Neurótica

46 Epílogo - Parte I


Fechou a porta larga atrás de si, automaticamente levantando os pés para retirar os saltos, jogando-os displicentemente perto da cômoda alta mais próxima, repleta de porta-retratos elegantes. Estava acostumada a manter a aparência perfeita em público, mas, no fim do dia, era um alívio poder se livrar dos sapatos apertados, das roupas sociais e dos grampos, que prendiam seu cabelo em um coque apertado e bonito logo abaixo da orelha esquerda.

Deixando de lado a bolsa repleta de anotações pessoais e a pasta de couro marrom com suas iniciais sobre a mesinha de centro, baixa e comprida próxima à opulenta lareira de mármore, tão claro quanto o restante da suíte, Hermione seguiu para o closet desabotoando o terninho comprido em uma cor terrosa e tirando a blusa negra de seda que usava logo abaixo. O ambiente era dividido essencialmente em duas grandes seções, abrigando roupas caras perfeitamente ajeitadas, de acordo com suas prioridades sociais.

Havia saias, camisas macias de todas as cores, blazers de muitas tendências, calças de alfaiataria em diversos modelos, vestidos que podiam atender variadas ocasiões sob comprimentos de todos os tipos, conjuntos, muitas lingeries e, é claro, roupas confortáveis e macias para, simplesmente, ficar em casa – em sua maioria moletons muito surrados. Sempre fora bastante consumista nessa questão após passar apreciar a moda de verdade, mas nunca se considerara esnobe à ponto de levar isso para dentro de sua casa. Se trabalhava duro durante todo o dia, podia se dar ao luxo de se vestir como queria privadamente.

Do lado direito, deslizou uma das portas de madeira leve e alcançou uma camisola, que consistia em um conjunto de calça e camisa, ambas simples em uma cor rosa “seco” num tecido sedoso. Com um feitiço não verbal, sem varinha, os grampos de seu cabelo foram retirados como mágica e imediatamente encaminhados para a sala à direita, tão grande quanto, onde estavam dispostos os sapatos e acessórios diversos. No cômodo intermediário, havia uma grande penteadeira envernizada em branco com um espelho de bordas trabalhadas em dourado, que ia praticamente até o teto, abrigando cremes, produtos de higiene pessoal e maquiagens.

Pregado ao espelho, havia um bilhete em papel timbrado perolado estampado com o logo do escritório de Draco e uma caligrafia caprichada em tinta preta o endereçando a ela. Descolou-o dali e seguiu para o banheiro, pela porta à esquerda, abrindo-o com apenas uma mão e lendo com um pequeno sorriso.

Srta. Granger,

Fui pessoalmente à estilista trouxa buscar o seu vestido, como pediu. Deixei pendurado no closet de sapatos sob um feitiço de desilusão, apenas para o caso de o Sr. Malfoy repentinamente aparecer.

Esperando que esteja tudo na mais perfeitamente ordem,

Arabella Locke

Hermione não se deu ao trabalho de verificar a encomenda, continuando sua rotina de banho normalmente. O dia havia sido completamente corrido. Além das aulas no Instituto Ministerial de Direito Mágico, passara à tarde cuidando das unhas e da pele em um e, apenas depois disso, voltara à Oxford para aplicar uma prova a três de suas turmas do último ano. Como resultado, estava repleta de provas complexas para corrigir pelo resto da noite, pois teria folga pelos próximos dias e havia organizado toda a sua agenda para não ter que se preocupar com o trabalho.

Após toda a questão com o Ministério, anos antes, decidira não retornar ao seu quadro de funcionários como Promotora Oficial do Departamento de Execução das Leis da Magia e aceitar uma das melhores ofertas que tivera em sua carreira. Havia nascido para ministrar aulas, ensinar fora parte de seu perfil desde que se entendia como uma bruxa. Além disso, estando dentro de uma comunidade que, o tempo todo, respirava novidades jurídicas bruxas, a levava a sempre exercitar a mente com conhecimentos novos e discussões frescas, o que adorava.

Tinha consciência de que, quando iniciara como Professora, ela era o assunto da discussão em si, não as matérias. Os alunos, jovens bruxos e bruxas iniciando no mundo do Direito Mágico, nutriam curiosidade sobre Hermione Granger, não a heroína de guerra aclamada por todos, mas a mulher que fora acusada de assassinar o marido. Sabia que isso se devia, especialmente, à empreitada midiática que rodeou o “Caso Weasley”.

No fim das contas, ninguém se importava muito que, no final, o júri havia a julgado inocente e o Ministério tivera de se retratar pública e internacionalmente, além de a conceder uma indenização por danos morais que correspondia à grandeza de seu nome na sociedade bruxa. Isso a fizera se sentir no topo por um instante, até que a realidade a indicasse que a mancha em seu nome seria permanente. Sentia que não era mais adorada na mesma intensidade, que muitos dos olhares em sua direção ainda eram atravessados, como se houvessem lhe “perdoado”, mas não esquecido. Sabia que bastava um passo fora da curva para que tudo voltasse a persegui-la novamente nessa eterna estigmatização de pessoas escrutinadas pela mídia.

Atualmente, não se importava muito, embora houvesse sido complicado, no início. Para alguém que estava acostumada à adoração, à bajulação constante e ao sucesso sem precedentes, o terreno da solidão social era novo para Hermione. Fora dolorido durante e após o processo. Contudo, estava determinada a deixar isso para trás e, simplesmente, ignorara os olhares até que eles se tornassem apenas “menores”. Ela podia ser desdenhosa e superior o suficiente para deixá-los imaginando como conseguia agir com tanta normalidade após o turbilhão de problemas naqueles meses conturbados

A presença de Draco fora essencial para que voltasse a ser a mulher a qual estava acostumada e, de certa forma, se tornasse alguém... Maior. Constantemente, ele a recordava que seu status anterior lhe custara muito, pessoalmente falando. As pessoas adoravam uma Hermione Granger que não existia, realmente. Haviam colocado expectativas sobre a mulher que deveria ser e, para que fosse recompensada com a adoração daqueles que sequer conhecia, precisava supri-las, sem levar em consideração que não era mais a inocente e idealista heroína de guerra, que fora aos dezenove anos. Assim como Ron e Harry não o eram.

Havia demorado, mas agora Hermione não se sentia mais na necessidade de manipular toda uma sociedade para que a amassem. Agora, entendia que não precisava desse tipo de reconhecimento, era como se fosse apenas a garota “sabe-tudo” novamente. Não tentava impressionar ninguém, pois não existia a necessidade. Todos sabiam do que era capaz, liam o que escrevia, ouviam o que dizia, todos os dias seu cérebro surpreendia alguém, sem que precisasse fingir uma vida perfeita. Esta, na verdade, desmoronara naquela época sem qualquer chance de aproveitamento.

Via positivamente o fato de ter deixado de lado a área contenciosa do Direito Mágico, pois agora não precisava, necessariamente, tomar partidos. Era respeitada por suas ideias, não pelas supostas ações pela sociedade contra os “bruxos malvados”, especialmente porque a Promotoria Bruxa se resumia a manipulação e política ministerial, como o seu processo havia deixado claro a todos, como Malfoy havia feito questão de esmiuçar na imprensa.

Foram tempos de crise para o Ministério da Magia, pensou com um sorriso mínimo de canto, e o Quartel General dos Aurores precisara trocar de nome e se reinventar após um Manifesto de trezentas páginas, que escrevera sobre as investigações conduzidas por aquele Departamento. Ela se fizera ouvida, adorava a ideia de ter espezinhado quem a levou para o alto enquanto dançava conforme a música e a jogou para os lobos quando se tornara um problema incontido demais. Praticamente nada a satisfazia mais do que a sensação de que não saíra perdendo mais do que eles. Todos eles.

Ainda gastou algum tempo perante a penteadeira, desfrutando de seus cremes aromáticos e, por fim, se encaminhou de volta para o quarto. Ignorou a grande cama de cabeceira de ferro trançado logo abaixo de uma janela comprida cortinada, que ia do chão ao teto, fechada devido ao frio do inverno lá fora e se sentou sobre o tapete fofo de frente para a mesinha baixa de centro, meticulosamente ajeitando os combos de provas para corrigir.

Não podia afirmar que era uma professora carrasca, mas exigia que seus alunos acompanhassem o ritmo de seu ensino, que não negava ser geralmente muito complexo. Ao aceitar a cátedra em Oxford, exigira escolher o que poderia ministrar ou não, além da liberdade para falar sobre o que quisesse. Diferente do que muitos esperavam quando O Mensageiro anunciou o “furo” de que faria parte do quadro de professores de uma das instituições mais antigas e respeitáveis do mundo bruxo, havia se voltado à seara administrativa do Direito Mágico. Definitivamente, gostava de incomodar os poderosos do Ministério, diziam, mas não se importava o suficiente para corrigi-los ou assanhá-los.

Cinco horas depois, guardou e lacrou tudo dentro de sua pasta com um feitiço de segurança, deixando-a displicentemente sobre a mesinha para descer ao andar debaixo a fim de comer alguma coisa além dos amendoins encontrados jogados dentro da bolsa, que usara naquele dia. Nunca ficava muito tempo sem comer, o que resultara em quadris e pernas ligeiramente grandes, especialmente após os primeiros meses em que atingira a plena sobriedade em relação ao álcool. Contudo, nunca se incomodara, pois significava que ela evoluíra. Pessoalmente falando, detestava ter se tornado a mulher que possuía dependências vergonhas – embora houvesse um tempo em que não aceitasse essa realidade. Além disso, Malfoy adorava sua bunda e suas pernas.

Rindo vagamente, desceu as escadas com os pés descalços, desfrutando da sensação do chão de mármore frio contra os pés. Exceto por dois abajures cerimoniosamente deixados acesos, todo o andar inferior estaria às escuras, as cortinas das quatro grandes janelas puxadas para que ninguém conseguisse um relance infeliz dos moradores impedindo também que qualquer luz da noite iluminasse o ambiente. Apesar de Hermione ter trabalhado sua depressão com um terapeuta – e continuasse a fazê-lo – as sombras a incomodavam, se não tinha companhia. Por isso, seguia acendendo todas as luzes até chegar à cozinha, um dos maiores ambientes da casa. Sempre gostara do processo de cozinhar, o que a fizera exigir um lugar onde esse cômodo não fosse apenas para empregados ou elfos domésticos. De plano aberto para a sala de jantar, a qual ostentava uma mesa de vidro com peças italianas históricas de madeira a sustentando, a cozinha era espaçosa o suficiente para uma grande família.

Abrindo e fechando armários e gavetas rapidamente, logo preparou uma carne mal passada, purê e uma salada. Sobre o balcão próximo à porta dos fundos, onde ficavam penduradas todas as chaves da casa, havia algumas revistas displicentemente jogadas. A primeira delas, no topo, mostrava na capa uma foto de Draco rodeado por Patil, Zabine e Locke. Do lado esquerdo do loiro, Parvati usava um vestido longo e mostarda de muito bom gosto em conformidade com seu tom de pele escuro, ao passo que Zabine trajava terno e colete em uma paleta de tons de cinza, tendo as mãos no bolso e um olhar convencido. Malfoy usava negro e, como era de seu costume, um terno mais justo e bem recortado, combinando com o olhar superior e os cabelos claros bem penteados.

A mais nova estava sentada logo à frente dele com um sorriso pequeno, meio constrangido, muito característico dela, ainda que Malfoy tivesse uma das mãos em seus ombros e a outra no bolso. Sabia que aquele era um recado: ela era a sua pupila e de mais ninguém. No início, não entendia exatamente o que o levara a contratar Arabella como estagiária, sequer tinha cabeça para dar a isso qualquer atenção, mas se lembrava de ser, às vezes, muito rude com a menina quando a outra apenas começava a conhecer o mundo jurídico e sem escrúpulos em que se encontravam.

Agora, no entanto, podia enxergar o que ele vira. Sendo jovem e sem muitas conexões, era possível construir nela alguém de confiança, que poderia ser, não sua outra versão, mas uma advogada tão boa quanto quando se encontrasse. Arabella não tinha o perfil criminal, mas era do mesmo ramo de Hermione e tão detalhista que os impressionava, às vezes, encontrando brechas em regras administrativas e contratos públicos.

A garota havia sido uma aposta e ele ganhara. Tanto tempo depois, ainda jovem em meio aos bruxos mais renomados do Direito Mágico, a tomavam como um prodígio e estava nas trincheiras de Draco Malfoy. A publicidade ajudava nessa questão, como nunca deixara de ser. O título da matéria de capa falava por si só, constatou abrindo a revista displicentemente para ler enquanto comia, um costume que sempre incomodava todos ao seu redor.

MALFOY, ZABINE, PATIL E LOCKE

Promovendo Mudanças na Comunidade Jurídica Mágica

Após fazer com que o Décimo Tribunal revesse a própria jurisprudência comercial no caso Duncan vs. Oakley, Draco Malfoy e seus associados, Blásio Zabine, Parvati Patil e Arabella Locke mais uma vez movem ação contra o Ministério da Magia Britânico.

Surpreendentemente, o processo terá como partes os funcionários do próprio órgão numa ação coletiva, algo quase inédito até então na comunidade bruxa. De acordo com a advogada Parvati Patil (Rubber vs. Hamilton), “os colaboradores do Ministério da Magia, por muito tempo, enfrentaram condições insalubres e alto grau de periculosidade no trabalho, sem qualquer tipo de bonificação por isso”, contou a antiga Promotora Oficial.

“Não é mais aceitável que bruxos e bruxas, todos os dias, deixem suas famílias para ir trabalhar e, no final do dia, voltem para a casa com uma parte do corpo estrunchada ou amputada, no mínimo.”, ressalta Zabine (Sutter vs. MacNamara), que assinará o processo junto aos colegas. Não é de hoje que o escritório de Direito Mágico mais renomado do Reino Unido causa polêmica confrontando governantes poderosos. O caso mais recente envolveu uma séria acusação de abuso sexual contra o Conselheiro de alto escalão mais próximo ao Ministro Kingsley, Bob Selwyn.

Draco Malfoy (Granger vs. O Povo), enquanto deixava uma audiência criminal no Décimo Tribunal, também comentou a nova ação, afirmando que deixaria seus parceiros cuidarem do caso: “Estou apoiando-os, é claro, mas o Direito Laboral não é a minha área de atuação, apesar de ser uma causa muito justa. Meus sócios e eu somos privilegiados por não termos de fazer parte da massa de bruxos e bruxas, que se arriscam todos os dias em seus empregos sem receber qualquer reconhecimento por isso, além do mínimo. Mas... É claro, provavelmente Parvati saberia falar a respeito com muito mais propriedade do que eu”.

Em entrevista ao correspondente do Mensageiro, a referida sócia de Malfoy comentou a situação. Patil parece estar muito comprometida com os nomes que fazem parte da ação coletiva. “Eu sempre tive uma relação de muito carinho com as pessoas que trabalharam ao meu lado durante o tempo em que fui Promotora, mas... Com o passar dos anos, ficou ainda mais claro que o respeito existente entre nós, como funcionários, não há para aqueles que definem as regras laborais, para os chefes de verdade”, ela comentou com ferocidade emendando que “àqueles que cumprem as regras, como eu um dia fiz, não tem qualquer poder de decisão sobre a segurança dos funcionários e quem realmente o tem não se importa nem um pouco.”.

Arabella Locke (Fitch vs. O Ministério), a jovem advogada mais disputada das corporações bruxas, também parece estar trabalhando na ação, pois, resolveu comentar sobre as provas de negligência ministerial: “Estamos acompanhando de perto a situação desses homens e mulheres há meses. Foi muito trabalho até que pudéssemos montar o processo de uma forma que fizesse sentido, mas a questão das provas não foi problema nenhum. Para o Ministério da Magia, as condições em que seus bruxos e bruxas trabalham é considerada normal, com tudo sendo feito do modo como se fazia há cem ou duzentos anos e, devemos deixar claro, é inaceitável trabalhar como nossos antepassados. Somos uma geração diferente, com ambições diferentes e vamos deixar isso claro com esse processo, eu espero”.

[...]

Hermione riu de canto, meneando a cabeça em negação pelo que lia. Eles eram tão bons em usar a mídia e a publicidade a seu favor que, se estivesse do outro lado, talvez considerasse a afronta bastante revoltante. Agora, contudo, lhe soava revolucionário, impetuoso e inescrupuloso, o que não deixava de agradá-la. Entendera com o tempo, que a Justiça não se consolidava apenas com a aplicação das leis, mas também com tudo o que se construía antes, durante e depois, fora dos Tribunais. A legislação, dessa forma, se tornava mais como um produto maleável de quem queria manipulá-la. A Justiça? Bem, às vezes, as coisas resultavam justas. No entanto, esse não era o objetivo, embora os tolos continuassem lutando em seu nome.

A matéria continuava por mais duas páginas, rasgando elogios para os advogados, mas nada com que estivesse desabituada. Vez em quando, Malfoy a atualizava sobre os casos em que vinha atuando e esse era o de seu menor interesse, pois detestava Direito Laboral. Tinha certeza que o motivo estava soldado no idealismo latente e quase cego de quem trabalhava nesse ramo, algo que ele abominava.

Além disso, trabalhava apenas nos processos em que escolhia, vez em quando cobrindo um imprevisto de um de seus sócios ou concedendo um agrado inesperado aos clientes mais abastados do escritório. Raramente, durante o ano, o via se deixar entrar no ritmo em que trabalhara em seu próprio caso, o que não fazia com que estivesse constantemente exausto. Tinha consciência de que, naquela época, fora um empecilho e tanto para a saúde mental de Draco. Ele soava feroz, muito firme nas decisões que Hermione teimosamente contestava, mas podia ver o cansaço em toda a sua face, especialmente quando ele não sabia estar sendo analisado.

Com um feitiço, tudo que sujara começara a ser imediatamente lavado e, posteriormente, organizado, enquanto Hermione deixava a cozinha e o andar inferior para subir de volta ao seu quarto calculando, mentalmente, quanto tempo teria para ler um livro antes que o sono a abatesse. Concluindo sua higiene noturna, se acomodou do lado esquerdo da cama, sentindo os pés instantaneamente relaxarem sob os edredons macios, alcançando os óculos e o calhamaço russo deixado sobre a espaçosa mesinha de cabeceira. Já havia lido, ao menos, quarenta páginas quando levantou os olhos para o ruído baixo da maçaneta reluzindo ao ser lentamente puxada. Draco, que tentava ser discreto para não a acordar, imediatamente a fitou quando abriu a porta, bufando ao notar que estava acordada e ainda fazia sua leitura noturna.

— Deveria ter imaginado. – Prendeu o riso e levantou uma sobrancelha por cima dos óculos. – Eu sei. Sei o que combinamos, mas detesto hotéis, não ia acontecer.

— Estava surpresa que fosse cumprir o combinado, na verdade.

Comentou observando-o se livrar da pasta, que trazia nos ombros e deixar o casaco negro e pesado sobre uma das poltronas para se encaminhar até ela, afundando o colchão ao se sentar voltado para sua direção. Fechou o livro, marcando-o com um dos dedos e analisando os olhos pouco azuis dele sob a luz do abajur muito próximo. Apesar da sombra no rosto, pareciam leves e brilhantes ao encará-la, tão harmoniosos quanto as feições bem desenhadas.

— Eu cumpro os acordos, Granger. – Ele se inclinou segurando seu queixo para provocá-la, próximo como estava, seus narizes quase se tocando. – Vou cumprir o que assinarmos amanhã.

O beijou sentindo-o afundar os dedos em seus fios, a mão em sua nuca para que suas línguas nunca saíssem do ritmo que apreciavam. Hermione gostava de como se entenderam e continuavam a se entender sem que precisassem dizer muito, apenas conduzindo um ao outro, especialmente na cama. O sexo não precisava ser repleto de olhares, toques cuidadosos e carinho para ser intenso, como nunca deixara de ser. Às vezes, só precisavam de alguns minutos.

— Como foi o jantar na casa de Zabine?

Perguntou quando Draco abaixou o rosto para sentir o perfume da curva de seu pescoço, arrepiando-a por inteira. Ele gemeu desgostoso enquanto ela desabotoava os primeiros botões da camisa social escura, afrouxando a gravata sem pressa, como era seu costume.

— Blásio tem opiniões muito próprias sobre casamento. – Riu imaginando exatamente o tom que o amigo de Draco usaria para tentar convencê-lo de que aquela era uma ideia falida sob qualquer ponto de vista. – Foi tudo dentro do esperado, a Sra. Smith garantiu que estarei onde devo amanhã.

O loiro a beijou novamente antes de se levantar, desabotoando os punhos da camisa enquanto se encaminhava ao banheiro, perguntando de volta como havia sido sua consulta ao medibruxo durante o almoço. Deixou a cabeça cair contra o travesseiro com um suspiro pesado, quase inconscientemente pousando uma das mãos sobre o ventre vazio. Há alguns meses, vinha fazendo tratamentos muito avançados em questão de medibruxaria para tentar reconstruir seu útero, completamente destroçado pela maldição de Bellatrix Lestrange, mas nada parecia surtir efeito a ponto de ser considerado seguro que tentasse engravidar novamente.

Até então, qualquer tentativa de gestação poderia fracassar, assim como seu psicológico a respeito. A sensação de se perder ou estar no processo de aborto espontâneo, sentindo o sangue literalmente escorrer entre suas pernas sem que nada pudesse fazer, era uma das mais dolorosas que conhecia. Para Hermione, significava que todo o controle sobre o próprio corpo lhe havia sido arrancado. Não ser saudável o bastante para ter um filho parecia matar um pouco de seu lado feminino a cada ano passado em frustração. Draco conhecia aquele antigo sentimento de inferioridade e, ao voltar do banheiro após o banho, sem obter qualquer resposta, pode concluir os resultados daquela consulta em seu semblante.

— Sabe... – Hermione começou quando o homem se acomodou ao seu lado, o perfume do sabonete dele se espalhando por toda a cama. – Acho que está na hora de pesquisarmos outros métodos.

Viu a falta de surpresa nos olhos dele, que somente levou uma das mãos para ajeitar alguns fios se soltando do coque alto. Era como se soubesse que esse dia chegaria, pois sempre fora muito mais realista e cru em suas expectativas, se comparado a ela — e não apenas quanto a isso. De qualquer forma, ele parecia mais à vontade com sua sugestão do que ela mesma, obviamente mais desapegado à ideia de vê-la viver a maternidade. Apesar de entendê-la e apoiá-la plenamente, não havia como conhecer o que conviver com essa falta lhe proporcionava.

— Tem certeza?

Deu de ombros, se aproximando até ser acomodada pelo peito dele, um de deus braços sendo acariciado de cima abaixo sem pressa, deixando-a tomar seu tempo.

— Eu quero um filho. E... Ele pode ser nosso, biologicamente falando. Eu só não poderei... Gestá-lo.

Assim como Draco, já tinha sua ideia formada, bastava se acostumar a ela. Mordeu os lábios, sentindo-se tensa entre os braços dele e, apesar das lágrimas que vinham aos seus olhos sempre que conversavam a respeito de se conformar com o fato de não poder engravidar, estava tão cansada de chorar a respeito. Havia dias em que se via devastada pela ideia de não ter colocado, ao menos, duas crianças naquela casa enorme para preencher ainda mais seus dias, mas, de certa forma, também estava cansada de alimentar esperanças constantemente frustradas.

— Sinto muito, Hermione.

Draco murmurou apertando-a mais forte, os lábios praticamente colados em sua testa. Embora não fosse convencional, talvez estivesse pronta para deixar de lado parte do egoísmo e da obsessão por sentir-se tão poderosa quanto outras mulheres devido ao detalhe da maternidade, só por um instante, para que, finalmente pudessem ter um filho.

— Está tudo bem. É um pouco de egocentrismo da minha parte. – Seus dedos calmamente se entrelaçaram sobre o abdômen dele. – Quando tivermos uma criança, que se pareça com você e comigo correndo por aí... Isso não vai importar, certo?

— Não é egocentrismo quando o poder de escolha foi tirado de você à força. – Ele se virou para encará-la, percorrendo com os olhos seu rosto inteiro à procura de algo errado. Havia se tornado um costume conforme o tempo corria. Tinha a impressão que, quando voltavam a um embate minimamente parecido com o que alimentavam anos antes, Hermione se incomodava, pois ele se tornara um especialista em lê-la. Draco sabia perfeitamente como atingi-la, onde apertar para doer mais e, às vezes, se magoavam tão ridiculamente que os deixava no chão. Sabia que qualquer relacionamento entre eles jamais seria simples, uma vez que não havia espaço para a mediocridade. Tinham de ser grandes ou não seriam capazes de ser qualquer coisa juntos. – Mas tem razão, não fará diferença quando estiver aqui. Será nosso, isso é tudo. E ninguém poderá dizer menos de você por isso.

Hermione concordou com um pequeno sorriso, juntando seus lábios novamente. Dessa vez, não foram além, ambos cansados pelo dia corrido. Com um feitiço, o abajur foi apagado e somente o ruído baixo de suas respirações preencheu o ambiente por algum tempo. Ainda continuou acordada, acompanhando o ritmo do peito dele embaixo de si, conjecturando sobre o dia seguinte e aquela decisão em específico por algum tempo. Semeada em sua mente, a ideia de ter poder ter um filho, logo, soava irresistivelmente tentadora.

Continua...