Neurótica

47 Epílogo - Parte II


Como de costume, Draco e ela sempre acordavam em lados opostos na cama e naquela manhã não foi diferente. Se aproveitava do espaço para não precisar incomodá-lo com o jeito desengonçado em que dormia – diversas vezes apontado por ele. Se espreguiçando pesadamente sem precisar de despertador, como se um alarme mental tocasse em sua mente avisando que tinha muito a fazer pelas próximas horas, se voltou à Draco visualizando os cabelos curtos charmosamente amassados, os lábios minimamente abertos, os braços sob o travesseiro e a postura completamente relaxada.

Mordendo os lábios, se aproximou arrastadamente. Ele a recebeu ainda de olhos fechados, levando-a para junto de si pela cintura e mantendo-a ali de maneira sonolenta, claramente desejando continuar a dormir. Apoiou o braço sobre o ombro dele, lentamente traçando um caminho invisível pelo pescoço claro e a nuca até chegar aos fios loiros macios. Sutilmente, aconchegava seu corpo ainda mais contra o de Draco, o suficiente para que pudesse sentir-se completamente contra ele, como se se encaixassem sem precisar de esforço.

Mordeu muito levemente o queixo dele e suas respirações já se confundiam quando ele pressionou os dedos em sua cintura, demonstrando que estava acordado o bastante para começar a ser afetado por ela. Contudo, Hermione manteve o ritmo, cobrindo a boca dele com a sua lentamente, moldando a mandíbula bem desenhada com as mãos enquanto suas línguas se entrelaçavam sem dificuldade, completamente lascivas e conhecidas. Amava tanto beijá-lo e, ainda mais, quando o faziam vagamente abandonados ao próprio tempo. Ele tinha alguma ideia de como aquilo a deixava excitada para o sexo, mas Draco não sabia o quanto – e pretendia deixá-lo no escuro sobre isso.

A mão dele ultrapassou o tecido macio de sua camisola, arrastando-se pesadamente por sua cintura e coluna, explorando a pele quente como se já não dominasse cada centímetro dela. Os dentes capturaram o lábio inferior dela sem receios, cobrindo-o com a língua um instante depois, a fazendo suspirar profundamente e procurar por mais contato, mais daquela sensação que começava a crescer lentamente entre suas pernas. Se recusando a deixar de beijá-lo, assomou-se sobre o corpo dele para se acomodar onde mais gostava. Uma perna de cada lado, suas intimidades separadas somente pelo tecido de suas calças, seus seios pressionados ao peito de Draco, as mãos dele possessivamente descendo para sua bunda.

— O sexo é para dar sorte mais tarde?

Sorriu um pouco ofegante, se afastando para retirar a blusa, jogando-a displicentemente na cama ao seu lado. Os olhos, tão claros àquela manhã, foram imediatamente atraídos por seus seios, completamente nus e já eriçados pelo amanhecer frio. Ainda que com o rosto amassado e aparência ligeiramente bagunçada, num geral ele sempre parecia atraente demais a ela. O viu passar a língua pelos lábios, instintivamente, e se abaixou enquanto as mãos ultrapassavam sua cintura para modelar seus seios.

— Não precisamos de sorte. – Os dedos dele massagearam os mamilos simultaneamente e Hermione fechou os olhos, se apoiando quase que completamente no corpo abaixo de si, as mãos no travesseiro ao lado da cabeça dele. – Somos bons nisso.

A posição fazia com que estivesse completamente conscientemente da ereção crescendo embaixo de si, o que a levou a se arrastar sobre o comprimento dele, ambos desfrutando audivelmente da ligeira onda de prazer que os atravessou. Malfoy deixou seus seios para incentivá-la a continuar se movendo, estimulando-os.

— Somos muito bons nisso.

Riu voltando a beijá-lo, sentindo a fricção em seu centro e de seus mamilos contra a pele nua dele sob si, arrepiando-a pela sutileza do contato quase despretensioso. A liberdade de poder se sentir livre com Draco jamais poderia ser quantificada, amava a sensação de poder buscar seu próprio prazer sem amarras. Suas unhas deslizaram no peito dele ao mudar o foco para o pescoço, notando a pulsação acelerada pela excitação, quase em sincronia com o membro dele contra ela.

— Eu estava dizendo... – Murmurou arrastadamente. – Bons em sermos... Nós dois.

Draco segurou sua nuca para fitá-la, um braço rodeando sua cintura, os dedos testando a suavidade de seus lábios, tão próximos dos dele que as pontas de seus narizes se encontravam. Em outros tempos poderia ser um desafio, mas era apenas... Intimidade. O beijo, dessa vez, foi apenas o selar de suas bocas, a calmaria em meio a tormenta interna, quase sob controle, de suas vontades.

— Nisso, somos mais do que apenas ‘bons’, você sabe.

Concordou com um meio sorriso que não durou muito sob a tensão da proximidade de seus corpos e do beijo, que se intensificava. Tentando ser sutil para não demonstrar suas intenções, pois sabia que Hermione prezava por ficar por cima, Draco começou a lentamente trocar de posição, se virando e levantando-a junto, suas pernas entrelaçadas. Estava para avisar que notava a jogada quando o braço deixou de rodeá-la para se infiltrar sob o elástico de sua camisola e cobrir sua intimidade, dois dedos deslizando-se por suas dobras completamente molhadas até alcançar o clitóris.

Gemeu abandonadamente, pressionando a nuca dele com os dedos, inconscientemente concedendo espaço para a boca sedenta percorrendo seu pescoço de maneira detalhista, atento às pequenas coisas, que a faziam se desmanchar por ele. Abriu um pouco mais as pernas, ondulando na direção da mão dele e ofegou, buscando beijá-lo. Já não parecia mais tão fácil manter o ritmo lento, pois mesmo a respiração de Draco contra a sua batia mais quente e urgente.

Deixando de lado as costelas certamente marcadas por suas unhas, alcançou o cós da calça dele e puxou, começando a abaixá-la com alguma dificuldade pela posição em que se encontravam, por isso, ele precisou se afastar para ajudá-la. Assim, Hermione conseguiu fazê-lo retomar à posição inicial, sob seu corpo, agora completamente nu. A lascívia com que o beijou enquanto o tomava entre os dedos fez com que ele gemesse contra sua boca, pulsando suavemente em sua mão.

Desde a primeira vez, sentia uma onda de excitação diferente por fazer com que Draco se desfizesse em seus dedos ou em sua boca. Sabia que estava relacionado ao tratamento de rivais, que concediam um ao outro, àquela sensação tácita, mas tão presente, que a fazia, no meio da noite, enfiar a mão dentro da calcinha e se tocar pensando nele. Era sobre ter Malfoy tão refém do que Hermione podia fazer com seus desejos e isso a estimulava tanto que, fisicamente, era capaz de se sentir molhada enquanto o chupava.

Percorreu calmamente toda a extensão do membro dele antes de cobrir a ponta avolumada para ouvi-lo gemer. Fechou os olhos quando o arrepio a percorreu por inteira apenas pelo som, quase a instigando a acompanhá-lo. Draco acariciou sua coluna nua como um incentivo, tão vagarosamente quanto sua língua no pau dele, antes de acomodar a mão em sua nuca, acompanhando o ritmo que ela impunha.

— Ah, merda!

Ele ofegou, se ajeitando nos travesseiros contra a cabeceira apenas para poder assistir a forma como sua boca o tomava. Podia senti-lo latejar, completamente excitado, a julgar também pela falta de controle ao resfolegar alto. Por isso, ainda desfrutando de seus poros completamente, especialmente nas costas, deixou o membro dele para trás, satisfeita pela forma como ele parecia necessitado demais, observando pequenas manchas vermelhas, causadas pela tensão, surgirem no pescoço e no peito alvos ao se aproximar para unir seus lábios.

Apesar de beijá-la de volta, agora parecia mais ávido, levando as duas mãos para abaixar sua calça, escorregando-a por seus quadris. Ele voltou a tocá-la assim que se viram livres do tecido, gemendo em seu pescoço por encontrá-la mais excitada do que antes. Sabia que não estava exatamente perto do orgasmo e, por isso, ondulou os quadris contra os dedos dele, penetrando-a profundamente enquanto a boca alcançava seu seio.

Se deixou ser conduzida pelo toque dele por longos instantes, sua mão completamente enterrada entre os macios loiros, incentivando-o a continuar, a lhe dar cada vez mais o que sentir. Em certa época, achou que fosse um pouco viciada na necessidade de estar o tempo todo nesse estado de intensidade. Tudo tinha que ser no limite ou quase isso para ser minimamente bom e, às vezes, retornava à essa ânsia de desfrutar de todas as sensações que seu corpo poderia lhe render.

Draco deixou seus seios no instante em que a trouxe para junto de si novamente, suas intimidades juntas sem empecilhos. Hermione latejou, excitada, ainda que à falta de algo dentro dela. Ele subiu os beijos por seu pescoço, tranquilamente, e podia apostar que seus lábios deveriam estar inchados e corados, tanto quanto seu rosto, assim como seus cabelos deveriam estar uma bagunça, já soltos do prendedor pouco apertado que usava para dormir, mas no estado em que se encontrava não se importava nenhum pouco.

— Quer que te chupe, Granger?

Ele sussurrou tentadoramente em seu ouvido, as mãos mantendo o contato entre seus corpos estacado, provavelmente que não fizesse um desastre. Mordeu os lábios, precisando se controlar para não se encolher em volúpia ante a proposta, e afastou um pouco para encará-lo, notando o brilho divertido nos olhos. O via, embora ele estivesse falando sério, porque o sexo nunca fora um problema entre eles.

— Não. Quero que me foda, Malfoy.

Viu o sorriso malicioso crescer no canto dos lábios dele, mas logo foi substituído por seus dentes e pelo ofego alto de ambos pelo encaixe cuidadoso de seus corpos. Hermione deixou todo o seu peso sobre ele apenas por um instante, apreciando a sensação de preenchimento e a própria pulsação, levando-os ao limite. Ajeitou os joelhos ao lado do corpo dele para começar a se mover, lentamente, impedindo que seus quadris se afastassem demais, porque era assim que gostava.

Draco deixou que Hermione ditasse o ritmo de seus corpos, enquanto estavam ocupados com beijos, línguas e toques demais. Então, ele deslizou as mãos da cintura para sua bunda, moldando-a, mantendo-a no lugar para estocar de volta, prezando pela profundidade, não pela rapidez superficial. Gemeu conforme a penetrava, os braços rodeando-o pelo pescoço, mal conseguindo se conter.

Seu corpo já pedia mais velocidade, mais movimento, mais fricção, mas queria a avidez do prolongamento, de seus corpos conhecedores um do outro trabalhando em conjunto pelo orgasmo, construído a cada vez que a pélvis a tocava. Vez em quando, seus lábios alcançavam os ombros e o pescoço em uma mistura de dentes e línguas. Malfoy também vibrava contra si, concentrado no prazer deles, a pele já coberta por uma fina camada de suor.

Nesse clima, não demorou a que o ápice chegasse para ambos. Hermione afundou-se nele em um gemido e seu corpo instintivamente retesou, completamente controlado pela pulsação no centro, sua coluna arqueada para que seu quadril estivesse em um ângulo melhor. A sensação foi irresistivelmente prolongada, percorrendo seu corpo em ondas mais suaves até que Draco se desmanchasse dentro dela poucas estocadas depois.

Ele se deixou cair contra os travesseiros e, ainda apoiada nele, sorriu um pouco sem fôlego observando os cabelos levemente molhados na raiz. Passou uma das mãos por ali, como que ajeitando-os numa carícia e se inclinou para beijá-lo, ganhando um leve gemido contra sua boca, pois ainda o tinha dentro de si.

— Isso foi... Intenso.

Hermione sorriu em concordância e se deitou ao lado de Draco, se deixando apreciar a sensação do pós-orgasmo, assim como ele.

— Está ansioso?

— Não, na verdade. – O observou respirar fundo e pensar por um minuto, os olhos no teto, os dedos distraidamente passeando por suas costelas. – Talvez a palavra certa seja ‘curioso’. Mas não estou nervoso, de nenhuma maneira.

— Estou ansiosa para te ver me esperando.

Malfoy riu, por um instante, provavelmente também imaginando a situação e concordando. Apesar de tudo estar perfeitamente planejado, esse era o tipo de coisa que não dava para ser antecipado: a sensação de avistá-lo antes de caminhar até onde a esperava, os pensamentos que passariam por sua mente, o que veria nos olhos dele, olhando-a de volta. Atualmente, essa era a única ansiedade que tinha a respeito deles e, talvez, Draco definisse a curiosidade pelo momento com o que ela definia como ansiedade.

Depois de tanto tempo juntos, decidir se casar fora uma consequência natural, o passo seguinte apenas para formalizar, para que tudo entre eles deixasse de ser um caso iniciado em meio a controvérsias. Como um casal, deixaram de ser assunto há muito. Após confirmar o relacionamento depois de meses de especulações, raramente eram vistos juntos – o que, no fim das contas, serviu para afastar problemas. Não havia muito a dizer, se não concediam os motivos, e não tinham qualquer necessidade de se consolidar perante a comunidade bruxa, mas, entre eles, a afirmação do casamento tornava as coisas... Intensas.

Era Hermione recebendo o sobrenome dele e Draco ostentando uma aliança que, em essência, os expressava. Então, um despertador soou no móvel de cabeceira ao lado dele, que o desligou com um feitiço antes de se voltar a ela, um braço rodeando sua cintura e os lábios em seus ombros por um instante.

— Está na hora.

Seus olhos pararam nos dele por um instante, notando toda a certeza com que agia todos os dias refletida em sua segurança sobre aquele em específico, pois, na prática, ele já era seu marido e Hermione já era sua mulher — haviam se construído por muito tempo para chegar até ali. Draco a analisava de volta, como fazia cotidianamente e se levantou após ela concordar, encaminhando-se para o banheiro. Ainda demorou um pouco para encontrar forças a fim de imitá-lo, continuando a fitar o lugar onde ele sumira por alguns instantes.

Minutos depois, se juntou à Draco utilizando a ducha paralela à dele, que já terminava o próprio banho. Dali, seguiria para o hotel — onde deveria ter pernoitado — para se arrumar, ao passo que uma equipe de cabelo e maquiagem trouxa logo chegaria para cuidar dela. Apesar de ser uma cerimônia muito íntima, ter uma organização de pessoas não-bruxas havia a conferido muita liberdade. Queria as coisas simples e elegantes, isso incluía nada de penteados, vestidos, maquiagem ou decoração espalhafatosos. A única exceção fora a comida bruxa.

Para ajeitar os cabelos milimetricamente, Malfoy parou à frente do grande espelho, que cobria as duas pias de mármore dispostas sobre um armário comprido, de portas e gavetas em um azul muito escuro em contraste com o chão completamente claro do banheiro. Conversaram amenidades, o novo processo contra o Ministério e, finalmente, o casamento. Andrômeda avisara apenas no dia anterior que Teddy chegaria dos Estados Unidos apenas na hora da cerimônia e Astoria estava detestando a ideia de ser madrinha dele ao lado de Zabine, o qual podia ser muito inconveniente quando queria.

Após aproveitar, de olhos fechados, a água quente escorrendo por cara poro seu, relaxando-a, Hermione se secou magicamente, enroscando-se em uma camisola simples e branca, de decote reto e alças finas, que quase alcançava seus pés, marcada na cintura por um laço. Não tinha exatamente muito o que fazer enquanto esperava a equipe de cabelo e maquiagem, por isso, se sentou à frente da penteadeira começando, sem magia e pacientemente, a desembaraçar os fios encharcados.

Draco voltou do quarto, já vestido com um suéter cinza, calças e sapatos sociais completamente negros, guardando algo nos bolsos antes de levantar os olhos para encará-la de volta pelo reflexo do espelho. Se aproximando, se inclinou contra ela, apoiado na cadeira baixa da penteadeira e suspirou, depositando um beijo simples em seu ombro e descansando os lábios contra sua bochecha.

— Estou ansioso para tê-la usando meu nome. – Hermione sorriu, sendo acompanhada por ele, pois esse era exatamente o tipo de coisa que Malfoy ainda prezava muito e entendia perfeitamente porquê, após todos aqueles anos. O sobrenome fazia parte de Draco de um jeito único. Moldara sua personalidade como fizera a poucos e havia uma situação paradoxal: dependia do nome, mas o nome dependia dele em retorno, o que não carregava como um peso, mas com um orgulho, que podia ser irritante quando queria. Se virou para juntar seus lábios brevemente só por uns segundos, nunca se cansando da forma daquela boca contra a sua, ainda que superficialmente. – Nos vemos mais tarde.

Concordou suavemente com um aceno e, após vê-lo pegar um casaco grosso em sua parte do closet, segundos depois ouviu a batida suave da porta se fechando, dando espaço ao silêncio do cômodo em contraste com seus pensamentos. Aprendera com a terapia que sua mente era uma miríade de ansiedade, muito propensa à depressão. Ela nunca parava, sempre procurando uma atividade em que se ocupar, quase sempre mais do que era fisicamente capaz de lidar. Mesmo quando lidava com o processo do caso de Ronald, a ideia de deixar com que Draco cuidasse de tudo soava absurda, pois sua cabeça estava, o tempo todo, procurando saídas e arquitetando sua defesa, embora não estivesse em seu melhor momento.

Às vezes, se convencia que apenas fingia ter bons momentos, mentalmente falando, apenas para enganar a si mesma e os demais ao seu redor. Levar uma vida completamente comum ao lado de Draco a ajudava a conceber que não estava dissimulando, afinal... Não podia ser capaz de dissimular o tempo. Certo? Amava aquela vida, sua nova realidade, se agarrara a ele com todas as forças para garantir que teria uma vida que amasse, pois, sem qualquer intenção, Draco a fizera amá-lo e se esforçara para entender que estava lá por ela. Não, não podia fingir a todo o tempo.

Lentamente, pousou a escova de cabelo sobre a penteadeira, sondando a própria face completamente limpa, despida de qualquer maquiagem. O tempo havia sido bom com ela. Não havia muitas rugas ao redor de seus olhos, somente uma nova marca do tempo comum na testa e a realidade da maturidade do rosto mais delineado, mais profundo. Seus olhos castanhos brilhavam sob a iluminação especial do móvel, pela manhã e pelo que viria.

Então, desviou os olhos de seu próprio reflexo e se abaixou para puxar a última gaveta. Tirou de lá alguns objetos, displicentemente guardados, e desfez o feitiço de segurança conhecido apenas por ela relevando o real fundo do compartimento. Hesitou por um instante, observando o velho pedaço de papel, mas logo seus dedos alcançaram o jornal amarelado. Apesar de não haver necessidade, desdobrou-o com cuidado. O tempo também era refletido nas dobras do antigo exemplar do Profeta Diário e seus dedos não tremeram ao virar a página, nem mesmo quando fitou a conhecida reportagem.

Não precisava conferir a data para saber que aquilo havia sido mais ou menos um ano após a morte de Ronald. A foto em tons tradicionais de sépia a retratava de frente para o túmulo com o nome dele, usando um casaco comprido e justo, completamente fechado até o pescoço sobre uma meia-calça grossa negra e saltos muito altos da mesma cor. Tinha as mãos juntas à frente do corpo e, entre elas, uma tulipa branca completamente só. E, apesar de se tratar de uma fotografia enfeitiçada, a única coisa a se mexer eram as folhas aos seus pés e alguns fios de seus cabelos. Apesar de não estar interessada na matéria, pois se lembrava perfeitamente daquele dia, a manchete decorável dizia: ABSOLVIDA EM JULGAMENTO, HERMIONE GRANGER VISITA O TÚMULO DE RON WEASLEY PELA PRIMEIRA VEZ. MISTÉRIO DA MORTE DO EMPRESÁRIO NUNCA FOI RESOLVIDO.’.

Era Outono e, àquela hora da manhã, quando os moradores de Godric’s Hollow sequer haviam se levantando, o único ruído a quebrar o silêncio do antigo cemitério era o de seus saltos contra o chão de paralelepípedos uniformes e cinzentos. Sua postura era perfeitamente altiva enquanto ultrapassava os diversos túmulos até aquele, conhecido pela visita única, embora se lembrasse perfeitamente da aparência e do caminho.

Tinha gravado em sua memória o momento em que o corpo de Ronald foi magicamente abaixado até a cova e ali, sentada na primeira dentre as muitas fileiras de presentes no funeral, seus olhos castanhos cravaram, quase estreitos, no nome esculpido na pedra cinza, seguido do epitáfio – irônico, se pensasse demais: ‘Imprescindível herói da comunidade bruxa, inesquecível e amado filho, amigo e marido’. Ronald não era nada mais que mediano como bruxo e filho, seu tempo no papel de marido fora somente ordinário e ele deixara de ser bom amigo há muito tempo. Diferente de Harry, se recusava a viver de lembranças do que haviam sido. Pensando naqueles tempos, vinte anos antes, tudo que eles viveram soava quase como devaneios esquecidos nas dobras do que haviam se tornado.

O Auror apertava fortemente sua mão, também segurando a de Ginny, ao seu lado direito. Os olhos caracteristicamente muito verdes estavam inchados sob os óculos redondos, assim como os de todos os Weasley presentes, embora estes fossem perturbadoramente parecidos com os de Ronald. Ele chorava a morte do amigo como deveria, enquanto Hermione fitava toda a cena em inércia. Assim como as lágrimas eram apenas dele, seus pensamentos desrespeitosos eram só seus. Então, quando ela não se levantou para jogar a primeira flor em homenagem ao marido, nunca foi tão agradecida por um ato de seu fiel amigo. Não tinha forças para parecer a esposa em pedaços por mais nem um minuto.

Ainda que fosse o dia marcado pela morte dele, o túmulo estaria completamente limpo não fossem as folhas secas de outono, que o cobriam quase que inteiramente. Ainda era cedo, imaginou. Logo o local seria visitado e homenageado por diversos membros da família e fãs. Com sua morte, o nome de Ronald pareceu ter sido canonizado e todos os seus erros perdoados, também pelo fato de Hermione ter suportado quase que todo o escândalo do assassinato sozinha. Apesar de ter sua vida socialmente escancarada, inclusive seu casamento, nada afetara a reputação póstuma de Ronald.

Não era mais permitido que se dissesse muito de sua falta de habilidade mágica mínima, seu extremo senso de inferioridade, que o levava a pensar ser um fracassado se comparado à esposa e ao melhor amigo, sua traição ou seu filho fora do casamento. Ele era um herói de guerra e as pessoas precisam alimentar os mitos para torná-los distantes da fragilidade de serem pessoas ordinárias, como quaisquer outras.

— Até isso você me deve, Ronald. – Murmurou de cima, antes de se abaixar para afastar as folhas da base do túmulo e depositar ali sua única tulipa branca. – Vim para me despedir, querido. É necessário podar os laços de vez para seguir adiante. Mas você não entenderia. – Seus dedos de unhas bem feitos subiram pela superfície fria da pedra, contornando as primeiras letras lisas da inscrição. – Você era um covarde que pediria o divórcio por carta, não é mesmo? Você jamais entenderia, jamais faria o que estou fazendo. Mas eu sempre fui a mais corajosa de nós dois. A mais leal também, deve se lembrar.

Ajoelhou-se perante a lápide com um suspiro, meneando a cabeça enquanto analisava a foto em um porta-retrato quadrado pintado à mão, logo acima do nome, dos cabelos ruivos tradicionalmente caindo pela testa até o sorriso puxado no canto dos lábios, os olhos encarando-a diretamente, como se a acusasse impotente e silenciosamente.

— Acho que estava na hora de ser leal a mim, colocar-me como prioridade novamente, me arrancar do fundo do poço em que me colocou. É claro, você não concordaria... Alimentava essa mania questionável de achar que era uma boa pessoa, por ser um Weasley, por ter origens humildes e uma família boa demais. Mas você não era, Ronald. Pelo contrário, você dissimulava para todos ao redor e só esperava a oportunidade para mostrar suas garrinhas rancorosas e inseguras. A cada oportunidade que teve, foi isso o que fez. Não sei o que tinha na cabeça para pensar que poderia ser um marido melhor do que um amigo, sinceramente. – Ela soltou um riso engasgado, molhando os lábios enquanto recordava a própria estupidez, mal notando os olhos lacrimejantes. – No fim das contas, realmente tenho culpa pelo que nos tornamos. Eu não deveria ter suposto que amadureceria com a idade, não deveria nutrir expectativas de que me apoiasse, torcesse por mim, fosse compreensivo e... Um marido. Por que queria ser melhor do que eu, não? Você queria ser Ronald Weasley, não ocupar o eterno cargo de Marido de Hermione Granger. Você queria ser a estrela. Mas deveria saber: as pessoas notam quando põem os olhos em alguém medíocre e, principalmente, sabem direcionar a atenção para aquele que está destinado a ser grande. Bem... Talvez você soubesse, no fundo. Talvez... Talvez isso justifique o motivo para que nossa vida, como um casal, tenha sido um fracasso. Nós fomos felizes por um tempo tão ínfimo que é quase como se não fosse houvesse acontecido – Só notou que chorava quando uma lágrima rolou gelada por sua bochecha e sua garganta apertou, sua voz mais e mais fraca. – Sabe... Agora, depois de tudo que fiz, eu fico... Tentando recordar esses momentos em que fomos bons um para o outro, durante o nosso casamento e... Nada me vêm à mente. Tudo o que consigo lembrar são os momentos em que me despedaçou e também... Com muita nitidez, quando o encontrei naquele banheiro ensanguentado.

Engoliu qualquer resquício de lágrima e levantou a cabeça, imaginando que, sob aquela pedra fria ou, de alguma outra forma, ele a ouviria. Desistindo de toda a racionalidade, queria que a ouvisse e se sentisse, minimamente, destroçado como ela se sentira por tanto tempo. Porquê tinha a impressão de que Ronald não era nada afetado pelo que acontecia a eles? Porquê ele parecia não se importar enquanto ela carregava sozinha todo o peso do fato de o casamento deles, meramente, não funcionar?

— As coisas não deveriam ter acontecido daquela forma, mas... Chegamos a um ponto em que, eu sabia... Éramos o fim de nós mesmos. E... Como a mulher egocêntrica que sempre me pintou... Não podia deixar que acabasse comigo. Ah, Ronald, eu não podia permitir que fosse embora e me deixasse no fundo do poço. Eu estava lá por sua culpa, em primeiro lugar, pela vida de merda que levávamos por sua culpa! – Respirou fundo algumas vezes, fechando os olhos, sua mente revivendo cada passo que dera no dia da morte dele como em um filme. – Eu preferia que fosse para o fundo do poço comigo, eu escolhi assim a deixar que os outros me olhassem como uma perdedora, embora você, provavelmente, fosse conseguir ser para Brown um marido muito melhor do que foi para mim. Porque ela aceitava sua mediocridade, não é? Por isso, a acolhia e a enchia com essas promessas proibidas de amantes sobre construir uma família feliz. – Sorriu irônica e amargamente, mordendo os lábios, acariciando suavemente as pétalas da tulipa branca à sua frente. – Você ignoraria o estado em que estava me deixando e seguiria em frente, como se não houvesse contribuído para ter me tornado a mulher que me tornei. Por quê você era um bom homem e eu, a esposa genial, ambiciosa e incontrolável. Eu não permitiria, Ronald. Não permitiria que aqueles sussurros proibidos para Brown no meio da noite, após ter de fazê-la fingir orgasmos, se tornassem reais.

De joelhos sobre o paralelepípedo, suspirou por um instante, inundada dos gemidos de Ronald e Lilá enquanto os observava sob a Capa de Invisibilidade, do nojo da língua dele contra a dela após tanto tempo. Pelo modo como a beijava, imaginando se tratar da amante em uma visita perigosa e excitante na casa que dividia com a esposa, Ronald certamente estava imaginando a forma como foderia Brown em sua própria cama.

— Sabe, naquela tarde, por alguns instantes e sob a Polissuco, eu realmente fingi ser Brown. Me aproveitei da aparência dela e tentei... Me deixar ser apalpada da forma que ela gostava para encontrar esse encanto que ela via em seu toque. Mas era apenas... Degradante. E eu não gostei da sensação de me submeter a uma situação assim por tão pouco porque você... Continuava a ser desprezível. Mesmo depois da Imperio, mesmo depois de encontrá-lo no banheiro quando deveria, simplesmente, ter cortado os próprios pulsos no lugar para onde ia todas as noites... Eu me senti... Mais degradante do que qualquer outra coisa em qualquer outro momento. Eu não me senti uma assassina depois de tudo, como inicialmente se imaginaria, eu senti... A liberdade como um vazio. Ainda sinto. Deixar esse lugar onde sou essa pessoa em que me transformou não foi nada glorioso. Às vezes, ainda retorno a ele, ao fundo do poço, à essa sensação de inércia e derrota pessoal em que vivia quando estávamos juntos. Mas então... Eu me recordo tudo o que fez, o motivo de termos chegado ao fim como chegamos, e percebo... Sou a mulher que um Tribunal do Júri inteiro declarou inocente. Não sou nada como a mulher degradante que era durante nosso casamento. E não merecia ter sido... Nem por um segundo.

Hermione notou a própria respiração trêmula, meio rasgada, aliviada em meio às palavras jogadas para ninguém em especial, ninguém que pudesse ouvir realmente. A fotografia do homem ruivo continuava exatamente igual, olhando de volta para ela em um estaque do tempo. Apesar de sorrir para a câmera, os olhos azuis não acompanhavam o gesto, mas jamais saberia dizer o motivo. Então, lentamente se colocou de pé, limpando as mãos sujas das folhas meio molhadas pela chuva recente.

— Você não era boa uma pessoa, Ronald. E eu também não. Adeus.

Lançando um último olhar à lápide, deu-lhe às costas e voltou a preencher o vazio silencioso do cemitério de Godric’s Hollow apenas com seus passos, acompanhada pela brisa leve das árvores ao redor, que secara qualquer resquício de lágrima em suas feições, deixando pela última vez o local onde Ronald Weasley fora enterrado.

Hermione ainda encarou o retrato de si mesma por alguns momentos, novamente se considerando degradante retratada na postura da esposa, que prestava uma singela homenagem ao marido falecido, após tanto ser atormentada por acusações sobre a morte dele. Não apreciava ser essa mulher nem por um instante. Mas entendia que ela fora necessária para a mulher que se tornara no fim e, dela, havia somente resquícios perdidos no tempo e raramente revirados – como aquele jornal antigo em suas mãos.

Por isso, em uma decisão tanto quanto parecida com a que a levara a visitar Ronald uma última vez, fechou os dedos em torno da varinha. Apontando para o jornal, vagarosamente viu as chamas começarem a percorrê-lo por um dos cantos e, um instante depois, precisou soltá-lo sobre a penteadeira completamente branca para observá-lo queimar, as labaredas controladas refletidas no espelho e em seus orbes castanhos. Tudo o que restava eram pequenos pedaços de papel queimados e acinzentados, os quais, nesse formato, não possuíam grande significado.

Assim, limpou qualquer resquício do jornal e de seu passado, organizando tudo sobre a penteadeira e na gaveta, agora sem necessidade de qualquer trava mágica de segurança. Se colocou de pé para se encaminhar ao closet de sapatos e acessórios onde, com um aceno de mão em um feitiço simples, o que procurava foi revelado. Pacientemente, puxou todo o zíper da capa protetora, revelando o conteúdo entregue por Locke no dia anterior.

Escolhera um vestido elegante numa cor bege claríssima e perolada, mais vintage e longe do tradicional branco. O modelo cortado em um tecido de seda italiana caríssima encomendada especialmente para ela caía até o chão sem qualquer adereço, a não ser pelo brevíssimo drapeado na altura da cintura, moldando-a junto aos quadris mais largos. A partir da altura dos joelhos, o mesmo se abria em uma leve calda, que combinava perfeitamente com a cerimônia simples e, talvez, o único detalhe que chamasse atenção fosse o decote ombro a ombro, pensado para valorizar seu colo.

Sob a luz do closet, a peça parecia brilhar sem necessidade de qualquer movimento adicional. Suavemente, acariciou o tecido muito leve, tão delicado que dava a impressão de que podia se romper ou ter um fio puxado a qualquer instante por um toque descuidado — como a vida de Hermione, às vezes, em detrimento do anel que ocupava seu dedo anelar direito. Encarou o bom gosto do objeto, recordando perfeitamente o brilho dos olhos de Draco naquela manhã de terça-feira em que a acordara apenas para pedi-la em casamento sem qualquer motivo aparente – afinal, já viviam como marido e mulher. Não, não podia dissimular o tempo todo, não com ele, não havia mais necessidade.

I found the truth beneath your lies

And true love never has to hide

I'll trade your broken wings for mine

I've seen your scars and kissed your crime, oh

— All Night por Beyoncé (Lemonade)

FIM

Notas finais
Então... Fim de Neurótica. É estranho fazer isso e devo dizer que, quando postei o último capítulo [inocentando ela], não estava preparada. Acho que a gente entra em uma fase de negação antes de aceitar que é o fim, como tudo na vida. E, como eu disse no meu comunicado, ocorreram complicações externas. Por mais que eu tivesse a ideia de como queria tudo, não queria fazer um capítulo por fazer, pois certamente não sairia como esse. Assim, eu esperei. E quanto mais pensava nisso quando veio a pandemia, melhor as ideias do que já estava planejado se encaixavam e, no fim, eu consegui escrever esse capítulo em menos de uma semana! Eu espero muito que tenham gostado, que tenham curtido esse 'revival' de Neurótica sob o ponto de vista da Hermione, pela primeira vez na história e matado as saudades dessa fic, porque eu tenho certeza que aconteceu comigo. Eu amei revisitar esses personagens e construir esse capítulo à sombra do que eles eram no tom do que a fic foi se tornando com o tempo. Alguém me disse em um comentário que devo me orgulhar pela linearidade de Neurótica e eu realmente me orgulho. Eu comecei essa história no segundo ano da faculdade e hoje, em 2020, já me formei. Todo o início da minha vida adulta foi permeado por essa fic e isso talvez se reflita na minha escrita, assim como a pessoa que eu sou hoje talvez esteja refletida nesses dois capítulos de Epílogo, assim como Neurótica influenciou tudo que escrevi depois dela. Sobre o capítulo: a cena do cemitério estava planeada há tanto tanto tempo, assim como a matéria sobre o escritório de Draco. Talvez não tenha sido o final que a maioria esperava, talvez tenha deixado algumas pessoas em choque, mas... Eu concebi Neurótica assim e, por mais que tenha hesitado em certo período por ter tanta empatia pelas ruínas de Hermine e pelos sentimentos de Draco, chegou um ponto da fic em que eu tinha certeza que esse seria o final. Ela e Draco nesse tipo de felicidade agridoce da vida comum é o que tinha planejado, porque, como ficou claro no último capítulo, eles não são de grandes gestos. Eles internalizam e demonstram com pequenas coisas. Eu não me via escrevendo um casamento, nem uma gravidez, nem uma vida que deixaria para trás tudo que aconteceu naqueles meses. A vida de Hermione, embora não fosse planejado, foi mudada. Ela não esperava que seria acusada de homicídio e que perderia parte de seus amigos no processo, mas ela encontrou outro tipo de vida depois do fim. Talvez o fim de Hermione tenha sido quando decidiu fazer o que fez. Agora, ela é outra, uma sombra do que era, mas ama Draco e está feliz. Eles estão. Enfim, estou me despedindo pela última vez dos leitores daqui e dessa história. Muito obrigada pelos mais de 1000 comentários, pelos incentivos que vocês não tem ideia de como fazem a diferença, pelas mensagens privadas me perguntando quando eu retornaria com o Epílogo, pelas recomendações de Andy Stark, Corujinha Malfoy, DeMun, Ninive, Nicca, Mrs. Knowles, Daydreamer, Miss Pepper, Liz Mar, Kat, Leitora 01, S2arinha, CcmbCullen, Madú Weasley, Marcos FLuder, AndrieleAJS e Anônimas; aos 200 leitores que favoritaram, muito obrigado a todos e todas por tanto engajamento na história, de verdade! ♥♥♥ Eu nem sonharia que quarenta e tantos capítulos depois poderia dizer todas essas coisas, mas é isso. Eu espero muito que tenham gostado do fim, como eu gostei de escrever e matar a saudade, e espero muito que me deixem saber disso nos comentários. Quais seus pensamentos sobre a nova realidade de Hermione, suas lembranças, seu relacionamento com Draco... Bem, não é porque acabou que não irei ler e aceitar suas opiniões, como sempre aconteceu. Muito pelo contrário! Bem, é isso. Nos vemos em outra oportunidade, eu sempre estarei aqui e agora também estou no Spirit, às vezes me aventurando com outros personagens, às vezes voltando a aproveitar as dramiones da vida! Muito obrigada, até breve ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!