– Qual é o seu problema?!*

Granger, com o rosto completamente corado de raiva, o empurrou, colocando-o fora de seu caminho enquanto se dirigia a passos rápidos para onde estivesse o mais longe possível de Draco. Ele sabia que não seria fácil e sabia que ela não colaboraria com sua ideia, mas precisava, pelo menos, dar o primeiro passo.

Suspirou, encarou a fachada do local onde resolvera levar Hermione Granger, o lugar onde esta precisava ir a muito tempo. Era uma casa de subúrbio, parecia totalmente normal e dentro do contexto do bairro trouxa, que ostentava casas de classe média alta com jardins verdes demais, arbustos bem cuidados adornando janelas grandes e uma varanda pequena cobrindo a porta negra envernizada.

Porém, um banner que se encontrava em evidência sobre um suporte de ferro em frente à casa fez com que Granger estacasse antes de chegar ao ladrilho que os levaria a porta. O rosto dela tornou-se pálido e sua respiração ficou presa, como se não acreditasse onde estava. Ela o encarou como se a tivesse levado para uma armadilha, ou cometido o pior dos pecados (o que, para Granger, poderia ser manusear um livro com as mãos sujas), quando não havia feito nada de condenável. Sequer mentira sobre onde iriam!

– Acha que sou descontrolada a esse ponto? – Disse em voz baixa enquanto olhava para os lados, pois várias pessoas chegavam a todo o momento e adentravam a casa, sem cerimônias. – Eu não estou louca, Malfoy, tenho controle sobre minhas vontades.

– É mesmo? – Retrucou em ironia. – Pois não foi o que pareceu quando fugiu da casa de Andrômeda para ir procurar bebida.

– Eu só estava indo espairecer! – Granger disse indignada.

– E, inconscientemente, procurou pelo álcool em sua casa. Eu não chamaria isso de autocontrole. – Ela bufou e fez menção de virar-se para ir embora, refazer o caminho que haviam percorrido até ali, já que a casa de sua tia ficava há três quadras. Entretanto, ele a segurou pelo braço, fazendo-a olhá-lo com raiva. – Você precisa de ajuda.

– Acho que sou crescida o suficiente para saber do que preciso ou não. – Hermione puxou o braço e Draco, impaciente, a soltou sem mais delongas. – Sou bem sucedida, rica e independente, você não faz e nunca fez a menor diferença em minha vida, não será agora que isso irá mudar.

Por um momento, Draco deixou-se atordoar com a reação de Granger, pois aquilo era o mais parecido com o que ela havia sido nos últimos anos em que exercera o cargo de Promotora da Suprema Corte. Porém, a Hermione Granger que ela fora antes da morte de Weasley não era esnobe e, apesar de ser bastante astuta, não tentava rebaixar ninguém.

E não, não estava se sentindo humilhado por ela, seu ego precisaria ser bem menos inflado do que realmente era para que tal coisa acontecesse de fato. Apesar disso, a atitude o fazia repensar alguns conceitos quase que imutáveis que tinha sobre a mulher. Hermione não era a figura frágil que queria fazer parecer no tempo de luto pelo marido, ela não era tão facilmente quebrável como sempre imaginara, embora estivesse completamente ferida internamente, e qualquer um poderia ser manipulado por ela sem muito esforço.

A definição de Hermione sobre si mesma era o que mais o surpreendia, afinal podia se ver fazendo aquele discurso, com as mesmas palavras, exatamente no mesmo tom e com a mesma careta de desprezo com que ela o encarava, mas era quase impossível imaginar Granger dizendo tal coisa até segundos atrás, até presenciá-la o fazendo.

Tudo isso só fez com que sua convicção de que algo estava errado se aguçasse ainda mais. Aquela mulher possuía muitos esqueletos no armário, ela não era apenas uma vítima das fatalidades da vida, Granger tinha segredos que não fizera questão de contar a ele e precisava encontrar uma forma de descobrir todos eles. Apenas assim poderia saber quem ela realmente era e, finalmente, formar uma opinião concreta sobre sua pessoa.

Enfiou-se em seu caminho, fazendo-a parar abruptamente com as mãos no bolso. Encarou-a por um momento, não detectando nenhum traço de arrependimento em sua face, apenas (e não podia deixar de frisar que ela nunca o olhara daquela forma de maneira tão explícita e fria) o ódio velado que sentia por ele.

– Sou o cara que irá te livrar de Azkaban quando o Ministério processá-la por assassinato, então, acho farei alguma diferença em sua vida. – Disse sem remorsos, vendo-a semicerrar os olhos o encarando friamente. – Se eu fosse você, seguiria minhas instruções, pois seria de extrema má sorte a mídia descobrir que você é uma viciada.

Não mediu as palavras propositalmente, estava cansado de ser bonzinho com ela. Granger precisava voltar à realidade e perceber que Weasley, o homem que a traía e que detestava, era extremamente querido pela sociedade bruxa, bastava uma fagulha para que todos passassem a culpá-la pela morte do ruivo. Ela tinha plena consciência de que o apoio da mídia e da comunidade mágica era importante, já estivera do outro lado, afinal de contas. Do contrário, sua vida se tornaria um inferno e não estava referindo às dificuldades que uma notícia como essa acarretaria para o caso.

– Você não ousaria. – Percebeu que a palavra “viciada” soou de forma apelativa aos ouvidos dela.

– Pague para ver. – Disse no mesmo tom baixo que ela, escondendo a satisfação quando ela grunhiu de raiva e o empurrou para fora de seu caminho. Pois Granger sabia que fazia o estilo Malfoy jogar com peças inusitadas no tribunal e ainda sair ganhando, tinha plena consciência de que ele era capaz de vazar aquela informação.

Qual é o seu problema?!*

Ela recomeçou a andar de volta a casa de Andrômeda, mas Draco não estava realmente preocupado quanto ao fato. Já a havia levado até a associação que desenvolvia um trabalho social com dependentes alcoólicos e agora que ela sabia o endereço só precisava de mais um pouco de paciência e poder de persuasão para que Hermione não demorasse a procurar a Sra. Blyte.

Quando deu por si, não havia mais ninguém do lado de fora da casa e o cartaz convidando quem tivesse problemas com bebidas para uma sessão onde pudesse dividir seus problemas com pessoas que sofriam do mesmo mal ficara esquecido. Tinha certeza de que ela ainda voltaria ali.

Resignado, Draco a seguiu com as mãos no bolso do casaco escuro, os botões todos fechados devido a brisa fria que já chegava juntamente com o fim de setembro, ouvindo de bom grado os resmungos da mulher e retrucando quando achava necessário enquanto observava o vestido fino de tecido vermelho caríssimo — sabia, pois tinha certeza que vira Dafne em um modelo parecido há algumas semanas — esvoaçar conforme a velocidade que ela caminhava.

– Draco!

A voz irritantemente fina, assim como dedos esqueléticos e extremamente brancos estalando em frente ao seu rosto, o tirou de seus devaneios sobre o produtivo dia anterior com Granger. Evitou uma careta ao perceber que a morena a sua frente o torturaria de forma dolorosa se descobrisse que estava pensando em outra morena, então resolveu se concentrar na presença inexplicável e inconveniente de Parkinson em seu escritório.

– Como entrou aqui?

Pansy estava em pé diante de sua mesa, segurando uma pasta branca em uma das mãos e uma bolsa grande e chamativa demais na outra. Revirando os olhos, ela sentou-se sem necessidade de convites cruzando as pernas de forma a deixar visível grande parte de pele devido ao comprimento de seu vestido roxo extremamente justo. A mulher sorriu ao notar seus olhos vaguearem distraidamente pela região e lhe estendeu a pasta.

– Subornei sua secretária.

– Emily é insubornável. – No mínimo, ela teria entrado em sua sala quando Emily se ausentara de seu posto para ir ao banheiro. Abriu a pasta que possuía o símbolo do Ministério da Magia estampado na primeira página e, quando finalmente entendeu do que se tratava, amaldiçoou que ela estivesse justo nas mãos de Pansy. – Quem lhe entregou isso?

– Blásio. Ele pediu que lhe entregasse, pois estava apressado para sair... – Ela deu de ombros e, com raiva, Draco viu um sorriso malicioso surgir no canto esquerdo dos lábios grossos e marcados de vermelho pelo batom de cor escarlate. – Então quer dizer que Granger matou mesmo o Weasley? Impressionante como as pessoas nos surpreendem.

– Não irei falar com você sobre o caso de Granger. – Disse fechando a pasta e a jogando na mesa enquanto escorava-se contra a cadeira. – Ética profissional, mas não tenho certeza se sabe o que é isso.

– Muito me admira que exerça sua tão preciosa ética profissional com ela. – Pansy levantou-se e deu a volta na mesa de mogno escuro, acomodando-se sobre o tampo, logo ao lado do abajur dourado e discreto que havia ali, de forma distraída ao encará-lo com os olhos brilhando. – É sua chance de derrubá-la, tirá-la para sempre de seu caminho e está agindo como se não tivesse consciência disso.

– Não tenho motivos para deixá-la ir para Azkaban, Pansy. – Disse revirando os olhos pela infantilidade da mulher, que simplesmente suspirou de forma frustrada.

– Ela é o empecilho que não o deixa subir ainda mais de status como advogado, Draco.

– Não preciso colocá-la na cadeia para provar que sou bom no que faço, eu sei que sou. – Pansy fez menção de aproximar-se para sentar-se em seu colo, mas o loiro fez questão de levantar-se antes que ela pudesse concluir seu objetivo. – O que realmente veio fazer aqui?

Aparentemente sem se abalar, a morena fingiu ajeitar sua gravata e o encarou com um sorriso predador, tão perto que podia sentir sua respiração quente.

– Já disse que fica ainda mais sexy usando traje social?

A voz dela era rouca e se dissesse que não o afetava estaria mentindo, pois Pansy havia se tornado uma mulher extremamente bonita e sabia usar perfeitamente as armas que possuía a seu favor. Pior: sabia usar perfeitamente as armas que tinha a seu favor buscando justamente os pontos fracos de Draco. Suas mãos foram direto para a cintura fina trazendo-a junto a seu corpo.

– Sim, já disse. – Sua boca encontrou um lugar específico no pescoço da morena, fazendo-a tremer e se arrepiar fincando as unhas compridas em seus braços, ainda sobre a camisa branca. — Mas gosto que amacie meu ego.

– Ah, Draco... – Ela suspirou longamente e podia até imaginá-la com os olhos fechados, a expressão em êxtase enquanto trabalhava com língua e dentes em direção ao decote nada discreto e muito tentador de seu vestido. – Por que não apareceu no Baile Beneficente?

Então, foi como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre ele, que se lembrou imediatamente por que a estava evitando e que levá-la para cama (não no sentido literal, é claro, visto que em seu escritório não havia uma cama) seria como jogar no lixo todo trabalho que fizera para não dar esperanças a ela, ou a qualquer outra mulher, quanto a um possível compromisso.

Deixando-a momentaneamente confusa, a soltou e afastou-se colocando o terno italiano que se encontrava sobre sua cadeira e pegando o resultado da perícia da morte de Ronald Weasley para colocar dentro de sua pasta executiva.

– Marcamos algo e eu me esqueci?

– Não, mas eu imaginei que...

– Imaginou errado. – A cortou, fazendo-a respirar fundo para conter a raiva enquanto o fuzilava com os olhos verdes. – Tenho um compromisso importantíssimo agora, tome um chá com Emily enquanto me espera.

Pansy forçou um sorriso, obviamente consciente de que ele não voltaria ao escritório visto que o horário de expediente estava quase no fim. Draco fechou a porta, soltando a respiração aliviado sob o olhar atento de Emily.

A Sra. Smith era a melhor secretária que alguém poderia ter e a contratara depois de várias experiências frustradas com mulheres mais jovens que só pensavam em tentar transar com ele. No alto de seus 60 anos, embora aparentasse menos com seus cabelos loiros presos em coque e poucas rugas para a idade, a senhora era eficiente, discreta e até mesmo um pouco rígida. Não poderia agradecer menos por isso, pois era exatamente graças a sua rigidez que pessoas como Parkinson ficavam longe de sua sala.

– Livre-se de Pansy. – Disse em tom baixo, piscando de forma charmosa para a mulher.

– Como ela entrou? – Emily pareceu confusa por um momento e seu rosto corou ao, provavelmente, perceber que deixara uma brecha para que a outra entrasse sem permissão.

– Não se preocupe com isso, eu tenho que ir.

Com pressa, pois Pansy poderia aparecer novamente e tentar impedi-lo, Draco despediu-se e saiu em direção ao Beco Diagonal. Antes que tivesse tempo de desprezar toda aquela multidão de bruxos que andava por ali de um lado para o outro sem aparente ordem visível, aparatou para a casa de sua tia Andrômeda com a cabeça completamente absorta no conteúdo do documento incriminador que tinha em mãos.

Notas finais
Boa noite!!! Certo, não tenho desculpas, sou uma enrolada mesmo, mas é realmente não sabia como escrever o que tinha em mente, até que a inspiração bateu em mim hoje (hoje mesmo!), então escrevi e postei no mesmo dia! Sem contar que quem lê minhas outras fics já sabe que estou atualizando todas, pois o próximo mês está bastante corrido para mim. Que tal? Gostaram do "passeio" deles?! Eu tinha pensado em algo mais leve, até fiz a continuação deles chegando em casa e tornando toda a cena mais "light", mas gostei desse cenário mais dramático que se formou. O que acharam? E, finalmente, estou incluindo mais personagens na história... Só eu notei que a vida de Draco andava meio vazia??! Ele está sempre mencionando Dafne, Pansy e Blásio, mas eles quase não aparecem, a participação do último foi mínima pelo que me lembro. Enfim... Como vocês puderam perceber, ele quase caiu nos encantos de Parkinson, but... Não sei se iriam gostar que a coisa realmente se concretizasse. O que acharam do modo como Draco a dispensou? Querem que ele se mostre conquistador mesmo e eu tenho que colocar mais mulheres na vida dele? kkkkkkkkk Gente, muito obrigada pelos comentários no capítulo anterior, espero que apareçam mesmo com a minha demora e que, principalmente, gostem né? kkkkkkk Já tem tanta gente acompanhando, podem dar as caras por aqui pra dar um "oizinho" :D Adoro discutir os rumos que a história irão tomar! *Essa frase, não sei se perceberam, não é dita duas vezes. A frase do começo é como se Draco estivesse relembrando a cena o que ela fez antes de dizer isso. Galera, bjão, e até o próximo!