Neurodoxo
1 Prisão
Notas iniciais
Escuro, tudo era escuro e sombrio naquela cela. Apertando os olhos, Eddie tentou enxergar melhor o local, mas sem a ajuda de sequer uma luz era quase impossível discernir as coisas ao redor, O pior com certeza era aquele cheiro, era como se alguém tivesse vomitado por toda aquela masmorra, finalmente agora entendia o porquê de quase todos os prisioneiros terem enlouquecido um após o outro depois de ficar em tal desagradável cômodo.
Levantou-se devagar, afinal, suas pernas doíam por ficar muito tempo sentado naquele chão de pedra. Passou a mão pelas paredes sentindo frio no toque, aquilo o fez se sentir pelo menos um pouco mais vivo.
Já era hora de aparecerem para mais uma sessão de torturas. Ajoelhou-se para apanhar um pedaço de pão jogado na cela dias atrás. É claro que os ratos e outros pequenos animais já haviam mordiscado o alimento, mas que escolha tinha? A comida era servida uma vez por semana, já estava fraco de mais, aceitaria qualquer coisa que lhe desse ao menos um pouco mais de força para continuar.
Enquanto mastigava o último pedaço do pão mofado, a porta se abriu, uma porta grossa de dois metros que o impedira de ver a luz nesses dias de estadia em tão horrível lugar. Dois guardas vestidos com suas habituais armaduras vermelhas entraram na cela, bateram com suas lanças no chão, levantando o pó, enquanto um deles anunciou com sua voz grave:
—Tudo limpo, comandante. — Ao soar dessas palavras, um homem entrou no local, sua capa vermelha arrastava pelo chão, sua armadura cobria todo o seu corpo, dos pés ao pescoço, o cabo de sua espada tinha um formato que lembrava chamas e tudo nele era de um vermelho vivo: armadura, cabelos e até mesmo olhos. A impressão que dava era que ele estava em chamas, mas sem se ferir.
—Deixem-me com ele, quem sabe com um pouco de privacidade ele se solta. — Falava calmamente enquanto abria seu sorriso de dentes perfeitos. Os guardas, sem demora, saíram da masmorra fechando a porta com um sonoro BAM.
Mesmo com a porta fechada a escuridão não voltou completamente. Uma luz fraca emanava daquele homem, seja lá o que ele fosse, era poderoso e imensamente perigoso.
—Então você é o famoso Eddie. Me parece que o rei se importa muito com você. — Dizia com desdém enquanto lentamente tirava os braços da armadura.
O prisioneiro virou para o lado e cuspiu um pequeno verme que antes estivera no pedaço de pão, abriu a boca, e antes de soltar qualquer som mudou de ideia e simplesmente se manteve calado.
O comandante jogou a parte que retirou da armadura no chão, levantou os braços e uma bola de fogo surgiu no seu dedo indicador. O fogo tudo iluminou, insetos corriam para se esconder nos pequenos buracos na parede, desesperadamente, enquanto Eddie tampava os olhos com as palmas das mãos. A luz não era normal, mesmo com os olhos fechados, ele sentia que ficaria cego se aquela bola não se apagasse.
— Seus olhos estão desacostumados com isso, não é mesmo? Desculpe-me, eu já irei apagar... Isso se você contar como se fundiu ao anel do tempo.
—Eu não... eu não me fundi, além do mais essa... coisa nem funciona. — Falava com dificuldades, tentando proteger os olhos do fogo.
—Não mesmo?
A luz enfraqueceu um pouco, Eddie ia abrindo os olhos quando uma dor lancinante subiu por sua perna. O fogo que há pouco tempo estava sobre as mãos do general agora queimava sua perna e se alastrava pelos farrapos que vestia. Rapidamente se pôs a retirar os farrapos o mais rápido possível antes que as queimaduras piorassem, jogou a roupa o mais longe que conseguiu, se recostou na parede, indefeso, esperando sua sentença.
Não teria como lutar naquele estado, as queimaduras em seu corpo doíam tanto que Eddie tinha certeza de que iria desmaiar.
— Você poderia usar seu poder e escapar a qualquer momento, por que não o fez?
—Eu... não tenho... poderes... – Eddie respondia com enorme dificuldade.
Outra bola de fogo surgiu e agora o agoniado prisioneiro observara: o braço de seu torturador era metálico e através de pequenos buracos pelos dedos o fogo surgia.
—Em sua ignorância, as pessoas me chamam de renascido graças a esta coisa. — O comandante encara seu prisioneiro enquanto fala, em seu olhar uma mistura de orgulho e ódio — Acham que morremos como humanos, que somos... Algo maior, mais... Poderosos!
O fogo dessa vez não foi na perna de Eddie, mas sim em seu rosto. Em meio ao medo e à agonia, começou a rolar no chão, embora soubesse que era inútil. Gritava de dor enquanto o fogo se espalhava cada vez mais em seu corpo.
Em meio ao sofrimento, nada podia fazer, a morte seria iminente. Os gritos ecoavam pela sala fechada, Eddie sabia que não teria ajuda nessa.
—Vamos lá, use seu poder! – O poderoso comandante gritava em resposta aos sons de agonia — Use essa merda e se livre desta prisão de pedra! Liberte o poder que corre por suas veias agora!
Não queria fazer aquilo, mas era sua única opção. Ninguém saberia, ninguém veria, isso significava que não teria uma punição. Com esse pensamento em mente, fechou os olhos e concentrou toda a sua energia, aquilo não seria tão eficaz, pois estava fraco, mas seria o suficiente. Continuou concentrado por alguns segundos e então liberou tudo de uma vez, uma luz fraca e branda cobriu seu corpo, todas as suas queimaduras se foram e no lugar da dor se deu o alívio. Viu toda a cena que tinha acabado de acontecer, mas não se passava de maneira convencional, pois estava retrocedendo. Como único espectador viu todo o desenrolar da cena novamente, até que lá estava novamente sozinho naquela cela.
As forças se esgotaram, mas o tempo era curto, tinha que correr se não quisesse morrer. Se aproximou do pedaço de pão mofado e afastou um rato, com a mão pegou o alimento, retirou o verme que sabia que estaria ali e comeu rapidamente. Aceitava qualquer coisa para recuperar um pouco de energia. Se levantou com dificuldade e ficou ao lado da porta, esperando.
Não teve tempo para descansar, em menos de um minuto a porta se abriu novamente. Esperou o primeiro guarda entrar e aproveitando o momento de surpresa puxou sua lança e em seguida a empurrou na direção de sua traqueia. O guarda, pego de surpresa, nada pôde fazer.
O sangue jorrou de seu pescoço na direção do prisioneiro, manchando o rosto deste de vermelho. Eddie puxou a lança para trás e observou o corpo caindo morto no chão. Aproveitando o momento de surpresa, corre pela porta saindo diretamente em um corredor de pedras iluminado somente por tochas presas nas paredes.
Eddie tinha que pensar rápido, não teria forças para voltar no tempo novamente. Corre para a esquerda, a fraca iluminação não o deixa ver muito a frente, graças a isso não demora muito até o pobre fugitivo esbarrar no seu torturador que sorri ao vê-lo, Eddie da meia volta o mais rápido que pode tentando fugir para o outro lado.
Sua fuga não dá muito certo, após correr por alguns metros um forte vento começa a soprar contra sua direção, sente-o mais forte a cada passo. Suas forças no limite não conseguem suportar tamanha luta, o forte vento começa a empurrá-lo na direção de seu adversário.
—Estava nos esperando pelo jeito. — O general, com uma mão esticada em sua direção, fala com um sorriso em seus lábios enquanto criava e controlava os ventos que prendiam Eddie. Finalmente teria a prova que precisava. Se aproximou, olhando com cuidado todos os detalhes do fugitivo.
—Você poderia ter usado seus poderes para sair daqui na hora que quisesse, por que só... — Antes que terminasse a frase, uma luz forte apareceu do nada bem diante de seus olhos. Não precisou forçar a visão para ver que uma mulher surgia através da luz, com um estranho objeto metálico com marcas verdes apontado em sua direção e um pingente na outra com a forma de uma cruz e uma espada interligadas.
—Desculpe pela demora. — Ao dizer isso, acionou um botão no seu equipamento que soltou um facho de luz na testa do estranho homem que inconsciente cai no chão.
Ela olha para trás e vê Eddie a observando surpreso, joga a arma em sua direção e com um leve sorriso entre os lábios, diz:
— Se quiser voltar para casa, terá que lutar!
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