Neve na Praia
1 Capítulo Único: E está tudo bem fingir até você conseguir.
23 de dezembro, dois dias antes do Natal
Bella
— Veio passar o Natal em casa? — a senhorinha, minha vizinha de assento e que passara boa parte do voo lendo uma revista sobre tricô, perguntou com um sorriso simpático repleto de ruguinhas de expressão.
— De certa forma, sim — respondi, pensando em meu pequeno grupo de melhores amigos que já deveriam estar reunidos em Forks àquela altura.
Desde que eu conhecera Alice Cullen e Rosalie Hale ao dividirmos o mesmo dormitório no primeiro ano de faculdade, nós três havíamos nos tornamos amigas quase que instantaneamente. O que era um pouco engraçado engraçado, afinal, boa parte do alojamento acreditava que nosso laço não duraria mais do que dois períodos devido às diferenças gritantes entre nós: Alice, com seus traços de fada, sua personalidade esfuziante e seu sonho glamoroso de se tornar uma design de moda; Rosalie, dona de um temperamento gélido e uma aparência intimidadora, ambos em sintonia perfeita com a carreira de advogada que estava trilhando; e eu, Bella, absurdamente tímida em comparação às duas e que só almejava concluir o curso de Letras para conseguir me dedicar em tempo integral à escrita.
Nós tínhamos tudo para dar errado, mas, por razões que apenas as estrelas seriam capazes de explicar, nós nos tornamos inseparáveis desde o primeiro porre que tomamos juntas — quando eu segurara o cabelo dourado de Rosalie, impedindo-a de enfiar completamente a cabeça dentro do vaso sanitário para vomitar, e Alice gargalhava no chão do banheiro ainda agarrada à garrafa de tequila barata que havíamos contrabandeado e que cheirava a álcool de posto de gasolina, ali havia se forjado a nossa ligação: entre a cortina de plástico laranja-néon do banheiro e o piso de azulejos encardidos.
Desde aquele primeiro momento, as duas haviam se tornado minhas melhores amigas e eu sabia que faria de tudo por elas. Inclusive, manter a nossa pequena tradição de final de ano que consistia em nos reunirmos na Pousada Candlelight, da família de Alice, localizada na Terceira Praia de La Push, para o Natal e o Ano Novo. Até porque, aquela fora a única tradição que eu havia feito e seguido à risca em toda minha vida — afinal, com minha mãe, Renée, mudando-se de cidade em cidade em busca de um novo namorado e meu pai, Charlie, sem saber ao certo o que fazer comigo, pouco havia sobrado para que eu pudesse juntar os pedaços. Logo, aquela pequena tradição com minhas amigas era muito importante e eu sempre havia feito de tudo para não quebrá-la. Isso, claro, até aquele ano.
Afinal, em algum lugar do ano de 2024, eu havia me perdido.
Depois do sucesso do meu livro de estreia, há três anos atrás, uma editora havia me oferecido um contrato para a publicação de uma trilogia. Todos eles seriam romances ambientados em uma cidade pequena com referências aos livros de Jane Austen. O primeiro havia sido bem recebido pelo público e contava a história de um casal de amigos que, aos poucos, se dão conta de que sempre haviam sido apaixonados um pelo outro — as referências à Emma haviam sido consideradas um bônus. O segundo, por sua vez, levara meus leitores à loucura com um casal de rivais acadêmicos, uma professora de literatura e um professor de matemática, com a tensão entre eles prestes a estourar às vésperas de uma festival escolar — com citações de Orgulho e Preconceito muito bem selecionadas. Já o terceiro… Bem, naquele ano eu já havia pedido para estenderem o prazo duas vezes e, quando enfim entreguei o manuscrito, ele foi rejeitado pela minha editora. Não que ele não fosse bom, ele só não era feliz. E eu precisava consertar aquilo, pois, como Jessica Stanley, minha agente, havia dito: “É só o final, Bella, você consegue”. Mas eu não conseguia. A minha capacidade para escrever finais felizes se fora. Ou pior: ela havia sido roubada. Edward Cullen a roubara quando quebrara o meu coração naquele início de julho.
E lá estava eu: enfiada em um assento pequeno de um voo comercial que arranjei de última hora rumo à pousada que antes era o meu lugar feliz. E é claro que ele estaria lá, o lugar era da família dele, afinal. Mas as coisas jamais seriam como antes e aquele estaria longe de ser o meu lugar feliz, pois Edward estaria lá e tudo havia terminado de uma maneira ruim entre a gente. Afinal, após semanas sem conversarmos direito, eu resolvera aparecer à porta do apartamento dele para conversarmos. E, quando Edward havia se limitado a ficar reticente, eu peguei a minha bolsa e saí correndo, embarcando no primeiro avião que consegui encontrar — abençoadas sejam as milhas aéreas da minha mãe!
Edward Cullen: Vou te buscar no aeroporto, precisamos conversar antes do jantar.
Merda.
A notificação da mensagem fez com que a tela do meu celular se acendesse e, por alguns instantes, eu me amaldiçoei por ter pago o pacote de internet do voo para o caso de precisar falar com Jessica. Agora teria o restante da viagem para remoer o eminente e muito provavelmente constrangedor encontro com Edward no aeroporto. Olhei para o lado e a senhorinha já havia voltado para a sua revista de tricô, achando que não arrancaria mais nada de mim depois que me perdi em meus devaneios. Suspirei resignada e desbloqueei o aparelho para responder.
Isabella Swan: Nós contamos a eles quando chegarmos, sem muitos detalhes, e pronto. Eu não quero estragar o feriado de ninguém, Edward.
Sim, eu estava tentando bancar a durona. E, sim, havia também aquele pequeno detalhe: ninguém sabia que eu e Edward havíamos terminado. Como nós não conseguíamos reunir o nosso pequeno grupo como antigamente, e queríamos evitar contar por uma ligação ou mensagem texto, acabamos protelando e agora o Natal batia à nossa porta.
Edward Cullen: Que horas o seu voo chega?
Isabella Swan: Oito horas.
Edward Cullen: Estarei lá.
E eu não tinha certeza se aquilo era uma promessa ou uma ameaça. Em se tratando de Edward Cullen, talvez fosse um pouco dos dois.
❆
23 de dezembro, dois dias antes do Natal
Edward
Encostei-me contra o capô do meu volvo prateado e consultei, novamente, o meu relógio de pulso: 19:30. Em meia hora, eu veria Isabella Swan pela primeira vez após o nosso término. Após seis longos meses. E o meu maldito orgulho era a única coisa que ainda me segurava naquele maldito aeroporto. Como as coisas haviam acabado tão mal entre a gente? Aliás, como as coisas haviam acabado? Não, eu não iria entrar naquele ciclo vicioso novamente,pensei amargurado, passando a mão pelo meu cabelo já previamente bagunçados por aquele tique. Mas eu não conseguia evitar:aquela era a pergunta para a qual não me surgia resposta alguma desde aquele maldito julho.
Eu e Bella sempre havíamos nos dado bem. Desde a primeira vez que Alice, minha irmã caçula, aparecera para o Natal com ela e Rosalie a tiracolo, ambas haviam sido recebidas em nossa família como se fossem velhas conhecidas. Emmett, meu irmão mais velho, mal havia colocado os olhos nas recém-chegadas e já anunciara que Rose seria sua futura esposa. E, como Emmett fazia aquele tipo de declaração a cada dois meses, não me importei com aquilo. Até porque, o meu interesse não estava na loira de cara fechada e eu também sabia que Alice faria um escândalo se chegássemos perto de suas amigas. E, ainda assim, Isabella havia me fascinado: ela era bonita, isso era claro, dos cachos cor-de-chocolate que emolduravam seu rosto em formato de coração aos olhos incrivelmente castanhos e inteligentes que se escondiam sob as lentes de seus óculos. Do sorriso discreto em seus lábios à forma com a qual o seu perfume de morango parecia exalar por todo o saguão da pousada. Aquele conjunto de pequenas coisas que era Bella me atraiu quase que imediatamente. E, quando ela estendeu a mão timidamente para me cumprimentar, eu pude notar ainda a delicada tatuagem na parte interna de seu pulso: três flocos de neve desenhados habilmente em sua pele pálida. Durante quatro longos anos, eu pensaria nela como se ela fosse um daqueles flocos de neve: bela, sazonal e única.
E, por quatro Natais consecutivos, eu não faria nada a respeito daquela atração. Não depois do escândalo que Alice armara ao pegar Rosalie e Emmett se agarrando sob um visgo na varanda. Por um tempo, minha irmã ficara chateada, pois Rose era sua amiga e ela não queria que Emmett a tratasse como havia tratado todos os seus relacionamentos anteriores: como meros “casinhos”. Mas, daquela vez, só de olhar para o meu irmão, eu sabia que seria diferente. E, de fato, os dois conseguiram fazer funcionar um relacionamento à distância até que Rosalie ingressasse na faculdade de Direito em Seattle e Emmett conseguisse inaugurar sua academia de luta a algumas quadras do prédio no qual os dois haviam comprado um apartamento. O sucesso do relacionamento deles havia me enchido de esperança em relação à Bella e, àquela altura, nós dois já havíamos nos tornado amigos. Afinal, sempre acabávamos juntos nas festas de final de ano, pois Emmett tinha Rosalie e Alice tinha Jasper — o irmão mais velho de Rose que se juntou à nossa comemoração na pousada um Natal depois da grande briga de Alice e Emmett.
De início, achei que Alice estava apenas se vingando do que os dois haviam aprontado no ano anterior, mas minha irmã se enlaçou a Jasper como se, desde sempre, estivesse esperando pelo momento em que o encontraria. O irmão de Rosalie, por sua vez, encarava Alice — que ajudava minha mãe atrás do balcão da recepção, na primeira vez em que eles se encontraram — como se tivesse sido atingido por um caminhão em alta velocidade. Era ridículo, mas eu conseguia ver: ele perdera o chão e o encontrara novamente ao colocar os olhos em Alice. E, então, os dois não perderam tempo: assim que minha irmã se mudou para Nova York ao transferir seu curso de Design de Moda para a NYU, Jasper — que era mestrando em Psicologia — mudou-se junto dela e, por lá, fez um consultório para si.
Logo, restava apenas eu e Bella. Nós passávamos o ano trocando mensagens e, quando nos encontrávamos na pousada, ela ainda queria passar mais tempo comigo. Bella me mandava os rascunhos no primeiro livro em que estava trabalhando e eu, que havia acabado de finalizar a minha graduação em Artes, enviava para ela os esboços de algumas telas ou algum rabisco ou outro que ela poderia achar engraçado. Tínhamos uma relação confortável e, ainda assim, eu queria mais — e desconfiava que Bella, talvez, pudesse sentir o mesmo. Fiquei naquele impasse até dois Natais atrás, quando acabamos trancados no farol desativado anexo à pousada.
[Início do Flashback]
— Não esquece o calço da porta — falei por cima do ombro, entrando primeiro no farol a fim de acender as luzes internas para que ela não tropeçasse nos degraus.
Eu havia alugado um apartamento em Forks e passado boa parte daquele ano na pousada com os meus pais, ajudando com a reforma do farol empreendida por Carlisle — enquanto continuava a me dedicar à pintura nas horas vagas. Esme ainda não sabia o que queria fazer ali: um café, separado do restaurante principal, uma biblioteca ou até uma espécie de museu com a história da família Cullen, da pousada e, claro, do farol. Enquanto ela decidia, eu passava horas pintando, martelando e lixando com meu pai — e com Emmett que passou boa parte do ano indo e vindo de Seattle. Então, por mais que o lugar ainda estivesse vazio, eu mal havia conseguido esperar para mostrar à Bella o resultado de todas as fotos “de obra” que enviava semanalmente e, além disso, havia preparado uma pequena surpresa para ela. Assim, enquanto os outros ainda se instalavam em seus respectivos quartos, chamei-a para uma caminhada até o farol.
— Edward, está incrível! — ela exclamou, girando na ponta dos pés a fim de ter uma visão panorâmica do local.
Eu ri, admirando a empolgação visível em seus olhos.
— Mas aqui embaixo não tem nada para ver, Bella — eu falei, parado junto à base da escada de madeira.
— Claro que tem! Vocês tiraram aqueles móveis quebrados daqui e as teias de aranha! E as escadas estão consertadas! — ela falou, gesticulando ao redor. — Eu tinha medo de entrar aqui antes!
— Tinha medo das aranhas, srta. Swan?
— Aranhas? — ela falou incrédula, torcendo ligeiramente o nariz. — Esse era o lugar perfeito para abrigar o espírito do capitão de algum navio naufragado — Bella contou muito séria e, novamente, eu me vi dando risada.
— Prometo que, por hora, os nossos espíritos tiraram uma folga — garanti, piscando de leve para ela. — Pronta para subir?
— Você quer ir lá em cima? — a pergunta soou abafada e eu pude notar que seus dentes pressionavam de leve o lábio inferior, um tique típico de Bella quando estava nervosa.
— As escadas foram reformadas, Bella, não tem perigo.
— Mas… E-eu acho que talvez seja um pouco alto e, em geral, eu não me dou muito bem com altura… — ela disse com um sorriso amarelo, dando um passo para trás.
Droga, não havia sido aquilo que eu planejara.
— Eu vou estar logo atrás de você — afirmei, entrelaçando os nossos dedos e olhando diretamente em seu olhar cor-de-chocolate. E Bella, apesar de ter ficado visivelmente corada com o meu gesto, não fez menção de se desvencilhar. — Acho que você vai gostar da vista, mas se realmente não quiser ir…
— Tudo bem — ela disse de súbito, interrompendo o meu apelo. — Mas se eu tropeçar…
— Eu vou te segurar.
E, assim, nós subimos os infindáveis lances de escada até o topo, a mão de Bella agarrada firmemente à minha durante o processo com sua pele queimando incandescente naquele ponto de contato entre nós. Assim que chegamos ao patamar do mirante, um lance de escada abaixo da antiga lanterna, pude ouvir um arquejo de surpresa vindo dela com a visão do local que eu passara o dia arrumando: no centro, havia um grande tapete macio de Esme rodeado por diversas almofadas coloridas, e, próximo às vidraças repletas de fios de luzes douradas, havia uma pequena árvore de Natal decorada com bolas brilhantes e outros enfeites de madeira que eu havia pintado à mão.
— Edward… É… Lindo! — ela falou maravilhada e em seus olhos castanhos se refletiam o brilho de todas as luzinhas douradas penduradas junto às paredes de vidro.
— Você gostou? — o sorriso em meu rosto espelhava o dela e algo se aqueceu em meu peito quando Bella tocou com as pontas dos dedos um adorno em formato de floco de neve.
— É perfeito! — ela exclamou, voltando-se em minha direção. — Já posso ver pedidos de casamento acontecendo aqui em cima! Ou ainda casais se apaixonando à luz das estrelas com essa vista incrível da praia!
Eu sorri, assentindo, e retirei da árvore aquele delicado floco de neve, girando-o em minhas mãos.
— Que bom que gostou, é para você — e pude notar a surpresa em seu olhar diante da intensidade presente no meu.
— O enfeite?
— Tudo, Bella — e eu encurtei a distância entre nós, sendo arrebatado, quase que de imediato, pelo suave aroma de morangos que exalava dos seus cabelos e que fazia com que o ritmo do meu coração se acelerasse descompassadamente. — Tudo é para você, Isabella Swan. Desde aquele primeiro ano em que você veio com a Alice, eu quis que você gostasse da pousada. Emmett e Rosalie dificultaram um pouco as coisas e eu torci para que você voltasse. Você voltou. No ano seguinte, Alice e Jasper me atropelaram e eu não quis tumultuar as coisas. Esperei e, para a minha sorte, você voltou — passei a mão nervosamente pelos cabelos, lançando-lhe um sorriso torto. — Acho que o que eu estou tentando dizer, Bella, é que já esperei demais para dizer que, desde aquele primeiro Natal, você é a única coisa pela qual eu passo o ano todo esperando. E eu esperaria mais se fosse necessário, mas…
E Bella me interrompeu, eliminando por completo a pouca distância que havia ao unir nossos lábios. Sua boca tinha gosto de biscoitos de gengibre e pude sentir que ela sorria em meio ao beijo enquanto todas aquelas luzes de Natal pareciam girar ao nosso redor.
— Achei melhor me adiantar antes que você escolhesse esperar mais, Edward — ela riu, afastando-se apenas o suficiente para descansar a cabeça na curva do meu pescoço.
E, ao fundo, a neve, enfim, caia sobre a praia enquanto eu, finalmente, tinha Isabella Swan em meus braços. Mágica, extraordinária e única — como neve na praia.
[Fim do Flashback]
No final das contas, Bella havia esquecido de colocar o calço na porta e nós passamos a noite trancados no farol. Saímos somente pela manhã, quando Carlisle nos resgatou, com Esme dizendo aos quatro ventos que a pousada era mágica, pois havia encontrado alguém para cada um de seus filhos. E, assim, nós passamos dois anos juntos. Dois anos mágicos, extraordinários e únicos. Eu ia e vinha de Seattle, onde Bella tinha um apartamento e dava aulas de escrita criativa no curso de Letras da Universidade de Seattle enquanto trabalhava nos demais livros do contrato que assinara com a sua editora. E Bella ia e vinha de Forks, onde eu ajudava meus pais com a administração da pousada e continuava a produzir minhas telas e ilustrações. E tudo seguia bem até o acidente.
— Edward? — a voz de Isabella Swan me despertou dos meus devaneios e, quando vi, lá estava ela: a habitual calça jeans rasgada nos joelhos, os cabelos serpenteando livres e bagunçados por seus ombros e os óculos de armação quadrada empoleirados na ponta de seu nariz delicado. As mangas de sua blusa de botões estavam enroladas e, de imediato, os meus olhos foram atraídos para a familiar tatuagem de flocos de neve em seu pulso. Incrivelmente bela e única… Mágica.Seis meses haviam se passado e eu ainda a amava.
— Bella! Seu voo adiantou? — quis me aproximar para abraçá-la, mas, no último instante, acabei apanhando a sua mala.
Senti um aperto no peito quando ela se afastou, mas, provavelmente, aquela seria a melhor abordagem, pois o perfume de morango que sempre parecia estar ao seu redor já começava a afetar os meus sentidos.
— Adiantou. Achei melhor te encontrar aqui do que esperar no portão de desembarque — ela deu a volta no carro e entrou pela porta do carona, o desconforto era palpável em cada traço do seu rosto.
— Como foi a sua viagem? — perguntei depois de guardar a bagagem dela e me acomodar atrás do volante.
Aquela maldita conversa fiada estava me matando.
— Na verdade…
E nossos celulares apitaram ao mesmo tempo, interrompendo-a.
Rosalie Hale: Vocês estão vindo? Eu e Emmett temos uma novidade para contar!
— Mas o que será…? — Bella murmurou mais para si mesma do que para mim, franzindo o cenho para a tela do seu aparelho.
— Ah, Emmett provavelmente a pediu em casamento — falei com um dar de ombros despreocupado.
— O quê? — ela voltou o rosto para mim, os olhos arregalados.
— Hm…Sim? Eu vi a caixa do anel no porta-luvas do Jeep dele — expliquei, confuso com a reação surpresa dela.
Afinal, era um tanto quanto óbvio que Emmett e Rosalie se casariam em breve, eles já namoravam há seis anos e moravam juntos há, pelo menos, metade daquele tempo.
— Edward… — ela murmurou enquanto eu dava a partida no carro.
— Sim?
Eu estava achando toda aquela reação de Bella esquisita, pois imaginei que ela ficaria feliz por eles.
— Nós não podemos contar nada — ela decretou.
Pisei com força no pedal do freio e o carro morreu.
❆
23 de dezembro, dois dias antes do Natal
Bella
Aquele era, sem dúvida alguma, o pior cenário possível para o meu coração quebrado. E, enquanto Edward percorria o curto caminho do aeroporto à pousada em alta velocidade, a minha mente trabalhava em maneiras de me livrar daquela situação. Mas, agora, eu não conseguia enxergar uma alternativa. Se contássemos a eles sobre o término antes do grande anúncio de Rosalie e Emmett, haveria muitas perguntas — sendo que eu mesma não tinha resposta para metade delas — e, conhecendo minha amiga, ela até poderia cogitar não anunciar nada a fim de nos poupar. E, caso contássemos depois, a notícia provavelmente ofuscaria o noivado e estragaria o clima festivo de todos.
E era aquilo que eu repetia mentalmente a mim mesma depois que sugeri a Edward que nós fingíssemos estar juntos até depois do Ano Novo. Minha cabeça estava em um ciclo vicioso entre surtar devido àquela ideia e tentar me habituar com a presença massiva de Edward Cullen após seis meses longe dele.
— Bella, você tem certeza que quer fazer isso? — ele perguntou, quebrando o silêncio, e a expressão de preocupação mal-contida em seu rosto me irritou.
Aquela empatia estava alguns meses atrasada.
— Qual o problema, Edward? Você não consegue suportar uma semana fingindo que ainda é meu namorado? — e eu odiei o tom defensivo que pude notar em minha voz.
— Você sabe que não foi isso que eu quis dizer, Bella — ele disse entredentes e eu pude notar a força com a qual suas mãos se agarravam ao volante. — Só não quero fazer nada que vá te machucar.
— É meio tarde para isso agora — rebati, dando a questão como finalizada e algo parecido com mágoa cruzou a sua expressão, embora eu não pudesse ter certeza com os óculos escuros que ocultavam os seus olhos
— Depois do Ano Novo? — a desistência era clara em sua voz.
— Depois do Ano Novo.
Edward assentiu e caímos novamente em um silêncio desconfortável, completamente diferente de todos os silêncios que eu já havia passado ao lado dele enquanto estávamos juntos. Era constrangedor, repleto de coisas não ditas e sentimentos sufocados.
Como se já não fosse ruim o suficiente estar na bolha que era o carro de Edward com seu perfume amadeirado, seu porta-CDs jogado no banco de trás e a fitinha vermelha que eu havia amarrado no espelho retrovisor interno.
— Você precisa colocar isso de volta, então — ele estendeu a mão enquanto falava e abriu o porta-luvas à minha frente, tirando de lá uma caixinha preta.
Quando a abri, o meu coração em pedaços se remendou apenas o suficiente para que pudesse se partir novamente: o bracelete prateado com um delicado pingente de coração que Edward me dera em nosso primeiro aniversário. O mesmo que eu havia arremessado pela janela em julho.
— Obrigada — falei, fechando a caixa como se, assim, o conteúdo dela não pudesse me machucar.
— E como isso vai funcionar? Nós vamos nos tocar? — ele perguntou de repente.
Aquela iria entrar, e em primeiro lugar, para a lista de piores ideias que eu teria em toda a minha vida.
— Bom… Sim?
— Sim?
— Mas só na frente dos outros.
— E nos beijar? — ele perguntou e parecia estar se divertindo um pouco com as minhas respostas evasivas.
Sim, eu definitivamente não havia pensado em cada detalhe daquele plano.
— Você quer um livro de regras?
— Seria bom.
— Edward, é só a gente agir como sempre. Sem pressão —falei, tentando desesperadamente parecer relaxada a fim de esconder o meu pânico crescente com aquele arranjo.
— Sem pressão, claro — ele ecoou, rindo ligeiramente sarcástico.
— Isso, vamos só relaxar — ignorei o seu sarcasmo, notando a pousada se agigantar à nossa frente junto do farol no qual havíamos nos beijado pela primeira vez.
— Relaxar — ele repetiu, tocando de leve a minha perna com sua mão livre enquanto estacionava.
O toque pareceu enviar uma quantidade absurda de alertas para o meu cérebro e, ainda assim, não consegui evitar que meu estômago se afundasse quando ele se afastou.
Aparentemente, eu não iria relaxar.
❆
— Bella! — Alice gritou animada, envolvendo-me em um abraço incrivelmente apertado para alguém do tamanho dela — Finalmente! Achei que você e Edward haviam resolvido fazer outra viagem sem a gente!
— Não que ela não fosse capaz de ir atrás de vocês… — Rosalie comentou, envolvendo-me em seguida em uma névoa de perfume floral e, de imediato, o meu olhar foi atraído para o gigantesco anel em sua mão direita.
— Rose! — exclamei animada, apanhando sua mão entre as minhas ao passo que minha amiga — que já era absurdamente estonteante — parecia brilhar.
— Nós íamos esperar vocês, mas não achei que meu irmão fofoqueiro aguentaria manter a boca gigantesca dele fechada — Emmett se desculpou com um sorriso enorme, envolvendo tanto eu quanto Rose em um de seus abraços de urso.
— Mas nós guardamos um pouco de espumante para vocês — Jasper se aproximou, entregando uma taça para mim e outra para Edward enquanto Esme vinha da cozinha empurrando a cadeira de rodas de Carlisle que exibia uma expressão de pura alegria em seu rosto.
E a tensão acumulada em meus ombros, devido à situação no carro, pareceu se atenuar por alguns instantes, pois eu não via o patriarca dos Cullen sorrir daquela forma desde o acidente que havia sofrido no início do ano ao cair do farol enquanto fazia alguns reparos na murada do topo.
O fingimento com Edward precisava funcionar, aquele final de ano precisava ser perfeito para todos.
— O quarto de vocês já está arrumado, meu bem — Esme anunciou, entregando-me uma chave enquanto beijava com carinho a minha bochecha.
— O quarto? — perguntei, sentindo o pânico borbulhar na boca do meu estômago.
— Vamos deixar você e Edward se acomodarem antes do jantar — e o tom de voz de Carlisle era incrivelmente calmo em contraste com o meu.
Eu assenti lentamente, sorvendo quase metade do conteúdo da taça em minhas mãos em um único gole, pois definitivamente não havia pensado em todos os detalhes daquele plano.
❆
23 de dezembro, algumas horas mais tarde
Bella
Parei diante da porta com a enorme placa dourada que continha o número “21” e encarei os entalhes em padrão floral na madeira, um dos detalhes reconfortantes da Pousada Candlelight e que faziam com que ela fosse incrivelmente semelhante à Dragonfly Inn, advinda do meu seriado favorito.
Edward já deveria estar no quarto e a culpa era inteiramente minha, pois, após uma não-tão breve discussão antes do jantar, eu informei a ele que seria ridículo se ele fosse para o apartamento que tinha em Forks ao invés de passar a noite na pousada. O ponto daquelas viagens era que todos deveríamos ficar juntos no Natal. Além do que, seria incrivelmente suspeito caso Edward e eu não dividíssemos um quarto como fazíamos desde aquela noite no farol. Então, foi decidido: ele ficaria. Comigo.
— Hey — ele chamou quando abri a porta do quarto e eu parei por alguns segundos junto ao batente, absorvendo lentamente a cena com a qual me deparei.
Edward claramente havia tomado banho, pois trocara a roupa do jantar e agora estava com uma calça de pijama de flanela e uma blusa desbotada da universidade, seus cabelos cor-de-cobre, ainda úmidos, estavam ligeiramente bagunçados e eu sabia que, se me aproximasse, sentiria o cheiro familiar de algodão do sabonete que ele usava. Ele ocupava uma pequena poltrona verde-musgo próxima às portas-duplas da varanda com vista para o farol e digitava furiosamente em um notebook aberto em seu colo.
— Trabalhando? — perguntei, fechando a porta atrás de mim e me aproximando da minha mala vermelha que ele deixara aos pés da enorme cama de casal no centro do quarto.
— Quero acabar essa última planilha de despesas antes que ela acabe comigo — ele respondeu sem tirar os olhos da tela que emitia um leve brilho azulado em seu rosto recém-barbeado.
Eu estremi e desviei rapidamente a minha atenção dele, pois aquele era o meu tipo preferido de Edward: de banho recém-tomado com o cabelo ainda molhado, o leve aroma de roupa limpa com um toque de loção pós-barba em seu maxilar. O Excel era uma mudança curiosa em relação às manchas de tintas costumeiras em seus dedos, mas lembro que Alice havia me contado que Edward fora uma criança prodígio e que havia ganhado um concurso nacional de matemática no ensino médio, então aquilo não deveria ser tão difícil para ele como obviamente seria para mim.
— Bem… Não serei eu a ficar entre vocês dois — anunciei, levando o meu pijama e a necessaire para o banheiro a fim de fugir daquela visão dolorosamente familiar de Edward confortável após um longo dia de trabalho.
Depois do banho, sequei os cabelos com a toalha e vesti o pijama que consistia em um shorts de flanela e uma camiseta velha de Edward com o capacete do Darth Vader desbotado sobre um fundo quase sem estrelas. Eu sequer havia percebido que havia separado aquilo ao arrumar a mala. Quando saí do banheiro, o rosto de Edward se ergueu imediatamente da tela do computador e, por alguns instantes, seus olhos insondáveis me analisaram intensamente e, antes que ele voltasse à planilha, um sorriso enviesado surgiu em seus lábios quando notou a camiseta que eu usava.
Durante uma hora, permanecemos em um silêncio confortável que me remetia aos velhos tempos entre o meu apartamento em Seattle e o apartamento dele em Forks: eu deitada com um livro entre as cobertas e Edward entretido em algum esboço em seu sketchbook — embora, daquela vez, o quietude do quarto fosse quebrada pelo ruído leve de seus dedos batendo contra o teclado.
Quando ele abaixou a tela do notebook, desviei os olhos do livro e acompanhei seus movimentos com minha visão periférica. Borboletas rodopiavam em meu estômago diante da expectativa de estar na mesma cama que Edward após seis meses e eu não conseguia evitar a ansiedade que começava a se apoderar do ritmo de meu coração: eu havia sentido falta daquilo.
Contudo, para a minha surpresa, ele guardou o computador em uma pasta e se aproximou da cama apenas o suficiente para alcançar um dos travesseiros e voltar à sua posição na poltrona junto às vidraças.
— O que você está fazendo? — questionei confusa quando ele puxou uma manta azul-marinho sobre as pernas.
— Estou me arrumando para dormir? — ele devolveu em tom de pergunta, arqueando uma sobrancelha como se a minha pergunta fosse idiota.
— Você não vai dormir na cama? — perguntei provavelmente mais chocada e decepcionada do que eu deveria ter deixado transparecer.
— Eu não achei que você me quisesse na cama, Bella — ele falou sério, embora a covinha em sua bochecha denunciasse que estava lutando contra um sorriso.
As minhas bochechas queimaram diante daquelas palavras e, ainda assim, eu acabei por balançar a cabeça teimosamente.
— E você vai me fazer sentir mal ao dormir em uma poltrona ridiculamente minúscula para o seu tamanho e obviamente desconfortável enquanto eu me espalho nessa cama gigante?
— Você pode dormir encolhida se quiser — ele disse e agora ria abertamente.
— Eu não vou pedir para você dormir comigo, Edward, mas pare de ser idiota e saia daí — exclamei irritada, virando de costas para ele e puxando a coberta sobre a cabeça.
Escutei Edward suspirar e, após alguns instantes, o cheiro reconfortante de seu sabonete invadiu o meu espaço pessoal quando ele afundou no colchão macio ao meu lado e apagou o abajur que eu deixara aceso.
— Melhor? — ele sussurrou no escuro e, por alguns segundos, pousou a mão delicadamente em minha cintura, seus dedos deixando uma marca fantasma para trás no pedaço de pele em que haviam tocado.
Virei-me em sua direção e me deparei com seu rosto surpreendentemente próximo do meu, iluminado somente pelo suave brilho lunar que adentrava pela fresta das cortinas.
— Sim — murmurei de volta, sentindo a sua respiração se mesclando à minha no escuro.
— Boa noite, Bella — ele falou com a voz rouca e seu polegar afastou uma mecha de meus cabelos que havia caído sobre meus olhos, fazendo cócegas em minha bochecha e enviando arrepios por todo o meu corpo.
— Boa noite, Edward.
E ele se virou, deixando-me com o coração tão próximo de sair pela garganta quanto da primeira vez em que nos beijamos.
❆
24 de dezembro, véspera de Natal
Edward
Quando acordei na manhã seguinte à chegada de Bella na pousada, por alguns instantes, achei que ainda estava em um dos meus sonhos nos quais acordava com ela ainda em meus braços envolvido pela névoa do perfume de morango de seus cabelos.
Mas aquilo não era um sonho e, em algum momento da noite, o macio corpo de Bella, ainda envolto pela camiseta que ela roubara do meu guarda-roupa, fora envolvido pelos meus braços e ali ela havia permanecido ressonando suavemente satisfeita. Seus cabelos estavam meio jogados sobre o rosto e os longos cílios faziam sombras em suas bochechas salpicadas com sardas tão pequenas que eram quase imperceptíveis.
Deus, como ela era bonita.
E, ainda assim, eu me obriguei a levantar lentamente e deixá-la repousando tranquila entre as cobertas. Depois que troquei de roupa, ajeitei o lençol sobre ela e plantei um beijo suave em sua testa por mais que seus lábios entreabertos me atraíssem.
Afinal, Bella não era minha, não mais.
❆
— Você vai mesmo ficar trabalhando na véspera de Natal? — Emmett questionou incrédulo, apoiando o cotovelo no balcão da recepção atrás do qual eu havia me enfurnado com meu notebook durante boa parte do dia com a irritante companhia de Mike, o recepcionista tagarela.
— Ao contrário de você, alguns de nós trabalham aqui — retruquei, soando mais mal-humorado do que realmente estava.
A verdade é que eu estava tentando evitar Bella após o estranho arranjo que havíamos combinado no dia anterior. Afinal, não parecia justo me beneficiar daquele acordo para estar próximo dela. E, por mais que quisesse usar cada oportunidade que tinha para tocá-la, a minha consciência não me permitia, pois a cada quarto de hora ela emitia o mesmo lembrete: eu havia sido o grande responsável por nosso término.
Na primavera passada, quando meu pai havia acordado de seu estado de coma induzido no hospital, após o acidente que sofrera na pousada, ele recebera o duro golpe de perder o movimento das pernas. E, para Carlisle que sempre cuidara pessoalmente de cada mínima manutenção do negócio da família, a adaptação acabaria por ser demorada. Por consequência, eu — que era o filho que morava mais próximo aos meus pais — assumi diversas responsabilidades em relação à pousada enquanto Esme supervisionava a recuperação de Carlisle. Ainda assim, eu não me ressentia daquilo. Alice e Emmett tinham suas vidas fora dali e, de certa forma, aquela sempre havia sido a minha vida. Então, tudo ocorrera de forma natural até que começou a afetar o meu relacionamento com Bella. Eu já não tinha mais o tempo necessário para fazer as viagens entre Forks e Seattle e, quando ela ia até mim, a culpa me sobrecarregava por nunca conseguir dar a atenção que ela merecia. Além disso, a sensação de que Bella não se contentaria com uma vida em uma cidade pequena me soterrava. Ela era uma escritora que estava ganhando fama a nível mundial, o curso de escrita criativa que ela ministrava era um dos mais concorridos na universidade de Seattle, o que eu tinha a lhe oferecer para que pudesse competir com aquilo? Assim, aqueles sentimentos começaram a me afastar de Bella até que culminaram na briga de seis meses atrás, quando ela partiu em um voo de última hora e, por mais que aquilo tivesse acabado comigo, eu não havia impedido.
Então, que direito eu tinha de me beneficiar daquela situação de namoro falso? E, ainda assim, quando acordei com Bella em meus braços naquela manhã, tudo havia ficado ainda mais difícil, por isso eu a estava evitando.
— Ótimo momento para uma pausa, então — Emmett anunciou com seu bom-humor inabalável, tirando-me de meus devaneios ao se inclinar e abaixar a tela de meu notebook. — Inclusive, acho que você gostaria de ir até a cozinha — ele disse em tom enigmático, afastando-se para seguir atrás de Rosalie que segurava um par de enormes patins de gelo sobressalentes em sua direção.
Vencido pela curiosidade, deixei Mike sozinho na recepção e segui o aroma de gengibre e especiais que começava a se espalhar pela pousada até o recanto preferido de minha mãe. E, de fato, lá estava ela com a enorme ilha da cozinha salpicada de farinha enquanto abria a massa cor-de-caramelo para os seus tradicionais biscoitos de Natal. Ao seu lado, Bella, envolta em um adorável avental cor-de-rosa com os dizeres “Beije a cozinheira” e os cabelos enrolados em um coque, separava cortadores dos mais diversos formatos — havia até mesmo uma miniatura do icônico farol.
— Querido, que bom que você chegou! Acabei de tirar a primeira fornada! — Esme exclamou sorridente quando me aproximei dela e beijei sua bochecha.
Como estávamos diante da minha mãe e sua equipe de cozinha que já estavam acostumados com o nosso afeto, repeti o gesto ao me virar para Bella, os fios que escapavam de seu elástico roçando de leve em meu pescoço ao que ela sorriu timidamente.
— E você pode aproveitar e tirar Bella daqui — minha mãe disse em tom de censura. — Eu aprecio a ajuda, mas não quero mais nenhum de vocês trabalhando por hoje.
— Achei que você tinha ido patinar com os outros no lago — falei para Bella quando Esme voltou a se ocupar com os biscoitos.
— Você sabe que a coordenação entre as minhas mãos e os meus pés não é particularmente impressionante — ela respondeu e torceu ligeiramente seu nariz parcialmente sujo de farinha.
— Na verdade, eu diria que é muito impressionante — retruquei, rindo quando ela se limitou a fazer uma carranca mal-humorada.
— Se você veio aqui rir da minha cara, eu prefiro continuar cortando a massa.
— E por falar na sua cara… — eu murmurei, aproximando-me dela e passando suavemente o polegar sobre o seu nariz, livrando-a da farinha.
O olhar cor-de-chocolate de Bella se fixou intensamente ao meu quando, ao invés de afastar a mão, eu a descansei sobre sua bochecha. Por uma fração de segundos, meus olhos encararam seus lábios entreabertos, apenas o suficiente para que ela notasse e assentisse. Bella ergueu a cabeça ao mesmo tempo em que eu abaixava a minha, unindo a minha boca à dela em um beijo terno. Seus lábios eram tão suaves e cálidos quanto haviam sido há seis meses atrás, recepcionando-me com um leve gosto de gengibre e mel.
— Eu estou falando sério agora, quero os dois fora daqui — Esme ralhou de repente, fazendo com que nos afastássemos de imediato como se tivéssemos levado um choque com o contato.
— Eu te encontro mais tarde — Bella anunciou, desatando o avental e o largando próximo à pia em sua pressa de me deixar para trás.
E eu fiquei ali parado, encarando os cabelos que haviam se soltado do coque e serpenteava pelas suas costas enquanto ela se afastava.
❆
25 de dezembro, manhã de Natal
Bella
Quando acordei na manhã do dia 25 de dezembro, Edward já havia deixado o quarto e o lado da cama que ele havia ocupado já estava frio. Aparentemente, desde o nosso beijo no dia anterior, ele resolvera me evitar, pois, após o jantar, havia demorado para retornar ao quarto e eu acabara por pegar no sono. E, agora, ele deveria ter acordado mais cedo que o habitual apenas para que não trocássemos nenhuma palavra sozinhos.
Edward era um idiota, e seria naquilo que eu me concentraria ao invés de naquele mero encostar de lábios quase fraternal que ocorrera na cozinha — e que ocupava cada cantinho da minha cabeça, desde então.
Depois que troquei de roupa e me envolvi em um macio cardigã vermelho, desci as escadas para o saguão na qual uma gigantesca árvore enfeitada aguardava repleta de presentes embrulhados ao seu redor.
— FELIZ NATAL, BELLS! — Alice gritou animada, jogando os braços ao meu redor trajada em sua típica fantasia verde e vermelha de elfa do Natal, arrematada por um gorro com sininhos e orelhas pontudas.
— Feliz Natal, duendezinha.
— Por favor, não comece com essa discussão de volta — Rosalie pediu, adiantando-se para me abraçar junto de Jasper que abafava uma risada atrás da irmã.
Emmett estava ocupado bancando o Papai Noel da pousada, rodeado de crianças que saltitavam animadas ao seu redor, gerenciadas por Esme e Carlisle que distribuíam biscoitos e canecas de chocolate quente entre os hóspedes. Edward não estava à vista e me concentrei em trocar presentes com os demais. Ganhei livros de Alice e Rosalie, uma caneta-tinteiro de Jasper e um suéter tricotado à mão com uma caixa de chocolates de Esme e Carlisle. Em contrapartida, dei uma echarpe para Alice, livros para Rose e Jazz, além de um enorme panetone trufado para meus anfitriões. Faltavam Emmett e Edward, mas um estava ocupado em sua atuação muito convincente de bom velhinho e o outro continuava sumido.
— Vamos tomar café? — falei para Rosalie que, assim como eu e Jasper, se limitava a observar os vários Cullens desempenharem suas funções naquela manhã de Natal.
— Depois. Primeiro eu quero sentar no colo do Papai Noel — ela respondeu com um sorriso malicioso, arrancando-me uma risada e um breve revirar de olhos do irmão antes de ambos se afastarem em direção à Alice e Emmett.
— Bella? — a voz de Edward me chamou e eu me virei para encontrá-lo próximo ao balcão da recepção, os fios cor-de-bronze e o sobretudo preto recobertos com salpicos de neve ainda por derreter.
Pelo jeito, ele havia acabado de chegar.
— Você saiu cedo hoje — eu disse baixinho, não conseguindo evitar a acusação ao me aproximar dele.
— Eu tive que ir buscar o seu presente no meu apartamento — ele respondeu, pegando-me de surpresa ao estender uma caixinha retangular preta amarrada com um laço prateado. — Feliz Natal, Bells — e ele sorriu o sorriso mais adorável do mundo, capaz até mesmo de derreter o gelo que eu resolvera colocar ao redor do meu coração quando acordei sozinha.
— Edward… — murmurei surpresa, abrindo o presente e revelando uma linda gargantilha em ouro branco acompanhada de um delicado pingente em formato de floco de neve com um par de brincos combinando.
— São seus três flocos de neve — ele pareceu sentir a necessidade de explicar, segurando a minha mão e tocando a tatuagem no interior do meu pulso com a ponta dos dedos, enviando arrepios por toda a extensão do meu braço.
Eu engoli em seco, ligeiramente emocionada com o seu cuidado aos pequenos detalhes porque aquele era Edward: irremediavelmente atencioso e encantador.
— São lindos… — falei sem jeito, virando-me de costas quando ele tirou o colar da caixa e fez menção de colocá-lo em meu pescoço.
Lentamente, suas mãos afastaram o meu cabelo para frente e deixaram uma trilha gelada em contraste com sua respiração cálida próxima à minha nuca. Eu não sabia se os batimentos cardíacos que ressoavam tão altos aos meus ouvidos eram meus ou dele, mas sabia que os arrepios em minha pele eram, agora, obviamente visíveis para ele e senti o sangue fluir rapidamente para as minhas bochechas.
— Você está linda — ele sussurrou ligeiramente rouco junto ao meu ouvido.
— Obrigada, Edward — falei, passando os meus braços ao redor do seu pescoço e me permitindo afundar o rosto em seu peito enquanto a familiar mistura do cheiro de seu perfume amadeirado mesclado ao aroma de roupa limpa me envolvia. — Eu vou pegar o seu presente.
Mas, para a minha surpresa, só havia sobrado um pacote sobre a enorme árvore de Natal e a etiqueta nele dizia: “De: Bella. Para: Emmett”.
Merda. Merda. Merda.
Maldita memória curta! Era por isso que sempre andava com um moleskine e uma caneta na minha bolsa: eu sempre esquecia ideias para enredos se não as anotasse. Além disso, o meu celular era repleto dos mais diferentes alarmes e lembretes, pois, atualmente, eu não podia me dar ao luxo de faltar em algum compromisso da editora ou da universidade. Em resumo, a minha memória era péssima e pouco confiável. E, portanto, eu havia feito listas e mais listas de itens antes de viajar, mas será que havia mesmo esquecido o presente de Edward em Seattle?
❆
25 de dezembro, noite de Natal
Edward
— Edward?
Olhei para trás e Bella acabava de subir os últimos degraus que levavam ao observatório do farol. Após toda a reforma que eu e Carlisle havíamos feito há dois anos atrás, Esme não havia conseguido se decidir com os planos para o lugar e, depois do acidente, eu havia levado o meu material de pintura para lá e me instalava em frente à calmaria do oceano e uma tela em branco quando me sentia inspirado.
Naquele dia em especial, após a ceia, meus olhos não conseguiam parar de se sentir atraídos sobre a forma com a qual as luzes da árvore de Natal se refletiam no pingente do novo colar de Bella e se desfaziam em minúsculos arco-íris sobre a pele salpicada por minúsculas sardas do seu pescoço. E, ainda com aquela cena em mente, eu havia me retirado e começado os esboços com o carvão.
— Bella? O que você está fazendo aqui? E você conseguiu subir sozinha? — perguntei confuso, limpando as mãos em um pano já bastante manchado que havia por ali.
— Eu procurei você após o jantar e não te encontrei… Quebrei a cabeça imaginando onde você estaria e quis me xingar quando percebi o óbvio: é claro que você estaria aqui — ela disse com um sorriso satisfeito, aproximando-se com os olhos voltados para o desenho que eu havia começado.
— É o meu colar?
— Hm… Você acreditaria se eu falasse que é um floco de neve aleatório?
— Nada com você é aleatório, Edward — ela disse e havia um afeto surpreendente em seu tom de voz. — Na verdade, eu vim aqui me desculpar novamente sobre a confusão com o seu presente.
E eu odiei a forma com a qual o seu rosto, antes iluminado ao observar o meu esboço, agora se fechava em uma expressão de tristeza.
— Já disse para não se preocupar com isso — eu falei, tocando gentilmente a sua bochecha com o meu polegar. — O meu maior presente é poder passar mais um Natal com você, Isabella Swan.
Mas, assim que as palavras deixaram a minha boca, eu percebi que havia dito a coisa errada. E, ao julgar pelo cenho franzido de Bella, aquilo logo se confirmara.
— Desculpe, eu… — engoli em cego, baixando os olhos para os nossos pés. — Eu não deveria ter dito isso.
Eu era um babaca e Bella poderia muito bem me odiar pelo resto da vida.
— Edward… — ela chamou baixinho, seus dedos subindo gentilmente para o meu queixo e fazendo com que eu erguesse a cabeça para olhá-la nos olhos. — O que aconteceu com a gente?
Essa era a pergunta que eu deveria ter previsto. A mesma pergunta que eu me fazia desde que deixara Bella sair em disparada da pousada e entrar naquele maldito avião para longe.
Longe de mim.
Longe de nós.
— Eu não sei, Bella… Eu… — murmurei sem saber ao certo como escolher as palavras, a angústia em seu rosto provavelmente espelhando a minha. — Eu não queria te prender aqui. Eu não podia, Bella.
— Me prender? — ela perguntou.
— Eu já imaginava que assumiria a pousada algum dia, Bella. Meus irmãos fizeram as próprias vidas longe daqui e eu sempre amei verdadeiramente esse lugar — eu comecei a explicar sem conseguir evitar o sorriso triste que tomava o meu rosto. — E, até conhecer você, eu estava feliz com isso. Mas a sua vida não é aqui, Bella. Você e suas histórias merecem rodar o mundo, entende? Eu quero isso para você, sempre quis. E as nossas idas e vindas estavam funcionando perfeitamente bem, mas… Eu… Eu achei que teríamos mais tempo. Só que com o acidente do meu pai eu…
De repente, tudo que eu havia pensado durante aqueles seis meses separado dela, agora, jorrava em forma de um discurso confuso e verborrágico a sua frente. Tudo o que eu havia tentado esconder para não lhe deixar dividida e colocar uma escolha em nosso relacionamento jazia, enfim, exposto diante de nós. E, por mais que a temida confusão nos olhos de Bella tivesse se intensificado, eu me sentia mais leve após aquela súbita explosão. Era como se o peso que eu havia arrastado durante todo aquele tempo, finalmente, deixasse os meus ombros.
— Edward, eu não entendo. O que isso tinha ou tem a ver com a gente agora? — ela perguntou após um longo minuto de silêncio.
— Você não percebe, Bella? A minha vida é aqui: meus pais e a pousada precisam de mim mais do que nunca. E eu não podia pedir para que você abrisse mão de Seattle… Não com a sua editora e as suas aulas na universidade — falei em voz alta, por fim, o que eu tanto remoera em segredo.
E, para a minha surpresa, ela riu. Riu tanto que sua risada acabou se transformando em uma espécie de choro sufocado em que eu acabei a envolvendo em meus braços e Bella escondeu seu rosto em minha camiseta.
— Bella? — chamei baixinho, os lábios grudados contra o seu cabelo enquanto passava as mãos suavemente por suas costas.
— Você é mesmo um idiota — ela sussurrou.
— Como?
— Você deveria ter falado comigo, Edward.
— Eu não queria te obrigar a fazer uma escolha, Bella.
— Então, você foi em frente e escolheu por mim — ela pontuou, erguendo o rosto para me olhar nos olhos com uma expressão dividida entre a compreensão e a acusação.
— Eu… Me desculpe — limitei-me a dizer, por fim, aceitando o que quer que ela tivesse para falar contra mim.
Mas, ao invés de apontar um dedo em minha direção, Bella relaxou em meus braços e subiu ambas as mãos para o meu rosto.
— Não seria uma escolha, Edward. Jamais. Eu amo esse lugar. Amo a pousada e amo esse farol. Aqui é o meu lugar feliz — ela declarou, o chocolate de seus olhos reluzindo sob a suave luz noturna. — E você está certo, eu amo escrever, mas… Eu posso fazer isso de qualquer lugar do mundo. E eu poderia fazer isso aqui. Com você. Até porque, para ser sincera, eu não consegui escrever nenhum final feliz que prestasse estando infeliz como estava com a minha própria vida amorosa — ela confessou, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.
Por alguns instantes, eu a encarei em silêncio sem acreditar nas palavras que ouvia. Bella havia falado exatamente aquilo que eu tanto desejara, mas…
— E o seu curso?
Ao que ela imediatamente torceu o nariz em uma careta de repulsa.
— Eu esqueci de contar uma coisa muito importante que descobri ao meu respeito: sou uma excelente escritora que odeia dar aulas e que, com o final do período, pediu um milhão de desculpas para a reitoria e deixou a universidade — ela contou, rindo em meio às palavras.
— Meu deus… Isso quer dizer que…
— Que você é um idiota — ela concluiu.
— Eu sou mesmo um idiota.
Afinal, não havia outra alternativa senão concordar com ela. Isso e beijá-la apaixonadamente em nosso farol com a lua prateada no céu e o oceano agitado abaixo de nós como testemunhas.
Então, como se toda aquela noite houvesse sido criado através de magia especificamente para nós, lá fora a neve começou a cair feito confete sobre os montes de areia na praia. E, com os braços enroscados um no outro, nós assistimos aquela cena — que era estranha e, ao mesmo tempo, bonita pra caralho — do alto do farol.
❆
26 de dezembro, Feliz Dia-depois-do-Natal!
Edward
— Emmett! Você viu a Bella? — perguntei com urgência ao descer as escadas e avistar o meu irmão parado atrás do balcão da recepção. — E o que você está fazendo aqui? Cadê o Mike?
Naquela noite, eu havia ido dormir com Bella em meus braços e com a certeza de que a situação entre a gente se resolveria. Ainda não havíamos discutido os detalhes, mas sabia que, daquela vez, conseguiríamos fazer dar certo. No entanto, quando acordei com o irritante barulho insistente das gaivotas, ela já não se encontrava no quarto. E, ao analisar melhor os meus arredores, notei que sua bolsa e sua mala haviam sumido. Aquilo havia sido o suficiente para me fazer sair correndo porta afora ainda de pijama.
— Eu acho que ele estava de folga hoje ou algo assim… Não tenho certeza. Alice me arrancou da cama cedo e pediu para que eu ficasse aqui — Emmett resmungou após pensar por alguns instantes, a sonolência em sua voz combinando com a enorme caneca de café preto ao seu lado. — Rose ficou dormindo e acho que Jazz está ajudando a mãe e o pai com o café da manhã.
Ótimo, eu teria que lidar com Emmett em sua versão lenta.
— Emmett! A Bella! Você a viu? — perguntei novamente, tentando me acalmar o suficiente para obter alguma resposta útil.
— A Bella… — ele murmurou pensativo e, mentalmente, eu lutei contra o desejo de deixá-lo falando sozinho. — Sim. Ela me pediu o carro emprestado. Acho que ela ia ao aeroporto? Alice estava com ela.
O pânico borbulhou na boca do meu estômago e eu xinguei baixinho, tentando ligar para o celular de Bella e ouvindo quase que automaticamente a mensagem gravada da caixa postal.
Merda.
— E por que, infernos, elas foram para o aeroporto? — perguntei exasperado.
— Acho que Bella falou algo sobre estar presente? Ou como algo não iria funcionar? Eu não sei, Edward, qual é a desse interrogatório? — ele perguntou, por fim, visivelmente irritado comigo.
Mas eu já havia dado as costas para ele e, escancarando as portas-duplas da pousada, corri em disparada em direção ao meu carro.
Eu não compreendia aquilo. Por que ela resolvera ir embora após a noite que havíamos passado? As coisas não haviam se acertado entre a gente? Ela havia mudado de ideia? Essas e muitas outras perguntas rodavam dolorosamente em minha cabeça, mas uma única certeza me guiava em alta velocidade pelas ruas de Forks: eu precisava impedir Bella daquela vez.
❆
— Bella? Bella! — chamei, correndo desesperadamente pelo saguão do aeroporto ao avistá-la próxima ao balcão de informações com a minha irmãzinha traidora a tiracolo.
— Edward?! — as duas exclamaram ao mesmo tempo, virando-se confusas em minha direção.
— O que você veio fazer aqui? — perguntei, ignorando completamente Alice e tomando uma das mãos de Bella entre as minhas.
— O que você veio fazer aqui? — ela rebateu e pude notar que, sob a dúvida, havia um vestígio de divertimento em sua voz.
— Você está de pijama? — ouvi minha irmã perguntando incrédula e, mais uma vez, limitei-me a fingir que ela não estava ali.
Engoli em seco e respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos antes de jogar uma enxurrada atrapalhada em cima de Bella como na noite anterior.
— Eu vim fazer o que deveria ter feito há seis meses atrás — comecei, olhando fixamente em seu olhar cor-de-chocolate que agora se encontrava ligeiramente arregalado. — Me desculpe por ter deixado você ir embora. Me desculpe por não ter ido atrás de você naquele maldito avião e não ter dito o quanto você é importante. O quanto eu amo você. E o quanto eu queria que você ficasse. Me desculpe por não ter te dado uma escolha — falei, a emoção em meu tom de voz espelhada naquele rosto que eu tanto adorava. — Eu não sei o que houve de ontem para hoje, mas, Bella, por favor… Me dê uma chance de tentar fazer direito.
— Edward… Eu… — Bella murmurou atônita, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha.
— Mas do que vocês dois idiotas estão falando? — Alice, finalmente, não se aguentou e explodiu ao nosso lado, completamente alheia ao significado das minhas palavras.
— Alice, você consegue calar a boca por míseros cinco minutos? — disse entredentes, irritado com a interrupção.
— Não! — ela exclamou, cruzando os braços teimosamente e alternando entre fuzilar a mim e Bella com um olhar de censura que deixaria a nossa mãe no chinelo. — Eu vim ajudar Bella a resgatar o seu presente que a companhia aérea perdeu e agora tenho que ouvir toda essa baboseira de vocês em silêncio? Vocês dois tinham terminado?
— Presente?
— Sim! — Bella, finalmente, despertou de seu estado de choque e interviu no que seria o começo de uma briga com a minha irmã. — Hoje cedo eu recebi uma mensagem da companhia aérea sobre um pacote extraviado e pedi para Alice vir comigo porque não sei dirigir aquele negócio que o Emmett chama de carro — ela explicou, voltando-se para mim. — É o seu presente, Edward, eu havia me esquecido que pedi para despachar, pois o estojo de tintas que comprei para você era muito grande para se configurar como uma bagagem de mão.
E a sensação de alívio me inundou de imediato junto ao sorriso envergonhado que agora repuxava os cantos da sua boca.
Bella realmente tinha uma memória péssima.
— O que você veio fazer aqui, Edward? — insistiu Alice que, como sempre, precisava se intrometer onde não era chamada.
— Não é da sua conta, duendezinha — resmunguei para ela, envolvendo Bella em meus braços enquanto as pessoas por ali começavam a reparar na pequena cena caótica que se desenrolava entre a gente.
Mais tarde, eu sabia que deveríamos uma explicação muito longa e detalhada para Alice e que aquilo provavelmente se transformaria em uma explicação muito longa e detalhada para a família inteira. Mas, por agora, a mera sensação de Bella segura comigo sem ir embora era o suficiente. E, para ela, o fato de eu ter ido atrás dela no aeroporto ainda de pijama — e com o meu carro provavelmente parado em fila dupla no estacionamento — parecia bastar.
— E a sua mala? — perguntei de repente, lembrando-me de como chegara à conclusão que ela tinha partido.
— Você não pensou mesmo em checar o guarda-roupa? — ela retrucou rindo.
— Estou começando a achar que, às vezes, eu sou realmente um idiota — confidenciei, sorrindo ligeiramente envergonhado.
— Eu amo você e a sua idiotice, Edward Cullen.
— E eu amo você e a sua memória ridiculamente curta, Isabella Swan.
❆
24 de dezembro, um ano depois
Bella
— Alice e Jasper já chegaram? — Edward perguntou ao se aproximar enquanto, pela milésima vez, eu me ocupava em reordenar alguns enfeites da gigantesca árvore de Natal que havíamos montado no começo do mês no saguão. — Você ainda está mexendo nessa decoração?
— Ainda não. Será que eles não vem? — perguntei temerosa, encaixando-me na curva de seu pescoço quando ele me afastou gentilmente do pinheirinho e me abraçou pela cintura.
— E Alice perder a chance de ver sua amada neve na praia? Acho que não. Sem contar que Jasper odeia Nova York no Natal — ele riu pelo nariz, beijando afetuosamente o topo da minha cabeça.
— Acho bom essa agarração de vocês não ser mais um namoro falso de final de ano — Rosalie avisou em tom de ironia, passando por nós e se sentando ao lado de Emmett no sofá próximo à enorme lareira acesa.
E eu e Edward acabamos rindo em conjunto.
No Natal anterior, quando o meu plano ridículo havia saído pela culatra, Alice nos fizera explicar tudo diante de Jasper, Rosalie e Emmett quando retornamos à pousada. A princípio, Rose ficara extremamente chateada por termos escondido aquilo deles e Emm achara a situação toda engraçadíssima, incluindo a parte de Edward correndo de pijama pelo aeroporto. Jasper, por sua vez, sugeriu que todos deveríamos marcar uma consulta com um psicólogo — que não fosse ele, claro. Mas, no final das contas, tudo acabou bem e Esme e Carlisle não ficaram sabendo do incidente.
Depois do Ano Novo, eu finalmente consegui finalizar meu livro e, após enviar o e-mail com o manuscrito para Jessica, finalmente recebi sua confirmação de que ele havia sido aprovado. E, enquanto aquele projeto era encaminhado para as próximas etapas de publicação, eu havia iniciado o próximo e o meu favorito até então: a história de uma pousada à beira-mar, arrematada por um lindo farol, responsável por juntar casais improváveis ao longo de gerações.
E, no tempo em que aquele manuscrito era escrito, eu havia, enfim, me mudado para Forks e comprado uma casa com Edward que era mais próxima à Pousada Candlelight. Ele continuava se dedicando à administração do lugar ao mesmo tempo em que, enfim, havia produzido quadros o suficiente para a sua primeira exposição no início do próximo ano, a ser organizada no “Museu Histórico do Farol Candlelight” que, finalmente, seria inaugurado.
— Em que você está pensando? — Edward perguntou, despertando-me de meus devaneios.
— Estou pensando em quando Emmett e Rosalie vão parar de enrolar e marcar a data do casamento — respondi, devolvendo a provocação anterior de Rose.
— Na verdade… — Emmett interveio, fazendo uma pausa e aguardando a confirmação da noiva antes de continuar: — Nós estávamos esperando a pintura do farol ficar pronta porque Rosalie gostaria de fazer a cerimônia na praia e eu achei que seria legal fazer aqui, com o Candlelight de fundo.
— Não seria junto do farol, entende? Isso a gente deixa para você e o Edw… — a loira explicou, embolando-se nas palavras e se calando rapidamente quando Edward pigarreou irritado.
E eu me virei para ele com os olhos arregalados.
— Ai meu deus, você vai pedir a Bella em casamento e só contou para a Rose? — Alice exclamou de repente, escolhendo aquele momento oportuno para realizar a sua entrada triunfal com Jasper carregando uma infinidade de malas atrás dela.
— Eu contei para o Emmett! — Edward explodiu irritado, lançando um olhar furioso para o irmão que se limitou a dar de ombros.
— Como se você não soubesse que ele iria correndo contar para a Rose! — a baixinha retrucou igualmente irritada.
— Bom, o Jazz obviamente não deu com a língua nos dentes — ele exclamou, indignado.
— Como é? — exclamou Alice, virando-se chocada para o próprio namorado que parecia estar querendo desaparecer.
E eu me limitei a rir da situação, sabendo que, naquele momento, o pedido de Edward havia sido arruinado. Mas, ainda assim, a ocasião parecia perfeita porque estávamos ali, na pousada, com eles.
E, lá fora, a neve voltava a cair fofa na praia. Estranha e, ao mesmo tempo, bonita pra caralho. Exatamente como a família que eu havia formado: mágica feito neve na praia.
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