Neve e Chama: A Segunda Era dos Heróis.
29 Capítulo 27: Narcysa & Rhaego
Notas iniciais
Narcysa Lannister
Era noite. Apenas a lua e algumas poucas tochas iluminavam o convés. Todos os que haviam embarcado no navio estavam presentes. Envolto em tecidos e coberto com uma capa com o brasão Greyjoy, estava o corpo daquele que haviam ido buscar em Ibben. No fim ir para o norte havia sido uma perda de tempo, Theon Greyjoy estava há muito louco, apenas a morte lhe traria algum benefício.
A Capitã Greyjoy estava parada, seu rosto era iluminado pelas chamas. Se sentia algo quando olhava o corpo do pai, não demonstrava. A contragosto, Narcysa a admirou por isso. Provavelmente ela própria ficaria assim quando enterrasse a mãe e o irmão, pois certamente sobreviveria a eles.
Todos estavam com uma expressão solene, até mesmo o dornes, que sempre gracejava de tudo.
- Viemos do mar e ao mar temos de regressar. Theon Greyjoy foi um Príncipe, um conquistador e um Homem de Ferro. – Disse a Greyjoy, ninguém ousou contradizê-la, mas Narcysa sabia a falsidade dessas palavras, Theon Greyjoy havia sido um traidor, um covarde e um fraco. – Que banqueteie-se nos salões aquáticos do Deus Afogado, com sereias obedecendo aos seus mínimos desejos, tal qual meus tios e meu avô. Que o Deus Afogado o abençoe com sal, com pedra, com aço. O quê está morto não pode morrer.
- O quê está morto não pode morrer! – Ressoaram os homens de ferro.
- Mas renasce de novo, mais duro e mais forte. – Disse ela segurando uma corda que estava pendurada há algum dispositivo acima de suas cabeças – O homem de ferro se junta ao Deus Afogado em seus salões aquáticos, mas deixa sua herdeira. Uma mulher de ferro. Um Kraken caiu, e um novo se ergue.
- Um novo se ergue! – Ecoou a tripulação.
Ela puxou a corda com força, um som de engrenagens rodando ecoou e o madeirame no qual o corpo estava apoiado recuou. O envolto caiu na água com um barulho audível e a madeira retornou para o seu lugar.
Alguns dos heróis foram prestar falsas condolências à mulher de ferro. Narcysa não se deu o trabalho, ouvir sua voz não serviria para fazer a Greyjoy se sentir melhor e nem ela era tão baixa a ponto de chutar um inimigo caído. Retornou ao quarto que dividia com as outras garotas, Lachowski brincava no chão, o quê fez Narcysa sorrir. Nunca gostara de crianças, eram absurdamente irritantes, mas mesmo seu coração de pedra se derretia por filhotes.
O segundo estranho que seus companheiros haviam resgatado em Ibben pulava de um lado para o outro tentando fazer graça. Narcysa ouvira dizer que ele fora um bobo tempos atrás. Mesmo que detestasse a Capitã, achava os deuses injustos por levarem Theon Greyjoy e deixarem essa aberração.
Mas a selvagem parecia e gostar dele e via em seus delírios sentido que ninguém mais via. Quando os Homens de Ferro sugeriram que seria melhor matá-lo, ela foi imediatamente em sua defesa. Não passava de uma garotinha que não oferecia nenhuma ameaça, o único fator que impediu de fato que o bobo tivesse a garganta cortada foi Sor Gyles. O Espinho Sangrento assumira o papel de protetor da selvagem. Se ela queria o retardado vivo, assim ele iria mantê-lo.
Narcysa achava ambos patéticos. Na verdade quase todos seus companheiros de viagem eram patéticos. Mary Lane Greyjoy estava um pouco acima de uma prostituta ou um pirata, vulgar e promíscua. Shiera Tully e a selvagem eram tão ingênuas e infantis quanto as donzelas das canções, no Jogo dos Tronos leões devoravam esse tipo de presas no café da manhã. Raven Arryn e Lailla Baratheon não eram muito diferentes da aberração que era Brienne.
Os rapazes não eram muito melhores. A começar por seu patético irmão, Renly, Narcysa tinha vergonha em admitir que tinham uma ligação de sangue. Drogo ‘Stark’ e Eddard ‘Baratheon’ eram apenas bastardos com um pouco de sorte. Gyles Tyrell era tão digno de pena quanto Renly. Rhaego, apesar de bonito, forte e possuir sangue real, era troglodita como os dothraki com os quais crescera e facilmente manipulável. O único que era razoavelmente inteligente no navio era Aemon Martell, mas o quê ele tinha de ástucia também tinha de malícia, era como uma cobra, sorrateiro e perigoso, Narcysa tinha que ter cuidado ao lidar com ele.
Os planos de Narcysa não estavam indo tão bem como ela esperava. O Príncipe Perdido correspondia aos seus flertes, mas parecia estar apenas se divertindo com ela e o que Narcysa queria era mais, muito mais. Ela queria ser sua esposa, princesa e mais tarde rainha. Queria poder, queria ser amada e temida, queria usar uma coroa e ter os Sete Reinos em suas mãos tal qual Cersei tivera.
Antes ela culpava as dothraki por sua falta de sucesso, tinha certeza que as três bruxas selvagens influenciavam seu príncipe de um modo negativo. Ficara tão irritada que descontou sua frustração no ‘bastardo’ que haviam designado para protegê-la em Ibben, o ridículo Eddard Baratheon. Fora movida pela raiva, queria que outra pessoa se sentisse tão incapaz e fracassada quanto ela própria se sentia. Fora uma agressividade extrema e desnecessária, ela sabia, mas também a fizera se sentir um pouco melhor, como sempre fazia.
Retornara ao navio quase de bom humor, vislumbrou quando a enorme dragão vermelha pousava não muito distante do barco, assim que Rhaego descesse ela pretendia ir até ele e flertar um pouco, contudo notou que ele não subira na dragão sozinho, a maldita mercenária voava às costas dele. Ele pulou para o chão e ajudou a maldita a descer também, enquanto Narcysa segurava a vontade de avançar e apresentar a mercenária à Oathkeeper.
A loira preferia deixar as lutas para os rapazes, mas isso não significava que não soubesse empunhar uma espada, que não soubesse se defender, ou matar seus inimigos. Segurou com força o punho da espada, sentido os leões do botão, eles tinham os dentes a mostra em uma fúria igual à dela. Observou enquanto a Arryn sorria para o Príncipe, compreendia o que ela estava fazendo, era o mesmo que Narcysa vinha tentando a viagem inteira. Talvez a mercenária estivesse convencida que o Eyrie não era suficiente, talvez ambicionasse o posto de Narcysa, talvez quisesse ser rainha.
‘Mas não será! Eu venho me preparado para isso antes mesmo de aprender a andar. Não será uma simples mercenária que vai tirar de mim!’
Lachowski pulou em seu colo, Narcysa sorriu e passou as mãos em suas orelhas, um dia ele cresceria e se tornaria seu protetor mais feroz e provavelmente o único em que poderia verdadeiramente confiar.
- Lady Lannister. – Chamou a Baratheon abrindo a porta do aposento – Teremos uma reunião na cabine da capitã, gostaria de se juntar a nós?
- Estou indo. – Respondeu se levantando.
Rhaego Targaryen
O príncipe observava resignado enquanto seus companheiros discutiam. A capitã Mary Lane estava recostada à sua cadeira na cabeceira da mesa. Seus olhos, entretanto, não tinham o habitual brilho atento, divagavam e às vezes se fitavam na janela, onde podia-se se ver o mar escuro.
Jhiqui estava ao seu lado direito, seus lábios estavam ligeiramente repuxados para cima, como se ela zombasse dos heróis à sua frente. Fora por esse projeto de sorriso constante que Rhaego aprendera a diferenciá-la das outras irmãs, também tinha outra característica que a distinguia das gêmeas, uma cicatriz que ia da parte abaixo do nariz atravessando o lábio até terminar no queixo. Ganhara-a quando ainda era uma criança, lutando nas arenas ilegais de Meeren. Ela era a única das irmãs que entendia a língua comum.
Jhade estava atrás de sua cadeira, com um braço apoiado na cabeceira de seu assento, enquanto amolava sua adaga preferida. Rhaego conhecia-a bem o suficiente para saber que ela não estava apenas entediada, mas ansiosa, como a maioria dos dothraki, ela temia as águas que cavalos não bebiam e sentia falta de ter um cavalo entre as pernas.
Jhoria estava do seu lado esquerdo. Ela observava o grupo que discutia, sem entender, obviamente, uma única palavra do que falavam. Era a mais curiosa e menos séria das irmãs, Rhaego via pelo brilho de seu olhar o quanto ela queria aprender a língua comum, Jhiqui vinha ensinando-a, mas ela compreendia, na melhor das hipóteses, poucas palavras.
- Basta! – Sua voz grave e retumbante ecoou pela sala, em um tom acima das várias vozes e todos se calaram.
Rhaego fitou seus companheiros satisfeito. Aprendera com Khal Dracon que numa batalha a voz era tão importante quanto as armas, como seus subordinados poderiam obedecê-lo se não podiam ouví-lo?
- Perguntas e respostas nos aguardariam em Ibben. Disse o Lord Aleijado. Eu não achei nenhum dos dois. E vocês?
Drogo Stark colocou um pedaço de pergaminho na mesa, nele estavam rabiscadas as palavras ‘Eles estão aqui.’
- Nós vimos um corvo voando... – Sussurrou Lady Shiera – Ele levava isso. Pensamos que poderia ser um aviso para Ramsay Snow de nossa presença na ilha.
- O bastardo ficou surpreso ao me ver. – Disse Mary Lane em voz monocórdica – Não sabia quem eu era, nem... – Ela hesitou – Nem Theon me reconheceu. Mas mencionou algo sobre seus ‘rapazes’ terem visto nosso barco. Talvez tenha sido um deles na tentativa de avisar seu senhor... De que importa? Estão todos mortos.
Rhaego notou que ela lamentava pelo pai louco, porém não disse nada. Sabia que sua mãe havia matado seu pai, quando este foi amaldiçoado pela Maegi, tornando-se uma sombra de si mesmo. Era melhor a morte do que uma vida de fraqueza. Suas companheiras de sangue teriam lhe dado uma morte rápida se ele se tornasse incapaz ou inapto, os dothraki só seguiam a força. E ele não se ressentia delas por isso. Se chegasse o dia que não poderia mais se manter sobre o dorso de Valyria, esse deveria ser o dia de sua morte.
- Ela está certa. Não importa. – Disse Aemon revirando os olhos – Morreu e ficou para trás. O meu interesse agora é no rumo que tomaremos.
Rhaego observou cada um dos rapazes. Gyles era robusto e tão alto quanto o próprio Rhaego, com também igual força bruta. Seria um adversário formidável se um dia chegassem a se enfrentar, ainda que apenas por esporte, de maneira justa. Assim como Renly, que era tão alto e forte quanto eles. Ned era mais magro e menos forte, contudo, mais ágil. E Aemon... Rhaego o via como um covarde, que tipo de homem usava peçonha em suas armas? Veneno era arma de uma mulher, se esconder atrás dele era uma prova de sua fraqueza.
- As Basilisk Isles. – Falou Renly imediatamente – Onde mais?
- Sinto em decepcioná-lo, filhote de Regicida. Mas não estou muito ansioso para encontrar o seu pai. Aleijado ou não, foi esse o homem que matou o rei. – Retrucou o dornes, cada palavra sua pingava em ironia.
- O Rei Louco! – Exasperou-se o loiro – Um rei que pretendia queimar a cidade!
- Ainda assim, matou o homem que jurou proteger, isso já nos diz muito sobre a suposta honra dele. E o que o Regicida tem para nós? O quê faz dele nosso aliado? Por quê nós iriamos até ele? Por quê um pirata de intenções questionáveis disse? Ao meu ver pode haver uma armadilha nas Basiliske Isles esperando por nós. Eu não estou disposto a arriscar. Devemos ir para leste e cumprir nossa missão.
Rhaego via lógica nisso. O pirata falara a verdade sobre Ramsay, mas o que o impediria de mentir sobre qualquer outro ponto? Poderia haver uma armadilha nas Basiliske Isles. Seria melhor se seguissem para oeste.
- Quem concorda com ele? – Ouviu a si mesmo perguntando
Os doze adolescentes se entreolharam.
- Baelon disse que a chave de nossa vitória estava lá, mesmo que seja uma armadilha acho que valeria a pena dar uma olhada – disse Raven dando de ombros. – Mas se as crianças estiverem muito assustadas basta me deixarem perto da costa com uma canoa, eu encontro o Regicida e volto com novidades.
- De jeito nenhum que você irá sozinha. – Disse Drogo – Seria facilmente dominada.
A mercenária riu como se ele tivesse contado uma piada muito engraçada.
- Eu estou disposto a arriscar, não tenho medo de piratas. – Disse Eddard.
- Muito menos eu! – Acrescentou rapidamente sua irmã
O resto dos heróis se entreolharam.
- Sonhei com um homem com apenas uma mão, ele nos indicava o caminho. Acho que seria melhor ir encontrá-lo. – Pronunciou-se a criança Melony com uma voz de menina
- Confio em Lady Melony – Disse Gyles dando de ombros, a garotinha sorriu para ele, fazendo-o corar.
- Tenho perguntas a fazer a Jaime Lannister. Estou disposta a correr alguns riscos para ter respostas. – Disse Lady Lannister.
A esta altura apenas o próprio Rhaego, Mary Lane, Aemon e Lady Shiera não haviam se pronunciado. Os quatro se entreolharam. Mary Lane ainda parecia distante, Aemon frustrado. Ele não sabia o que Shiera poderia dizer, mas ela não falaria nada enquanto seu protetor estivesse com a mão em seu ombro.
- Isso é uma maioria. – Pronunciou-se por fim – Lamento, Martell.
- Não, não lamenta. – Rosnou o dornes com a voz cheia de desprezo – Mas vai lamentar, Targaryen.
Ele se levantou e saiu em passos rápidos e fortes da cabine. Suas companheiras de sangue fizeram menção de segui-lo e cortar sua língua. Mas Rhaego as impediu. O dornes estava apenas contrariado, como uma criança a quem se nega um brinquedo. Era um covarde, não uma ameaça.
- Eu não confio no meu primo, mas levarei esse navio até as Basiliske Isles. – Disse Mary Lane por fim – Agora saiam da minha cabine. Preciso descansar.
Todos obedeceram.
Notas finais
Eu sei que muita gente não gostou disso. Mas espero que tenham curtido o resto do capitulo. Proximo cap será especial. O único com o POV de Sor Astor Mallister.
Aguardo seus comentários.
Abs
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