Neve e Chama: A Segunda Era dos Heróis.
23 Capítulo 21: Mãe Harpia
Notas iniciais
A Mãe Harpia
Ela caminhou com superioridade pelo acampamento humano, por onde passava era reverenciada como uma deusa. De fato era o mais próximo disso que existia, mas não era imortal como acreditavam os humanos. Tinha uma vida muito mais longa que eles, sim, e mantinha-se jovem por toda ela. Suas antepassadas, todas, viveram por exatos mil anos cada uma, permanecendo sempre jovens.
Ela tinha assistido a queda de Valyria, tinha observado com ódio a sobrevivência dos últimos dragões e tinha guardado com zelo seu irmão por centenas de séculos, esperando pacientemente pelo escolhido. Por todos esses anos ficou presa às ruinas. As temperaturas altas de Valyria eram a única coisa que mantinha o ovo de seu irmão vivo, e temia deixá-lo para trás, correndo o risco que fosse roubado ou destruído. Afinal a última ordem de sua mãe fora para que mantivesse seu irmão em segurança, pois um dia o escolhido viria para reclamá-lo.
Pensar na mãe trouxe uma tristeza enterrada em seu peito, ela olhou para o sol nublado. Quando a primeira ruga viera, a mãe havia lhe entregado a arma divina e subido aos céus, para além das nuvens, de onde jamais regressou ao chão. Tal como todas suas antepassadas antes dela. Ela própria já havia vivido mais da metade de seu tempo entre os mortais, mais 380 anos e ela também subiria uma última vez aos céus.
Não esperava, porém que O Escolhido, aquele do qual sua mãe profetizara, aquele com o qual tivera sonhos a vida inteira, fosse insano. Por vezes ele se comportava de uma maneira calma, um estrategista prudente e controlado, um verdadeiro exemplo a ser seguido e admirado. Entretanto em outros momentos ele se tornava um lunático completo, cruel e sádico.
Ela própria nada tinha contra um pouco de crueldade para com os inimigos, porém em seus surtos, Bael não fazia diferença entre amigos e inimigos, certa vez queimou vivo um soldado apenas por este respirar muito alto. Mas Hargron o obedecia, como nunca obedeceu a ela. Ele era seu irmão mais novo, sua única família, e a família devia permanecer unida.
Olhou para o gigantesco híbrido que nesse momento voava pelo céu nublado. Quando tinha 300 anos de vida, sua mãe fez uma aliança com uma família valyriana de nome Slearyon, que tinha como símbolo e como aliado um dragão prateado. Os Slearyon se ressentiam do então governante valyriano, por terem sido ignorados na linha de sucessão. Cheios de rancor eles se aliaram às harpias. Da união carnal de sua mãe e do Dragão Prateado nasceu Hargron, pela primeira vez uma Mãe Harpia havia colocado um segundo ovo e este não era negro e liso como o que dera origem a sua sucessora, mas sim um dourado e áspero.
Entretanto a ajuda do Dragão Prateado viera com o preço, as harpias deveriam destruir a família real valyriana para que os Slearyon pudessem ascender ao trono, os acontecimentos contudo não tinham acontecido conforme planejavam os traidores, a mãe eliminara sim toda a família real valyriana, mas ela própria estava presente quando tudo começou a dar errado. Assistira a mãe usar sua arma divina, para criar um raio tão poderoso, que destruiria o vulcão no qual a família real se abrigara em seu interior.
O raio entretanto fora poderoso demais, o vulcão ruiu e todo o magma nele acumulado tomou conta de toda a capital, iniciando um terremoto tão forte que transformou a península de Valyria em uma ilha, os humanos sucumbiram aos gritos enquanto as harpias assistiam tudo do céu, completamente seguras. Quando o magma endureceu, elas pousaram novamente, o maior império que já existira sucumbira por completo, em um calor que nem os próprios dragões poderiam suportar. Mas as harpias haviam sobrevivido.
Sua mãe então lhe explicou que quando o Império Ghiscare caíra, o povo rogara à Mãe Hapia por uma vingança contra o Império Valyriano e por todos esses séculos suas antepassadas esperaram por uma oportunidade de realizar essa vingança, afinal o povo de Old Ghis queimavam sacrifícios em sua honra e adoravam-na como deusa. Sua mãe lhe concedeu um raro sorriso e disse que estava honrada e satisfeita por ter completado tal tarefa. Ela permaneceu na terra por mais cinco dias, antes de passar a ela a arma divina e uma última ordem: que protegesse o ovo de Hargron, pois um dia o Escolhido viria para reclamá-lo. Ela subiu aos céus uma última vez e minutos depois a arma divina brilhou em sua mão, ela se tornara a Mãe Harpia.
Pouco depois ela descobrira que ainda havia humanos sobreviventes em Valyria, começou a caçá-los, entretanto em seus sonhos foi visitada pela mãe. Não ficou assustada, afinal quando viva sua progenitora também havia tido visões com as antepassadas, era um dos vários dons da Mãe Harpia. Ela lhe disse que não exterminasse os valyrianos sobreviventes, pois um dia um deles daria origem ao Escolhido. E assim ela fez, caçava alguns humanos mais ousados que vinham a superfície, porém não os destruía por completo.
As décadas se tornaram séculos, que foram se passando com extrema lentidão. Então veio um navio mercante pelo Smoking Sea, não era o primeiro a ter a ousadia (ou burrice) de aportar nas ruínas, mas como todas as outras antes desta, a tripulação serviria de banquete para o seu povo. Um a um os piratas foram devorados, exceto por um que conseguiu fugir para o subterrâneo. Ela tivera a oportunidade de matá-lo, mas por um breve segundo a mente dele se conectou à sua, movida pela curiosidade e intuição ela permitiu que vivesse.
Um ano se passou até que ela perdera a paciência, sentira uma mudança no mundo e soube que o Escolhido havia finalmente nascido e que estava próximo a ela, em Valyria. Ela sabia que apenas nas mãos do Escolhido o ovo de Hargron chocaria, por isso atacou os subterrâneos em busca da criança.
A mãe conseguiu fugir até a praia quando a Mãe Harpia finalmente atacou. Ferida mortalmente, porém ainda podendo se mover, a mulher insana fez o impensável, jogou a criança, que estava em uma pequena e rústica caixa de madeira ao Smoking Sea. Cheia de ódio, a Mãe Harpia cortou sua cabeça e observou a criança ser afastada pelas ondas dentro da caixa. Não poderia buscá-la, as águas do Smoking Sea eram um limite que aquelas de sua espécie não poderiam transpor. Ela não tinha como se aproximar, mesmo se voasse, a proximidade com as águas fumegantes encharcaria as penas de suas asas com a umidade e acabariam por ficar tão pesadas que caíria. Por um momento chegou a se desesperar, pensando que seria impossível para a criança sobreviver. Pensou que havia falhado para com suas antecessoras. Gritou desesperada como nunca antes. Chorara pela primeira vez em sua vida.
Mas naquela noite teve uma nova visão, desta vez sonhara com um humano adulto, ao qual ela entregava o ovo de Hargron. Ele vivia. E um dia o Escolhido retornaria. Os anos se passaram em flashs, sendo preenchido por visões não apenas do Escolhido, como do futuro que estava por vir. Ele seria grande, reconstruiria um império ainda maior que Ghis e Valyria juntas, seria a união do dragão e da harpia, porém havia perigo ao leste. Seus sonhos não eram claros, mas mostravam um outro futuro, um que se realizaria caso ela não fosse cuidadosa.
Suas visões eram de um enorme dragão de três cabeças, que era adorado e reverenciado por uma multidão, mas nuvens cinzentas cobriram o céu. Relâmpagos negros rompiam e uma chuva de sangue banhou as pessoas que gritaram e choraram. De um enorme lago de sangue formado pela chuva, outro enorme dragão de chamas negras surgiu, ela reconheceu o que um dia seria Hargron, e ele engoliu o dragão de três cabeças. Ele começa a soprar, seu fogo cobriu tudo com uma chama negra tão escura quanto a noite e depois tudo o quê ela pode ver é escuridão. Após algum tempo na escuridão completa ela vê surgir doze corvos brancos e brilhantes que batem as asas deixando atrás de si um rastro azul que dissipa a escuridão.
– Doze. – ressoou então a voz da sua mãe – Terá doze perigos, doze adversários. Deverá destruí-los rápido, quando ainda tenros, pois depois de crescidos serão uma grande ameaça. Sua missão será auxiliar o Escolhido, para que ele crie uma nova era, onde Valyria e Ghis ascenderão juntas como uma só. Se fracassar, o sangue de seu irmão manchará suas mãos antes do fim, uma nova era virá, mas não aquela que nos foi predestinada e sim a segunda era dos heróis. Pelo sangue das Mães Harpias que corre em suas veias não permitirás que aconteça.
– Não permitirei. – proferiu assim que acordada – Juro que não o farei, pelo sangue das Mães Harpias que corre em minhas veias.
Os anos se passaram devagar até que ele retornasse. A Mãe Harpia observou de longe quando um corpo humano foi levado pelas ondas do Smoking Sea até a praia, ao contrário dos seus semelhantes, aquele não tinha a pele queimada pelas águas, não parecia sequer sentir calor. Um grupo de humanos se aproximou em busca de água, aquele que anos atrás anos atrás sobrevivera ao seu ataque, mas agora envelhecido, foi o que viu o Escolhido desacordado na praia e o levou para o subterrâneo. Ela soube que a hora se aproximava.
Ela esperou pacientemente até que ele voltasse a superfície, dias se passaram até que finalmente aconteceu. Ele veio às ruinas em busca de água, juntamente com outros dois humanos. Ela matou os seus companheiros e mandou que seu povo o cercasse, não pretendia machucá-lo, apenas queria conversar, porém quando se aproximou dele sentiu novamente aquele contato com sua mente, os olhos cinzas quase prateados se encontraram com os seus e ela sentiu quando ele viu cada uma de suas lembranças, enquanto ela própria via a falta de medo pela morte dele e apreciou aquilo, viu sua sede pelo sangue e pela vingança e também gostou disso.
Era ele. Nunca em sua vida tivera tanta certeza. Ele era o Escolhido. Ordenou que as harpias não lhe fizessem mal e se afastou. Voou o mais rápido que pode até o ovo de Hargron, voltou e estendeu-o para ele. Ele aceitou o presente, parecendo confuso. Ela apenas sorriu e alçou vôo, sendo acompanhada por todo o seu povo.
Dias se passaram até que ela novamente foi tomada pela intuição. O ovo chocara. Sorriu, entretanto não fez nenhuma tentativa de ver o irmão, cedo ou tarde o Escolhido viria a ela. Cinco anos se passaram até que isso acontecesse, mas ele veio. Primeiramente ela avançou em direção ao irmão, Hargron não a conhecia mais do que ela à ele, mas ela sabia que, assim como ela própria, sentia a ligação de sangue que possuíam. Acariciou a cabeça da fera e beijou sua testa. Voltou-se então para o Escolhido.
– Você pode falar? – perguntou ele em alto valyriano.
– Tão bem quanto você. – respondeu ela ainda acariciando o dragão.
Ele deu um pequeno sorriso ao qual ela correspondeu.
– É hora da vingança.
Havia sido fácil conquistar Essos, mas ela começara a temer quando o seu senhor se tornou cada vez mais instável. E mais de uma vez ela o pegara falando consigo mesmo. Sabia que os doze corvos haviam crescido e se unido ao leste, mandara uma de suas harpias até eles e sentia que agora ela estava morta. Fracassara nisso, porém teria sucesso em todo o resto. Que os doze viessem. Os doze ditos 'heróis' não seriam páreo para eles.
Fale com o autor