Neurótica
34 Capítulo 34
— Vejo aqui que é terceiranista no Instituto Ministerial de Direito Mágico em Oxford, Srta. Locke.
— Isso… Isso mesmo, Sr. Malfoy.
Ela gaguejou em resposta e Draco suspirou resignadamente enquanto lia o currículo da garota, não se importando em mentalmente praguejar Zabine por marcar as entrevistas dos malditos estagiários naquele dia, justamente. A ideia de contratá-los fora completamente dele, pois, de acordo com Blásio, estabelecendo um serviço de formação de novos advogados em parceria com algumas Escolas de Direito subsidiadas pelos Ministérios Britânicos, os escritórios “associados” seriam vistos com bons olhos política, social e economicamente.
Tratava-se de um belo golpe de marketing, propaganda pura e simples. Porém, cairia como uma luva naquele momento para melhorar a imagem do escritório em si, vinculando-os a algo considerado inovador no mundo bruxo, criado pela moderna administração do adorado Ministro Kingsley. Todos que interessavam naquele sistema falido de sociedade os veriam como o futuro do Direito Bruxo, os primeiros a aderir àquele tipo de ensino, pioneiros e visionários como eram, supostamente. A teoria, nesse caso, não era uma vadia.
O Instituto de Direito Mágico fora criado durante a Revolução Francesa por sugestão de um dos um Chanceleres da Universidade Trouxa de Oxford, Andrew Stone, um bruxo mestiço, por isso a escolha da cidade para a instalação efetiva da primeira escola ministerial para advogados. É verdade, não obstante, que durante as centenas de anos em que o Instituto funcionou, este serviu perfeitamente para atender a interesses do Ministério da Magia, principalmente aqueles ideológicos, afinal as maiores políticas públicas sancionadas pelo órgão máximo saíra das mentes dos advogados formados ali.
— Artigo de opinião no Paladino Jurídico a respeito dos abusos infligidos aos trabalhadores subcontratados do Ministério? – A viu prender a respiração por um momento, mas não o impediu que continuasse. – Muita coragem de sua parte escrever um artigo atacando o órgão que a mantém estudando.
— E-eu confio no julgamento do Ministério sob Kingsley e… — As bochechas alvíssimas da menina se encontravam cada vez mais vermelhas. – E, além disso, minhas opiniões estão… Completamente fundamentadas. São apenas… Opiniões.
— Não são “apenas” opiniões quando se trata de um dos jornais que o Ministro lê, semanalmente. – Ela o encarou um pouco assustada, provavelmente surpresa com a notícia de que o jornaleco de faculdade fosse lido pelo Ministro. – São críticas.
Assim, após ter certeza de que a menina estivesse completamente a mercê da atmosfera de tensão instalada propositalmente por ele, recostou-se calmamente contra a cadeira e dedicou-se a encarar o pedaço de pergaminho que continha os dados estudantis da outra. Seu objetivo, por sua vez, era analisar como a garota reagiria sob pressão, apesar da personalidade característica e indesejavelmente introvertida que a mesma apresentara até então. Apesar de amaldiçoar a ideia de Blásio, ainda estava contratando alguém para trabalhar com ele e não tinha intenção alguma de carregar nas costas um completo acéfalo jurídico.
Em comparação com a última candidata a passar por sua sala, notou, Arabella Locke, a nervosa futura jurista, tinha um currículo acadêmico exemplar. Uma página inteira havia sido reservada apenas aos famigerados artigos de “opinião”, enquanto que meia página fora dedicada a projetos de pesquisa sobre assuntos de diversos ramos do Direito Mágico, inclusive a respeito de Direitos das Criaturas Mágicas, matéria da qual muitos estudantes costumavam praticamente fugir na graduação após sua incorporação definitiva à grade por lei confeccionada por Granger e instaurada por unanimidade ministerial e social, após intensa e ferrenha campanha.
Além disso, Locke parecia interessar-se bastante por Cooperação Internacional, tendo duas pesquisas finalizadas e uma ainda em andamento, algo que também o interessara durante sua passagem pelo Instituto e que ainda lhe chamava a atenção, embora não dispusesse de tempo para dedicar-se ao estudo ou pensar em iniciar uma carreira no ramo, principalmente nos últimos meses. Dessa forma, remexeu-se desconfortável e voltou a atenção ao que a demandava no momento – era assim que vinha coordenando sua vida, ao menos, desde que pudera considerar-se um homem adulto –, colocando o currículo ao lado daquele que considerava seu concorrente mais forte: Ethan Selwyn, garoto simpático, de respostas rápidas, fáceis e inteligentes, mas segundanista.
— Praticamente não desenvolveu estudos na área criminal. – Ela lhe sorriu constrangida e Draco simplesmente lhe levantou uma sobrancelha em resposta, esperando uma réplica.
— Devo confessar que… É algo pelo que venho me interessando mais recentemente. – A menina respirou fundo. – Como pode perceber, me concentrei mais em áreas administrativas.
— E interessou-se por qual motivo, exatamente?
Observou-a torcer as mãos sobre o colo enquanto buscava as palavras, mas àquela altura não havia sequer necessidade que ela lhe dissesse para saber. Hermione Granger. Chegara a seus ouvidos que o caso estava, realmente, sendo bastante discutido pelos juristas bruxos, os quais comparavam-no a julgados antigos do Ministério e até mesmo a literatura jurídica trouxa, todos dispostos a ter uma opinião relevante e, com sorte, genial sobre o assunto.
— Gosto da forma com que vêm conduzindo o caso de Granger. – Por fim, a garota respondeu firmemente. – Claramente, houve predisposição do Ministério a levar o inquérito adiante e, após, ao processo. E ainda… Como se não bastasse, parte da imprensa resolveu, novamente, mostrar uma clara parcialidade ao informar sobre o caso, o que foi… Inadmissível.
Uma fã, que ótimo, pensou em desdém, novamente voltando o olhar cauteloso ao currículo de Selwyn. Ao finalizar, assim, ela suspirou pesadamente, como se fosse tudo que quisesse falar desde que adentrou sua sala de forma apressada, atrasada ao menos cinco minutos e um tanto quanto descabelada. Apenas isso poderia ter feito com que a desqualificasse para a vaga que gostaria de ocupar, mas seu jeito excêntrico lhe chamara a atenção.
Locke, com seu cabelo loiro-dourado cortado com praticidade em cachos curtos, vestes profissionais, mas um tanto quanto discordantes entre si, visto a saia xadrez de aparência antiga e a bota marrom de cano médio sobre a meia calça escura, que pareciam deixá-la um pouco mais baixa do que o normal, era uma mistura bastante curiosa da própria Granger infantil com Luna Lovegood, a garota que gostava de criaturas mágicas estranhas e, possivelmente, imaginárias. Não eram semelhantes em fisionomia de ponto de vista algum, exceto pela pele clara, pois a menina ainda tinha algumas sardas discretas sobre o nariz e bochechas, além de ser um tanto quanto mais gordinha que as demais.
Sua aparência denotava simpatia, constatou, apesar de toda a timidez inicial, jamais poderia dizer que aquela era uma estudante de Direito Mágico, sendo estes, geralmente, sisudos e de ar superior. O próprio Selwyn demonstrava tal personalidade, ele era o próprio estereótipo do que se esperava de um advogado: jogador, esperto, rápido, talvez adulador demais. Contudo, Arabella Locke era inteligente, quase que uma enciclopédia jurídica ambulante, e possivelmente surpreendente – era o que ele esperava dela.
— A vaga é sua. – A menina, ainda nem na casa dos 20 anos, arregalou os olhos e empalideceu, sem reação. – Não pense que a estou contratando pelo elogio conveniente. Você ficará aqui para aprender, na prática, Direito Mágico Criminal, ou seja… Não terá tempo para se dedicar às suas demais atividades durante o expediente, sendo elas quais forem.
— Muito, muito obrigada, Sr. Malfoy. Eu… — Ela sorriu um pouco atordoada. – Eu não sei como agradecer.
— Este é o contrato que assinará com o Ministério… E o outro é um contrato de sigilo, algo que não foi observado nas regras Ministeriais. – Retirou da gaveta duas pastas negras contendo os pergaminhos, sem dar atenção aos agradecimentos da menina. – Você, por lei, não está obrigada a manter o sigilo aplicado à relação advogado/cliente, mas, para trabalhar comigo, terá que concordar com as cláusulas aí impostas. Não é negociável.
— Tudo bem, como quiser… Eu… Ainda não acredito…
Percebeu os dedos levemente trêmulos da menina ao ter as duas pastas de couro em mãos, quase solenemente, mas não se prestou a continuar observando suas reações infantis, embora estivesse fabricando uma nota mental a respeito da necessária mudança pela qual Locke teria de passar. Por fim, colocou-se de pé e simplesmente amassou o currículo de Selwyn e de todos os outros candidatos a vaga de estágio, descartando-os displicentemente na lixeira mais próxima, completamente farto do processo estafante que era, basicamente, conhecer jovens completamente aquém à realidade do Direito Mágico, ignorantes a respeito do Processo e/ou egocêntricos demais para perceber que não se encaixariam ali nem em seus sonhos mais lúdicos, omo um Rowle qualquer que entrevistara como um favor a um conhecido de sua família.
— Assine os contratos e me encontre em uma hora no Ministério. – Declarou enquanto munia-se de seu agasalho para sair.
— Mas eu… Estava pensando em…
— Se tiver algo melhor para fazer, não é necessário nem ler os contratos, Locke. — Voltou-se para vê-la abrir a boca afim de pronunciar uma desculpa qualquer para não comparecer a seu primeiro compromisso como sua estagiária, mas sob seu olhar firme a menina pareceu rapidamente mudar de ideia a respeito do que quer que fosse que “estivava pensando”. – Departamento de Execução das Leis da Magia. Não se atrase.
Com a pasta executiva trespassada ao redor dos ombros, saiu para a antessala apressado, examinando satisfatoriamente que a fila de candidatos interessados a vaga de Zabine ainda era um tanto longa. Contudo, sequer dedicou-se a deitar um segundo olhar aos estudantes, virando-se a Sra. Smith de forma indiferente, percebendo que ela compartilhava do mesmo sentimento.
— Espero que Blásio esteja bastante arrependido dessa ideia estapafúrdia de encher o escritório de adolescentes. – Draco riu do tom sussurrante, abrindo uma correspondência rotineira do Banco Gringotes, que informava seus gastos mensais.
— Não é tão absurda assim. Ele está zelando pelo futuro. De todos nós, aliás.
Deu de ombros e jogou a carta sobre a mesa, sem realmente importar-se com os números contidos lá, sendo estes exorbitantes ou não. Nunca se preocupara em realmente conferir se a conta batia, para o caso de alguém ter a intenção de lesá-lo, ou se gastara demais, simplesmente pagava suas dívidas. Podia perceber a senhora segurando-se para revirar os olhos perante todos aqueles estudantes acomodados ali, evitando demonstrar qualquer indelicadeza àqueles que já se encontravam com os nervos à flor da pele.
— Apresente Locke ao cubículo em que ela se instalará e ao resto do escritório, tenho um compromisso agora.
— Não há nada na minha agenda.
Com apenas um olhar em direção à senhora, esta percebeu que, realmente, não era para haver. Ela não sabia sobre o estado atual de Granger, apenas e simplesmente entendia que, o que quer que fosse fazer, não precisava ser de conhecimento público, afinal já trabalhavam juntos há tempo suficiente para entender mutuamente seus hábitos e motivações.
Dessa maneira, Draco despediu-se e ganhou o gelado Beco Diagonal com suas ruas de pedras ladrilhadas e movimentadas àquela hora do dia, cada qual ocupado com suas atividades e compromissos inadiáveis. Certamente, em qualquer outro momento de sua vida, pararia para tomar um café, um chá ou qualquer outra coisa mais forte em um dos pubs mais finos que habitava o lugar, ainda que a horário não fosse considerado tão propício. Entretanto, precisava despencar rapidamente à clínica Queen Victoria para falar com Granger, o que fazia com resignação e altos receios.
Talvez fosse infantil admitir, porém precisava fazê-lo, ao menos, a si mesmo: simplesmente não sabia como encará-la desde a notícia do aborto espontâneo, que confirmara através de Andrômeda. Ensaiara diversas frases que pudessem consolá-la, mas não se imaginava dizendo-lhe palavras de conforto; pensara em questionar se a mulher não tomara as devidas precauções para que não engravidasse ou se já tinha conhecimento de seu estado, mas àquela altura lhe parecia fútil e agressivo, pois Granger não era a única responsável, poderia muito bem ter ele mesmo tomado poções de Auto Esterilização Controlada, se precavido sem esperar que ela o fizesse. Além disso, lembrava-se, claramente, de ver alguns fracos da Poção de Tanásia, utilizada constantemente pelas mulheres bruxas para evitar a concepção, na mesma caixinha de madeira onde encontrara a carta de despedida de Weasley.
Ainda, levava em consideração que uma das piores situações, dentre todas nas quais já a havia encontrado, até então, incluindo aquelas em que ela sucumbira ao álcool, fora desencadeada ao tomar conhecimento da gravidez de Brown, como se a notícia fosse o que a comunidade bruxa precisasse para se conformar com a morte inesperada de Weasley, afinal agora sua linhagem teria continuidade, pois, se dependesse dela, a esposa, estaria perdida para sempre. Pela primeira vez soube que Granger perdera uma criança e, também pela primeira vez, viu-a abalar-se de verdade por algo. Ela não se importava com a posteridade do nome de Ronald Weasley, entretanto, depositara suas esperanças de reconstrução pessoal e emocional em um feto que não vingara além dos três meses. Essa era sua decepção àquela época, mas não tinha certeza sobre qual seria sua reação dessa vez.
Assim, em um suspiro, concentrou-se no lugar onde ela se encontrava e, instantaneamente, alguns segundos depois, viu-se perante uma construção datada da Era Vitoriana. O prédio pintado em cores claras, que fora construído com autorização da Rainha Victoria, uma amiga dos bruxos à sua época e forma, levava o nome da mesma em homenagem e era utilizado para atender às emergências dos bruxos britânicos, que nada tinham a ver com acidentes mágicos. Em um preciosismo e, obviamente, para evitar confusões e não levar problemas ao Ministério da Magia e ao Gabinete do Primeiro Ministro Trouxa era melhor que seus povos não se misturassem. Desde então, a relação pareceu ocorrer relativamente bem.
A clínica era rodeada por portões de grade escura que davam vista para jardins bem cuidados, aonde algumas pessoas iam para tentar obter alguma paz ao fugir do ambiente médico que ditava o ritmo do lado de dentro, constantemente. Assim, sem hesitar, abriu os portões, ato somente concedido àqueles que, comprovadamente, possuíam sangue mágico em suas veias e encaminhou-se à porta de entrada com maçanetas douradas e detalhes em vidro transparente, os quais permitiam a observação do que ocorria do lado de fora. A cor predominante ali, assim como nas paredes da fachada, era o bege claro com entalhes em branco, pois se percebia certo esmero na feitura do prédio, como se houvesse sido pensado para transparecer a aura de um ambiente confortável. Contudo, achava difícil que alguém pudesse senti-lo diante de tudo que se passava em seus corredores, quartos e salas de cirurgias, ante as notícias desanimadoras que os funcionários tinham de proferir todos os dias às diversas famílias que por ali passavam, inevitavelmente.
Assim, após informar-se com a recepcionista de sorriso falsamente simpático onde se situava o quarto de Granger, tomou o elevador em direção ao quinto e último andar. Lembrava-se de sair dali na madrugada anteior com intenção de trocar-se e tentar estabilizar sua mente, ainda muito confusa sobre os últimos acontecimentos, mas a memória sobre como covardemente não conseguira voltar para saber como ela estava era mais forte do que qualquer outra, pois, naquele momento, raciocinou que, novamente, Granger perdia uma criança devido a um “homem intruso” em sua vida, afinal ela não precisava dele e de nenhum outro para seguir adiante, ainda que se enganassem sobre.
Era como se estivessem em um relacionamento autodestrutivo – o segundo dela – e, mesmo assim, insistissem naquela ideia de ajuda supostamente mútua, mas completamente de mão única, que não os levaria a lugar algum, claramente fadado ao fracasso desde o início. E, assim como durante seu casamento, não queria ser culpabilizado da forma que ela o fizera com Weasley. O aterrorizava a ideia de que Granger pudesse compará-lo ao outro e lhe atribuir a responsabilidade sobre a perda do feto devido à briga que travaram apenas alguns segundos antes dela sentir a dor fatal. Draco fielmente esperava e alimentava a ideia de que ela estivesse sã o suficiente para não fazê-lo, afinal torturara a si mesmo durante todo o dia e noite anteriores a respeito do assunto. Sua própria consciência o julgava um tanto quanto responsável, apesar de frequentemente tentar ignorar essa parte de sua racionalidade.
Por isso, ainda no dia anterior, procurara Andrômeda para que esta fizesse companhia a Granger na Clínica. Não podia confiar em mais ninguém para fazê-lo, pois, da mesma forma que prevenira os funcionários de que a estadia da mulher ali, obviamente, não poderia ser pública, precisava policiar-se tanto quanto para evitar que acontecesse um imprevisto. O estardalhaço que Ginny Potter causara na imprensa bruxa aquele dia, de qualquer forma, já fora prejudicial o suficiente a eles.
Ignorou com sucesso os olhares dos bruxos e bruxas presentes no elevador, provavelmente imaginando o que poderia estar fazendo ali, e saiu rapidamente assim que as portas de ferro retorcido pintados na cor bronze se abriram, ajeitando o casaco de inverno grosso. O clima frio do início de ano começava a abrandar aos poucos, mas ainda eram necessárias algumas camadas a mais de roupas para manter-se aquecido. Assim, percorreu todo o corredor de piso floreado com mosaicos nas cores preto e branco, escorregadios devido à cera, até alcançar a última porta ao fazer uma esquina à esquerda. Era o máximo de privacidade e exclusividade que conseguira dar a ela, considerando que na porta à frente habitava apenas um bruxo velho, rico e solitário em coma.
Não pensou que fosse vacilar, entretanto, afinal não a estava visitando por cortesia, mas por que a necessidade se fizera presente. Essa também não era a verdade mais fácil de encarar dos últimos dias. Importava-se com Granger o suficiente para preocupar-se com seu bem-estar, não era discutível, mas, ao mesmo tempo, sentia que podia abandoná-la em sua constante solidão e enfermidade delicada em nome da própria proteção à sanidade, ainda que com muito custo. A ideia não deveria perturbá-lo tanto quanto o estava, mas era um fato que não gostava de encarar. Por fim, em um obrigado impulso, bateu com os nós contra a porta de madeira clara e não esperou resposta para abrir e adentrar o cômodo.
A luz do sol iluminava completamente o ambiente ao invadi-lo pela janela veneziana, que continha uma cortina branca de tecido fino. As cores do quarto seguiam o mesmo tom claro que podia ser encontrado do lado de fora, mas pareciam contrastar gritantemente com a aura pesada e palpável, que parecia permanentemente instalada ali. Não havia nada além de uma cama hospitalar, uma poltrona bege com uma almofada mirrada e puída, um armário intocado de madeira escura e uma porta, a qual provavelmente levaria ao banheiro, além dos acessórios hospitalares. Não havia nada que remetesse à paciente, qualquer objeto pessoal que dizia ser aquele o apartamento de Hermione Granger.
Esta, por sua vez, encontrava-se deitada de costas para a porta e janela, como se evitasse a irritante claridade que a atingia inevitavelmente. Protegida por um cobertor grosso que lhe pareceu bastante familiar naquele instante, Granger mantinha-se encolhida contra si mesma, o que a fazia parecer pequena e frágil, apesar dos indomáveis cachos que chamavam a atenção por si só, ainda que se encontrassem um tanto opacos. Ela percebera sua presença, certamente, mas não fizera menção de virar-se para ele e lhe dedicar atenção e, quando dera a volta à cama, como que se anunciando, a mulher continuara encarando o caminho invisível que seu dedo indicador percorria no lençol branco.
Desde a madrugada anterior, não tivera nenhuma informação a respeito do estado de saúde dela, exceto aquela que Andrômeda pudera lhe dizer: ela perdera a criança, ainda um feto de quase dois meses, o que não lhe deixava dúvidas de que ele era, realmente, o pai. Segundo sua tia, pelo fato de tratar-se de uma mulher adulta, completamente consciente e capaz, os Curandeiros recusaram-se a disponibilizar qualquer notícia a qualquer um que não fosse a mesma, pois ainda poderia zelar pelas próprias prerrogativas médicas. Além disso, uma enfermeira dissera ter sido um procedimento simples a retirada de qualquer resíduo do feto que pudesse ter permanecido em seu corpo após o aborto espontâneo. Não havia mais nenhum sinal de que ela estivera grávida dele.
Entretanto, nada disso dizia muita coisa a respeito de Granger. Ela não podia ter filhos? Uma gravidez sempre seria sinônimo para risco iminente, se ela decidisse que quisesse tê-los? E, principalmente, o que ocasionara o aborto? Era algo com que ele, egoisticamente, se preocupava. Hermione estava nervosa, simplesmente, mas não tocara nela naquela noite e nem nas anteriores. O aborto acontecera devido à discussão ou era uma forma de o corpo da mulher se manifestar sobre a rejeição ao feto na hora mais inapropriada possível? As perguntas o estavam torturando desde então, mas não podia simplesmente pressioná-la por respostas, principalmente, enquanto a encarava e constatava a incontestável e indesejada fragilidade que a envolvia.
— Hermione.
O dedo dela pausou por um minuto que pareceu longo demais e Draco esperou, pacientemente, tentando refrear o sentimento de que a Granger que observava lembrava em muito a mulher fria que conhecera meses atrás, completamente alheia ao que acontecia ao seu redor, indiferente ao que não era de seu interesse, racional e egocêntrica no que dizia respeito a si mesma e a vida que criara para si. Quando ela o encarou, porém, não encontrou a emoção que ainda habitava seu olhar àquela época. Nada podia ser lido nos olhos amendoados, nem mesmo a culpa que esperava recair sobre seus ombros ou o rancor que a castanha poderia ter dele por, supostamente, ocasionar a perda de mais uma criança. Não havia raiva, não havia tristeza. Pelo contrário, certo vazio impactantemente perturbador o encarava de volta, sem hesitação – o único sinal que poderia fazê-lo associar a imagem da mulher enferma com a lembrança que tinha da mulher enérgica.
Então, policiando-se para que ele próprio não vacilasse mais uma vez enquanto mordiscava a pele fina do lábio inferior, desfez-se da pasta executiva, colocando-a sobre a cadeira sob o olhar atento de Granger e sentou-se ao seu lado na cama, onde restava um mínimo espaço deixado pelo corpo pequeno. Mesmo naquela época, quando Granger reagira furiosamente triste a respeito da gravidez de Brown, não se lembrava de vê-la tão inexpressiva ou tão aquém da realidade quanto naquele momento. Ela não se movera para impedi-lo ou lhe conceder mais espaço, sequer desviara o olhar quando moveu uma mão para retirar um cacho insistente que lhe caía sobre o rosto, pois não conseguia impedir a empatia latente que crescia cada vez mais em si.
O pensamento que tivera quanto a afastar-se antes que fosse tarde demais para si mesmo agora soava egoísta demais – soava como Draco Malfoy, aliás, deveria soar – mas vê-la daquela forma, novamente, o fez considerar que não poderia simplesmente deixá-la para lidar sozinha com seus problemas. Não apenas os jurídicos, porém, em especial aquele que os levara até ali, pois não era um problema só de Granger e da forma como ela escolhera conduzir sua vida. Era um problema deles, ainda que agora existissem apenas suas consequências mais danosas. Hermione Granger perdera um filho dele e não era algo de que deveria fugir como um menino assustado, como seu instinto mais covarde lhe sussurrara constantemente desde a madrugada que a deixara ali. Era algo com que deveria lidar com ela, pela primeira vez.
— Eu sinto muito.
Ela não se manifestara, tampouco. Simplesmente continuara inerte na mesma posição em que estivera desde que Draco chegara ali. Não sabia exatamente o que esperava, mas a imagem de Granger chorando desesperadamente ao constatar que já passara por aquele tipo de situação, ainda na Mansão Black, era nítida demais em sua mente, o que fazia com que, provavelmente, estivesse inconscientemente preparado para algo mais próximo àquilo.
Dessa forma, a inércia que a tomara era um tanto quanto negativamente surpreendentemente. Queria uma reação, queria saber o que ela sentia, queria entender pelo que estava passando, queria poder encontrar uma forma de ajudá-la. Por ela, não pelo feto. Não era algo pelo que tinha qualquer afeição, sequer tinha conhecimento de sua existência! Todavia, aquela não deveria ser uma convicção que fazia com que sua respiração se tornasse forte e cadenciada em contraste com as batidas de seu coração, mas, de alguma forma, o era. Sentia muito, sim, mas por Granger, por sua perda, apesar de todo o momento de caos em que estavam vivendo, apesar de tudo que rechaçava a concepção de uma criança.
Não conseguia distinguir ou nomear o que sentia ao pensar no assunto ou ao estar ali a presenciando naquele estado, apenas sabia que a ideia de Granger ter estado grávida dele o desestabilizava ao extremo. Podia imaginar pelo que ela passara, apesar de ter consciência de jamais poder comparar, visto suas experiências completamente opostas a respeito da situação. Era o segundo aborto de Granger, mas dessa vez ele era o pai e não sabia o que ela pensava sobre. Consequentemente, sentia-se uma criança confusa sem saber como reagir na presença de um adulto em uma ocasião específica qualquer.
— Você pode me passar o jornal de hoje?
A voz rouca dela o tirara de seus devaneios, quase o assustando pela pergunta repentina. Encarando Granger com sua face pálida e inexpressiva, percebeu que não lhe faria diferença negar ou anuir ao seu pedido, era apenas algo familiar e cotidiano que a mulher queria ter em mãos, sem qualquer importância em especial.
— Eu não estou com o jornal aqui. – Mentiu sem ao menos piscar, no que ela voltou aos círculos invisíveis que criara no lençol. – Já sabe quando terá alta médica?
— Hoje à tarde. – Granger respondeu automaticamente, piscando lentamente.
— Preciso que assine as procurações para que eu entre com as ações contra Brown e o Ministério.
Informou calmamente, esperando que ela associasse todas as informações. Então, a observou sentar-se de forma lenta e encará-lo à espera dos documentos. Com um suspiro de aquiescência, tirou os pergaminhos da maleta e entregou a pasta a ela, assim como a caneta, indicando os lugares onde ela deveria assinar. Em silêncio, a observou ler rapidamente cada uma das linhas dos pedidos de ação que iniciaria ainda naquele dia e, finalmente, rubricar seu nome.
— Draco? – Ela manteve os papéis firmemente em suas mãos quando Draco fez menção de pegá-los. – Quero ser atualizada, quero que me mantenha informada sobre seus próximos passos quanto às minhas demandas... Todas elas. Ou acabaremos aqui.
O tom dela foi definitivo, mas sua expressão apática era a mesma. Não esperava que suas “demandas” fossem algo com que ela estivesse preocupada naquele momento, por isso, a lucidez racional o surpreendeu. De forma negativa, diga-se de passagem, novamente. Esperava mais de Granger, queria mais, queria que ela lidasse com aquilo, não que simplesmente fingisse que nada houvesse acontecido. Por que ela perdera um filho. Deles. Ela estava em seu juízo perfeito, percebeu, apenas não queria enfrentar aquilo de frente em uma atitude similar à antiga Granger.
— Considere feito.
Ela soltou os papéis e Draco levantou-se após guardá-los na maleta novamente. A observou ajeitar-se sob o cobertor e voltar novamente à posição fetal em que se encontrava, os olhos presos nos próprios dedos, embora imaginasse que ela sequer percebesse o próprio movimento contínuo. Nada poderia fazer enquanto ela mesma não quisesse sair daquele estado de letargia, apesar de imaginar-se a chacoalhando pelos ombros em busca de tentar obter uma reação que não o fizesse associá-la cada vez mais à mulher que se tornara com o tempo, aquela que preferia esconder os problemas sob um tapete bem grosso, pois, desde que as aparências denotassem normalidade, tudo estaria bem.
Assim, informou que a encontraria ao anoitecer na Mansão Black, ainda que contrafeito, e saiu da sala, finalmente conseguindo respirar livremente. Aquilo era ridículo, estavam há milhas da relação não romântica que iniciaram ao instruí-la a procurar ajuda para resolver seus problemas psicológicos e o alcoolismo. Porém, a mulher que se encontrava do outro lado da porta era a mesma que vislumbrara pela primeira vez há meses na casa de Potter, exceto pelos cabelos molhados e a falta do roupão felpudo. E isso não era nada bom.
Enquanto caminhava pelo corredor em direção ao elevador, sentiu novamente a ânsia de vômito que o atormentara desde a madrugada passada. Ainda era clara a memória dele despejando tudo que comera durante o dia assim que voltara a Mansão Black, tão mexido ficara devido ao acontecido. Por um momento, enquanto sentia as gotas de suor escorrendo teimosamente por sua testa, a cabeça humilhantemente posta sobre o vaso sanitário e o estômago dolorido pelo esforço, não soubera o que fazer.
Ele era Draco Malfoy e sentira-se totalmente perdido. A sensação não era nada reconfortante, constatou, e Draco não gostava de sair de sua zona de conforto, por isso tratara de recompor-se. Lembrava-se de encarar o próprio reflexo no espelho, os olhos vermelhos e lacrimejantes, e aquela não era uma imagem que gostaria de guardar, pois significava a momentânea e sigilosa falta de controle pela qual passara no momento, embora fosse recorrente em sua memória.
O ruído do elevador abrindo as portas ruidosas ao chegar à recepção o tirou de seu inútil devaneio e, então, encontrou rapidamente a lareira mais próxima e aparatar diretamente para o Ministério da Magia com a intenção de ocupar a mente o mais rápido possível com o que era, realmente, importante. Seus momentos de fraqueza seriam relembrados e amaldiçoados novamente na próxima madrugada escura, mas não naquele momento.
Dessa forma, encaminhou-se diretamente ao Departamento de Execução das Leis da Magia, ignorando veemente qualquer olhar curioso que pudesse persegui-lo mesmo dentro do maldito e mal programado elevador ministerial e, assim que se encontrou no átrio do local que desejava procurou pelos cabelos loiros muito característicos de sua mais nova estagiária.
Estava pronto para revirar os olhos ao constatar que a garota Locke não se colocara sob suas vistas assim que percebera sua presença, considerando que provavelmente estivesse perdida em um Departamento ou alcova qualquer, onde certamente não deveria estar, quando um copo grande e descartável de café fora estendido à ele de forma espontânea. Seus olhos recaíram sobre a figura pequena da estagiária, perguntando-se como esta se materializara ao seu lado tão rápido quando sequer percebera estar próxima, mas decidiu não expressar sua óbvia distração, apenas aceitando o café.
— Você estava demorando e a coisa mais parecida com comida que encontrei por aqui foi isso. – Locke deu de ombros, bebericando de seu próprio café e ajeitando a bolsa ao redor dos ombros.
— Posso supor, então, que já descobriu onde irá ajuizar as ações que eu tenho em minha pasta. – A viu desviar o olhar por alguns momentos, constrangida pela própria falta de iniciativa para conhecer o local onde desenvolveria sua carreira, embora não soubesse realmente o que deveria fazer ali. – Uma contra particular e outra contra o Ministério. Eu já assinei, assim como a demandante, você só precisa levá-las ao balcão de Serviços Administrativos e seguir as instruções que algum outro estagiário também completamente despreparado lhe passará.
— Mas... Eu nunca fiz isso. – Ela ainda argumentou um tanto incrédula que a abandonasse como a uma criança naquele lugar enorme e atulhado de adultos ocupados demais com suas próprias tarefas para importar-se com uma garota pedindo informações.
— Acredite, Locke, é a parte mais fácil do processo. Há um pedido de urgência anexado a ambas, absolutamente não deixe que qualquer um o conteste. Eles, simplesmente, detestam quando são apressados, principalmente quando envolve o Ministério.
— Sim, mas o que irei dizer se eles quiserem contestar?
— Leia as petições, use a imaginação, sei que será bastante criativa. – Enfiou as pastas que tirara da maleta nas mãos dela. – Preciso falar com alguém enquanto faz isso. Resolva.
Dessa forma, antes que Locke pudesse formular qualquer outra pergunta, Draco lhe deu às costas e seguiu caminho contra o fluxo de pessoas que adentravam o local afim de chegar ao Departamento de Cumprimento dos Direitos Mágicos. Obviamente, não sairia dali sem antes verificar o que a estagiária ainda confusa fizera com seus esmerados pedidos de ação em nome de Granger, mas deixaria que ela descobrisse sozinha como fazer aquilo, assim como fora quando era apenas um novato na profissão. Ela precisava amadurecer e começar a agir sem a ajuda dos adultos que a rodeavam seria o primeiro passo.
O QG dos Aurores lhe parecia exatamente igual à última vez que pusera os pés ali com seu enorme brasão resplandecendo sob as lareiras de mármore, além de encontrar-se previsivelmente mais vazio que todos os outros locais daquele lugar. Detestava ter de ir tão frequentemente ao Ministério, a desorganização o irritava extremamente, assim como os funcionários curiosos demais a seu ver, sem mencionar todos aqueles inconvenientes memorandos que adentravam o elevador sempre que uma brecha era deixada, supostamente, tendo a intenção de agilizar o serviço por ali, embora a ideia não lhe aparentasse ter obtido sucesso.
Assim, sequer estacou no balcão para pedir informação, simplesmente dirigiu-se à sala de Potter antes que ele pudesse ser avisado e precavido sobre sua presença. Se tivesse de supor, imaginaria que o antigo Eleito não evitaria um encontro com ele, apesar de todas as tensões que rodearam a última vez que estiveram no mesmo ambiente. O assunto não lhe parecia tão diferente assim, mas também não o apetecia tanto quanto o anterior. Era um mal necessário ter de lidar com Potter sempre que algo dava ou poderia dar errado para sua cliente, assim como confrontá-lo todas as vezes que a Sra. Potter maquinava uma merda qualquer para prejudicar Granger.
Revirou os olhos, ajeitando o botão do terno antes de abrir a porta com as inscrições que indicavam tratar-se do escritório cujo dono era o Chefe dos Aurores. Seria a primeira vez que iria ali desde que Potter fora readmitido ao cargo após o fim do inquérito de Granger. Não o agradava minimamente ter de discutir qualquer questão com o mesmo, mas, em alguns momentos, forçava-se a deixar o orgulho de lado, ainda que de má vontade, pois qualquer coisa que Potter decidisse fazer a respeito dos últimos acontecidos afetaria sua cliente de alguma forma.
O Auror em questão encontrava-se tensamente encostado contra a mesa tendo um exemplar do Profeta Diário em mãos, não aparentando surpresa por sua entrada abrupta. Não se importou, sabia que o conteúdo da capa do jornal matinal o incomodava muito mais do que sua falta de educação crescente quando se tratava de Harry Potter. Estava pronto para construir um sermão pesado sobre como o mesmo era responsável pelo caos que se instalara em sua vida e na de Granger, a qual sairia mais prejudicada do que qualquer outro naquela equação, mas apenas o fato de vê-lo consciente de culpa lhe trouxera certa sensação satisfatória da qual só desfrutava ao ver Potter torturando a si mesmo pelas consequências de seus atos. Além disso, sabia que sua suposta frieza a respeito do assunto, provavelmente, irritaria o outro mais do que uma desejada briga onde poderia descontar suas frustrações.
— Suponho que esteja relendo a obra de arte de Evangeline. – Perguntou tranquilamente, percebendo as feições fechadas do outro ao terminar o café que ainda tinha em mãos com um único gole.
— Ela não tinha o direito.
— Oh, ela tinha. – Depositou a maleta no chão e acomodou-se em uma das poltronas confortáveis. Potter gozava de alguns luxos devido a elevado posição dentro do Departamento, sua sala refletia exatamente isso. – Se eu fosse de apostar, o que surpreendentemente não sou, apostaria que Weasley previra sua reação quanto ao que faria. Por conhecê-lo o suficiente, eu diria. Estou certo de que foi o que mais a feriu. E também aquilo que motivou sua decisão.
Potter descartou o jornal com brutalidade sobre a mesa e passou a mão sobre os cabelos, bagunçando-os em um gesto que refletia o óbvio mau humor que certamente o acometera assim que tivera o Profeta Diário em mãos naquela manhã. As declarações de Ginny Potter a Evangeline Dippett foram mais polêmicas do que previra, além de terem pegado o outro de surpresa, pois tinha certeza de que ele não imaginara que a sede de vingança da esposa pudesse chegar a um ponto tão vil.
Compartilhava o temor de Potter a respeito do que seria da imagem de Granger depois de tantas acusações que neutralizaram com sucesso a convicção de Patil sobre sua inocência, demonstrada n’O Mensageiro. Entretanto, sadicamente, gostava de observar a culpa escorrer por cada poro de um Harry Potter arrependido por ter decidido transar com a melhor amiga justamente no momento mais importuno possível de sua vida. Seu casamento estava acabado, seu círculo mais antigo de amizades idem e, apesar de ter lidar com os próprios problemas pessoais, não se importava minimamente com o castelo de cartas do outro desabando. Não quando se tratava de Potter.
— Eu jamais pensei que ela pudesse estar tão... Ressentida.
— Acontece, Potter. – Draco deu de ombros, apoiando uma perna sobre os joelhos. – Esperava que sua mulher fosse reagir bem a uma traição, seguida pelo afastamento abrupto quando, é necessário dizer, ela ainda tentava passar por cima de tudo? Então, como se não bastasse, você a surpreende com um pedido de divórcio. Conhecendo-a desde Hogwarts, não muito bem devo dizer, até mesmo eu esperava uma retaliação da parte dela.
— Você não é meu terapeuta. – Retrucou Potter em desprezo, imitando-o na ocasião em que decidira desabafar a respeito do por que tinha se afastado de Granger e ele se recusara a ouvir.
— Deveria tê-la aguentado por mais algum tempo, até que Granger fosse absolvida, ao menos. — Continuou a falar como se não tivesse sido interrompido. – Se diz tão preocupado com ela, mas foi puramente ingênuo ao abandonar sua mulher neste momento. Tinha tudo para mantê-la sob controle, no entanto...
— Ginny não queria reatar, tudo bem? – Ele aumentou o tom de voz. – Ela apenas estava usando a desculpa para me culpar todos os dias pelo que fiz, me lembrar, ainda que tacitamente, o que aconteceu e por que nosso casamento estava uma merda completa. Eu nem a reconhecia mais. E reconheço muito menos essa mulher!
Ele apontou em direção ao jornal amassado, onde a foto em preto e branco de uma Ginny Weasley séria em um vestido comportado de cor clara, demonstrando sobriedade e instigando que as pessoas encarassem aquela mulher, mãe de três filhos, e sentissem algum tipo de empatia, qualquer compaixão que pudesse despertar um sentimento de ira contra Hermione Granger, a mulher que destruíra sua família.
— Foi fraco.
Seu tom também já não aparentava a tranquilidade de antes, apenas desprezo, quando levantou os olhos para o moreno novamente, vendo suas bochechas coradas, possivelmente, de fúria por toda a sequência de eventos que atingira sua vida como um furacão, pronto para destruir tudo que estivera tão firmemente estabilizado.
— Eu não me importo, realmente, com qualquer opinião que tenha a respeito a minha vida. – Potter parecia convicto daquilo. – Há uma infinidade de pessoas lá fora que podem se fazer mais úteis quanto a isso, sendo, inclusive, mais sinceras.
— Você não quer sinceridade, você quer conforto. – Declarou levantando-se. – E ninguém vai te confortar, pois aquela infinidade de pessoas lá fora, como você mesmo diz, agora o veem com olhos suspeitos, afinal... Você não é mais o mocinho aqui. Acostume-se, assim como Granger precisou fazê-lo.
— O que vai fazer sobre isso? – Draco voltou-se ao homem de expressão derrotada quando já se encontrava na porta e observou sua face contrariada antes de aproximar-se novamente, ainda que contra a vontade. – Como Hermione está depois de tudo?
Draco pensou a respeito, considerando que Granger sequer tinha conhecimento do caos que sua vida se encontrava além das paredes da Mansão Black ou da Clínica. Ela pedira o jornal, mas recusara-se a cedê-lo, pois tinha a intenção de mantê-la tranquila por mais algum tempo, ao menos em relação àquilo. Entretanto, não poderia fazê-lo indefinidamente e imaginava a cólera que certamente a tomaria quando descobrisse.
— O que você vai fazer? – Perguntou de volta, esquivando-se de falar sobre Granger, especificamente. – É a sua esposa proclamando declarações polêmicas no jornal e há grandes chances de a população se solidarizar com ela, exatamente como planejou desde o princípio. Tem de defender-se e tentar abrandar a coisa toda, ainda que isso não melhore em nada a imagem de Granger.
— Hermione está sendo praticamente apedrejada em praça pública e não posso fazer nada a respeito?! – Potter proferiu indignado.
— Não quando sua esposa faz o papel do carrasco, Potter. – Deu de ombros, sem importar-se com o sentimento de inutilidade que tomava Potter. – Você causou o estrago, conserte-o.
Então, seu olhar recaiu sobre o jornal novamente e, dessa vez, o pegou anunciando que o levaria embora antes que aquilo fritasse o cérebro de Potter e ele não pudesse planejar como tentaria reverter a situação causada por Ginny – ainda – Potter. Então, assim que se encontrou fora da sala passou os olhos de forma resignada, talvez pela vigésima vez, pela entrevista concedida pela mulher do outro.
Weasley estava determinada a acabar com Granger. Entretanto, ela não sabia quão determinado o próprio Draco era. Depois do desafio velado da ruiva ao intrometer-se em seu caso após seu aviso para não o fazer, encontraria uma forma de cobrá-la pela ousadia. Nem que precisasse sacrificar um pouco mais a imagem de sua própria cliente, a faria pagar sem tolos receios. Assim, em contraste com todo o autocontrole demonstrado a Potter em sua sala, tratou de terminar de amassar o jornal de forma raivosa e enfiá-lo na lixeira mais próxima.
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