O eco do martelo soou novamente acalmando o burburinho que se instalara no momento em que um amedrontado Zach Fitzgerald confirmou a Parvati Patil o que acreditava ser verdade: que Hermione Granger mentira a respeito do horário em que chegara a própria residência na noite da morte de Ronald Weasley.

O Décimo Tribunal não era um centro de julgamento desorganizado e atulhado de pessoas desde o fim da Segunda Guerra, com a novamente movimentada condenação de Comensais da Morte – lembrava-se claramente. Entretanto, o círculo midiático organizado pela infame Lilá Brown acrescentado ao posterior fôlego que eles próprios arquitetaram para beneficiar Granger havia atraído os curiosos, além da imprensa.

De um lado, estavam todos os repórteres mais importantes do Mundo Bruxo Europeu, com suas máquinas fotográficas, que soltavam um novo flash a cada minuto na tentativa de conseguir uma expressão diferente de Granger – talvez uma que pudesse desvendar tudo que se passava em sua conturbada mente, como se isso fosse possível; seus blocos de anotações e as irritantes penas de repetição rápida, além das feições ávidas por uma decisão ou algo que pudesse lhes dar uma página inteira de normal, com sorte a primeira.

Em contrapartida, havia também os presentes que compareceram apenas para observar e repassar a história aos demais sobre como a ré parecia inabalável sob a máscara de frieza que ostentava desde que puderam vê-la circulando pelos corredores do Ministério da Magia em direção aos tribunais. Era como uma subida orgulhosa ao cadafalso. Era como Ana Bolena. Ela apenas observava tudo com ar de superioridade, como se nada pudesse atingi-la e tudo aquilo não passasse de um absurdo, que provavelmente deveria ter mais o que fazer, pois ela era Hermione Granger.

Aquilo não havia sido combinado entre eles, na verdade. Imaginava que a mulher fosse o tipo de cliente que o chamaria a cada minuto para sussurrar em seu ouvido uma coisa ou outra que pudesse estar esquecendo, como se tal absurdo fosse razoável, afinal geralmente os advogados eram os clientes mais chatos que se poderia ter. Eles sempre queriam colocar o dedo sujo no que pudessem alcançar, tentando resolver o que não estava em sua alçada, dando um palpite supostamente despretensioso aqui e ali, exemplificando o modo como eles mesmos trabalhavam como sendo o mais acertado, esquecendo-se que eram apenas clientes no momento.

Assim, detestava defender advogados em geral. Granger não fora diferente disso até então, mas ela era um caso à parte, obviamente. Ela era extremamente mandona, ela questionava seus métodos, ela gostava de dar pitacos desnecessários a respeito de tudo que envolvia o próprio processo. Contudo, o fato de não se falarem a exatos três dias talvez estivesse contribuindo com seu imaculado silêncio, ainda que todos estivessem tentando quebrá-lo.

Haviam sido seguidos por todos os corredores marmoreados do Ministério, os repórteres elaborando perguntas instigantes que pudessem desenvolver alguma emoção em seu alvo, preferencialmente a cólera. Todo aquele circo de jornalistas havia sido especialmente pensado para que a pessoa que estivesse em sua mira tivesse uma reação diferente daquela que teria normalmente, se fosse uma situação diferente e controlada. Eles queriam vê-la agir sem pensar.

Desapontando a todos, entretanto, Granger se mantivera quieta e irrepreensível até mesmo enquanto esperavam a entrada da juíza Griswold. Não fez questão de se voltar a ela em momento algum, se era distância que ela queria, distância Granger teria. Como seu advogado, de qualquer forma, a representaria normalmente na audiência preliminar. Não era a mais importante, servia apenas para embasar um despacho favorável a continuação do processo, caso não houvesse acordo, após expostas as primeiras provas.

Seria ótimo que o processo de Granger se finalizasse ali mesmo, em sua fase inicial, evitando meses de desgaste emocional a ambos e, principalmente, a ela. Como o problema já não mais dependia do Quartel General de Aurores e seus interesses privados, não era de todo impossível que o tribunal os incentivasse cada vez mais a um acordo que poderia beneficiar as duas partes. Além disso, a juíza Griswold era conhecida por sua natureza extrema e quase desnecessariamente conciliatória.

Dessa forma, encarou Parvati Patil, em polvorosa com o resultado de seu teatro barato, satisfeita pelo efeito causado nos presentes, embora pudesse ver um resignado Potter remexer-se desconfortável em seu lugar, certo de que a causa não era o banco duro de madeira maciça. Percebeu o olhar de Granger sobre si, provavelmente analisando-o para saber se faria algo em relação à Patil, apesar de suas opiniões divergentes, mas não deu atenção e levantou-se abotoando o terno quando a sala esteve novamente em silêncio.

— A testemunha está aberta as perguntas da defesa.

— Sr. Fitzgerald, relatou a Promotora Patil que, na noite do ocorrido, se encontrava no pub local, The Crown. O senhor estava alcoolizado?

— Sim, mas não a ponto de não saber as horas. – O jovem riu com desdém, o que irritou, pois nos últimos dias tudo tinha o poder de fazê-lo.

— Já que mencionou, a que horas o senhor chegou ao pub?

— Um pub não vende apenas bebidas.

— Não foi a minha pergunta. – Apoiou-se ao balcão que o separava de Zach, o qual claramente sentiu-se intimidado.

— Protesto, Meritíssima! – Patil levantou-se, mas Draco não se preocupou, apenas continuou encarando o garoto. – Completamente irrelevante, os horários da testemunha não estão em questão. Zach Fitzgerald não é réu aqui. Seus hábitos...

— A relevância se dá a partir da observância do quão sua testemunha estava alcoolizada. Se ela é capaz de afirmar com certeza os horários de uma mulher que não passa de uma conhecida com quem nunca trocou mais de duas palavras. Logo, a informação torna-se importante.

— Responda a pergunta, Sr. Fitzgerald. – A juíza declarou, resignada.

— Eu estava no The Crown desde o horário em que saí do trabalho. – Ele desviou o olhar, envergonhado. – Provavelmente, 18h30min.

— Provavelmente. – Concordou em tom condescendente. – Então, não pode afirmar com certeza que Hermione Granger chegou no horário que você alega.

— Protesto, Meritíssima! A defesa está conduzindo a testemunha.

— Sem mais perguntas, Meritíssima. – Finalizou antes que a senhora juíza perdesse a paciência com ele e com a voz de Patil interrompendo-o intempestivamente a cada pergunta. Ela estava mais atenta do que nunca, notou ao sentar-se.

— Sra. Patil, mais alguma pergunta à sua testemunha?

Patil negou e todos observaram o garoto ser encaminhado a uma sala adjunta ao tribunal, claramente controlando-se para não sair correndo. Viu que os jornalistas tinham blocos de anotação manuais, além daqueles que usavam a repetição rápida, e que todos escreviam suas observações de forma rápida, provavelmente já pensando na frase de efeito a ser usada na matéria que produziriam assim que saíssem dali.

— A defesa trouxe testemunha para depor?

— Sim, mas visto o acontecido agora não será necessário chamá-la. – Desdenhou com um olhar superior em direção à mulher e pigarreou quando Griswold anunciou que seguiriam a argumentação final, já que Carrie Wilkins, a garçonete do The Crown, não seria chamada. – Meritíssima, torna-se óbvio que o burburinho promovido pela acusação é inútil. Suas provas são inconclusivas e completamente questionáveis, como todos pudemos perceber aqui.

— O que é inquestionável, então? – Parvati se manifestou. – O depoimento da ré, dado ao QG dos Aurores, sem qualquer tipo de juramento e compromisso com a verdade?

— A índole de minha cliente é inquestionável.

— Ah, por favor! – A Promotora exasperou-se. – Já esclarecemos uma vez como ela fingiu uma vida feliz durante anos enquanto seu casamento desmoronava, a ponto de Weasley manter uma amante e pedir o divórcio, não vamos entrar nessa seara novamente.

— Meritíssima, todos nós concordamos que havia um casamento em crise, sim. – Retrucou tranquilamente. Gostava de como mantinha o sangue frio em audiências como aquela, como raramente perdia o controle. Era como um dom. – Mas se toda crise conjugal resultasse em assassinato teríamos um surto! Weasley realmente pediu o divórcio? Quem pode assegurar com certeza?

— Cho Chang o fez sob pena de cometer crime de perjúrio, caso mentisse sob juramento.

— Cho Chang afirmou que Weasley tinha os documentos do divórcio, mas não que o tenha pedido. – Ele teimou. — As chances de Ronald Weasley ter mudado de ideia nesse caso são gigantescas, sua história com Granger foi duradoura, atravessou anos de amizade e turbulência em uma guerra. Não se trata de um compromisso passageiro nascido em uma tormenta. Hermione Granger e Ronald Weasley confiavam-se mutuamente e isso não é questionável, Srta. Patil.

Não se intimidava por usar certas mentiras em sua arguição, não era ele quem estava sob juramento ali, então deveria aprouver-se de tudo que estivesse a seu alcance para convencer o juízo de que seu argumento era o melhor ali, valendo até mesmo voltar-se aos anos dourados da insuportável tríade Potter-Weasley-Granger e a emoção coletiva que os envolvia.

— Não é questionável por que sua cliente, que comprovadamente sofre de depressão, uma doença que tem como consequência a interpretação distorcida da realidade, afirma, Sr. Malfoy?

Ela objetou pomposamente, provavelmente comemorando internamente que tivessem chegado ao ponto de ter podido mencionar a doença de Granger. Todos sabiam, é claro, não é como se a juíza Griswold estivesse em um mundo paralelo à sociedade nos últimos meses, ela era a sociedade também. Entretanto, era preciso mencionar isso e provar para que fosse levado em consideração nos autos do processo.

Pôde ouvir com clareza o arranhar da pena do Escriba da Corte cessar, como se o próprio tivesse acabado de prender a respiração, assim como todos na sala. Patil o encarava com um maldito sorriso quase incontido nos olhos e a juíza Griswold o olhava por cima dos óculos com uma expressão calma, pacientemente esperando sua réplica. Granger, no entanto, tinha os olhos voltados ao tampo escuro da mesa de madeira à frente deles. Sua ignorância era completamente insuportável.

Tudo isso, entretanto, aconteceu em apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para que os repórteres se voltassem aos blocos de anotação, provavelmente descrevendo como vacilou, ainda que minimamente, ante o argumento de Parvati Patil; e o bastante também para que Ginny Potter apertasse os olhos e se inclinasse para frente no assento ao lado do marido, torcendo avidamente para que declarasse findadas as alegações da defesa.

— Exatamente, pois independe da afirmação única de minha cliente, supostamente incapaz de dar uma declaração confiável a respeito da própria vida. – Respirou fundo brevemente, estranhando a demora em construir uma resposta suficientemente boa quando sabia tudo que deveria dizer para colocar uma semente de dúvida na mente de todos. – O que aleguei, no entanto, é de conhecimento público. Pergunte a qualquer um, pergunte a Harry Potter, que vive em fogo cruzado para defender a amiga e esperar pela justiça que a condena pelo assassinato do melhor amigo de ambos. A justiça talvez não seja tudo isso que esperam dela, ao menos não com determinadas pessoas agindo em seu nome.

— O que está insinuando? – Nesse momento, o rosto de Patil, até então calmo por estar conduzindo a audiência de igual para igual, contorceu-se em fúria. – Meritíssima, a defesa quer fazer entender que...

— Tudo bem, Srta. Patil, vamos encerrar aqui. – A juíza verificou as próprias anotações. – Posso prever, pelo teor das alegações das partes, que não chegarão facilmente a um acordo.

— Ofereço 15 anos em Azkaban, com redução progressiva de pena, em cela especial devido à posição social ocupada pela ré.

Patil foi mais do que rápida, espantando todos os presentes, inclusive Granger. Os comentários foram se tornando cada vez mais altos à medida que Draco encarava a mulher a seu lado, observando-a empalidecer e engolir em seco, embora se recusasse a encará-lo. Evitou um revirar de olhos e voltou-se a Patil, dissimulando um sorriso falso no rosto para desdenhá-la.

— É melhor crucificá-la logo de uma vez, se é o que deseja, Patil! – Voltou-se à Griswold. – Meritíssima, isso é um absurdo, a defesa não aceitará nenhum acordo que não importe a inocência de Hermione Granger. Peço que encerre a audiência.

— Srta. Patil, algo mais a acrescentar? – A morena negou e a juíza prosseguiu.

— Anote: como nenhuma das partes trouxeram provas que realmente sanassem as alegações a respeito da conduta culposa ou inocente da ré, o caso vai a julgamento.

O som do malhete ecoou novamente, mas dessa vez para dar efeito à decisão da juíza, que não se demorou a levantar-se e encaminhar-se à própria câmara, antes que os repórteres presentes a abordassem. Assim, viu Granger levantar-se calmamente, ajeitando um vinco inexistente do vestido marrom de mangas que ia até abaixo do joelho, e também dirigir-se ao gabinete reservado à sala da defesa, onde poderia ter alguma tranquilidade antes do constante assédio jornalístico que certamente a cercaria.

Não teve pressa em segui-la, porém. Reuniu seus documentos e anotações de forma manual, consciente dos olhares ferinos sobre ele, dos repórteres e da plateia comum, mas tinha certeza de que se resolvesse lhes conceder cinco palavras, três delas seriam xingamentos e duas alternariam entre uma ofensa a Lilá Brown e uma crítica a Granger. Estava acostumado a criticá-la, era o que sempre fazia quando deixava o Décimo Tribunal após uma audiência de um caso importante contra a mesma. Tinha as palavras na ponta da língua para fazê-lo, sempre, não importasse a situação. Entretanto, agora estavam do mesmo lado e tecer censuras públicas à própria cliente não era o adequado, obviamente, ainda que esta merecesse. Então, simples e resignadamente optou pela razão e, consequentemente, o silêncio.

— Sr. Malfoy. – Ele levantou a cabeça àquele que o chamava assim que travou a maleta de couro de dragão.

Surpreendeu-se quando percebeu que quem o abordava, de forma temerosa e hesitante, era o Escriba da Corte. Analisou-o rapidamente, em seus olhos claros escondidos por óculos grossos, cachos escuros e um nariz mais adunco do que seria apropriado, constatando que jamais havia trocado duas palavras com ele. O homem não poderia ter mais de 25 anos e carregava a pasta de couro marrom com os relatórios da audiência embaixo do braço, como se pudesse perdê-los de alguma forma.

— O que quer?

— Eu gostaria de agradecer. – Draco apenas levantou uma sobrancelha. – Sou irmão de Amelia Baird e... O que fez por nossa família...

O caso lhe veio à mente automaticamente. Era uma ação da irmã do mesmo alegando assédio sexual contra um obliviador qualquer do Ministério. Amelia Baird, entretanto, havia sido tão constrangida no local de trabalho e tão negligenciada pelo Ministério da Magia que tal combinação ensejou em uma indenização nada modesta à garota, a qual, por sua vez, acabara de sair de Hogwarts.

— Tudo bem, meus honorários foram bastante generosos para defendê-la.

Então, simplesmente deu às costas ao homem, considerando que deveria encarar a defesa de Granger dessa forma desde o princípio: apenas um caso onde, futuramente, receberia honorários muito compensatórios por defender uma Promotora renomada do Ministério, além da heroína de guerra que sempre fora idolatrada por todos. Poderia ser o caso de sua vida se não houvesse se deixado levar por seus desejos infantis, se não houvesse agido de forma tão impensada desde o começo.

Porém, antes de alcançar a porta onde Granger se encontrava, sentiu-se ser observado e quando se virou para saber quem era, encontrou Parvati Patil olhando-o com um sorriso superior muito pouco característico de alguém que o estava enfrentando no tribunal, o que o fez querer lhe esfregar na cara tudo que sabia sobre ela. Antes que cedesse à tentação, empinou o nariz quase imperceptivelmente e apenas girou a maçaneta de bronze da pesada porta de madeira maciça.

A pequena câmara era uma sala de apoio à defesa com livros jurídicos dispostos em uma alta prateleira, uma escrivaninha grande e três confortáveis poltronas ao redor de uma lareira de mármore escuro sob um quadro que retratava uma paisagem inglesa qualquer. Ainda se surpreendia sobre como os ingleses poderiam ser preciosistas ao extremo.

Granger, por sua vez, estava encostada a escrivaninha, encarando-o como se quisesse tirar a varinha do bolso a qualquer momento e atingi-lo com um feitiço doloroso. O vestido marrom de veludo, apesar de conter mangas, deixava os ombros à mostra, assim como contornava sinuosamente todas as curvas que constantemente faziam o papel de lembrá-lo por que se deixara envolver tanto.

Assim, simples e calmamente, desfez-se da maleta, deixando-a sob uma poltrona qualquer e aproximou-se para que pudesse servir-se da jarra d’água que costumeiramente estava disposta ali em uma bandeja de prata. Os olhos dela, ainda naquele tom de mel e avelã que tornavam seu rosto delicado, tinham um brilho raivoso palpável, o qual só se mostrara comum quando ainda traçavam os primeiros esboços da relação que construíram tão tortuosamente ao longo daqueles meses.

Antes que pudesse se manifestar, no entanto, observou-a calmamente voltar-se à mesa, também servir-se e encará-lo por algum tempo de forma fixa, quase perturbadoramente, antes de despejar todo o conteúdo do copo cheio em seu rosto. A água fria escorreu por todo o seu rosto uniformemente até encontrar seu terno e a gola de sua mais nova camisa preta. Limpou os olhos rapidamente e encarou, furiosamente.

— O que pensa que está fazendo?!

— Que porra foi aquela lá fora, Malfoy?

Ela bateu o copo com toda a força contra a escrivaninha, quase a ponto de quebrá-lo, mas seu tom ainda era contido em comparação com a raiva que aprendera a ler em suas feições. Estava completamente molhado e Granger não parecia nem um pouco arrependida. Do alto de sua altivez e razão, sequer reagira à sua motivada indignação, o que o lembrava muito a antiga Granger que tanto tentara trazer de volta – talvez com um pouco menos de classe.

— Você hesitou! – Granger continuou, afastando-se. – Hesitou em um momento com o qual havíamos contado desde o começo. Sabíamos que Patil estava procurando uma oportunidade para citar a depressão e você, não satisfeito de lhe dar brecha para isso, hesitou em fazer uma réplica plausível!

— Plausível? – Ele buscou a varinha na pasta. — Eu fiz o que era necessário atacando aqueles que, primeiramente, empreitaram uma caça às bruxas contra você. É preferível plantar uma semente de dúvida onde não há nada ou apenas confusão do que, simples e rasamente, defendê-la como se realmente houvesse feito algo errado.

— Quem garante que há dúvida ou confusão, Malfoy? – Granger bufou andando de um lado a outro. – Todos estão com uma ideia formada até agora, todos fizeram o seu papel para que tivesse. Quem não escolheu um lado, não o fará mais. As coisas são assim e você está apenas tentando justificar sua hesitação perante Parvati Patil.

Certo, havia hesitado, mas jamais admitiria isso a Hermione Granger. Não enquanto estivesse a defendendo, não para que ela acumulasse argumentos para fazê-lo enxergar que estava errado. Sabia que sim, mas também tinha em mente que as próprias atitudes dela eram as responsáveis para tanto. Sua cabeça estivera a mil nos últimos dias e não pudera contar com ela em momento algum, ainda que ambos soubessem que rachados da forma que estavam não conseguiriam um bom resultado. Como havia ocorrido.

— Agora percebe por que precisamos desmotivá-la? – Granger apenas revirou os olhos, como se estivesse ouvindo a maior besteira de sua vida, enquanto Draco ainda não acreditava que estava tendo aquele tipo de discussão com ela. Novamente. Eram os seus métodos de trabalho e ela deveria aceitá-los, ainda que não estivesse contente com eles, pois só assim estaria confiante o suficiente para afirmar que não havia chances de ela ir para Azkaban. – Desde que Ginny Weasley praticamente deflagrou uma guerra civil contra você, Patil está confiante demais em si mesma. Confiante de uma forma que não seria saudável a nenhuma parte contrária...

— Eu não posso acreditar que está mesmo cedendo à pressão de Parvati!

Ela parecia mesmo um pouco incrédula, mas tudo que queria era fazê-la entender o seu ponto de vista, o que se mostrara um tanto quanto mais complicado que o saudável nos últimos dias. Não se falavam mais desde que Dawlish chegara a Mansão Malfoy, exatamente no dia de Natal, anunciando que fizera certas descobertas sobre Patil. Granger simplesmente não aceitava que precisassem recorrer a uma via tão instável para fazer com que a agora Promotora Oficial recuasse, além de considerar a técnica injusta, clara e desgostosamente – ao menos a ele – lembrando a nobre grifinória que ela costumava ser.

Parvati Patil, que substituíra Hermione Granger em seu ofício no Ministério da Magia, Departamento de Execução das Leis de Magia, havia sido casada por sete anos com Eustace Ollivander, um dos netos do fabricante de varinhas do Beco Diagonal. Eustace, apesar do gênio um pouco retraído, fora um dos responsáveis por expandir o negócio da família a outros pontos do Reino Unido, inicialmente, e posteriormente a Alemanha e Itália. Devido a isso, de acordo com o que Dawlish relatara a ambos em uma reunião fechada naquele dia, o marido de Patil viajava constantemente para tratar de negócios e não demorou a que o casamento acabasse sem muito alarde, a não ser uma nota em uma coluna social qualquer de segundo nível.

Segundo o auror aposentado, no entanto, a família Ollivander pagara a Patil para que se separasse do marido após a descoberta de um caso que ela mantivera por alguns meses com um desconhecido de nome desimportante. Até então, a família de Eustace sempre evitara tocar no assunto do casamento fadado desde o início ao fracasso devido ao “comportamento inapropriado” que a mulher mantivera durante os últimos anos de aliança – até mesmo devido ao fato de o homem ter se casado novamente com Harriet Flatt, uma trouxa.

Este caso não fora o primeiro, segundo o filho de Ollivander, mas tornou-se recorrente após algum tempo, até que todos considerassem a situação insuportável. Draco lembra-se de ter pensado que todo o casamento sob os palpites da família Ollivander deveria ter sido um tanto quanto inconveniente, mas não se importou o suficiente para gastar mais do seu tempo pensando sobre o assunto. O que o interessava era a quantidade de pessoas, homens e mulheres, com quem a Promotora mantivera relações durante um período de tempo relativamente curto: havia sido oito apenas nos dois últimos anos.

Draco, dessa forma, estava pronto para se utilizar de tal valiosa informação. Entretanto, Granger manifestara-se firmemente contra. Isso por que era um insulto às mulheres que a vida sexual de Parvati Patil fosse regulada a tal ponto apenas para que ganhasse uma causa, além de ser um atentado à sua liberdade sexual, pois o fato de ter tido vários parceiros e parceiras não deveria ser vergonha – e nem mesmo um orgulho, argumentou Granger furiosamente, mas apenas normal.

— O que você esperava, então? – Lembrava-se de perguntar a uma Hermione Granger incrédula, mas ela pareceu muito certa do tinha em mente quando respondeu.

— Eu esperava corrupção no Ministério. Esperava encontrar um caso em que ela tenha errado tão feio que poderia por fim a carreira dela. Esperava que Dawlish trouxesse uma conduta errada de Patil em sua profissão, que é o que temos em comum, que é a única coisa pela qual ela luta no momento, não um ato de sua vida pessoal, da qual ninguém tem nada a ver. – Ela suspirou, escondendo os olhos sobre os dedos. – Estou cansada de ter pessoas que sequer conheço bisbilhotando em minha vida, como se tivesse algum direito para tanto. O que está tentando fazer com Patil é exatamente o mesmo e eu não vou permitir.

Draco apenas a encarava, ainda processando que aquela Hermione Granger à sua frente, ainda tinha princípios sólidos para impedir algo que poderia ajudá-la apenas por que iria prejudicar alguém de forma “injusta”, como se Parvati Patil fosse o tipo de pessoa que merecesse um tratamento tão refinado. Então, apenas depositou a taça de água que ainda tinha em mãos àquela altura e a encarou após considerar friamente o que lhe diria.

— Quando se encontrar presa em uma cela apertada em Azkaban, ouvindo os gritos dos outros prisioneiros, o lamento e o choro compulsivo que nunca, nunca cessa, irá se lembrar de que teve a oportunidade de impedir que acontecesse, mas decidiu não usar devido ao ridículo senso de justiça que ninguém teve com você.

Não se importou de proferir tais palavras. Eram verdades que deveriam ser ditas por alguém a Granger, com o intuito de fazê-la enxergar que não estava mais protegida pela bolha do Ministério ou – o que ainda lhe era um tanto quanto patético – do sobrenome Weasley, que se tornara ainda mais pesado após a Segunda Guerra Bruxa. De qualquer forma, aquele era o mundo real e estavam lutando para mantê-la nele. Ou, ao menos, Draco estava.

Assim, Granger voltou a Mansão Black, não antes de se despedir de Narcissa, e Draco se deixou afastar-se durante os últimos dias. Precisava de tempo para pensar: em sua vida, no processo para defender Granger, em Granger. Considerou, no entanto, que a escala de desorganização nunca havia sido tão extrema e a responsabilizou por isso, pois, do contrário, estaria concentrado no que realmente interessava desde o início, no objetivo que primeiramente os uniu, que era mantê-la longe de Azkaban.

— Ainda não entende por que precisamos atingi-la, desmoralizá-la...?

— Não, não entendo! Por que desmoralizá-la só irá deixá-la mais forte! – Granger estava muito estressada. – Se for para jogar e não derrubá-la completamente, então nem jogue, Malfoy!

— A mínima menção de colocar isso na mídia justamente agora fará com que ela recue, Granger!

— Se tivesse tanta certeza assim, teria feito isso desde o começo, apesar de minhas objeções. – Ela também passara a conhecê-lo bem durante todos aqueles anos em que eram considerados “inimigos de tribunal”. A verdade é que não pudera prever que tê-la argumentando contra suas ideias iria jogar sua autoconfiança no ralo. – Patil não precisa ser desmoralizada, mas derrubada. Não tem que ser algo momentâneo, tem que ser algo que ela não poderá questionar conosco e, principalmente, com a mídia.

As chances de que Dawlish encontrasse algo que fizesse com que Patil pudesse recuar eram mínimas, mas ainda assim relutava em agir da forma que gostaria, como se Granger o estivesse segurando ou algo do tipo. Até então, suas ideias a respeito do processo haviam se convergido em um ponto de satisfação para ambos, mas deveria ter sido claro que na primeira divergência não seguiriam como estavam justamente por se tratarem de dois polos de ações muito distantes um do outro.

— Vamos embora, Granger.

Ela ainda o encarou por alguns momentos de braços cruzados, como se estivesse considerando se deixaria a decisão terminara ali, antes de dirigir-se ao casaco branco comprido e o cachecol, os quais se encontravam em um pequeno armário apropriado atrás da porta. Ninguém se pronunciou sobre qualquer coisa até que, no corredor, se deparassem com Patil conversando com alguns colegas do Ministério enquanto esperavam o elevador.

Era tudo de que realmente precisava, além dos jornalistas que certamente os esperavam em peso no átrio. Patil tinha as feições exultantes enquanto claramente era parabenizada por seu desempenho no tribunal. Ela gostava de ser o centro das atenções, parecia ser uma meta receber louros e glórias, ser reconhecida. A mulher não trabalhava para si, mas para provar aos outros que era boa no que fazia.

Cumprimentou formalmente a Promotora e os demais funcionários jurídicos do Ministério, mas Granger não se importou em fazer o mesmo, apenas estacou ao seu lado encarando o marcador do elevador e provavelmente considerando que era lento demais. Pensando melhor, certamente ainda era ressentida do fato de ninguém ter se colocado ao seu lado quando o QG dos Aurores resolveu fazer dela um alvo.

De qualquer forma, o elevador chegou e abriu-se em um baque sonoro relevando um Blásio Zabine altivo. O negro olhou a todos de forma superior, inclusive os ministeriais ali presentes e encaminhou-se a eles carregando um sorriso zombeteiro pouco característico de suas feições. Seu colega soltava sorrisos desdenhosos, com frequência, mas não era zombeteiro. Nunca.

— O que aconteceu?

— Há uma pessoa que quer vê-lo no escritório. – Ele encarou Granger. – Com urgência.

Passaram por sua mente todas as hipóteses de quem poderia estar esperando-o, mas não conseguiu chegar à conclusão satisfatória alguma. Deveria ser importante, sabia apenas disso. Do contrário, Zabine faria com que o fulano ou fulana esquentasse a cadeira por algum tempo. Assim, todos se encaminharam novamente ao elevador, bloqueando o caminho de Patil e seus colegas, os quais tinham a mesma ideia.

— Este já está cheio.

Viu Patil levantar uma sobrancelha indignada, mas também percebeu que ela não faria nada para impedir o elevador de se fechar e continuar esperando, pacientemente. Isso, supôs com quase certeza, por que sabia que os jornalistas estariam de prontidão no átrio e não gostaria de alimentar nenhum boato sobre a imparcialidade do Ministério naquele caso. Se não soubesse que a gêmea havia sido uma Grifinória, chutaria que era uma cobra Sonserina pronta para dar o bote.

Ela estava muito enganada se achava que poderia tentar isso com ele, pensou ajeitando o terno e sentindo o olhar de Zabine sobre ele e, posteriormente, Granger percebendo que o clima não era dos melhores. Ela ainda continuava em seu regime de silêncio, o que o estava irritando ao extremo. Haviam ficado sem se falar por dias e o fato de estarem no mesmo ambiente e ainda assim não fazê-lo só reforçava sua tese de que não poderiam fazer aquilo dar certo em nenhum panorama aceitável e minimamente realístico. Eram orgulhosos demais, não aprenderam a recuar para aceitar e entender as motivações um do outro e, àquela altura da vida, não o fariam.

Os repórteres não decepcionaram quando, enfim, chegaram ao átrio. Uma vastidão de flashes os cegou por todos os lados, assim como as perguntas. Era impossível ouvir uma questão inteira sem que esta fosse abafada por outra mais alta ou mais próxima. Granger, por sua vez, apenas abaixou a cabeça e continuou seu caminho, indisposta ou furiosa demais para responder sem que falasse demais. Viu quando ela aproximou-se um pouco mais, discretamente, provavelmente tentando colocar o máximo de distância possível entre si e os repórteres, então a segurou pelo cotovelo e a guiou entre a multidão.

— Vá para casa. – Orientou quando já se encontravam próximos às lareiras e Zabine colocava alguma ordem no local.

— Mas e se for algo importante, eu preciso...

— Não, não precisa. – Ela o encarou indignada, os lábios abrindo-se prontos para retrucá-lo. – Volte para a casa e conversaremos depois.

Mais furiosa do que se encontrava antes, ela desvencilhou-se de sua mão bruscamente e encaminhou-se à lareira pronunciando o nome do lugar para onde gostaria de ir. Draco já havia tomado sua decisão, o que provavelmente a afastaria ainda mais, entretanto, seria pelo bem de todos e ela deveria entender. Dessa forma, estressado, voltou-se a multidão de jornalistas.

— Parvati Patil tem o intuito de formar um tribunal de exceção aqui. – Todos começaram a anotar de forma ávida. – Ela quer condenar minha cliente antes que os recursos de defesa se esgotem por que sabe que não dispõe de provas suficientes para tanto. Eu espero que o Ministério da Magia como um todo, em especial o Departamento de Execução das Leis de Magia, não compactuem com uma afronta como essa aos princípios que regem o Direito Mágico. Se existe uma pessoa que não merece passar por um processo ilegítimo na busca pela justiça, esta é Hermione Granger.

Várias outras perguntas foram proferidas e infinitos flashes disparados, mas simplesmente virou-se à lareira e logo se viu no hall do próprio escritório olhando para uma tranquila Sra. Smith, que ajeitava flores em um vaso de cristal qualquer. Zabine desaparatou logo em seguida e ambos rumaram à sala de Draco, onde, de acordo com sua secretária, a visita o esperava.

Surpreendeu-se, portanto, ao deparar-se com Dawlish esperando-o pacientemente com as mãos presas às costas em uma postura quase militar enquanto encarava o movimento no Beco Diagonal. Em uma situação normal, diria expressamente que ele não deveria ser visto em seu escritório, pois todos que interessavam sabiam o tipo de serviço que o homem prestava atualmente. Contudo, o homem era esperto e não apareceria sem que fosse extremamente necessário.

— Malfoy.

— Como vai, Dawlish? – Draco desabotoou o terno e sentou-se à sua escrivaninha, observando o outro.

— Conte a ele o que me contou. – Pediu Blásio, no que franziu o cenho, esperando.

— Quando entreguei o meu relatório a vocês na noite de Natal, não notei um detalhe. – Dawlish pareceu incomodado por destacar o próprio erro. – Lhes disse que Patil manteve casos enquanto esteve casada com Ollivander, é certo. O que deixei passar é que, coincidentemente, algumas pessoas com as quais ela teve relações foram testemunhas importantíssimas de ações que a própria Patil ganhou enquanto Promotora do Ministério da Magia.

Draco encarou Zabine, um pouco pasmo pelo panorama que Dawlish construía à sua frente, mas ainda assim sentindo algo contra Patil começar a se formar concretamente. Algo que colocava a carreira dela em jogo, como Granger queria desde o princípio, e que não feria sua liberdade sexual por que não se tratava mais apenas disso.

— Está me dizendo que Patil... – Começou lentamente. – Troca sexo por testemunhas?

— Sim. – Não se conteve, sentindo os olhos arregalarem ligeiramente. – Posso lhe mostrar o esquema que fiz para chegar a essa conclusão.

— Oh, eu quero muito vê-lo.

Após o primeiro susto, Draco encostou-se à cadeira, formando em sua mente um tabuleiro de xadrez onde poderia jogar de várias formas com o novo truque surgido. Isso iria mudar tudo, independente da maneira que resolvesse usar a informação. Sentiu um riso vir à garganta, afinal uma história como aquela jamais lhe seria uma hipótese plausível, embora devesse considerar que cada um usava as armas ao seu alcance ali. Era o que faria, a exemplo de Patil. Assim, quando notou, já estava às gargalhadas sob os olhares um pouco assustados de Zabine e Dawlish.

Notas finais
Oi bonitoooos! Sim, estou marcando presença no carnaval!! Olha como considero vocêêêês!! E também por que não fui rebolar minha bunda com MC João ^^ Voltando!! Eu avisei a algumas pessoas que seria treta atrás de treta :D Absolutamente adoreeeeei escrevê-lo, sinceramente, eu queria tanto chegar nessa parte *_* Gostaram do capítulo? Tudo bem, sei que vão querer me matar por colocá-los tão distantes depois de um capítulo tão amorzinho como o anterior, mas viram a necessidade né? Olhem pelo lado bom, ao menos ainda vemos Hermione com seus antigos princípios e Draco em uma audiência hesitando por BONS motivos, vocês viram! E o segredo da Patil?!!!! Sei que segurei o mistério, mas FINALMENTEEEEE! Que acharam? Pesado? Algo que esperavam? Enfim, sabem que sempre quero saber suas opiniões e por isso sempre agradeço de coração os LINDOS comentários anteriores, vocês que sempre veem que eu falo demais, super obrigada! Também quero dizer que recomendações são bem vindas, caso eu mereça! ^^ Por hoje é só, até o próximo! ♥ P.S: Genteeee, a terceira parte de Black and Blue foi postada e também quero saber suas opiniões lá! https://fanfiction.com.br/historia/722379/Im_in_here/