Neurótica
33 Capítulo 33
Novo desdobramento sobre caso Weasley surpreende sociedade bruxa
Na tarde de ontem, a reportagem d’O Mensageiro foi surpreendida com o comunicado oficial do Ministério da Magia em nome de Parvati Patil através do Departamento de Execução das Leis em Magia. É sabido que, desde o início das investigações a respeito da morte de Ronald Weasley, Patil vem cumprindo seus deveres como substituta da Promotora Oficial, Hermione Granger, por sua vez acusada pelo homicídio do marido.
Dessa forma, o Ministério acaba de anunciar que acolhe o pedido de afastamento da Promotora Substituta no caso Weasley, ressaltando que o mesmo partiu da própria Patil com base em alegações de suspeição. De acordo com a nota assinada pelo Ministro Kingsley Shacklebolt, é de conhecimento geral que as duas Promotoras ocuparam funções muito próximas quando colegas do Departamento de Execução das Leis em Magia — incluindo os famosos casos Graves vs. Roe e Ministério vs. Maher – e tal proximidade poderia influenciar na forma como a profissional procederia no caso daqui em diante.
Após a surpresa inicial, Parvati Patil aceitou receber a reportagem e conceder algumas palavras de esclarecimento para, segundo a mesma, “evitar especulações desnecessárias”. De acordo com a Promotora, abandonar um caso que poderia ser o mais notório de sua carreira foi uma decisão de cunho pessoal, pois sentia estar sendo levada pelo Ministério a uma direção para a qual não se sentia confortável em relação ao processo de Granger.
“O caso de Weasley é um homicídio que deve ser levado a julgamento por ação criminal pública, independente da vontade de quem quer que seja. Porém, devo dizer que havia certa pressão para que realmente se tornasse um processo contra Granger após o fim do inquérito.” A declaração de Patil a respeito da parcialidade do Ministério vem à tona, convenientemente, à luz dos boatos de que o Quartel General dos Aurores começou uma empreitada em busca do respeito da sociedade novamente para que as verbas astronômicas repassadas a Sessão durante e após o fim da Segunda Guerra Bruxa não fossem cortadas.
Quando perguntada sobre a situação até mesmo constrangedora de ajuizar ação contra a colega, Patil alega com todas as letras que “não poderia ser imparcial”. No entanto, ainda continua: “eu cresci com Hermione Granger, frequentei Hogwarts na mesma época, lutamos pelos mesmos ideais em uma Guerra lembrada até hoje pela sociedade bruxa... É um pouco difícil desvencilhar essa imagem daquela que os jornais vêm tentando incutir em nossa mente nos últimos meses”.
Patil admite, assim, indiretamente que não acredita totalmente na culpabilidade de Hermione Granger e na causa que vinha defendendo com unhas e dentes como Promotora do caso Weasley. “Sei que pode ser uma surpresa, especialmente devido às declarações que fiz recentemente, mas tenho que ressaltar que, como funcionária do Ministério da Magia, em especial do Departamento de Execução das Leis em Magia, é meu dever zelar pelos interesses da sociedade e não tenho certeza se vinha fazendo o meu trabalho corretamente.”
A Promotora Substituta disse, ainda, estar ansiosa para que as coisas voltem à normalidade no Ministério, deixando a entender que espera um retorno da colega Granger, mas não alongou a entrevista afirmando ter outros processos com que lidar enquanto isso não acontece. Procurada pela reportagem d’O Mensageiro, a defesa de Hermione Granger, representada por Draco Malfoy, declarou não estar surpresa que os fatos comecem vir à tona: “eu tinha certeza de que, em algum momento, Patil iria enxergar as coisas por outro ponto de vista”.
Absolutamente, vê-se uma reviravolta às vésperas da segunda audiência que tem Hermione Granger, a icônica e até então inalcançável heroína de guerra, no banco dos réus em uma acusação histórica de homicídio marital. O Ministério ainda não determinou o substituto de Patil no caso, mas deve dar um parecer em breve, inclusive sobre as pseudo acusações de Patil a respeito da parcialidade com que tratou o assunto.
C. Fawcett
— Satisfeito, Malfoy?
Sob o olhar desaprovador de Patil, Draco sorriu encarando o rascunho da matéria que ganharia os jornais no dia seguinte. Havia pedido especificamente a Fawcett que desse àquele tom de parcialidade do Ministério da Magia em relação à condenação de Granger, o que certamente prejudicaria ainda mais a imagem da Promotora, mas não era como se aquilo o importasse realmente.
— Você será recompensada, Parvati. – Ele descartou o protótipo de jornal e encarou a mulher, completamente furiosa do alto de seus caríssimos saltos altos. – Não sou um completo carrasco, como provavelmente deve estar pensando.
Ela lhe estreitou o olhar altivo e tomou um gole do uísque de seu copo, já aguado pelo gelo derretido e, por isso, depositando-o com uma careta insatisfeita sobre sua grande escrivaninha de mogno e dirigindo-se ao próprio casaco e luvas, possivelmente na ânsia de manter a máxima distância possível dele. Enquanto a admirava em silêncio, Draco colocou-se a divagar sobre o que a levara a chegar àquele ponto apenas para garantir que seus casos progredissem com sucesso no Ministério, pois Patil era boa no que fazia. Audaciosa e astuta. Ambiciosa, entretanto, em uma medida que, talvez, não fosse tão saudável a ela, visto a situação em que se encontravam no momento.
— Eu espero, realmente, que isso valha a pena depois. – Ela ajeitou a bolsa média ao redor do ombro. – Do contrário, vou encontrar uma forma de fazê-lo pagar por, deliberadamente, destruir minha carreira abrindo mão do caso Weasley.
— Não seja superficial, olhe além. Eu a estou tirando do que poderia ser a passagem para o fundo do poço da sua carreira. – Retrucou tranquilamente. – Você não ganharia, de qualquer forma, e quando Granger voltasse ao Ministério colocando todos que quiseram vê-la arruinada em seus devidos lugares... Você seria, facilmente, relegada a um cubículo qualquer de estagiário.
Ela lhe forçou um sorriso e encaminhou-se à porta sem despedir-se, afinal não tinham motivos para falsas formalidades. Seu olhar, dessa forma, recaiu sobre o envelope de papel pardo que continha todas as provas que usara contra a mulher quando a procurara em seu escritório no Departamento de Execução das Leis em Magia. Patil estivera tão confiante durante os cinco primeiro minutos, buscando toda e qualquer suposição para justificar sua presença ali, mantendo a esperança de que Draco brevemente lhe proporia um acordo que, se fosse um pouco mais empático, teria sentido pena ao ver sua expressão desmoronar ao encarar os documentos e fotos que comprovavam sua sórdida troca de favores.
Assim, não demorou a que Zabine adentrasse o escritório estampado feições satisfeitas pelo trabalho feito, servindo duas doses de uísque de fogo importado a ambos. Não seria a primeira nem a última vez que seus esforços conjuntos convergiam em uma solução que beneficiaria altamente um de seus clientes. Conhecia o negro desde a época de Hogwarts e sabia que suas personalidades eram bastante semelhantes. O outro, por exemplo, não se importava de tirar algumas peças dos degraus que precisava subir para chegar ao topo com sucesso e, talvez, certa facilidade. Faltavam alguns escrúpulos em Zabine, assim como em Draco.
— Dois coelhos em uma cajadada só. – Acompanhou-o em um gole. – Não poderia ter sido melhor, Draco.
— Fawcett fez um excelente trabalho também.
Há alguns dias descobrira que o “encontro” de Blásio Zabine era nada menos do que a jornalista do jornal O Mensageiro, a qual, claramente, escolhera um lado após a debandada traiçoeira de Evangeline Dippett. Ele não entrara em muitos detalhes, mas o relacionamento parecia cada vez mais sério e a mulher se encontrava muito mais suscetível nos últimos dias às suas sugestões, intermediadas pelo outro, obviamente. De qualquer forma, não se importava realmente com a vida amorosa de seu sócio desde que não estivesse prejudicando os negócios.
O gosto do uísque, entretanto, desceu mais amargo do que de costume ao pensar em como haviam elaborado tal jogada nos últimos dias antes de apresentá-la a Patil, pesando os prós e contras, o que ajudaria Granger, procurando algum ponto que pudesse prejudicá-la, algo que a outra pudesse encontrar para jogá-los na lama como bem gostaria e o evitando ao máximo. Haviam pensado em cada mínimo detalhe, embora a própria Granger não tivesse participação em nenhuma das fases, o que ia completamente contra o acordo que tinham, mas o que, em contrapartida, também a beneficiava, pois, se tudo desse errado no fim, ela não poderia ser responsabilizada pelos atos da defesa devido ao seu claro consentimento.
Poderia ter sido um pouco egoísta, entretanto, pois o fato de Granger ajudar se dava, justamente, para que ela não se sentisse impotente mediante tudo que acontecia recuperando-se, assim, mais rapidamente. Ela determinara até mesmo a linha de defesa que seguiriam durante o processo! Apesar disso, todavia, continuavam em seu mútuo tratamento de silêncio e não estava disposto a colocar uma máscara de complacência para agradá-la ao indagá-la humildemente sobre seu próximo movimento. Era sabidamente egoísta e o orgulho que alimentava ia além do que poderia imaginar, então que assim fosse.
— As primeiras petições contra Brown e o Ministério estão prontas? – A voz de Zabine o despertou de seus devaneios.
— Só estou esperando o momento certo para ajuizá-las.
Cho Chang havia prometido que seu escritório iria até as últimas consequências para culpabilizar Granger de alguma forma pelos prejuízos sofridos por Lilá Brown e não pretendia esperar que a intimação chegasse à sua cliente. Porém, com uma nova “carta na manga” da qual puderam dispor os ataques diretos precisaram esperar. Então, continuaria analisando o panorama social até estivesse favorável o suficiente a uma quase crucificação pública da veterinária, cobrando-a pelas consequências trágicas que a infidelidade de Weasley trouxera a sua cliente. Ele não poderia culpar um morto, então Brown e sua infâmia teriam que servir.
— Ainda pretende fazer com que o Profeta Diário responda juntamente com Brown? – Draco meneou a cabeça.
— É melhor deixar os jornais fora disso ou não teremos em quê nos apoiar posteriormente, ainda que se trate de Evangeline. – Blásio deu de ombros, sem discordar. – Poderiam encarar como censura e o que menos precisamos é que os jornais não se disponham a ouvir os dois lados da história.
Após a concordância, ainda continuaram conversando a respeito dos demais clientes. Blásio teria uma audiência de divórcio no dia seguinte e, segundo ele, um acordo generoso poderia ser feito. Divórcios da alta sociedade, quando estes aconteciam, o que era bastante raro, apesar do fato de que um tabu sobre tivesse começado a ser quebrado nos últimos anos, geravam bastante lucro aos advogados. Não precisavam, era certo, mas tratava-se de um ciclo viciante, sórdido e um tanto entediante, especialmente para Draco, que simplesmente gostava de gastar seu tempo estudando.
Quando o sócio anunciou que já era hora de ir para casa, pois sua “pseudo-namorada” esperava uma recompensa maior do que a que Draco poderia dispor, simplesmente levantou-se para encher o copo novamente com uísque de fogo e gelo. Observou as ruas vazias do Beco Diagonal, passando os olhos pelas vitrines atrativas e iluminadas do lugar para, especificamente, ninguém que passava por ali àquela hora. As luzes de carros percorrendo rapidamente as ruas da cidade, por outro lado, contrastavam fortemente com a falta de movimento ali, como se seu mundo ainda tivesse o poder de estacar necessariamente para tomar certo fôlego antes de voltar a funcionar, como sempre e novamente, em um ciclo viciante, sórdido e entediante.
Tomou um largo gole do líquido âmbar, sentindo a ardência queimá-lo positivamente enquanto descia por sua garganta. Já sem terno, simplesmente afrouxou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa branca. Sentia-se sufocado nos últimos dias e sabia exatamente o motivo, apenas não estava ansioso para voltar a encontrar sua comprovada genialidade jurídica e a suposta paz alimentada nos últimos dias por Granger.
Não sabia se o motivo de tal tranquilidade era por que ela encavara o distanciamento mútuo como algo bom ou se, simplesmente, estava se recuperando. A frivolidade da mulher naqueles dias era tão palpável quanto à neve que começava a abrandar do lado de fora de seu escritório com o fim de janeiro se aproximando, exceto pelo fato irritantemente conhecido de que Hermione Granger se mantinha firme em suas decisões, até mesmo as mais controversas, e sua posição a respeito dele e de suas ações não cedera nenhum milímetro.
Apertou a fonte do nariz em uma tentativa de conter a dor de cabeça que se instalara e deu um segundo gole em seu uísque, percebendo a própria predisposição naquela noite para embebedar-se e dormir ali mesmo, no sofá que fizera questão de verificar o conforto ao comprar, já imaginando que questões como àquela poderiam vir à tona em algum momento. Entretanto, de qualquer forma, tinha consciência de que não o faria. Era um homem adulto, por vezes um tanto orgulhoso e propositadamente indiferente, mas ainda assim responsável.
Apesar de não trocarem muitas palavras nos últimos dias, deixar de visitar Granger era pedir para que começassem os problemas. Basicamente, sempre haveria o risco de a mulher não conseguir alimentar o próprio autocontrole a respeito do vício alcoólico. Por isso, queria ter certeza de que ela não chegaria a tal nível novamente e verificar pessoalmente era uma necessidade. Bem, queria acreditar que sim. Que fosse, abraçava abertamente a teoria de que repetir uma mentira várias vezes era capaz de torná-la verdade e sua profissão poderia justificar o ponto de vista, caso alguém perguntasse.
Queria mantê-la por perto, sim, mas não estava realmente ansioso para vê-la. Balançou a cabeça, negativamente, tendo os olhos fechados e a testa contra o vidro da janela. Sua vontade era não aparecer naquela noite, estafado que se encontrava daquele caso, de Granger, de todos. Pansy, aliás, lhe mandara um bilhete bastante sugestivo no dia anterior em uma tentativa de conquistar sua atenção novamente. Queria ir para a casa dela, distrair-se até certa hora e ir para sua própria casa, onde não precisaria se sentir alerta o tempo inteiro devido à presença inquietante da castanha. Era o que faria em uma noite normal, mas suas noites já não eram normais há semanas.
Supondo que já se tratava de uma hora avançada, considerou ao encarar a lua cheia que já ia alta no céu, a castanha poderia, inclusive, estar dormindo, mas desde que se mudara para o próprio quarto não era mais um conhecedor dos hábitos da castanha. Apenas uma coisa era sabida por ele: todas as noites, quando chegava a Mansão Black, as luzes dos cômodos principais se encontravam acesas e, assim, antes de se deitar as apagava, como se estivesse lidando com uma criança com medo do escuro. Era o único indicativo de que o trauma com que ela convivia diariamente ainda não havia sido superado.
Assim, tragou o último gole seriamente considerando a hipótese de servir-se mais uma dose enquanto o lado racional de sua mente gritava ainda mais alto que deveria ir embora, tentar descansar um pouco e verificar como Granger estava. Resignadamente, descartou o copo e buscou os agasalhos, sem preocupar-se em ajeitar os trajes do próprio corpo ou ajeitar o escritório antes de desaparatar em direção à antiga casa de seus antepassados. A claridade não foi uma surpresa, mas a tontura que o acometeu, fazendo com que toda a sala girasse ao seu redor, não havia sido prevista.
Descartou as roupas em um sofá qualquer e esperou que os passos se tornassem mais seguros, descendo em direção a cozinha em busca comida e água para eliminar o álcool de seu sangue. Não estava bêbado, mas era possível perceber que as poucas doses de uísque de fogo que tomara haviam surtido indesejado efeito. Uma poção ajudaria a fazer com que acordasse no outro dia completamente livre de uma maldita ressaca, mas não tinha ânimo para procurar uma. Dessa forma, viu-se distraidamente esvaziando um pacote de cookies de chocolate, sem saber que seu estômago estivera doendo por falta de comida, tão ocupado se encontrara preparando as próximas jogadas contra os inimigos de Granger.
Revirando os olhos em desprezo, percebeu um livro grosso de capa marrom com floreios em dourado disposto sobre um dos armários de madeira, o qual absolutamente não deveria estar ali, apesar de ser uma característica de Granger espalhar livros pela casa, vários, de todos os gêneros, geralmente adornados por um marca-páginas diferente. Não costumava ser um incômodo, mas tinha a impressão de que aquele o seria ao notar o post-it destacando uma página qualquer. Relevou por um momento, sabendo exatamente o que encontrar, mas também considerando que o que menos precisava naquele momento era lidar com os devaneios poéticos e não interpretáveis da mulher.
“A tristeza do estado de morbidez. Suplantada pelo êxtase do florescer. Novamente. Num mundo de grandezas. Há constatação de não leveza. Nestas malditas e esperadas belezas. Superficialmente. Seja bem vinda a constante languidez. Faça morada além do anoitecer. Debilmente.”
Não era uma nota de Granger, dessa vez, mas um trecho do livro que vinha lendo destacado contrastantemente por tinta rosa fluorescente. Franziu o cenho, tentando encarar aquelas palavras do ponto de vista da mulher, interpretar aquilo de acordo com sua realidade e tudo que vinha passando, mas só comprovava a si mesmo sua própria inutilidade em compreender poesias. Então, podia afirmar com certeza, Granger era mais humana do que ele, de forma que a maldita distância poderia até mesmo ganhar traços de justificativa válida.
Dessa forma, com um suspiro, fechou o livro lentamente e o colocou de volta no lugar. Tomou o que restara d’água e subira em direção ao quarto, apagando as luzes com um aceno de varinha e livrando-se da gravata, calmamente afrouxando os botões das mangas da camisa. Notou a janela de vitrais aberta no fim do corredor e também a fechou magicamente antes de abrir a porta e estancar ao recair os olhos sobre o sofá, que se encontrava disposto logo ao lado da mesma.
As almofadas do modelo clássico haviam sido jogadas ao chão displicentemente e Granger estava embolada em um edredom vermelho, abraçada ao inseparável travesseiro que trouxera de casa, os cachos espalhados sem cuidado sobre o mesmo, dormindo pesadamente. Era a primeira vez que a via ali, desde que começaram sua silenciosa e orgulhosa batalha. Um sorriso contido estendeu-se em seus lábios, constatando que ela perdera, se aquilo fosse mesmo uma guerra. Deveria ter sido angustiante a ela lidar com o medo e a vontade de ceder paralelamente, que provavelmente a alcançara nos primeiros dias após sua mudança. Não deveria ter sido fácil, realmente, colocar a altivez de lado e admitir, ainda que tacitamente, que precisava dele.
Assim, não demorou a que estivesse acomodado em sua própria cama de dosséis de madeira maciça e escura, sentindo os músculos gratos pelo banho quente e relaxante que ainda tivera forças para tomar. A tontura pela bebida passara, mas sua cabeça ainda parecia estar processando tudo que vivera durante o dia, de modo que encarava o teto distraidamente, esperando o sono chegar muito consciente de qualquer movimento que Granger fizesse. Na completa escuridão, divagou sobre sua esperança de que ela não surtasse, caso percebesse que apagara as luzes. Ela notaria sua presença, de qualquer forma, e estaria acordado antes mesmo de entender o que acontecia ao redor, tinha certeza. Hermione Granger alimentava uma estranha habilidade de se fazer ser ouvida em qualquer situação.
Seus olhos já pesavam de sono, entretanto, quando o baque estridente de uma coruja chamando a atenção do parapeito da janela se fez presente no ambiente. Viu Granger sentar-se assustada no sofá, os cabelos descontrolados ao redor de seu rosto, e, de má vontade, jogou as cobertas para o lado a fim de abrir a janela. Amaldiçoou quem quer que fosse que não pudesse esperar até o dia seguinte para enviar uma maldita carta e espantou o animal zangado antes de rasgar o envelope que, surpreendentemente, trazia a letra de Blásio no remetente.
— Merda! – Granger já mantinha uma expressão alerta, examinando-o a procura de resposta. – Ginny Potter negociou a droga de uma entrevista para o Profeta Diário, sairá amanhã.
Amassou o bilhete, jogando-o em um canto qualquer e levando as mãos à têmpora dolorida pelo sono bruscamente interrompido, pensando no que fazer para neutralizar qualquer coisa que a Potter pudesse ter dito para prejudicar Granger. Segundo Blásio, a informação, certamente conseguida por meio de suborno, como era de costume, não trazia grandes revelações sobre o assunto a ser exposto na matéria. A ruiva queria atenção, da mídia, do marido, queria que as pessoas ficassem ao seu lado, da mesma forma como ficaram ao lado da estrela Hermione Granger por anos, era a hipótese mais plausível.
— Você quer dizer no mesmo dia que a entrevista de Patil no Mensageiro declarando seu repentino apoio a mim, publicamente? – O tom foi irônico e o olhar mordaz, pois Granger não deveria saber disso. Não comentara com ninguém o que fizera com Patil, apenas Blásio conhecia todos os detalhes do caminho que percorreram para chegar ao ponto de fazê-la proferir aquelas palavras. O serviço de Fawcett, a jornalista namorada de Zabine, era apenas fazer com que ficasse convincente, o que não o decepcionara. – Pretendia me contar sobre isso ou simplesmente esperaria que eu fosse abordada por um repórter com perguntas que não pudesse responder ou... Melhor, apenas ia me deixar perceber que a chantageou quando visse a matéria no jornal?
A encarou por um momento, notando como a mulher estava enfurecida por ter sido deixada de lado durante os últimos dias, por não conhecer nenhum dos passos do processo ou da estratégia extraprocessual para inocentá-la, indo completamente defronte com o que haviam combinado. Ela segurava um pedaço de pergaminho entre as mãos, amassando-o sem sequer perceber, que parecia exatamente igual ao rascunho de matéria que ele tinha em seu escritório. Respirava rápido, encarava-o firmemente, esperando uma resposta não muito pacientemente.
— Ia deixar que lesse a matéria e percebesse que dei o meu jeito depois do seu maldito e ineficaz ataque de nobreza. – Respondeu em tom tranquilo. – Como obteve esse rascunho antes da publicação?
— Não lhe importa! – Ela subiu o tom. – Você a chantageou da pior forma que alguém pode fazer a uma mulher, você ameaçou sua liberdade de escolha, de decidir com quem transar ou não, de fazer isso sem que seja fiscalizada em suas preferências...
— Acha mesmo que foi apenas sobre isso?! – Sua voz também subiu alguns tons e daí em diante sabia que seria difícil contê-la ou conter-se. – Acha que eu teria esperado todos esses dias apenas por receio do que iria achar da forma como conduzo o seu caso, por medo do seu julgamento sobre mim?! O buraco é muito mais embaixo do que pensa, Granger!
— Oh, é verdade, eu não posso pensar mais nada sobre o meu caso por que você não me atualiza mais sobre ele! – Granger se encontrava mais irônica do que o normal.
— E quer saber? Foi a melhor coisa que fiz, desde que me contrataram para defendê-la. – A viu vacilar por alguns segundos, mas a vontade de brigar em seus olhos ainda continuava muito proeminente, não abrandando em momento algum.
— Isso por que minhas convicções o assustam, por que eu as tenho e as defendo sem medo. – Retrucou a castanha com segurança. – Coloco meu próprio cérebro para funcionar e isso o incomoda por que quer sempre sair na frente nessa maldita largada que construiu em sua mente!
A questão havia claramente deixado de ser a forma como conseguiu a declaração de Parvati Patil para se tornar mais pessoal do que gostaria ou esperaria, visto que, nessa seara, a verdade era que, realmente não queria seu olhar julgador e carrasco sobre seu eu supostamente machista após chantagear e/ou denunciar a Promotora na imprensa por sua vida sexual ativa.
Tudo era bastante irônico naquilo, considerou, pois pessoalmente não se importava minimamente com o fato de que a indiana tinha um ou dez amantes em um mês. Jogava apenas com o julgamento da sociedade bruxa, do que esta esperava e considerava ser normal, apesar de ser claro como água que esta ainda era bastante conservadora. Uma informação como aquela, jogaria a carreira de Patil na lama. Sabia disso. Granger sabia disso. Porém, além disso, não queria ser o responsável pelo declínio baixo e sórdido da mulher, a qual até lhe simpatizava em alguns aspectos.
— Sim, quero sempre ser o mais esperto da sala e você deveria agradecer por ser uma pessoa assim a te defender. – Ele admitiu. – Aliás, eu estava jogando pelos seus interesses. Por Merlin, apenas pare por um mísero momento e reconheça que o seu maldito orgulho é o responsável por estar aqui agora, discutindo comigo sobre algo que só iria beneficiá-la! – Revirou os olhos, vendo-a bufar raivosamente.
— Eu dispenso um benefício que vem com um ônus tão desfavorável. – Ela estreitou os olhos e suspirou, abaixando o tom, mas não deixando que este estivesse completamente incutido pela raiva. – Se quer falar de orgulho, vamos falar sobre como na primeira vez que realmente nos confrontamos, desde que começamos a trabalhar juntos, você se escondeu em sua redoma polida de cristais espinhados como um cãozinho orgulhoso e pateticamente teimoso, completamente alheio a qualquer solução que eu pudesse sugerir.
— O único problema aqui, Granger, é o fato de que você não aceita os meus métodos de trabalho e eu não vou mudá-los. – Seu tom foi tão baixo quanto o dela quando se aproximou. Ela não recuou ou vacilou sob seu olhar, embora não esperasse que fosse acontecer. – Por isso a afastei. Você não trabalha como eu, seu senso de justiça não funciona comigo por que estou sempre e unicamente buscando vencer, não importa os meios que utilizarei para tanto. Tê-la tentando mudar minha forma de agir me incomoda... A influência que tem sobre mim incomoda ao extremo. Não a quero trabalhando comigo, palpitando sobre como devo agir no seu caso ou em qualquer outro, me distraindo do que realmente devo fazer para ganhar.
Foi então que viu sua confiança oscilar pela primeira vez na madrugada. A respiração rápida cessou e tudo que Granger conseguiu enquanto processava suas palavras foi apertar os lábios em uma linha reta, como se estivesse construindo a próxima frase ou reprimindo palavras que, entre eles, não poderiam ser ditas. Não era para ser assim, mas sentiu-se um canalha ao presenciá-la vacilar daquela forma, por que Hermione Granger não vacilava e ele, o que menos apreciava vê-la voltar a ser pessoalmente insegura, era o responsável por relegá-la àquilo.
Novamente, apesar de tudo, ela se mostrava mais humana. Sua sensibilidade era intensa, profunda e até mesmo irracional, algo de que ela não tinha orgulho, pois era uma parte de sua personalidade com a qual vinha travando uma desleal batalha. Consciente disso, usou aquilo que sabia ser realmente capaz de desestruturá-la, o que a atingiria da pior forma, aquilo que a tinha mantido de pé e lutando até ali: seu trabalho. Para tirá-la dos eixos. Para ganhar. Não deveria ser uma novidade.
Então, viu seu rosto voltar a transformar-se em uma máscara fria que não parecia muito harmoniosa com os traços delicados. O ressentimento claramente estampado, embora ela tentasse minimiza-lo com a leve empinada de nariz orgulhosa. Como o acusara de ser. Tanto quanto a acusara. Não fazia diferença, ambos estavam certos. Os olhos nunca deixavam os seus, mas podia perceber a forma como engoliu em seco antes de aproximar-se até suas respirações se misturarem de forma perturbadora.
— Covarde.
Ela declarou em um quase sussurro determinado, empurrando-o com brutalidade pelo peito antes de lhe dar às costas na intenção de encaminhar-se para fora. Queria continuar a discussão dali, em partes pelo fato de não querer ceder e deixar as coisas do modo como ela queria, em partes por não gostar de admitir que ela saía ganhando ali ao saber exatamente o que o motivava, muitas milhas a frente em sua largada mental.
Entretanto, antes que pudesse impedi-la, viu quando a castanha, já com a mão na maçaneta, pronta para sair dali o mais rápido possível, curvou-se repentinamente contra o próprio corpo levando uma das mãos à barriga. Granger respirou fundo e o encarou assustada antes de encolher-se novamente, o rosto contorcendo-se de dor seguido por um ofego mais alto.
— Granger? – Chamou hesitantemente. Ela arquejou novamente, levando a mão à base das costas, s olhos lacrimejantes refletindo a angústia física.
— Oh, Merlin... – Ela murmurou, encostando-se a porta de olhos fechados. – Eu já senti isso, eu...
— Hermione, o que foi?
— Já senti isso antes...
Segurou-a pelos ombros, tentando fazê-la prestar atenção no que acontecia ao seu redor e em seu próprio corpo, mas ela apenas apertou seu antebraço e gemeu de dor novamente, as mãos, reparou, apertando o ventre de forma aflita. Assim, lentamente, quase que com medo do que poderia ver, seus olhos recaíram até a horrível mancha vermelha que a calça clara do pijama trazia, principalmente, entre as pernas da mulher.
— Eu vou levá-la a Q. Victoria, fique calma.
Daí, tudo aconteceu muito rápido, ao menos para Draco. Desfez o feitiço anti-aparatação que guardava a Mansão Black e passou os braços por trás de suas pernas e costas para que o fizessem seguramente até onde precisavam. Sentiu Granger estremecer contra si antes de encolher-se em mais uma onda de dor e, antes que pudesse contar até três, já se encontravam saindo de uma lareira na sala de emergência da clínica bruxa.
— Ela está sangrando!
A tal altura, Granger já chorava copiosamente tendo o rosto enterrado em seu pescoço, mas não demorou a que uma maca aparecesse magicamente flutuando há apenas alguns metros e um atendente o instruísse a colocá-la ali. O homem mandou que esperasse e apenas pôde observar a mulher ser levada, completamente distraída em sua dor, a uma sala anexa, onde seriam feitos os exames preliminares e de onde ouviu uma voz de mulher declarar antes que a porta fosse fechada.
— É um aborto espontâneo.
Andou de um lado a outro, ignorando que suas roupas encontravam-se completamente ensanguentadas e que precisava voltar para casa e recompor-se, mas seu corpo e mente não convergiam num ponto comum, completamente sem ação como estava pelo que ouvira. Bebeu um copo d’água, apenas observando as pessoas irem e virem na sala movimentada, completamente alheias à sua presença, quão concentradas em suas próprias atividades para se importar com seu coração acelerado e a falta de ar que o atingira como um raio.
Respirou fundo, perdendo as contas de quantas vezes e estendendo a mão à frente dos olhos apenas para constatar os dedos trêmulos sobre os quais não tinha controle algum. Bruscamente, fechou a mão em punho para fazer com que aquilo parasse, fosse o que fosse. Bebeu mais um copo d’água, rapidamente, e apertou os olhos, apoiando-se no balcão, desligando-se de todos os movimentos ao redor e ouvindo a voz da estranha diagnosticando um aborto espontâneo em Granger. Repetidamente. Como um eco perturbador que afetava todos os músculos de seu corpo, tensionados até que doessem.
Contudo, percebeu quando a porta da sala foi aberta e voltou-se imediatamente para encarar uma mulher que saía, paramentada como enfermeira, totalmente distraída ao analisar os documentos da pasta que tinha em mãos, provavelmente os exames de Granger. Não percebeu quando andou até ela e a chamou, simplesmente a viu se virar e ouviu a própria voz avisando automaticamente.
— Escute e transmita o recado a quem importar: se qualquer informação sobre o que estiver acontecendo com Granger naquela sala vazar para a imprensa, a clínica e quem quer que esteja envolvido diretamente no caso estarão fudidos. Estou sendo suficientemente claro?
A mulher apenas meneou a cabeça, quase comprensivamente, e Draco deixou-se cair sobre a cadeira de espera da emergência, sentindo as pernas completamente bambas enquanto tentava, racionalmente, reaver o controle sobre o próprio corpo e ações antes que ele mesmo acabasse em uma cama de hospital.
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As tempestades são violentas / Sobre o mar revolto / E no caminho do arrependimento / Embora ventos de mudança /Estejam trazendo entusiasmo e liberdade / Você ainda não vê nada / Como eu
Adele – Make You Feel My Love
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