o clima estava pesado demais para isso.
- Tudo bem. — E esse era o seu jeito de falar que não estava bem e que tudo parecia errado. Poucas palavras vindas de alguém que tanto falava.
- Que tal a gente comer? — Ruki já havia retirado toda a comida das embalagens e olhava para todos com um olhar suplicante. — Eu tô com muita fome, não é brincadeira.
Todos acabaram rindo, com exceção de Miyavi, e se juntaram à Ruki na mesa, servindo-se calmamente. Miyavi respondeu a todas as perguntas que lhe eram direcionadas, mas nada, além disso, seu ânimo para conversas havia se esvaído.
- Que foi Miyavi? Ficou tão quieto de repente... — Aoi comentou entre colheradas de sorvete.
- Ele está cansado... — Respondeu Uruha prontamente, sorrindo fraternal. — É uma viagem e tanto de Londres até aqui. — Miyavi lhe sorriu, agradecido.
- E a gente aqui te torrando, né? — Ruki demonstrou todo o bom humor que tinha quando não estava com fome. — É melhor a gente ir embora Reita... O Miyavi tem que descansar.
- Também não precisam sair como cachorros magros. — Brincou um pouco com o menor. — Eu aguento mais alguns minu... — Fingiu que caiu no sono e deixou a cabeça cair por sobre o ombro, arrancando gargalhadas dos amigos. — Não estou tão cansado a ponto que desejar que vocês vão embora para eu poder dormir... Ainda.
Ficaram nesse clima de conversa por mais alguns instantes, até Kouyou levantar e começar a retirar a louça da mesa, logo sendo ajudado por todos. Aoi se incumbiu de lavar enquanto Uruha secaria e guardaria; Kai foi fumar na varanda e Miyavi, Reita e Ruki voltaram para a sala.
“Não sabia bem o que pensar ao ler as palavras impressas. Era o que havia desejado muito, mas agora que tinha certeza, que sabia que era real, não conseguia se ver realizando aquilo de fato. Estava confuso.
- E então Miyavi? — Os olhos de Uruha brilhavam intensamente, curiosos e ansiosos pela resposta. — O que diz aí? Você conseguiu? Vai para Londres? — Miyavi apenas meneou um sim com a cabeça, ainda paralisado com a revelação. — EU NÃO ACREDITO! — Uruha puxou o papel de suas mãos e leu a carta cuidadosamente, um largo sorriso estava estampado em suas faces. — Puta que pariu você conseguiu mesmo!
Miyavi suspirou, desmanchando o sorriso que havia nos lábios do loiro. Uruha olhou-o com um misto de orgulho e incredulidade.
— Por que tá com essa cara? Porra você conseguiu uma bolsa de estudos em outro país! — Chacoalhou-o pelos ombros. — Eu tô dando pulos de felicidade por você, caralho! Demonstre uma animação! Você lutou tanto por isso!
Miyavi olhou demorado, sem conseguir esboçar uma resposta que fosse. Kouyou tinha razão, ele deveria dar saltos de alegria, mas não conseguia. Sequer conseguia sorrir. Tudo estava sombrio dentro de si.
- Eu... Eu não sei mais se quero ir. — Confessou depois de um silêncio levemente desconfortável. - Não sei... Depois de tudo o que aconteceu... Eu...
- Ishihara, você se matou de estudar durante mais de um ano para conseguir isso aqui! — Mostrou a carta para ele, forçando-o a encará-lo. — Tudo o que você mais queria era a droga dessa carta! Você não pode, não deve jogar isso no lixo como se não significasse coisa alguma! — Miyavi sabia que o amigo tinha razão, mas ele se sentia tão fraco para enfrentar uma realidade tão adversa da sua. — Nada merece que você deixe de viver seus sonhos.
- Kou... Já está bem difícil de viver com você aqui comigo... Se eu for para Londres... Como é que eu vou ficar? — Olhou-o angustiado. - Eu não tenho amigos lá!
- Mas terá! — Sorriu-lhe. — Claro que nenhum irá me superar, mas serão seus amigos.
- Eles não sabem o que eu passei... — Recostou-se na cômoda do quarto.
- E você não vai lhes contar, o que será ótimo. — Fitou-o confuso. — Eles te forçarão a esquecer.”
Miyavi estava com a cabeça encostada no sofá, fitando o teto como se fosse a coisa mais interessante do mundo, mania que adquirira ainda no colégio e que só ficou mais evidente com o passar dos anos. Estava novamente se sentindo perdido, mas agora não dava para pedir uma direção a Uruha. Talvez nem mesmo o amigo soubesse lhe indicar um caminho.
Virou a cabeça em direção aos amigos e sentiu-se totalmente fora de lugar. Ruki e Reita conversavam aos sussurros no outro sofá, trocando leves carícias e beijos rápidos. Tão cúmplices quanto Aoi e Uruha eram. Tão cúmplices quanto ele nunca conseguiu ser com alguém.
Levantou-se decidido a tomar um pouco de ar e foi para a varanda, encontrou Kai debruçado sobre o parapeito, fitando a avenida abaixo. Pensou em voltar para a sala, mas suas pernas não se moveram, seu cérebro sequer havia dado a ordem de ser mexer. Ele não poderia fugir sempre.
Optou por não chamar a atenção do outro, apenas se encostou à parede e ficou observando-o por alguns instantes, até que ele se ergueu e virou para encará-lo.
- Há quanto tempo a gente não fica assim, né? — Comentou após um pequeno silêncio. — Só nós dois, conversando.
- É... Faz muito tempo. — Não conseguiu encontrar mais palavras para responder-lhe, não queria iniciar o assunto que certamente se instalaria.
- Muitas coisas mudaram desde então... — Ele olhou para o céu, mas Miyavi não desviou seu olhar.
- Principalmente para você. — As três palavras saíram mais ríspidas do que esperava, causando um olhar surpreso no rosto alvo. — Eles me contaram sobre seus... Amores... — Não estava certo quanto a que palavras usar.
- Reita e Ruki... — Um suspiro fraco escapou-lhe. Miyavi cruzou os braços e ficou em silêncio, fitando àquele que tanto o havia rejeitado. — O que você quer que eu diga? — Apoiou-se no parapeito e o encarou.
- Acha que tem alguma coisa para me dizer? — Não gostava de provocar as pessoas. Com qualquer um, em qualquer situação ele seria direto e faria as perguntas que rondavam sua mente, mas ele não estava falando com qualquer um e aquela não era uma situação qualquer.
Permaneceram em silêncio por longos minutos. Kai desviou o olhar e passou a fitar o chão, enquanto Miyavi encarava as estrelas. Ambos estavam perdidos em uma situação totalmente nova para eles, por mais que houvessem pensado e repensado no que aconteceria naquele encontro, nada poderia prepará-los totalmente. Miyavi não esperava saber que Kai tinha se assumido homossexual, e Kai não esperava que Miyavi já soubesse.
- Quando...? — Tentou encontrar as palavras certas uma vez mais. — Quando foi que você se...?
- Quando eu virei gay? — Kai aguardou que Miyavi assentisse. — Eu estava em uma balada e... Um cara chegou em mim. Eu já tinha bebido um pouco e... Eu não sei... Me deixei levar e... — Kai deu de ombros, como se não soubesse definir. Não encarava Miyavi, não tinha forças para tal. — Demorei cerca de dois meses para admitir que eu também gostava de ficar com homens.
- Quanto... Quanto tempo depois que eu me mudei...? — Sua voz estava rouca, e quase pressa na garganta.
- Um mês... Mais ou menos...
- Um mês... — Mordeu o lábio inferior enquanto se aproximava de Kai, que engoliu em seco e o fitou. — Um mês?! — Sentiu um nó se formar em sua garganta. — Eu passei anos buscando uma chance com você... E você passou anos me rejeitando, por que era “hetero”. — Fez as aspas com os dedos. — E um mês depois... — Não conseguiu concluir a frase, um sorriso de desdém se formou em seus lábios. Apoiou-se no parapeito ao lado de Kai, as luzes dos carros na avenida brilhavam em seus olhos, mas ele não os via. Podia sentir algumas lágrimas alcançarem seus olhos, mas as segurou, não se permitiria chorar mais uma vez por Yutaka.
- Não... Não foi intencional Miyavi... Quero dizer... Eu... — As palavras saíam enroladas de sua boca, perdidas em frases não completas.
- Não foi intencional? — Voltou a encará-lo. — O que não foi intencional? Você me rejeitar por anos ou dar para um cara qualquer um mês depois de eu parar de empatar a sua vida? — A dor começava a lhe causar raiva. Observou com satisfação Kai morder o lábio com certa força.
- Eu só não queria estragar a nossa amizade...
- Ah... É? Mas que amizade, Kai? — Postou-se à frente do outro quando ele desviou o rosto. — Que amizade, Kai? — Seus olhares se encontraram uma vez mais e Miyavi viu o receio brilhando nos olhos escuros. — Nós não tínhamos mais amizade alguma. E olha que irônico, foi você quem a destruiu!
- Miyavi...
- Foi você que deixou de falar comigo por causa da merda de um beijo, Kai! E para quê? — Segurou seu rosto, forçando o outro a manter o olhar no seu. — Para um ano e alguns dias depois você foder com um homem! — Riu ironicamente.
- Não foi bem assim Miyavi. — Soltou seu rosto e se afastou.
- Então como foi? — Segurou seu pulso com força. — Me explica Kai, por que eu não consigo entender como eu fui rejeitado durante anos para logo depois você se assumir gay.
Kai manteve a cabeça abaixada, abriu e fechou a boca diversas vezes antes de pronunciar. Queria ter certeza de que as palavras eram as certas e de que sua voz não iria falhar.
- Eu... Eu queria Miyavi. — Fechou os olhos e uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
- Ótimo. Mas eu já sabia que não tinha sido estupro.
- Não... Eu queria... Eu queria você Miyavi. — O aperto em seu braço afrouxou e a mão que o segurava pendeu ao lado do corpo do maior. — Algum tempo depois... Eu quis, mas... Você... A gente não se falava mais e eu... Achei melhor assim. — O silêncio de Miyavi o fez erguer o rosto para fita-lo.
- E você espera que eu acredite nisso?
- É a verdade. — Observou levemente surpreso quando Miyavi começou a rir.
- Você deve me achar muito idiota para esperar que eu caia nessa! — Sua voz se elevou um pouco. — Se isso fosse verdade você não teria ficado aquele ano inteiro sem falar comigo! Não teria namorado aquela garota! E não teria ficado em casa quando embarquei para Londres! — A última frase fora praticamente gritada.
- Eu não sabia como falar... Não sabia o que fazer...
- MENTIRA! — Sentiu sua face esquentar e teve a certeza de que estava vermelho. — Mentira.
Kai não ousou se pronunciar novamente, apenas lhe virou as costas e voltou para o apartamento. Miyavi deixou-se cair sentado, apoiando as costas e a cabeça no parapeito, sentindo as lágrimas traçarem caminhos irregulares em suas faces.
“Mais uma semana havia se passado e mais um fim de semana chegava ao fim e o obrigava a enfrentar sua rotina, e seus problemas. Trouxera um assunto pendente do ano anterior, sem contar o problema que se arranjara na última noite das férias... Caminhava pelo corredor como se fosse a última vez que o faria, olhava para todos os lados e buscava qualquer coisa que o distraísse por meros segundos. Não dormira, não comera... Estava incerto quanto ao que fazer, mas sabia que precisava fazer algo.
Adentrou o quarto e soltou um suspiro aliviado ao perceber que Kai ainda não havia chegado. Ao menos teria um tempo a mais para repensar em suas ações e palavras. Não deveria ter cedido aos seus impulsos, mas era difícil manter-se afastado mesmo quando Kai lhe sorria e abraçava para comemorar algo.
Também não aguentava mais ficar sem falar com ele. O silêncio, a ausência de contato mínimo, o afastamento que um erro seu causou lhe tirava a sanidade. Não querer perder sua amizade. Era importante demais poder continuar chamando o outro de amigo.
Jogou-se na cama, largando a bolsa em um canto qualquer, sem a preocupação de arrumar suas roupas no armário. Suspirou pesadamente enquanto encarava o teto uma vez mais.
- Opa! — Virou a cabeça para encontrar um Uruha sorridente. — Não sabia que já tinha chegado. — Miyavi observou enquanto ele depositava as malas na cama e as abria, separando seus pertences. — Onde posso colocar minhas coisas?
- O... O quê? — Sentou-se e o fitou confuso. — Mas... O Kai... — Viu a expressão serena se transformar em uma séria.
- O Kai pediu para trocar de quarto comigo... Achei que você não iria se importar, e achei que seria o melhor também. — Miyavi assentiu e voltou a se deitar, os olhos novamente encontraram o teto, e os dentes, o lábio inferior. — Vocês precisam de um tempo para assimilar o que aconteceu e...
- Kou... — Não se virou para fitá-lo. — Está tudo bem. Eu não me importo.”
Fechou os olhos e inconscientemente abraçou os joelhos, afundando o rosto entre eles. As palavras doíam em sua alma, e a verdade queimava seu coração. Ainda sentia aquele amor dentro de si, mas já não sabia se queria vivê-lo. Aquele não era o Kai por quem se apaixonara.
- Miyavi... — Sentiu as mãos macias de Uruha puxá-lo, forçando-o a ficar de pé. Não tentou esconder o choro, ao contrário, agarrou-se ao amigo e permitiu que as lágrimas saíssem com mais força e mais freqüentes. — Tudo bem, Meevs... Já passamos por isso uma vez, não? — Sorriu fraternalmente enquanto alisava os fios multicoloridos. Afastou-se do amigo e secou as lágrimas, sentindo raiva de sua fraqueza. Mesmo depois de anos ele ainda conseguia feri-lo, não era justo. — O que aconteceu? — Perguntou depois um tempo relativamente curto em que Miyavi se reestruturava.
- Foi... Rápido demais... — Uruha concordou com a cabeça, não precisava explicar com todas as palavras para que ele o entendesse. — Anos, Uruha! Anos me rastejando por ele para que depois... Para que assim que eu virasse as costas ele ficar com... Outro cara... — As lágrimas insistiam em cair, e Miyavi insistia em secá-las.
- Eu não sei o que foi que ele te disse, mas eu sei como eram esses caras... — Miyavi fitou-o sem entender aonde ele queria chegar. — Todos, Miyavi, todos, desde o primeiro... Todos eles se pareciam com você.
- E daí?
- E daí?! — Uruha riu incrédulo. — E daí que ele passou a te procurar em outras pessoas! — Miyavi soltou um suspiro cansado e cruzou os braços. — Pelo jeito que Ruki e Reita falaram até parece que ele ficava com todos, mas não era assim Meevs.
- Não, claro que não. Ele selecionava os melhores, afinal um “hetero” não pode ficar com qualquer um. — Tentou rir de suas próprias palavras, mas seus lábios se negaram a se curvar.
- Exato. Ele selecionava mesmo os melhores. Só servia os que se parecessem com você, fosse personalidade ou fisicamente. — Observou em silêncio enquanto Miyavi olhava para os lados, visivelmente perdido em seus pensamentos. — Vocês poderiam se dar uma chance agora.
- Tarde demais. — Foram as únicas palavras que conseguiu proferir.
- Não Miyavi. Não é tarde demais. — Fitou o amigo com carinho e sinceridade. — Eu acredito que agora seja o momento certo. — Miyavi permaneceu em silêncio, e Kouyou voltou para dentro do apartamento, deixando-o as sós com seus pensamentos.
“Andava de um lado para o outro no saguão, ansioso para o embarque. Checara a passagem e o passaporte mais de três vezes nos últimos cinco minutos. Toda a sua vida iria mudar dali a meia hora. Bastava adentrar o avião e aguardar o desembarque na cidade inglesa. Tudo seria deixado para trás, tudo seria esquecido, a menos que...
Seus olhos se voltaram para o portão de embarque e depois para seus amigos, que o fitavam orgulhosos e tristes. O próprio Miyavi não sabia o que estava sentindo. Naquele momento apenas seguia a linha tênue de seu destino.
- Calma Miyavi. — Reita o segurou pelos braços. — Eu sei que você está louco para se livrar de nós, mas relaxa! Falta pouco agora.
- Baka! Você sabe que não é isso. — Soltou-se do amigo e se virou para os outros. — É só que... Caramba gente, eu vou para Londres! — Ergueu os braços, demonstrando uma animação que não sentia realmente. — A minha vida inteira vai mudar! De cabeça para baixo!
- Literalmente... - Aoi falou como se fosse a maior revelação do universo, causando um ataque de riso entre os amigos.
Todos pareciam dispostos a fazer com o maior relaxasse um pouco, e se empenharam em fazer brincadeiras e contar piadas até que o embarque fosse permitido. Miyavi ainda demorou a se despedir de todos e caminhar até o portão, seus passos foram vacilantes e relutantes. Uma nova vida se iniciaria naquele momento. Voltou-se para trás de novo, vendo os amigos e mais além. Observou por alguns instantes as pessoas que surgiam nas escadas rolantes, nenhuma que ele conhecia.
Acenou novamente para os amigos e embarcou. Sentia seu coração pesar uma tonelada em seu peito e a garganta fechar pela frustração. Agora não havia volta. A única pessoa capaz de lhe fazer desistir daquilo tudo sequer fora se despedir. A última lembrança que tinha com Kai era um beijo roubado e xingamentos.”
Miyavi voltou para sala e fitou Kai conversando animadamente com os outros, não demonstrava nem por um segundo que eles haviam discutido. Era uma de suas características; seus problemas eram apenas seus.
Manteve-se em silêncio, apenas ouvindo a conversa e analisando cada gesto de Yutaka. Parecia tão igual à antes, quando eles dividiam o dormitório e os outros quatro iam até lá, para passarem a noite conversando. Ele ainda ria das piadas pornográficas de Ruki, se irritava com a lerdeza de Aoi, e fazia comentários sobre as coxas roliças de Uruha. Mas ainda tinha diferenças.
Eles não eram mais amigos. Miyavi era incapaz de afirmar que eles conseguiriam conversar pacificamente, sem que mágoas viessem à tona e lágrimas ameacem cair. Eles precisariam se conhecer novamente para saber se conseguiriam ser amigos, ou algo a mais. Mas Kai precisava partilhar da mesma opinião. Ele sozinho não conseguiria cobrir a distância que havia se instalado entre eles.
- Miyavi? Hey Miyavi! — Acordou de seus devaneios ao ver os dedos de Ruki estalarem à sua frente. — Porra, tá dormindo sentado!? — Coçou a cabeça e deixou que outro sorriso surgisse em seus lábios enquanto o menor ria gostosamente.
- Vai dormir na cama. — Reita indicou o pequeno corredor que levava aos quartos. — Não é só porque ainda estamos aqui que você tem que ficar acordado conosco. — Seu olhar era calmo e terno, como sempre era quando alguém tinha uma pequena atitude infantil. Miyavi sempre achou que ele daria um ótimo pai. — Agora que você voltou temos todo o tempo do mundo para conversarmos.
Miyavi sorriu calmamente, mas se negou a ir para cama. Não queria dormir sem antes conversar uma vez mais com Kai, mesmo que no final eles acabassem discutindo. Sabia que seu corpo precisava de descanso, mas sua mente se negava a deixar de pensar no moreno à sua frente, sabia que se deitasse demoraria a pegar no sono. Precisava resolver aquela situação.
Sem saber ao certo o que fazer se levantou e foi à cozinha, servindo-se mais uma vez de água. Não estava com sede, só precisava pensar no que fazer, como fazer e quando fazer. Fechou os olhos por um momento, buscando a calma que desde que cedera a sua vontade não tinha mais ao estar próximo de Yutaka. Quando voltou a abrir os olhos Kai estava à sua frente, observando-o.
Ficaram em silêncio por alguns minutos, estudando-se. Não tiveram o reencontro que esperavam, nem a conversa que planejaram.
- Eu... Só... — Kai começou a falar vacilante, olhando para as paredes ao lado. Soltou um suspiro cansado e voltou seu olhar para Miyavi novamente. — Eu só queria te pedir perdão.
- Perdão? — Sua voz saiu rouca, como se tivesse ficado sem falar por horas.
- É. Por tudo o que eu te disse, e fiz, quando estávamos no colégio. — Fez uma pausa, aguardando que Miyavi dissesse algo. — Eu... Me arrependo muito de tudo isso... Principalmente depois que... Depois que eu fiquei com aquele rapaz... — Desviou o olhar uma vez mais, parecia extremamente difícil manter o contato visual.
- O Uruha disse que todos se pareciam comigo. — Percebeu Kai prender a respiração ligeiramente, ainda sem encará-lo. — É verdade? — Observava cada reação mínima no outro, e sorriu internamente ao perceber que ainda sabia decifrá-las, e quando ele mordeu o canto do lábio e olhou para baixo Miyavi soube a resposta. — Kai... — Aproximou-se um pouco do outro e o fez fita-lo. — A gente passou muito tempo sem se falar, mas... Não sei... Acho que ainda podemos ser amigos.
- Você me perdoa? — Ficou em silêncio, sem saber o que lhe responder. — Miyavi, eu preciso saber se você ainda tem ressentimentos por mim. Aliás, é óbvio que você tem, mas eu quero... Eu quero desmanchar isso. Eu quero que a gente volte a ser amigos, como éramos naquela época.
- Eu te perdoo, mas te peço uma coisa. — Os olhos castanhos brilhavam intensamente. — Promete nunca mais fazer isso? — Viu-o entreabrir os lábios para questioná-lo. — Promete nunca mais me afirmar uma coisa e fazer o contrário depois? — Kai sorriu e abaixou a cabeça.
- Eu prometo.
Miyavi sorriu, aliviado por saber que agora tinha seu amigo de volta. Puxou-o para um abraço apertado, um abraço que desejara dar-lhe desde que haviam brigado há anos.
O Japão realmente tinha uma nova cor para ele. Tinha um cinza-claro do passado, o branco do futuro e o vermelho de uma promessa³. A promessa de serem sempre amigos, acima de tudo. E com isso ele teve a certeza de que nunca é tarde para reconquistar uma amizade, nunca é tarde para compartilhar vivências e experiências. Simplesmente nunca é nunca.
Notas finais
²Não consegui pensar em outra pessoa. Ok, até pensei na Xuxa, mas ela nunca pintou o cabelo de outra cor, não que eu saiba.
³Eu que atribui essas cores, não quer dizer que elas signifiquem algo realmente.
Espero que tenham gostado.
É a maior oneshot que já escrevi. o/
Opiniões são bem vindas, mas não obrigatórias.
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