Resignado, Draco encarou seu reflexo no espelho procurando algum sinal de imperfeição em seu smoking azul escuro, mas, como já era de se prever, os elfos haviam feito um trabalho impecável. Não estava minimamente animado para o Baile Anual Beneficente promovido pelo Ministério, mas o fato de possuir um cofre cheio em Gringotes fazia com que comparecer ao evento fosse quase obrigatório.

Não negava, gostava de atenção, gostava de ser cobiçado pelas rodas da alta sociedade bruxa, gostava de mostrar que tinha dinheiro e possuía influência em qualquer que fosse o ramo mesmo após a Guerra, quando os jornais fizeram uma ferrenha campanha para tentar denegrir o nome de sua família. Porém, as exigências de Narcissa estavam começando a irritá-lo.

Avisara a sua mãe previamente: não iria levar acompanhante alguma ao Baile, não iria alimentar as expectativas de Dafne ou Pansy. Não que estivesse preocupado com os sentimentos de ambas, apenas não dispunha de energia para driblar durante a noite toda perguntas incisivas e cada vez mais diretas sobre um relacionamento sério que podia, futuramente, levá-lo a um casamento. Infelizmente, nenhuma de suas conquistas havia percebido tal fato, muito menos Narcissa.

Antes de começar a se arrumar, tivera de ouvir um sermão longo, desnecessário e fatigante sobre como iria acabar com o sobrenome da família se não se casasse e arranjasse um herdeiro e se não escolhesse uma das mulheres que ela aprovava para levar ao altar. Draco tinha consciência de seu dever, apenas não estava com pressa de cumpri-lo e, por isso, não se importava tanto com os sermões da mãe.

Os pensamentos sobre suas motivações pessoais para evitar tais compromissos foram dispersos, porém, por uma discreta batida na porta. Franziu o cenho, considerando rapidamente que não seria um elfo e orou mentalmente a Merlin – ou qualquer outra divindade em que os trouxas acreditavam, já que estes costumavam seguir facilmente qualquer preceito – que não fosse Dafne ou Pansy. Jamais perdoaria Narcisa se uma delas estivesse ali, pronta para acompanhá-lo ao Baile. Era um homem adulto, afinal de contas!

Entretanto, ficou surpreso ao encarar a mulher de cabelos extremamente negros e cacheados, presos em um coque discreto, adentrar seu quarto; um semblante preocupado estampava seu rosto, já com visíveis marcas de expressão concedidas pelo tempo.

— Tia Andrômeda! O que faz aqui?! – A mulher deixou os ombros caírem e Draco franziu o cenho, já percebendo do que se tratava. – Granger. O que ela fez?

— Não me culpe, querido, ela... Disse que ia tomar um ar, espairecer. – Andrômeda começou a falar muito rápido e Draco fez com que ela se sentasse em sua cama para tentar se acalmar enquanto convocava um elfo para servir um copo d’água com açúcar. – Tudo aconteceu há algumas horas, Teddy estava na casa dos Weasley, provavelmente com Victoire...

— Tia... – Ela cobriu o rosto com as mãos, grunhido de raiva, talvez frustração. Percebendo que a mulher segurava o choro, forçou-se a manter frieza e imparcialidade. Segurou seus ombros, fazendo com que ela respirasse fundo, ainda evitando encará-lo. – Eu só percebi sua ausência na hora do jantar, quando fui chamá-la percebi que não havia voltado. Sinto muito, Draco.

— Não se preocupe, tia, eu realmente esperava que Granger fizesse algo do tipo... Só não pensei que fosse acontecer tão rápido. – Completou em tom mais baixo, mais para si mesmo do que para ela. – Não é culpa sua. Apenas... Tem alguma ideia de onde ela possa estar?

Andrômeda revirou os olhos, provavelmente xingando-se mentalmente, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça, afirmando não ter ideia de onde Granger poderia ter ido. Respirou fundo e enfiou as mãos no bolso, pensando, considerando tudo que descobrira sobre Hermione até então.

Sua primeira opção seria procurar Potter e intimá-lo a encontrá-la, pois o moreno possuía muito mais conhecimento de causa sobre as intimidades dela do que Draco, obviamente. Porém, lembrou-se de que os amigos perfeitos, cidadãos modelos do mundo bruxo, não estavam se falando. Ainda não havia se esquecido da conclusão a qual havia chegado depois de muito pensar sobre o clima entre Potter e Granger. Nada (já considerando tudo que ambos haviam passado juntos na infância e adolescência), exceto sexo, poderia abalar àquela amizade. Certinhos do jeito que eram, certamente, não haviam conseguido lidar com tal peso e agora não suportavam se encarar. Para Malfoy, essa alternativa era até mesmo engraçada, pois ia contra tudo que as pessoas acreditavam sobre aqueles dois.

Enfim... Potter e sua esposa não eram mais uma opção. Não sabia sobre os amigos de Hermione, tudo que haviam falado era sobre ou relacionado ao Weasley. Na verdade, a vida da mulher era um tanto quando sem graça.

— Ela pode estar em qualquer lugar. – Disse Andrômeda, com pesar.

Nesse instante, Narcisa, sem se preocupar em bater, adentrou seu quarto sendo seguida por um elfo. Este vinha aos tropeços logo ao encalço de sua senhora, esforçando-se para não derrubar a bandeja e o conjunto branquíssimo de porcelana chinesa que carregava.

— Desculpe interrompê-los, mas sei como esses bailes do Ministério podem ser. Os organizadores parecem se esquecer de que os convidados precisam comer. – Narcissa sorriu empolgada para a irmã, quase como se ela mesma estivesse indo ao evento. – Trouxe chá e biscoitos, querido.

— Não poderei ir ao evento, Granger provavelmente está em uma encrenca...

Revirou os olhos enquanto tirava o smoking, mas feliz por ter uma desculpa concreta para não comparecer ao Baile. Anotou mentalmente que teria de fazer uma doação bastante recompensadora para as fundações do Ministério por isso, embora isso não fosse um problema.

Buscou no armário um terno mais simples, embora tão caro quanto, colocando-o rapidamente, sob o olhar atônito de sua mãe.

— Mas... Nem está em horário de expediente, Draco! – Ela sorriu desdenhosa. – Aposto que Granger pode ser virar sozinha por algumas horas. Sabe que não há lógica em sacrificar sua diversão devido ao trabalho...

— Conheço o caso que tenho em mãos e acredite: Granger não pode se virar sozinha. – Se estivesse certo sobre suas suposições do que ela estava fazendo. Imitou o sorriso desdenhoso da mãe enquanto ajeitava a manga do terno. – E, por favor, esses Bailes são uma chatice.

— Draco!

— Tenho que trabalhar, mamãe. – Era um prazer vê-la se remoer mentalmente ao ficar irritada com suas atitudes. – Cuide de Andrômeda, não sei a que horas irei chegar.

Bateu a porta, antes que Narcisa pudesse contradizê-lo. Sua mente ainda trabalhava arduamente criando suposições sobre onde Hermione poderia estar, mas cada hipótese parecia mais absurda do que a anterior. Parou na sala de jantar, apoiando as duas mãos sobre a mesa de mogno enquanto pensava. Ela não iria simplesmente sumir, quando saiu da casa de Andrômeda estava completamente sóbria, tinha um objetivo em mente.

Tudo que Granger queria nos últimos dias era ficar sozinha, repetira isso exaustivamente em suas conversas... Sabe-se lá por que, pois Draco não havia entendido exatamente os motivos de sua cliente. Porém, ela expressava abertamente a vontade de voltar para casa, o único lugar onde poderia ficar sozinha e ter bebidas a sua total disposição.

Granger, sua estúpida.

Decidido, aparatou no vilarejo de Godric’s Hollow, ignorando completamente a estátua do casal Potter no meio da praça e agradecendo que já fosse tarde o suficiente para que os trouxas já tivessem se recolhido. Viu a casa de Potter, há alguns metros de distância, constatando que esta estava às escuras. O menino que sobreviveu não faltava a um compromisso oficial do Ministério, provavelmente sua caixa de correios estava sempre infestada de convites para eventos.

A casa de Granger – anteriormente, residência oficial do Sr. e Sra. Weasley – ficava há um quarteirão de distância da casa do outro, o que era ótimo, pois, ocasionalmente, não seria visto por algum conhecido de Potter que facilmente lhe contaria que Draco Malfoy estava batendo à porta de sua cliente às 21:00min de um sábado. Não era uma mansão, mas estava entre as melhores do vilarejo, ele analisou.

Tratava-se de uma construção grande e branca, em estilo elisabetano, que exalava harmonia em cada tijolo e possuía alguns detalhes em pedra rústica, como ao redor das janelas e da porta de entrada. Havia três janelas estreitas dispostas no térreo, mas não era possível ver nenhuma luz acessa do lado de dentro, assim como no segundo andar. O jardim, ele analisou ao adentrar o espaço da propriedade que não possuía cerca viva ou muro, era bem cuidado. Embaixo das janelas, havia alguns pés de roseiras vermelhas e, mesmo diante de todas as atribulações, estas pareciam muito saudáveis. Provavelmente, isso se devia a algum feitiço, divagou ao tocar a campainha, mas nunca fora muito bom com herbologia então preferiu concentrar ao que se desenrolava de verdade.

Concentrou-se no som do outro lado da porta, mas não conseguiu ouvir nada. Tocou a campainha novamente, longa e insistentemente, e esperou. Porém, não tinha paciência para as gracinhas de Granger. Se fosse Potter, ou mesmo Weasley – embora não gostasse de se comparar àquele ruivo idiota –, provavelmente deixaria a mesma em paz por que esta “precisava ficar sozinha e colocar os pensamentos em ordem”. Mas não era Potter, muito menos Weasley, então esmurrou – não bateu ou apenas anunciou sua presença de forma educada – a porta com toda a força que possuía. Três batidas fortes e convictas, ela precisava saber que não estava lidando com qualquer um. Na verdade, estava surpreso que Granger ainda estivesse agindo como se fosse um estagiário qualquer. Sua mania de estar sempre por cima, no bom sentido, era extremamente irritante.

— Granger, eu sei que está aí, abra a porta agora. – Disse firmemente, dando algumas pancadas novamente.

Não houve resposta. Começava se preparar para bater de novo e fazer outra ameaça qualquer quando a porta se abriu, aparentemente sem ninguém do outro lado manuseando-a. Um feitiço bem conhecido para Malfoy, já que sua casa possuía o mesmo sistema.

Adentrou o hall, que tinha vista para a grande sala do lado esquerdo, onde era possível ver a silhueta de Granger bem delineada sentada em um dos degraus da escada de pedra. Quando avançou, porém, ouviu o barulho de vidro sendo quebrado sob seus pés. Cansado de todo aquele drama, acendeu todas as luzes da casa com um feitiço simples, percebendo que o hall estava infestado de cacos de vidro.

Granger tinha o rosto encostado no corrimão de madeira da escada, mas apenas franziu o cenho por causa da claridade, sem mover-se um centímetro. Ignorou os cacos de vidro e adentrou a sala, observando tudo ao redor com grande curiosidade. Era a primeira vez que se encontrava ali, afinal. Para sua surpresa, constatara que nada, assustadoramente, tinha a ver com Hermione Granger.

Os móveis eram antigos, clássicos, mas era tudo muito escuro e cheio de coisas para todos os lados, parecia refletir a bagunça que certamente era a pessoa de Weasley. Os sofás de couro marrom gritavam com as poltronas de cor azul perto da janela e os tapetes eram claros sobre o piso de madeira. Havia alguns vasos de flores murchas ou completamente mortas em cima do apoio da lareira e, ao lado desta, uma estante cheia de troféus, fotografias e bibelôs, mas nada parecia conversar entre si – como na casa dos Potter.

— Eu esbarrei acidentalmente no vaso em cima do aparador... No hall. – Ela, finalmente, abriu os olhos, encarando-o com os olhos moles. – Por isso os cacos.

— Foi o que imaginei.

Decidiu deixar de prestar atenção à decoração e voltou-se para Hermione, apoiando-se no corrimão para analisá-la melhor. A mulher estava vestida com uma espécie de calça de moletom larga demais, uma blusa de tecido fino e um suéter comprido por cima, tudo em cores claras. Seus cabelos estavam presos num coque mal feito e sob seus olhos havia grandes bolsas roxas devido à falta de dormir.

Uma garrafa de uísque pela metade jazia entre suas pernas, os dedos segurando-a frouxamente, e suas bochechas já estavam vermelhas pelo álcool, assim como os olhos. Com uma careta, Draco constatou que ela parecia tão cansada que não tinha sequer condições, ou coragem, de lhe passar um sermão no momento.

— Não gosto de seu olhar de pena, Draco. – Ela passou a mão pela testa, afastando os cabelos dos olhos, enquanto tentava ajeitar a postura. – Me irrita, na verdade.

— É claro que sim.

Ambos estavam acostumados a encarar-se com ódio, e apenas isso, quando se viam. Aquilo era muito mais do que ódio, embora detestasse sentir pena da mulher. Subiu a escada lentamente até encontrar-se no mesmo patamar de Granger e sentou-se ao seu lado, tirando a garrafa das mãos dela e tomando um gole. Ela não pareceu se importar, pois apenas voltou para a posição inicial em que se encontrava, com a cabeça entre as grades do corrimão, observando algum ponto inexistente no chão da sala.

Então, assustando-a, Draco jogou a garrafa de encontro à parede a sua frente, decorada por um quadro de pintura abstrata que, novamente, nada tinha a ver com Granger. O vidro espatifou-se e o líquido escorreu pela pintura, manchando-a. Não entendia nada sobre pinturas, logo não sabia se o estrago tinha como ser desfeito, mas não se importou. Porém, a reação da mulher ao seu lado foi muito mais do que esperava.

— O que está fazendo?! Aquela era a última garrafa! – Disse ela, levantando-se e quase rolando escada abaixo se Draco não tivesse lhe segurado pela cintura, amaldiçoando aquela proximidade.

— Acho que deve me agradecer por isso, então. – Respondeu ironicamente, observando-a fechar os olhos devido à tontura. Sinceramente, não sabia como um acidente naquela escada ainda não havia acontecido. – Vá tomar um banho e dormir, Granger, conversaremos amanhã.

Ela gemeu desanimada, Draco não soube exatamente o motivo, e apoiou a cabeça em seu peito. Suas mãos ao redor dos braços de Hermione pareceram muito mais pesadas e fez questão de não mover nenhuma, esperando que a mulher se afastasse mais rapidamente do que havia se aproximado.

— Eu não consigo. – Declarou Granger numa voz arrastada. Estava pronto para questioná-la quando a mesma voltou a falar. – Não consigo dormir desde que me deixou na casa de Andrômeda, depois do depoimento. Achei... Achei que se viesse para cá poderia me acalmar, tentar dormir... Mas...

As mãos dela apertaram o tecido do terno na altura de sua cintura e Granger aproximou-se ainda mais. Não se moveu um centímetro enquanto inalava o perfume dos cabelos dela. Era muito distinto para que atribuísse a um aroma apenas, mas não deixava de ser bom.

— Mas...?

— As lembranças... – Ela soluçou e Draco percebeu que gostas de suor escorriam por seu pescoço. Outro sintoma de depressão, já que a temperatura ali dentro era bastante agradável. – Deus, Ron parece estar em cada canto dessa casa, me acusando silenciosamente, me... Culpando por sua morte.

— Está se sentindo culpada. – Ele a afastou, não deixando de segurá-la pelos ombros, já que não confiava exatamente em seus sentidos de heroína de guerra no momento. Encarou os olhos vermelhos e inchados, constatando que, para sua completa indignação, Granger não deixava de ser bonita nem mesmo chorando. – Por quê?

— Apesar de não amá-lo mais como marido, foram dois anos vivendo como estranhos na mesma casa. Ignoramos tudo que passamos juntos, nos tratamos com total desrespeito e... É surreal pensar que ele... – Mais lágrimas escorreram pelos olhos dela, que as enxugou sem cuidado parecendo irritada. – Ele foi um bastardo nos últimos tempos e a mágoa que sinto, mesmo depois de enterrá-lo, não será apagada facilmente. Mas... Era Ron, no fim das contas, o garoto ruivo e comelão que conheci aos 11 anos. É por esse garoto que me sinto culpada, por que nos últimos dois anos não vi um traço sequer dele.

Por mais estranho que pudesse parecer, Draco entendia Hermione e entendia seus motivos. Nunca tivera amigos como ela. Durante toda sua vida o que teve foram pessoas com quem possuía certa afinidade. Blásio Zabine era um bom exemplo. Gostava de sua presença, mas não tinham intimidade, nem mesmo confiança um no outro. Ambos tinham consciência de que eram sonserinos em suas mais profundas essências e o interesse mútuo dessa relação era o laço mais forte que a mantinha.

Desde que conhecia Granger, esta estava cercada de amigos, sabia que eles eram uma base muito sólida para a menina que não conhecia nada do mundo bruxo quando criança. Exatamente por que confiava quase que cegamente nestes amigos, Draco sempre julgou, construiu uma vida com Weasley e o viu mudar a cada dia durante todos aqueles anos, tornando-se o que nada tinha a ver com o que esperava de um marido. Especialmente, talvez, de um amigo que se tornara seu marido. Ela certamente esperava muito mais, não podia simplesmente almejar apenas ter uma carreira estável, isso não era Hermione Granger – embora fosse mesmo obcecada com o trabalho; tinha certeza que uma carreira estável era apenas uma parcela muito ínfima do que ela desejava para sua vida.

A imagem que tinha de Hermione era bastante deturpada devido aos tantos anos de desavenças, mas era um bom julgador de caráter e ela não fazia o tipo que trocaria uma vida pessoal e feliz por um salário alto e status profissional, algo havia dado extremamente errado.

É claro que daria errado, ela casou-se com Ronald Weasley! Sua mente não deixou de lembrá-lo maldosamente.

Entretanto, ela ainda era Hermione Granger e ainda lamentava a morte de Weasley pelo que este havia sido um dia. Por que, apesar das chances de toda a situação ao longo dos últimos anos terem mudado sua personalidade tornando-a possivelmente fria e rancorosa, ela ainda era boa o suficiente para tal ato.

— Precisa tomar um banho e dormir. – Anunciou, decidindo concentrar-se no que era realmente concreto ali para evitar divagar sobre a mulher mais do que deveria, o que, no caso, seria o problema de Granger com álcool.

— Certo. – Granger respirou fundo e se afastou, encostando-se ao corrimão enquanto enxugava as lágrimas. – Desculpe por isso, é que... É bom externar para alguém essas coisas e... Parece que todos os Weasley passaram a me olhar de forma diferente depois da acusação de Lilá.

— Enquanto essa questão não for resolvida, é como se uma mancha negra pairasse sobre sua cabeça... Sinto muito. – Ele complementou apenas por que julgou bastante complicada toda a situação de Granger e lhe pareceu um tanto quanto cruel constatar que ainda continuaria recebendo olhares tortos de seus familiares por algum tempo.

Deixando os ombros caírem, Hermione tentou recomeçar a subir as escadas, mas seus pés não pareciam obedecê-la, provavelmente devido a visão alterada pelo álcool. Assim, apoiando-a com as mãos em sua cintura fina, Draco a ajudou a chegar ao pequeno átrio do segundo andar.

— Pode... Pegar uma troca de roupas nesse quarto? – Ela virou-se para ele lentamente, apontando para a porta a sua direita. – Eu prefiro ficar no quarto de hóspedes e não acho que estou em condições de praticar qualquer feitiço de conjuração.

— Tudo bem.

Sem mais palavras, Granger abriu a porta ao seu lado e adentrou o quarto enquanto Draco ainda se manteve no corredor por mais alguns minutos. Aquilo era mais intimidade do que já havia tido com qualquer um de seus clientes, mesmo com algumas com quem já havia transado. Merlim, estava cuidando de Hermione Granger, tratando-a bem, como se fosse um amigo preocupado, quando até ela – bêbada – sabia que jamais chegariam a tal ponto.

Revirando os olhos para ninguém em especial, voltou-se para a porta do lado esquerdo e adentrou o quarto principal da casa. Por algum motivo, Granger, durante aqueles dois anos, ainda dividia a cama com o marido. Perguntou-se como seria para ela quando sabia que Ronald dormia ao seu lado após um encontro com Lilá Brown e imaginou que não deveria ser a melhor das sensações. Por isso o psicológico dela estava uma bagunça.

Analisou que aquele quarto era um reflexo do que era toda a casa, Granger certamente não ligava muito para a decoração quando ninguém ficava tempo o bastante naquele lugar para se importar o suficiente e exigir uma mudança. A parede atrás da grande cama era de madeira clara, ornamentada por uma tapeçaria de paisagem chinfrim. Havia alguns tapetes espalhados pelo quarto e uma janela de duas folhas que tinha vista para a floresta dos fundos da propriedade, onde um jardim se estendia por grande parte do terreno. Uma mesa havia sido colocada embaixo de uma árvore no melhor estilo “família feliz aos domingos”, mas Draco podia apostar que esta fora poucas vezes usada.

Seguiu para o closet, constatando que alguém havia feito o favor de levar as roupas e pertences pessoais de Weasley dali. Abriu algumas gavetas do armário de Granger, encontrando finalmente o local onde ficavam as peças íntimas e xingando-se mentalmente por ter aceitado fazer o que ela havia pedido. Não era um garoto inexperiente, mas imaginar Hermione Granger, a certinha, utilizando uma calcinha preta e rendada era demais. Descartou a peça o mais rápido possível e escolheu tudo de mais desinteressante que havia ali, mentalizando que buscava muito algodão e nada de renda, enquanto tentava esquecer em que possível ocasião ela usaria uma cinta-liga vermelha.

Porém, seus pensamentos foram interrompidos ao finalmente perceber onde realmente se encontrava. Weasley havia sangrado ali até a morte e na manhã de segunda provavelmente receberiam os relatórios do perito. Ainda com as coisas de Granger em mãos, seguiu para o banheiro. Tudo ali estava na mais perfeita ordem, limpo e arejado, mas até para ele era como se uma sombra pairasse sobre o local. Um vaso com flores frescas havia sido colocado sobre a pia de mármore branco e um tapete bege ocupava boa parte do espaço perto da banheira branca e do lavatório. Imaginar aquele tapete sujo pelo sangue de Weasley lhe dava náuseas, ainda que o detestasse, pois em toda sua vida profissional, nunca havia estado na cena de um assassinato ou suicídio, que seja.

Encaminhou-se para o quarto de hóspedes constatando ser completamente aceitável que Granger não quisesse dormir em seu quarto de origem. Bateu na porta e esperou ela atender, ainda de toalha e com os cabelos molhados, para pegar as roupas. Por fim, desceu da sala para esperá-la.

Estar entre aqueles móveis, no território de Ronald Weasley, era completamente desconfortável para Draco. Olhou ao redor, fazendo uma careta para as fotos bruxas de família sobre a estante, onde o casal aparecia sorridente e feliz, acenando para a câmera.

Apesar de ter vivido uma farsa durante metade de sua vida, ninguém nunca havia feito um esforço tão grande quanto o que Granger havia feito para demonstrar que era feliz, ninguém, afinal de contas, se importava ou tinha a ver com sua vida. Ela, ao contrário, em meio às mágoas pessoais, havia construído um castelo de areia e o muro era a toda a sociedade bruxa, o que era detestável. Perguntou-se quando ela tomara essa decisão e por que, o que só fazia aumentar sua curiosidade.

Quando Granger desceu as escadas, já ostentando uma aparência mais saudável do que quando chegara, Draco levantou-se, buscando seu casaco sobre uma das poltronas.

— Está pronta para ir?

— Sua calça não faz par com este terno e essa gravata nunca foi usada para trabalhar. – Ela disse, ignorando-o enquanto subia alguns degraus, encaminhando-se para a cozinha ampla, que dividia o espaço com uma sala de jantar. – Atrapalhei algum compromisso?

— Não estamos aqui para falar de mim. – Draco apoiou-se no balcão vendo Granger pegar uma barra de chocolate na geladeira. – Você precisa voltar para a casa de Andrômeda.

— Eu realmente não estou com vontade. – Ela disse, sem se importar. – Posso ficar em casa, ver um bom filme e dormir como um bebê até amanhã, acredite.

— E eu supostamente confiaria no seu bom senso e boa fé de que estará sóbria na segunda de manhã... Eu realmente não estou com vontade. – Repetiu ironicamente, visto que já perdia a paciência agora que não tinha de lidar com a Granger bêbada. – Irá voltar para a casa dela.

— Confisque, então, todas as garrafas de bebida dessa casa. – Ela deu de ombros, dando mais atenção ao chocolate do que a Draco. – Eu não irei.

Draco revirou os olhos, encarando o semblante despreocupado da morena e amaldiçoando sua própria ideia.

— Tudo bem. Eu irei dormir aqui, com você, todos os dias, até resolver ir para a casa de Andrômeda. – Declarou observando o olhar incrédulo e o modo como ela bufava indignada.

— Não pode fazer isso, é apenas meu advogado, o que as pessoas irão pensar?! – Era exatamente esse o problema de Granger, ela sempre se preocupava demais como o que os outros pensariam sobre suas atitudes e talvez por isso sempre quisesse que as coisas fossem perfeitas.

— A escolha é sua. – Draco deu de ombros, seguindo a mesma linha. – Mas você sabe que ninguém será bonzinho com você quando um jornalista barrela qualquer descobrir que Draco Malfoy está dormindo na sua casa, fazendo sabe-se lá o que.

Vamos lá, Granger, colabore com o meu trabalho. Draco pensou enquanto observava Granger largar o chocolate sobre o balcão, grunhindo de raiva e provavelmente o xingando mentalmente. Era completamente insano que dormisse na casa de Granger e até ela sabia que, se alguém descobrisse, seu processo ficaria ainda mais complicado.

Porém, se ela continuasse firme em sua posição, Draco também teria de manter a sua promessa, o que seria infantil e desnecessário. Entretanto, ela era mulher e uma mulher, ainda por cima, acusada de matar o próprio marido. Draco sabia que não seria bom para sua imagem como advogado, mas para ela... A sociedade bruxa a destroçaria e tudo que menos precisavam era do povo contra eles.

— Não precisa me acompanhar até lá, posso aparatar sozinha. – Disse ela, mal humorada.

Draco não se deu ao trabalho de responder, apenas vestiu o terno e encaminhou-se para a saída, considerando que seria bom para Granger perceber que ele poderia confiar nela e que ainda era capaz de agir sozinha.

— Esteja pronta amanhã após o almoço, iremos sair.

— Amanhã é domingo. — Ela argumentou, sem ânimo.

— Esteja pronta.

Hermione apenas revirou os olhos e praticamente bateu a porta em sua cara. Não se importando, Draco olhou para ambos os lados da rua e, constatando que não havia ninguém, aparatou direto para a casa.

Notas finais
Olááá!! Gente, sei que demorei. A questão é que tinha a ideia em minha mente, mas não sabia como escrever e por fim acabei me empolgando demais com "Memories of the Past", vocês sabem... Quando a criatividade vem é preciso aproveitar! E então, finalmente chegamos a casa de Hermione e a análise pessoal de Draco sobre tudo que viu lá. Eu particularmente acho que uma casa em estilo elisabetano seria a cara de Hermione, mas a decoração realmente é toda de Ron, meio briga e tals kkkkkk Bem, de qualquer maneira Draco encontraria algo pra botar defeito ou não seria Draco Malfoy, certo? E essa saída deles no domingo? Onde Draco irá levá-la? :p Lembrando que Hermione precisa mesmo espairecer, acho que Draco está mais preocupado do que deveria com o bem estar de sua cliente ^^ Enfim, galerinha, obrigada pelos comentários do capítulo anterior, vocês me incentivam demais, demais, sério. Mas gostaria de fazer um pequeno adendo: essa história tem tantos leitores fixos, acompanhando-a realmente, comentem vocês também!! :)) Não precisam ter vergonha, quem deveria ter sou eu por postar essa ideias mirabolantes kkkkkk Bem, acho que é só, até o próximo e espero que gostem!! :D P.S. Esse capítulo ficou bem grande! :o