— Se nenhuma das partes tiver perguntas à testemunha, o Sr. Greene está dispensado.

A declaração de Griswold o arrancou de sua leve distração em relação à aparência de Granger naquele dia. Ela usava um vestido rosa claro, que chegava até pouco abaixo do joelho, de mangas e sem decote, bem como um sapato negro e envernizado. Nas orelhas, o par de brincos que a havia presenteado no Natal e os cabelos em cachos descendo sobre ombros. Não havia nada de efetivamente diferente nela, se considerasse somente a aparência e principalmente levando em conta que já a vira naquele traje em específico. Granger era, costumeiramente, vaidosa.

Porém, notou que sua análise nada tinha a ver com a maquiagem leve que cobria as olheiras, empinava os cílios e destacava os lábios grossos e bem desenhados em um rosado quase invisível. Seus olhos corriam insistamente em direção as feições tranquilas que a mulher ostentava pela primeira vez nas audiências. Os olhos cor de âmbar pareciam mais claros que o normal, ainda que a iluminação ali não contribuísse com aquela luz que via neles. Era como se Granger estivesse em paz consigo mesmo, confiante do resultado que obteria naquele em dia em especial.

Definitivamente, já a vira assim mais de uma vez. Draco sempre perdia quando aquele nível de serenidade a alcançava em Tribunal. Tão concentrado estava em sempre ganhar dela que sabia suas manias e convicções. Hermione Granger era uma ótima Promotora, mas o adjetivo “hipócrita” nunca pode ser associado a ela, de forma que sempre fazia questão de tentar usar o que ela dissera contra si mesma. Nos anos em que estavam no auge de seus enfrentamentos, era um jogo divertido demais para que pudesse deixar lado somente em nome do dinheiro que não precisava para viver.

Afinal de contas, ele sempre precisara ser instigado por ela, que, por sua vez, não demorara a percebê-lo encarando-a inconvenientemente – por deixá-la confortável, pelo local público onde se encontravam, pelos flagras indesejados. A castanha lhe direcionara um sorriso pequeno, quase imperceptivel a quem olhasse de fora, mass visível se pudessem ver como o canto dos olhos, já miúdos, se contraía quando fazia isso. Nunca havia parado para pensar em como esses detalhes haviam se tornado tão previsíveis a ele, de uma hora para outra, tão inesperadamente quanto descobrir saber o exato número de sardas que cobriam o nariz dela.

— Está permitido que a defesa convoque sua próxima testemunha.

O Décimo Tribunal lhe aparentava mais abafado do que o normal, talvez isso se desse devido ao silêncio que o início da sessão e um testemunho morno do Sr. Greene provocara. Observou como os jurados observavam sem muito interesse a saída do simplório vendedor de doces. Ele não fizera mais do que relatar ter ouvido uma discussão a altos pulmões na casa de Weasley e Granger exatamente na tarde da morte do ruivo, mas confessara não poder afirmar com toda a certeza que se tratava de sua cliente. E, mesmo que fosse, brigas entre casais eram comuns. Foi o que argumentou ao comparar o inalcançável casal de heróis de Guerra aos jurados que mantinham qualquer tipo de relação amorosa. Eles adoraram, obviamente.

Entretanto, era importante que ficasse claro não se tratar de Granger, visto que ela afirmava não ter visto Ronald naquele dia até encontrá-lo em meio ao próprio sangue no banheiro da suíte. Com toda certeza, a briga relatada teria a ver com a mulher misteriosa que aparecera e fora, inclusive, recebida por Weasley. Afinal, o testemunho de McLearn ainda estava contando ali em uma versão declarada e documentada. Ela não precisava ser uma testemunha presente para embasar o argumento de Edgecombe. Draco não dispensara esforços para encontrá-la, pois não poderiam provar de nenhuma forma que fosse a própria Granger e nem que não fosse. Eles tinham alguém a quem culpar e isso era o bastante, o suficiente para que os jurados tivessem dúvidas sobre condená-la. Sempre bastara uma fagulha, o resto Draco encarregava-se de fazer.

— A defesa traz um depoimento juramentado anônimo. Diz respeito à confirmação do horário que Granger chegou à própria casa.

— Meritíssima, é inaceitável que, em um julgamento conturbado como esse, isso seja permitido.

— Você foi informado, Edgecombe. – Teimou, levando-se e ajeitando o terno. – E com bastante antecedência, eu diria.

— A questão é que estão agindo de má-fé aqui. – Edgecombe argumentou convicto. – Poderiam muito bem ter convocado a testemunha, mas estão se utilizando de um documento para não inflar o número de depoimentos. Além de que o júri não poderá medir sua credibilidade, o que acredito ser mais uma das regras deste Tribunal sendo quebradas pelas artimanhas do Sr. Malfoy.

— É o método que a defesa escolheu, não pode questionar algo que não está em suas mãos. – Draco voltou-se a Meritíssima de forma insolente. – A atitude do advogado é bastante inconveniente. Não teríamos nenhuma razão para não querer inflar o número de testemunhas, Meritíssima, estamos apenas atendendo ao pedido da mesma para que seu nome não seja revelado em nome da própria paz pessoal.

— Meritíssima… — O outro soltou um sorriso, quase incrédulo. – Não é mesmo necessário dizer que a paz coletiva trazida por um Tribunal de Júri como esse se sobrepõe ao interesse individual dessa testemunha, não é? Peço que a impugnação formal da prova.

Sentia os olhos de todos correndo de um lado à outro da Corte, inclusive daqueles que trabalham lá e estavam acostumados ao tipo de discussão e ofensas disfarçadas proferidas ali. Viu Griswold apoiar-se melhor à cadeira, brincando distraidamente com a caneta que tinha em mãos enquanto o encarava seriamente esperando sua réplica. Ela não impugnara em nome da defesa imediatamente, o que queria dizer que concordava com o depoimento juramentado. Encarou as próprias anotações rapidamente, fazendo o cérebro caminhar mais rápido que o normal e considerando as possibilidades já antevistas que agora tinha à sua frente. Naquele panorama, só restava uma coisa a ser feita: jogar o jogo do Promotor, mas não deixá-lo ganhar.

— Já que citou a suposta má-fé do depoimento anônimo que trago, porque não falarmos da sua. Você teve chances e prazos suficientes para impugnar minha prova. – Encarou Griswold novamente. – Meritíssima, está bastante claro para a defesa que a intenção do Sr. Edgecombe era criar uma desavença perante o Júri somente para passar uma imagem mal feita de nossa suposta má vontade. Por favor, peço que convoque a testemunha inicilmante anônima, Carrie Wilkins.

De qualquer forma, não seria de todo ruim a Draco. Aliás, nada tinha a ver com a “paz pessoal” da bendita garçonete do The Crown, o pub mais famoso de Godric Hollows. No entanto, quando a mesma adentrara, não restava dúvidas de que aquela era uma posição em que não queria estar. Mandara Zabine buscá-la naquela manhã para que ficasse à postos, caso fosse necessária sua presença perante o Júri. Não era a primeira vez que os advogados tentavam usar aquela estratégia contra ele. Edgecombe, como um maldito contratualista atento a qualquer detalhe, no entanto, continuou contestando-o mesmo após a mulher de cabelos negros acomodar-se no banco das testemunhas.

— Meritíssima, posso me aproximar? – Griswold concedeu e Draco seguiu o Promotor em direção ao púlpito onde a juíza se encontrava. – É um absurdo a atitude da defesa. Essa testemunha não foi arrolada, não foi identificada e, portanto, não pode ser contraditada. A acusação não se preparou para questioná-la a respeito dos fatos narrados.

— Sr. Edgecombe, leu com atenção o rol de testemunhas? – Perguntou com insolência, guardando as mãos no bolso da calça e aparentando tranquilidade. – Carrie Wilkins estava elencada como testemunha anônima. O senhor pediu a impugnação do depoimento juramentado e carimbado pelo próprio Ministério da Magia… Tudo bem, eu cedi. Mas tentar impugnar minha testemunha sem motivo aparente, além da tentativa de tirá-la do julgamento, é má-fé explícita.

— Má-fé? Você a colocou como testemunha anônima, é óbvio que queria que eu o contestasse perante o júri e afastasse minha própria credibilidade quando chamasse a garota!

Não era sua intenção, mas, se fosse, o outro teria caído como um pato. Edgecombe estava saindo dos eixos e Draco adorou isso. Não era qualquer advogado que estava preparado para o Tribunal do Júri. A pressão exacerbada sempre tinha efeito, para bem ou para mal. Para advogados acostumados à letra imutável da lei era um desafio. Era necessário manejá-la a seu favor, bem como fazer as perguntas certas às testemunhas, brigar quando via a oportunidade de obter vantagem e calar-se em caso de prejuízo ao cliente. Tivera de aprender tudo isso na prática, mas ainda estava na faculdade quando começara a lapidar seu talento para a atuação.

— Olha, se minha cliente tivesse tempo e disposição para tanto, eu abriria um processo administrativo para substituí-lo, Sr. Edgecombe. – Virou-se para Griswold, continuando em seu tom mais dedenhoso. – Minha cliente não precisa ser mais prejudicada do que já está sendo, isso é uma afronta…

— Eu já entendi, senhores. – Apesar do corte decisivo, a juíza em ação ali parecia bastante paciente com as ofensas proferidas pelos dois advogados. Sabia que devia estar preparada para tanto, porém, ouvira que a mulher se divertia presenciando as discussões e julgando silenciosamente cada um da sala. – Sr. Edgecombe, o Senhor Malfoy atendeu a não aceitação do depoimento por escrito. O mínimo que pode fazer é ceder a que a testemunha que o deu, fale perante os jurados.

De má vontade, portanto, o Promotor voltou ao seu lugar e Draco encarou Carrie Wilkins. Ela estava diferente do que se lembrava. Os longos cachos negros estavam presos em um coque bem feito e volumoso sobre a nuca e, apesar de usar calças jeans, vestia um casaco azulado grosso e botas de inverno que iam até os joelhos. Os olhos, contudo, o acusavam impetuosamente de colocá-la ali, claramente nervosa. Não se importava muito por sua exigência. Na verdade, era benéfico a Granger que ela estivesse na frente dos jurados e os mesmos simpatizassem com sua figura, muito mais convencional do que a de Zach Fitzgerald. No fim, o feitiço saía contra o bruxo e Edgecombe brigara com tanto afinco exatamente por ter consciência disso.

— Srta. Wilkins, trabalha como garçonete no The Crown, um pub que fica em Godric’s Hollow?

— Na maior do tempo, sim.

— Na noite da morte do Sr. Weasley… Estava trabalhando, certo? – A garota confirmou. – Então pode se lembrar com bastante clareza quem esteve lá naquela noite. Quer dizer, foi uma noite incomum para os padrões do vilarejo. – Novamente, Carrie concordou. – Zach Fitzgerald estava no The Crown aquela noite?

— Sim, eu o vigiei à nota toda. – Ela desviou o olhar e sabia exatamente porque. – Para não beber tanto.

— Então, ele não estava sóbrio quando voltou para casa?

— Não, estava bebendo com amigos desde muito cedo.

— Para recordá-los, Srs. Jurados… — Draco voltou ao Júri, com tranquilidade. – Zach Fitzgerald é o rapaz que afirma que Granger mentiu em seu depoimento sobre o horário em que chegara em casa naquela noite. Agora, como um garoto, de apenas 19 anos, pode ter certeza sobre horários e limites estando bêbado? Ainda mais se formos considerar que Zach nunca teve contato maior com Hermione Granger do que aquele que a boa vizinhança os exigia. Era costume de Zach beber após o trabalho, Srta. Wilkins?

— Sim.

— Não há possibilidade de Zach realmente ter identificado Granger naquela noite. E, se identificou, senhores, já sabemos que não estava em seu juízo perfeito para se preocupar com as horas. Pensem comigo. – Ele apontou a varinha para o alto e uma grande imagem noturna da casa e da rua onde a castanha morava surgiu, envolvendo-os. Pedira que um fotógrafo profissional fizesse a foto e a deixasse o mais real possível com magia. Queria que o júri tivesse uma boa dimensão da distância entre o garoto e a castanha naquela noite. – A casa de Granger está aqui, a maior da rua e uma das maiores do vilarejo de Godric’s Hollow. Ela chama a atenção, não? Tem paredes muito brancas, um jardim bem cuidado e, mais importante, as luzes sempre se encontravam ligadas, os próprios vizinhos de Granger e Weasley nos afirmaram. Infelizmente, não poderão vê-la como era, pois essa é uma foto pós acontecido, a casa agora está vazia. Porém, o meu ponto aqui é demonstrar que da casa de Zach aqui, há quase 100 metros de distância, 10 propriedades os separando, numa noite escura, bêbado… Ele tinha capacidade para identificar a própria mãe? Muito improvável, senhores.

Draco fez com que a imagem sumisse em vapor e sentou-se após informar que não tinha mais perguntas a Wilkins. Edgecombe ainda estava fazendo anotações, claramente despreparado para questionar aquela testemunha em específico. Assim, inclinou-se satisfeito contra a cadeira, deixando a própria varinha sobre a mesa de madeira escura, despreocupadamente, e vendo Granger analisar sua postura com uma sobrancelha julgadora.

— Você sempre fica com esse olhar quando acha que acabou de chegar ao pote de ouro. – Ela sussurrou, aproximando-se.

— Não é o que acabou de acontecer?

Ela soltou um riso baixo, a respiração batendo quente e tentadora contra seu rosto. Por isso, lentamente voltou-se para encará-la, o que lhe pareceu um erro. Gostaria de beijá-la, imediatamente, naquele momento. Seus lábios estavam mais próximos do que qualquer outra ocasião em que estiveram um público e os olhos dela… Granger sabia exatamente o que se passava por sua mente. Talvez porque fosse o que também gostaria de fazer, considerou ao vê-la molhando os lábios lentamente.

— Eu já estive do outro lado. – Continuou ela, desviando o assunto propositalmente. Teria tempo de beijá-la onde bem entendesse quando chegasse em casa. – Suas feições inconvenientes, a sua dança bonita de palavras só para dizer com mais classe que o outro está errado… Você faz de propósito não?

— Nos conhecemos desde criança, Granger, acha que sim? – Ela meneou a cabeça e viu pelo canto dos olhos que Edgecombe já se levantava para fazer suas perguntas a Carrie.

— Nem sempre, algo acontece quando está em Tribunal. – A olhou novamente e nunca se sentiu mais ameaçado por alguém que estivesse no banco dos réus. Granger o examinava, parecendo pesar o que sabia e o que via sobre ele, estando no Décimo Tribunal, principalmente. Draco era uma pessoa melhor fora dos Tribunais. Ele mantinha seus interesses, ambicionava coisas grandes, mas manipulava apenas em nome de si próprio. Jogando com a lei como fazia, brincava com o destino de terceiros e até de famílias inteiras. Poder é um ciclo vicioso, afinal de contas. O que o amedrontava é: ela tinha razão e o estava desvendando, além do que qualquer outra pessoa jamais fora. – Agora eu vejo.

— Srta. Wilkins. – A voz do Promotor o impediu de continuar a indagá-la sobre as conclusões que tirara e ambos se voltaram para o movimento à frente. – Qual o seu tipo de relação com o Sr. Fitzgerald?

— Éramos namorados.

— Não são mais. – Concluiu o Promotor. – O que significa seu depoimento pode estar… Totalmente viciado por suas mágoas em relação ao Sr. Zach.

— Isso… Foi uma pergunta? – Draco riu, propositalmente, embora realmente esperasse que Carrie Wilkins fosse esperta o suficiente para guardar para si qualquer sentimento que tivesse sobre o antigo namorado.

— Muita gente vai ao pub onde trabalha? Eu pergunto, à noite, no horário em que o Sr. Zach está no estabelecimento.

— Meritíssima, onde ele quer chegar? – Manifestou-se, antes que o homem estragasse tudo que fizera. – Protesto, relevância.

— Mantido, Sr. Edgecombe. – Griswold concedeu em tom de aviso ao outro.

— A noite da morte do Sr. Weasley foi movimentada no The Crown?

— Sempre há muitos turistas em Godric’s Hollow, tanto bruxos quanto trouxas. Além disso, os moradores da região também o frequentam após o trabalho, então… Sim.

— Como estava trabalhando, é possível dizer que não estava o tempo todo prestando atenção ao Sr. Fitzgerald, não?

— Não estava com os olhos sobre ele à noite toda, mas é do meu namorado que estamos falando. Meu namorado à época, quero dizer. – A garota pestanejou. – Eu o conheço, sei que ele estava bêbado e sei as horas em que foi para a casa porque… Me preocupo com ele.

A partir daí, qualquer tentativa de Edgecombe de demonstrar que a garçonente poderia estar errada foi por água abaixo e Draco não tentou protestar em momento algum. Ele estava se enrolando por si mesmo, não precisaria da sua ajuda. Quanto mais tentasse inquiri-la sem estar preparado, mais beneficiaria a defesa. Assim, girou-se sobre o eixo da cadeira em direção a grande platéia amontoada no Décimo Tribunal e correu os olhos em busca dos rostos conhecidos, que, possivelmente, lhe interessassem.

Evangeline estava sentada exatamente no meio dos repórteres, privilegiada por sua posição de Editora Chefe do maior jornal bruxo do país, enquanto os demais se ocupavam em fazer suas penas arranharem e tirar fotos quando achassem necessário. Ela não o encarava, o que era bom. A ameaçara o suficiente para mantê-la em seu lugar, mas não era sua meta viver em alerta para o que quer que ela pudesse planejar para se vingar. Porque, se a conhecia bem, tinha certeza que o tentaria. Avistou até mesmo Luna Lovegood, do alto de seus cabelos loiros, tão platinados quanto os dele, observando a tudo com seu olhar impassível e disperso. Nunca a entenderia e não seria agora que o faria, mesmo sendo a garota proprietária d’O Pasquim.

Seus olhos alcançaram Arthur Weasley, de pé e próximo às portas, no entanto. Percebera como os olhos lacrimosos observavam a tudo com repugnância, provavelmente julgando o espetáculo que haviam feito da morte de seu precioso filho. Bom, de qualquer forma, era um filho, mesmo sendo Ronald um boçal. A Sra. Weasley não o acompanhava dessa vez, tampouco Ginny Weasley. Ao seu lado, apenas um homem com vestes formais, que parecia ser funcionário do Ministério. Já o havia visto por ali e lembrava do rosto ranzinza patrulhando os corredores de Hogwarts, como se a Monitoria lhe concedesse todo o poder que precisasse.

Weasley’s, Draco julgou revirando os olhos à procura da cabeçorra negra e antes desgrenhada de Potter, que certamente estaria ali em um apoio fajuto à amiga da vida toda. Porém, não encontrou ninguém portando óculos redondos sobre olhos verdes nas arquibancadas, o que quer dizer que talvez o mesmo estivesse ocupando seu tempo em resgatar os tempos dourados de família feliz com Ginny Weasley. Foi quando seu cérebro estacara, procurando novamente uma cabeça ruiva, conhecida e dramática entre os rostos que o encaravam. Mas ela não estava lá e, infelizmente, já era de se esperar.

— Droga, ele vai convocar Weasley! – Voltou-se rapidamente à Granger e Zabine.

— Ginny?

— Exato, precisamos… — Levantou um dedo, pensando. – Precisamos de um recesso para organizar a melhor forma de atacá-la.

Em suas suposições, sempre achara que Weasley seria uma das últimas a depor. O histórico entre ela, Granger e o marido não era dos melhores, ou seja, um bom panorama para Edgecombe destrinchar aos jurados. A última testemunha, que poderia sensibilizar a todos, pois era óbvio que a conheciam e que liam matérias sobre como a castanhara estragara sua vida. Entretanto, Weasley, que estivera sempre ali, provavelmente instruída pelo Promotor, sua presença colocando pressão no Júri, não era vista em local algum, o que não podia ser mera coincidência. A irmã lutando por justiça pelo irmão morto sempre fora uma boa manchete.

— Sem mais perguntas para a testemunha.

Ouviu a voz de Edgecombe e Griswold ao longe, bem como o exato momento, quase em câmera lenta, em que ele organizou-se novamente para chamar a própria testemunha. Era muito claro que após Draco tê-lo praticamente humilhado com Carrie Wilkins, o Promotor usaria o maior armamento de que dispusesse. Ginny Weasley era uma testemunha muito desfavorável a Hermione, todos sabiam e Draco sempre trabalhara com possibilidades reais. Ele manejava o que tinha em mãos, não fazia a magia acontecer do nada. Precisava pensar no processo como em um novo, como sempre acontecia quando as coisas não saíam como estavam em sua cabeça.

Lentamente, todos se voltaram à porta de onde Ginny Weasley saía, acompanhada do meirinho. Diferente de Lilá Brown, ela andava perante todos de cabeça erguida e não ostentava nenhum resquício lacrimoso no rosto de feições muito sérias. Os saltos altos faziam um ruído quase ensurdecedor para Draco, mesmo com o ruído das máquinas fotográficas se sobressaindo às suas costas. Antes de sentar-se no banco de testemunhas, a mulher de cabelos ruivos que agora iam até os ombros, não encarara Hermione nem ao menos uma vez, mas não demorara a cravar os olhos esverdeados dominados pelo ódio sobre a castanha. Ela estava pronta para mandar Granger a Azkaban, sem pensar duas vezes.

— Meritíssimo, a defesa pede um recesso formal. – Levantou-se antes que a ruiva pudesse começar a jurar verdade sobre seu depoimento, chamando a atenção da juíza, que o questionara um motivo plausível. E não havia pensado em nenhum. Porque não estava realmente preparado para Ginny Weasley naquele dia. Entretanto, antes que pudesse engasgar-se, Blásio deslizou o bloco de anotações sobre a mesa, apontando rapidamente o que havia acabado de escrever em letras quase garrafais. – É obrigatório para o horário de almoço, segundo o regimento deste tribunal.

— Claro, Sr. Malfoy. – Ela soltou um pequeno riso, pois obviamente percebera seu breve atrapalho, verificando o horário no próprio relógio de pulso que mantinha sobre a mesa. – Declaro as próximas duas horas de recesso.

O martelo soou alto contra a madeira e o meirinho imediatamente conduziu a ruiva de volta à sala de testemunhas, podendo enfim soltar-se aliviado contra a cadeira enquanto Granger mantinha-se tensa e reta pela primeira vez desde que acordara e Zabine levantava-se, ajeitando e guardando as anotações. O Promotor, por sua vez, o encarou com um nariz empinado que em muito pertencia a si mesmo. Ele havia mudado sua estratégia e precisava definir como reagir a isso. Por isso, assim que chegaram a sala adjacente ao tribunal, pegou em sua maleta um saco de moedas de ouro e mandou que Locke fosse comprar qualquer coisa comestível para todos enquanto Zabine acomodava-se contra a mesa e Granger cruzava uma perna sobre a outra sentada em uma das poltronas. Ninguém parecia querer abrir a boca para dizer que erraram.

— Edgecombe conseguiu uma testemunha para nos surpreender na próxima audiência, é a única explicação plausível. – Começou. – Weasley era valiosa demais para ser usada no meio do julgamento. Era para ele contrabalancear o depoimento de Granger com a versão dela dos fatos.

— Ele só faria isso se tivesse uma testemunha ocular, alguém que pudesse afirmar que Granger fizera isso. Não é o caso. – Zabine replicou, pensativo, no que voltaram-se à única mulher da sala em busca de resposta. No entanto, Granger apenas deu de ombros. – É importante que se lembre tudo que que pode ser relevante naquele dia, tudo que Edgecombe possa usar contra você.

— Acha que sou estúpida, Zabine? – Ela não subiu o tom, simplesmente encarou o negro com as feições mais frias que tinha. – Sou eu quem está com a guilhotina no pescoço aqui. É claro que diria qualquer coisa que pudesse me livrar disso.

— Temos apenas um elemento desconhecido em toda a equação: a mulher que visitou Weasley naquele dia. – Chamou a atenção de ambos, que se digladiavam com os olhos. – É uma suspeita, mas cabe como uma testemunha contra você se Edgecombe fizer as perguntas certas.

— Havíamos concordado que o mais provável era que fosse Brown. – Granger levantou-se para servir-se um copo d’água, lhes dando as costas, pois o assunto da mulher era sempre desconfortável a ela. Apesar de não gostar de Weasley, este consumar uma traição na casa da mesma parecia pior que o normal. – Em minha própria casa, com meu marido, a convite dele.

— Chegamos à conclusão por dedução, mas não tivemos certeza de nada. – Draco encarou o teto forrado de madeira envernizado, seus olhos seguindo as luzes do lustre medíocre que havia ali enquanto pensava. – A estratégia era que colocássemos a culpa na estranha, sendo Brown ou não. Agora, se Edgecombe trazê-la…?

— Ele quebrará nossa estratégia ao meio. – Zabine concluiu, sem muito esforço e encaminhando-se à porta. – Eu vou buscar tudo que preparamos para Weasley.

Assim que a porta bateu, o silêncio dominou o ambiente. Daria muito para poder tomar uma única dose de uísque de fogo para fazer seus pensamentos caminharem em apenas uma direção. Precisava de foco e não conseguia alcançá-lo enquanto encarava a tensão nos ombros de Granger e a forma como respirava fundo, ainda de costas, as palmas das mãos apoiadas contra a superfície escura da mesa. Ela estava confiante de que aquele dia seria mais uma vitória, embora devesse ao menos se lembrar que as coisas pudessem sair do controle rapidamente. Acontecera com ela, como Promotora, como também acontecia o tempo todo com qualquer advogado.

— O depoimento de Ginny não está me preocupando. – Ela comentou em voz baixa quando Draco aproximou-se. – Mas, se Edgecombe, de alguma forma, conseguiu descobrir a identidade da mulher… Não haverá chances para mim, Draco, eu estarei acabada.

— É uma possibilidade com a qual estamos trabalhando. – Examinou o perfil amargurado e os olhos presos na superfície da água da jarra, escuros pela luz que não alcançava seu rosto. – Sabe que precisamos tentar prever todas as vertentes, nos preparar o melhor possível para qualquer coisa que possa atingir nossa estratégia…

— Não terá estratégia, se ela aparecer, Draco. – Ela abaixou o rosto, fatigada. – Eu pensei em tudo, nos mínimos detalhes. Nós traçamos um plano. E ele ir por água abaixo só com a presença dessa mulher…

— Hermione, não vai acontecer! – Fez com que ela se virasse para encará-lo. – Não há como o Promotor ter descoberto a identidade dessa mulher sem a ajuda dos Aurores e Potter teria nos informado, se alguma investigação a respeito estivesse em curso. Weasley é nossa prioridade, vamos nos concentrar no que podemos fazer no momento.

Granger ainda demonstrou contrariedade antes de concordar e aproximar-se para um abraço meio desajeitado, onde sua cabeça deitou-se contra seu ombro em um suspiro. Esse tipo de contato ainda era novo a eles, por isso, simplesmente, a apoiou. O queixo contra os cabelos perfumados e o braço ao redor da silhueta conhecida da cintura feminina. Era como se Granger estivesse eternamente cansada. Não raras vezes, percebia que o rosto dela se iluminava por algo, mas os logo os olhos já não acompanhavam o sorriso em seus lábios. Este, por sua vez, não demorava a ser encondido na resignação conturbada em que ela constantemente vivia.

Os picos de satisfação eram muito raros para Granger e suspeitava que isso a acompanharia por muito tempo, além daquele julgamento, pois as lembranças sempre estariam logo às suas costas, recordando-a o horror do que vivera com Weasley e do que fora obrigada a carregar, mesmo após a morte do mesmo. Tinha a impressão de que o casamento gerara um fardo maior do que ela podia ter em suas costas. Apesar de querer demonstrar controle, Granger descobrira-se mais fraca do que gostaria. Não em um sentido ruim, mas de uma forma que a desagradaria por tempo suficiente para deixá-la ainda mais vulnerável sobre si mesma.

Entretanto, antes que a pudesse perguntar sobre suas sessões com o psiquiatra, que sabia ter passado a frequentar com mais assiduidade após o aborto, mesmo contra a vontade, visto que Andrômeda praticamente a obrigara, a porta foi aberta abruptamente pelo atrapalhamento de Arabella Locke, o que fez com que a castanha imediatamente se afastasse, embora tarde demais. A garota de cabelos dourados já estava estacada na porta, parecendo mais tímida do que de costume por ter supostamente interrompido Draco Malfoy e Hermione Granger em um momento inesperado e inapropriado demais, pois, para todos os efeitos, ainda eram somente advogado e cliente. Ao que parecia, Locke era inocente o suficiente para não deduzir que seu relacionamento com a castanha poderia ir além de um mero apoio substancial para mantê-la na linha.

— O que nos trouxe, Locke? – Com suas bochechas rosadas demais, ela finalmente fechou a porta e adentrou a sala carregando dois grandes pacotes pardos em uma das mãos, bem como quatro copos de alguma bebida qualquer.

— Er… Não havia muito o que fazer sem pedir com antecedência, então… trouxe alguns donuts, crumbles e scones.

— Sua intenção era nos matar com tanto açúcar no sangue? – Perguntou enquanto verificava o copo grande de chá preto com leite e ela dava de ombros, envergonhada por não comprar algo decente, embora Draco estivesse acostumado a comer qualquer coisa que vendesse na loja mais próxima de onde estava. Sem contar que conhecia a confeitaria próxima ao Ministério que a garota havia ido e o que quer que tivesse comprado não seria dinheiro jogado fora. – Granger, coma.

— Estou sem fome.

Então, ela passou o tempo todo examinando os livros da alta estante de madeira, silenciosa como uma coruja à espreita do dono, mesmo quando Zabine voltou e eles começaram a discutir os prognósticos que tinham em mãos. A questão era: tinham de atacar Weasley ao máximo para que Granger se saísse bem o suficiente aos olhos dos jurados e enfrentasse a próxima audiência com mais tranquilidade, afinal agora não sabiam qual era a intenção de Edgecombe. A observou passar os olhos sobre as anotações espalhadas sobre a mesa, os braços cruzados e a sobrancelha levantada, julgando-os silenciosamente por motivos que só cabiam a ela, como era de seu costume.

Tanto quanto isso, era esperado que ela se pronunciasse sobre como deveriam prosseguir – como sua natureza mandona demandava – e não guardar os pensamentos para si mesma, bons ou ruins. Entretanto, imaginava que a ameaça de ter toda sua estratégia de defesa jogada no lixo era mais frustrante do que qualquer outra coisa. Ela era Hermione Granger, suposto que tivesse todas as soluções para que fosse o problema. Nunca esteve preparada para não tê-las, para pisar fora dessa linha controlada que traçara para si mesma. O incômodo deveria matá-la por dentro.

— Locke. – Chamou quando todos já encaminhavam para fora, dado o fim do horário de almoço e recesso. A estagiária ajeitou os óculos grandes sobre o rosto e respirou fundo, preparada para, possivelmente, lhe dirigir todas as desculpas possíveis. – Não conte a ninguém o que viu aqui hoje.

— Eu não ia, Sr. Malfoy.

— Entende que isso não está protegido pelo sigilo entre cliente e advogado, certo? – A garota concordou, rapidamente enxugando as mãos suadas contra a calça xadrez esverdeada. – Não é uma ordem, é um pedido.

— Sabe, eu… — Ela mordeu os lábios rapidamente. – Eu estou presenciando-a lutar contra si mesma ao mesmo tempo em que precisa provar novamente ao mundo sua índole. De uma hora para outra, ela passou de heroína à pária da sociedade bruxa, sem ninguém para lhe dizer uma palavra de apoio e conforto, mesmo que já saibam tudo o que passou. É bom que ela tenha alguém como você, não?

A garota o encarou com seus perscrustosos olhos claros e, quando Draco não lhe deu resposta, ainda pensando sobre o que dissera, ela virou-se em direção a saída. Era uma presença realmente boa para Granger ou estava simplesmente condicionando-a a depender dele? E quando tudo aquilo acabasse e não houvesse mais desculpas para que a mantivessse saudável? No momento em que terminasse, aquela página deveria ser virada para trás? E quem a viraria, se fosse o caso? Sabia que não gostaria das respostas, caso chegasse a qualquer conclusão. Assim, apressou-se em acomodar-se em sua posição e e esperar que a audiência recomeçasse com a entrada de Griswold.

Ginny Weasley mostrava-se impassível. Do alto do banco de testemunhas, observando Edgecombe se aproximar, sabia que a intenção da mesma era dar uma versão piorizada de tudo que Granger lhe fizera, de como a castanha arruinara sua vida. Ao seu lado, possivelmente, a ré prendia a respiração, encarando a ruiva de forma desconfiada, esperando qualquer que fosse a natureza do ataque. Porque ele viria, qualquer leigo saberia. Após a entrevista de Weasley, tudo que se falava era sobre a rivalidade entre as duas mulheres e como a antiga Sra. Potter estava ansiosa em poder fazer justiça.

— Srta. Weasley…

— É Sra. Potter. Harry e eu ainda não assinamos os documentos do divórcio.

Declarou, cortando o Promotor e deliciando os repórteres, que passaram a escrever avidamente. Isso, muito provável, queria dizer que o incrível e inoxidável casal Potter poderia voltar. E “poderia” em linguagem jornalística sempre quis dizer “vão” ou “estão”. Weasley considerando reatar com Potter era uma grande manchete e algo interessante de se explorar em julgamento.

— Sra. Potter, como era sua relação com a Srta. Granger? Antes da morte do Sr. Weasley, eu quero dizer.

— Éramos boas amigas. Aliás, tudo começou porque Hermione se tornara amiga de Harry e Ron ainda em Hogwarts. Eu fui envolvida porque era irmã mais nova de Ron, para não ficar deslocada, pois… Não tínhamos muito em comum, tanto naquela época quanto nos últimos anos.

— Como você descreveria a Srta. Granger, tendo convivido com ela em todos esses anos?

— Protesto, Meritíssimo, Potter não é nenhuma especialista em personalidade para traçar o perfil de Granger aqui. – Não demorou a manifestar. – Qual a relevância?

— Estamos diante de alguém que realmente teve contato com a Srta. Granger durante a maior parte de sua vida. É importante para que os jurados conheçam a ré, como realmente era.

— Protesto negado, responda a pergunta, Srta. Potter.

— Hermione sempre foi boa com os que precisavam, mas arrogante. Ela parecia fazer favores e se aproximar das pessoas apenas para se mostrar como alguém superior, mesmo com Harry e Ronald. Tudo devia ser feito do jeito dela. Acho que, exatamente, por isso, ela e Ron sempre tiveram uma relação… — A ruiva meneou a cabeça, encontrando uma palavra. – Instável.

— Em que sentido “instável”?

— Ronald não era exatamente o tipo de marido que Hermione gostaria de ter tido. – Ela declarou tranquilamente. – Quer dizer, todos os que conviviam com eles percebiam e se perguntavam como aquilo podia dar certo. Ron simplesmente “aconteceu” para Hermione. Não foi algo que ela almejou e conquistou, apenas… Deixou acontecer e, um dia, decidiram que noivar era uma boa ideia.

— Mas eles eram amigos, certo? – Edgecombe insuflou.

— Deveriam ter continuado assim. – Weasley, finalmente, cravou os olhos em Granger, bem ao seu lado. – E talvez eu ainda tivesse um irmão e um marido.

— Você acompanhava de perto o casamento de seu irmão com a Srta. Granger?

— Sim. Como eu disse, ela sempre fora muito próxima a Harry. – Granger suspirou alto, parecendo farta das respostas céticas de Weasley.

— Então sabia a que pés a relação estava.

— Não até Ronald me procurar alguns dias antes de sua morte. – Ela abaixou os olhos rapidamente, mas logo voltou a fixá-los em Edgecombe. Como uma cobra, ele considerou, pronta a dar o bote quando necessário. – Ele me disse que iria pedir o divórcio, mas que não sabia como ela reagiria, porque… Hermione estava disposta a qualquer coisa para manter o casamento, ainda que não houvesse sentimentos entre ela e Ron. O casamento deles havia acabado há muito tempo, mas ela… Insistia e o prendia… Somente para não ter que passar pela suposta vergonha de ser divorciada. Aquela noite foi a gota d’água. Ela não reagiu bem, como ele previa…

— Protesto, Meritíssimo, a testemunha está acusando. – A ruiva quis matá-lo com os olhos. — Ela não é a Promotoria aqui.

— Quando descobriu que a Srta. Granger e o seu marido mantinham um caso? – Edgecombe continuou, antes que a juíza negasse.

— Semanas após a morte de Ron. Harry me confessou. – A voz dela tornou-se baixa, mas ainda assim forte em seu relato. Estava claro que o Promotor a havia preparado. – Disse que estavam juntos na noite da morte de Ronald. Foi quando soube que Hermione era mais dissimulada do que pensei. Quer dizer, ela havia acabado de estar com meu marido e quando chega em casa… Tem a intenção de, simples e meramente, livrar-se do seu próprio marido, meu irmão, aquele que havia sido um de seus melhores amigos? Sempre me pareceu inconcebível demais que fosse apenas coincidência. Ela matou Ronald e não sinto muito que esteja aqui para dizer isso.

— Meritíssima, isso é um absurdo! – Draco levantou-se, mas o Promotor já levantava uma das mãos como que para acalmá-lo, pois obviamente já tinha tudo que queria.

— A testemunha já foi clara o suficiente para mim, Meritíssima.

Draco revirou os olhos pela bajulação do Promotor e aproximou-se, não deixando de ver como Weasley o encarava desafiadora, esperando uma pergunta em que pudesse continuar o ataque à imagem de Granger, a qual já estava à ponto de quicar na própria cadeira para revidar Weasley. Era uma dificuldade para ela não poder falar ali, rebater a outra e dar sua própria versão dos fatos. Além de não estar no papel da defesa para expresser seu ponto de vista, se manifestar podia mostrar certa personalidade descontrolada ao Júri. Lançou um olhar a Zabine, que segurou o pulso da castanha sobre a mesa, contendo-lhe qualquer reação exacerbada.

Weasley. – Ela levantou uma sobrancelha ruiva pela ousadia. – Qual é o atual estado de seu relacionamento com Potter?

— Nos damos bem pelas crianças.

— E não considerou reatar o casamento pelo bem das crianças, porque…?

— Protesto, Meritíssima! Não tem porque o senhor Malfoy focar suas perguntas na vida pessoal de minha testemunha, não é o que está em voga aqui, além de ser um desrespeito expô-la dessa forma.

— Meritíssima, o único ponto que quero estabelecer aqui é em relação a imagem da testemunha. A pergunta é importante para que os jurados saibam o depoimento de quem, realmente, estão ouvindo. – Ele plagiou o argumento do Promotor, encarando-o com desdém. Geralmente, tinha mais respeito por seus colegas de profissão, mas não aquele homem.

— Responda a pergunta, Sra. Potter.

— Sim, eu considerei reatar o casamento em nome de minha família. Amo meus filhos e sempre amei Harry…

— Mas Granger foi um empecilho ao seu grande amor e sua família perfeita. – Ele a cortou antes que Weasley continuasse, aproximando-se para intimidá-la um tom mais baixo. – Sim ou não, Weasley?

— Ela estragou tudo que eu tinha de bom. – E Weasley, finalmente, mostrou seu amargor. – Minha família está destroçada pelo que ela fez a Ron, meus filhos choram pelo pai à noite porque ela o tirou de nós e me expôs ao rídiculo como a esposa traída pela melhor amiga, a própria madrinha de um dos meus filhos. É inaceitável que Hermione continue solta até hoje.

— Como vocês vêem, Sras. e Srs. Jurados, o depoimento de uma mulher claramente machucada, culpando outra pela traição de seu marido. – Aproximou-se, propositalmente, dos jurados. – Ninguém obrigou Potter a estar no Caldeirão Furado aquele dia, Granger não obrigou Potter a trair sua esposa, ele apenas poderia ir até a porta e sair. Weasley até considera reatar com seu marido, é claro, em nome da boa e tradicional família que aparentavam, mas porque continua a culpar Granger, repetidamente…

— Ela era a minha amiga! – Weasley levantou-se do banco, aumentando o tom para chamar sua atenção.

— Ele era o seu marido e não um coitadinho à mercê das garras malvadas e sedutoras de Hermione Granger. – Ele continuou, debochado. – Se Potter a traiu, deveria ter um motivo, não é, Weasley?

— Você não ouse, Malfoy…

— Sente-se no banco de testemunhas, nós não terminamos. – Ela ainda tentou discutir contra seu tom decisivo, mas a juíza a cortou e deferiu a mesma ordem, no que ela precisou respirar fundo e sentar-se com o resto de dignidade que lhe restava. Draco aproximou-se novamente e abaixou-se, para que seu rosto ficasse na altura do dela. — Agora, responda-me: porque Potter pode ser perdoado ao mesmo tempo em que empreita essa vingança descabida contra Granger? Ela não matou Weasley e sabe disso. Responda-me, Weasley!

O silêncio reinou no Décimo Tribunal. Weasley o encarava com os olhos lacrimosos de raiva, rodeados pela cólera que provavelmente também era vista em suas cinzentas órbitas. Podia ver todo o desprezo que sentia pelos Weasley refletido naquele rosto claro e cheio de sardas que era o de Ginny. Ela não era nada menos que medíocre e hipócrita, embora não pudesse utilizar-se de tais palavras. Queria despertar o júri para a má-fé dela, não fazer com que o detestassem por xingar a irmã do maldito morto. Então, quando a testemunha não se pronunciou, presumiu-se que ela não responderia à pergunta, relegando-se ao direito de continuar calada. Por isso, informou que não faria mais perguntas e pediu que a juíza a declarasse suspeita.

— É uma afronta que a defesa queira nomear toda testemunha da Promotoria como suspeita! – Edgecombe imediatamente prostetou. – Ginny Weasley deu o seu ponto de vista à respeito da personalidade de Granger, um relato mais do que valioso sobre o tipo conturbado de que casamento ao qual ela prendia Ronald Weasley e a traição embaraçosa submetida por Granger. Absolutamente tudo isso envolve a dissimulação que a ré emprega em suas relações.

— Meritíssima, você acaba de presenciar a fala completamente distorcida de uma mulher que está se aproveitando da morte do irmão para vingar-se de Granger por mera traição. Pelo que eu saiba, nossas leis não regulam adultério. – Voltou à Weasley escondendo em tom debochado. – Além disso, ninguém gosta de mulheres umas contras as outras.

Com isso, a juiza Griswold, felizmente, concedeu seu pedido, declarando a ruiva inimiga da parte e deu a audiência por encerrada, para que todos acalmassem seus ânimos, o que seria ótimo, visto que Granger, pela feição feroz, parecia querer atracar-se com a Weasley ali mesmo. Entretanto, antes que chegasse à bancada da defesa, a voz da mulher ainda se fez presente, chamando a atenção de todos e causando um alvoroço ainda maior no Tribunal.

— Você merece, Hermione. – O meirinho a segurou pelo braço, conduzindo-a mais rápido, embora não a impedisse de falar.– Ronald só estará em paz quando for condenada. Azkaban é o seu lugar, todos aqui sabem disso. Já está claro a vadia que sempre foi e tentou esconder durante esse tempo. Você merece, Hermione!

Draco suspirou exasperado quando a porta foi fechada e Granger fez questão de empurrar Zabine, que a mantivera no lugar enquanto a outra discursava. O movimento na platéia era grande e, quando olhou melhor, Arthur Weasley já não se encontrava mais entre os presentes, provavelmente desgostoso do show que a filha proporcionara. A castanha, por sua vez, amarrava com pressa o caso negro em vonta da cintura, as grandes e grossas golas caindo sobre os braços e peito com elegância, embora ela não parecesse se importar minimamente com isso no momento. Por isso, quando ela deu as costas à eles em direção a saída, fez menção de segui-la, mas a mesma levantou uma das mãos, impedindo-o com fúria.

— Não me siga.

Então, somente meneou a cabeça e observou como ela buscou a varinha em um dos bolsos e somente a apertou entre os dedos para que as pessoas abrissem caminho e ela passasse sem as esperadas interrupções. Provavelmente, sua cólera era sentida por qualquer um que encarasse seu rosto tomado por ódio por mais de alguns segundos, pois ninguém tentava se aproximar dessa vez. Não fazia ideia de onde ela iria, mas aonde quer que fosse, sentia muito pela pessoa, bem como rezava a Merlin que ela não fizesse qualquer besteira, ainda que fosse com a merecedora Weasley. Assim, voltou-se calmamente para Locke, claramente assustada pela reação inesperada de Granger, e a avisou tranquilidade que se encontrariam no escritório para a reunião que definiria os passos a audiência. Ela ainda tentou questioná-lo sobre a castanha, bem como Zabine, aparentando estar pela primeira vez genuinamente preocupado com sua cliente.

— Granger estará no escritório na hora que for necessário. Ela conhece suas responsabilidades. – Ele esperava que sim, sem levá-los a mais problemas. – Preciso passar em um lugar antes, nos encontramos lá.

Por isso, minutos depois encontrava-se pisando contra o chão de gramíneas molhadas e queimadas pela neve descongelada e fria demais para que aquele tipo de planta sobrevivesse. O lugar pequeno, com sua característica mesa de jardim ladeada por bancos compridos parecia abandonado devido ao tempo ruim dos primeiros meses do ano. Porém, era possível ver a iluminação que ultrapassava uma brecha de vidro na porta dos fundos, indicando que a casa não estava vazia.

Seus pés provocaram um ruído irritante até começar a subir os degraus da pequena área e abrir a porta, limpando a sola do calçado com a varinha, visto não ser a primeira vez que Andrômeda poderia lhe chamar a atenção sobre a “sujeira trazida da rua”. A senhora de conhecidos cabelos negros não encontrava-se na cozinha, o que o fez chamá-la com cautela, não demorando a identificar os passos que vinham diretamente do corredor de madeira para a sala.

— Draco! – Ela abriu um sorriso e os braços para apertá-lo, contra si. – Não esperava vê-lo hoje. Na verdade, sua visita está bastante escassa por aqui.

— O julgamento está ocupando muito do meu tempo.

— Não se preocupe, eu entendo, querido. – A tia o ajudou a desfazer-se do casaco, para ficar mais à vontade, e tudo que queria era não estar ali para fazer o que deveria. – Como foi o julgamento?

— Não muito bem. Weasley depôs hoje com todo o seu amargor e não sabemos qual será a estratégia do Promotor para confrontar o depoimento de Hermione. – Ele deu de ombros. – Ela ficou… Muito nervosa com as palavra de Weasley, o que me faz pensar sobre sua reação ao ser questionada por Edgecombe. Não sabemos que tipo de perguntas ele pode fazer, mas certamente será ofensivo com a intenção de tirá-la dos eixos.

— Venha, eu vou nos fazer chá e você vai me contar exatamente o que aconteceu com Ginny. – Ele a impediu de adentrar a cozinha, mantendo-se no lugar e respirando fundo ao encarar os olhos esverdeados e profundos da tia.

— Na verdade, tia, eu gostaria de saber… — Ele ainda a analisou rapidamente a senhora, pesando o quão a balança pesaria para a decadência daquela relação com o próximo passo que daria. Porém, sabia que era uma decisão tomada desde o recesso do Tribunal. – O que estava fazendo na tarde da morte de Weasley?

Andrômeda lentamente deslizou os dedos de seu pulso por sua mão até não estarem mais ligados por aquele contato. Draco viu as feições amenas serem substituídas pelo semblante da confusão e a mulher ainda o encarar melhor, arrebitando o nariz levemente – exatamente como Narcissa fazia em seus momentos de orgulho ferido e desprezo – como que perguntando-se se estava falando sério até finalmente se pronunciar, após chegar à conclusão de que ele não brincaria com algo do tipo.

— Por que está me perguntando isso, Draco?

— Você é a única pessoa que bate com a descrição da mulher misteriosa que visitou Weasley naquela tarde.

Notas finais
Capítulo 40, UFA!! Voolteeeei!! Me sentindo em uma maratona para postar esse capítulo porque passei O DIA TODO o escrevendo. Foi revisado, foi reescrito, foi revisado... Porém, perdoem-me os erros em nome de um capítulo com Ginny Weasley!! Xent, essa Ginny é do rancor né?!! O que vocês acharam da postura de Draco hoje no julgamento e da própria Hermione após o baque das coisas não terem saído como eles pensavam? Tudo começou como flores, mas infelizmente essa cama não é tão arrumada assim. Eles estão sempre sujeitos à essas reviravoltas. Que é o que a gente gosta mesmo! Eu tenho que dizer, me abrir para vocês, não é verdade?! Enfim, fofis no início por todo o amorzinho do último capítulo, fofis no meio com Locke bem premonitória ali e mais do que tensos no fim e aí eu pergunto... ONDE VAI HERMIONE DE VARINHA NA MÃO, MAS PARECENDO A OLIVIA POPE? Fica aí o questionamento né mores! Agora, mulher misteriosa = Andrômeda e seu característico estilo Bella Lestrange? O que acham da teoria de Draco? Surgiu agora ou ele já tinha isso em mente há mais do que a gente imagina. Cliffhanger? Temos. Bom, muito obrigada pelos comentários do capítulo anterior, vocês são uns lindos e umas lindas! Aos novos leitores que se manifestaram, sejam bem vindos. Aos antigos leitores, apareçam mais heeem! Estamos chegando ao fim e a opinião de vocês sempre foi importante. E como a gente já tá falando de leitura... Pra quem gosta da minha humilde escrita, como não tenho juízo algum, postei OUTRA DRAMIONE! Mistério, girl power, Draco em Azkaban, gente rica... Tá tudo lá, então quero vê-los se expressar também em Flores Selvagens, já que nosso contatinho está prestes a chegar ao fim por aqui né? :(( Enfim, deem uma olhadinha no link que vou deixar e comentem suas impressões. https://fanfiction.com.br/historia/748619/Flores_Selvagens/ Por hoje é só, juro que tentarei não demorar no próximo capítulo porque estou quase de férias e as ideias pipocam aqui! Beijão, até mais ♥