Neurótica
30 Capítulo 30
Com um copo de uísque à mão, Draco observava completamente absorto a neve cair em espirais iluminadas pelas luzes natalinas que coloriam a Mansão Fawley naquela noite. Da sacada em que se encontrava, sentindo o vento frio e cortante contra a face, era capaz de ouvir a orquestra esforçar-se para atender aos pedidos de todos os convidados, já altamente alcoolizados àquela altura da festa.
O jantar de Natal da família Fawley tornara-se nos últimos anos um dos mais tradicionais do mundo bruxo. Apesar de manter a linhagem sanguínea pura, os antigos comerciantes de tecido haviam conseguido transitar com facilidade por todas as classes da sociedade sem muito alarde a respeito de suas convicções ideológicas. Assim, exatamente devido ao fato de ser considerado um clã neutro, principalmente por não terem aderido a lado nenhum nas guerras travadas nos últimos tempos, os Fawley ocupavam uma posição extremamente privilegiada em seu mundo.
Ainda, costumavam ser muito democráticos quanto aos convidados, mas, apesar disso, bastante seletivos. Diferentemente de famílias ainda tradicionalistas como os Carrow, os Bulstrod e os Flint, por exemplo, os Fawley gostavam de construir laços com diversas pessoas de diferentes classes, por isso há muito o jantar deixara de ser reservado às 28 famílias do retrógrado Diretório Puro-Sangue. Draco admitia, eles haviam sido visionários quando os Malfoy e muitas outras famílias ainda engatinhavam na questão da aceitação da diversidade no mundo bruxo.
Eram riquíssimos, respeitados e reservados quanto à intimidade, ninguém nunca sabia muito sobre eles – isso, talvez, se devesse ao detalhe de restarem somente dois irmãos ainda solteiros e muito discretos – e, por isso, justamente, os convites para o jantar eram muito disputados. Entretanto, havia perdido as contas da quantidade de vezes em que comparecera a festividade, que a cada ano trazia uma surpresa diferente, inovadora e sujeita a sucessivos elogios da imprensa, a única época do ano em que eles aceitavam misturar-se a tal raça, e já não parecia tão excitante, especialmente considerando que naquela noite estava controlando a bebida, pois devia voltar a Mansão Black, onde Granger estava.
Não a havia convidado para acompanhá-lo e tentar, inutilmente, se distrair ou coisa do tipo. Era seu advogado e deviam aparentar uma relação estritamente profissional; ela era um alvo em potencial da curiosidade alheia, renovada, aliás, com o fim do inquérito e o início do processo penal; havia álcool demais por todos os lados, visto que era um dia em que até os mais recatados bruxos deixavam-se levar pela comemoração. Além disso, em seus bons tempos, como heroína de guerra e Promotora Oficial do Ministério da Magia, era uma convidada de honra e Granger não mencionara nada quando anunciara onde passaria seu Natal, pois, para os Fawley, não era favorável serem associados a uma figura que dividia as opiniões públicas nos últimos tempos.
Porém, não deixava de preocupar-se com a castanha. Seu corpo havia sido desintoxicado, deixando-o sem vestígios de álcool, e voltara às clínicas dos profissionais que a tratavam, começando a tomar um novo remédio que não poderia de forma alguma ser misturado à bebida, podendo levá-la a morte com os efeitos colaterais, se acontecesse. Draco considerou uma atitude radical, não achava que Granger estava pronta para um tratamento tão arriscado, especialmente após a recaída, quando esperava que já estivesse trilhando um caminho fácil de recuperação.
Assim, ela escolhera passar o Natal com os pais, rejeitando os insistentes convites de Andrômeda para que fizessem uma pequena e intimista ceia em sua casa, apesar de sua tia geralmente confraternizar com os Potter e Weasley nessa data. Não entendeu de início, mas pensando melhor no assunto suspeitou que ela tivesse intenções de contar sua real situação ao Sr. e Sra. Granger, além do fato óbvio de saber que Teddy gostaria de comemorar com a namorada Weasley e o padrinho Potter.
— Draco, querido. – A voz de Narcissa o tirou de suas reflexões e o mesmo voltou-se para a senhora de feições finas e cabelos extremamente loiros presos em um penteado elaborado e usando um vestido azul escuro quase simples não fosse as pedras raras com que fora inteiramente bordado. – O jantar esteve esplêndido esse ano, não?
— Eles não deixam de surpreender.
A certa altura, enquanto passava da entrada para o prato principal, o salão fora invadido por um balé composto apenas por Veelas francesas que percorreram todas as mesas após uma apresentação ao som de uma música clássica trouxa brindando os presentes com uma lembrança da noite: uma caixa de madeira clara com o brasão da família Fawley desenhado em dourado, onde havia uma garrafa de Vinho dos Elfos de uma safra antiga e cobiçada por aqueles que apreciavam esse tipo de coleção, além de duas taças de cristal apropriadas para a bebida e um luxuoso cartão de agradecimento, provavelmente escrito em fios de ouro. E a noite apenas começara.
— Leve minhas felicitações a Srta. Granger, caso vá vê-la essa noite. – Narcissa ainda não havia se acostumado ao fato de passar todas as noites sozinha naquela Mansão grande demais para uma única pessoa. Nem mesmo Draco estava conformado com a situação, afinal sua mãe também era uma responsabilidade, apesar de a “Srta. Granger” inspirar mais cuidados e a senhora entender isso. – E também... Isso aqui.
Ela retirou da bolsa uma caixa aveludada retangular, mas pequena, na cor verde, onde o ‘m’ de Malfoy fora elaboradamente desenhado. Abriu-a, assim, cuidadosamente, para que Draco contemplasse a peça que ele sabia muito bem ter pertencido a distintas Sras. Malfoy ao longo dos séculos. O par de brincos era de um diamante rosa raríssimo em formato de meio espiral que poderia muito bem lembrar uma cobra, rodeado de minúsculos brilhantes dourados que tornavam a peça delicada e elegante.
— Mãe, não é necessário.
— Sei que não comprou nada a ela, Draco. Pegue. – Ela enfiou a caixa em sua mão e fechou a bolsa-carteira como se nada tivesse acontecido enquanto ele revirava os olhos e guardava a peça no bolso interno do traje de gala, deixando para decidir mais tarde se entregaria ou não.
— Não comprei por que não é adequado quando o único laço que nos mantém é o profissional. Sabe disso, Narcissa. – Frisou o nome dela, sabendo que detestava quando não a chamava de mãe.
— Ainda assim, seria de extrema indelicadeza e insensibilidade que não lhe desse uma pequena lembrança no Natal!
Como se Draco não soubesse que o brinco minúsculo valia muitos galeões, pelas pedras que nele continham e o fato de ter sido confeccionado por duendes. Porém, sua mãe parecia realmente indignada por sua suposta falta de educação, embora ainda assim mantivesse a postura ereta e o tom baixo.
— Tenho certeza de que Granger não me comprou nada, não temos esse tipo de obrigação um com o outro. – A viu revirar os olhos e bufar discretamente, olhando-o de maneira irritada, possivelmente lembrando ao próprio Draco quando em tal situação. – Eu vou pensar, está bem?
Apesar de ainda não aparentar nenhuma satisfação em relação às suas notáveis habilidades de esquiva, Narcissa finalmente o abraçou, desejando Feliz Natal e anunciando que, então, realmente partiria, pois estava cansada de tantas falsas cordialidades e sorrisos desonestos. Não era nenhum segredo que o mundo em que eles viviam fosse movido pelo interesse de todos que o frequentavam e sua mãe já havia passado anos de sua vida equilibrando-se na corda bamba que os mantinha ali sustentando uma postura supostamente inatingível para que precisasse lidar com isso por muito mais tempo.
Assim que a perdeu de vista, dessa forma, decidiu voltar ao salão e encontrar alguém com quem pudesse realmente confraternizar por alguns momentos. Vagueou entre as mesas decoradas com temáticas natalinas luxuosas, mas que se encontravam quase que completamente abandonadas dentro do ambiente ricamente ornamentado com seis grandes árvores de Natal que iam do chão ao teto e enfeites nas cores vermelho, azul escuro, dourado e creme. Além disso, o teto fora especialmente enfeitiçado para que reproduzisse uma noite limpa de estrelas douradas que iluminavam o salão, agora à meia luz.
Seus olhos encontraram alguns rostos conhecidos, conversando animadamente ou agarrando-se em algum canto mais reservado, pois apenas os mais jovens permaneciam até àquelas horas, até chegar às escadas que levavam ao segundo andar, a qual também se encontrava decorada com flores de inverno comercializadas em dourado e vermelho e montes de réplicas da neve que lá fora caía com tanta abundância. Aos pés da mesma, percebeu, junto a um arranjo natalino de quase dois metros de altura, encontravam-se Astoria Greengrass, Erin Monks, Dafne Greengrass, seu noivo de nome difícil e completamente descartável em sua memória, Owen Flint, irmão de seu colega Marcus Flint, além de outro homem que Draco conhecia apenas de vista nas altas rodas que frequentava.
Todos o cumprimentaram animadamente e passaram muito tempo conversando sobre qualquer que fosse o assunto aleatório que surgia após o efeito da bebida, a qual era reposta em seus copos sempre que se esvaziavam. Porém, não pela primeira vez na noite, sentia o olhar de Astoria lhe encarando insistentemente ainda que sua mulher mantivesse um braço distraidamente sobre seus ombros enquanto ouvia o desconhecido contando sobre um de seus feitos no quadribol – acrescente-se que, realmente, precisava de folga, visto não ter tempo sequer para ler a coluna de esportes do Profeta Diário e, por isso, não estar por dentro de nada relacionado ao assunto e, por isso também, desconhecer que aquele era o jogador mais famoso da temporada.
— Está indo embora cedo, desacompanhado, não alcoolizado... – A Greengrass mais nova disse em tom baixo quando conseguiu deslizar para fora dos braços distraídos de sua mulher. – Não costumava ser assim tão desapontador com as solteiras do mundo bruxo.
— Todas elas parecem estar mais do satisfeitas com seus pares. – Sinalizou em direção à pista de dança, no que Astoria deu de ombros, sem deixar de analisá-lo.
— Nunca pensei que viveria para ver o dia em que Draco Malfoy se adaptaria à monogamia. – Apenas revirou os olhos, sem dar atenção ao que sabia serem apenas provocações por parte da morena. – Então... Você cedeu para “tudo”.
Draco considerou seu relacionamento com Granger e toda a dificuldade enfrentada por ambos nos últimos dias. Ela estivera extremamente sensível e desapontada consigo mesma, entretanto, Draco a apoiara até que estivesse sã o suficiente para lidar com as adversidades de sua vida. Apesar de tudo isso, não deixava de vê-la como sua cliente, aquela que deveria manter longe de problemas, pois isso poderia ocasionar em maiores prejuízos a ela e a própria carreira de Draco. Isso não era tudo. Não a seu ver. Não quando tinha guardada na terceira gaveta de sua escrivaninha a procuração para representá-la. Defendê-la. Cuidar de sua retaguarda, pois, no momento, estava impossibilitada para tanto.
— Ela é um trabalho, Astoria.
— Um trabalho que parece estar levando a sério demais. – Draco a encarou inexpressivamente e a mulher pareceu irritar-se por isso, bufando e pressionando os lábios em uma linha fina. – Está comprometido, com ela ou com sua causa, e não gosta de admitir por que é orgulhoso demais. Só estou constatando um fato, não quer dizer que seja ruim.
— Isso por que não a conhece. – Entornou todo o champanhe de sua taça, quase agradecendo quando um garçom não demorou a aproximar-se e precisaram interromper o assunto momentaneamente até que o mesmo se afastasse de novo. — Ela é cheia de problemas, todos sabem. Tudo que fizeram essa noite foi me questionar como vou tirá-la dessa enrascada. Está claro que a julgam culpada, assim como as provas que apontam uma seta flamejante em direção à sua cabeça.
— As provas não são o suficiente, você mesmo já disse. – Astoria teimou.
— Não são o suficiente, sim, mas são as únicas que existem e são todas contra ela. – Ele revirou os olhos, o único momento durante todo o jantar em que não precisou reprimir sua consternação pelo fato de sua cliente realmente parecer culpada ou, no mínimo, inspirar suspeita naqueles que ainda, milagrosamente, não tinham uma opinião formada. – Não posso comprovar sua inocência, só tenho o álibi de Potter, que cheira falsificação a quilômetros.
— Certo, não quer arriscar por que tem medo de que ela vá presa e que a culpa seja sua. – Draco franziu o cenho.
— O quê?!
Porém, ela sequer dispensou atenção à sua indignação e entornou o resto de sua bebida, depositando o copo sobre uma mesa qualquer e voltando ao lugar onde todos estavam. Os olhos sorriam para ele, espertos e maliciosos, mas ela voltou-se a Erin Monks, chamando-a a ir para casa e lhe dando um tempo para despedir-se dos convidados.
— Pense no que lhe falei, Draco. – Declarou quando ela o abraçou. – E já que disse que não a conheço, eu realmente gostaria de fazê-lo, se surgisse oportunidade. Não estava brincando no outro dia, Granger parece fascinante.
Todavia, Draco já havia pensado. E estava certo de que Astoria estava errada. Granger ir para Azkaban era uma possibilidade, é claro, mas não pensava nisso com frequência por que não trabalhava considerando-a. Gostava de traçar seu trabalho por fases e desviar seu foco pensando que Granger poderia ir presa não era saudável ou produtivo.
Além disso, não era por ter medo de que fosse presa que não queria se envolver. Como disse a Greengrass, Granger era cheia de problemas e nenhum deles era fácil e simples de se resolver. Apesar de ter tomado para si a tarefa de forma quase natural nos últimos tempos, não era sua função, era temporário, não deveria ser um cargo vitalício ou duradouro, embora cuidar dela fosse algo que sentia estar gostando de desempenhar – e isso não era adequado.
Por isso, encarou a pista de dança, onde algumas das mais nobres e desejadas mulheres do mundo bruxo, dançavam ao som de uma música animada qualquer. Seus corpos esguios, escondidos em vestidos de gala que só faziam por valorizá-los, seguiam um ritmo tentador e, de longe como estava, era possível ver até mesmo o brilho de uma camada fina de suor pelo exercício e pela bebida que mantinha os copos sempre cheios e em mãos.
Avistou Emily Bulstrode, que levou para cama cedo, ambos recém-saídos de Hogwarts; e Tracey Davies, a qual fora quase uma namorada durante uma época de sua vida em que sua mãe estava decidida a fazê-lo abandonar a solteirice. Viu Olive Mountain, uma conquista da universidade bruxa, com seu sorriso esplêndido enquanto conversava animadamente com Marcie Flint, a irmã mais velha de Marcus Flint, a qual era casada, mas não se importara com isso quando utilizou um dos banheiros da Mansão Fawley para fins nada apropriados em um Natal anterior qualquer.
Com uma careta desgostosa, considerou que nenhuma daquelas lindas mulheres o instigava tanto quanto no ano passado, para ser justo, quando poderia levá-las embora ou considerar escolher uma das outras desconhecidas para sua cama com bastante facilidade, pois tudo que conseguia pensar quando precisava de sexo era em como Granger chamava seu nome ao chegar a seu ápice ou na forma como seu corpo se arrepiava quando a boca feminina encontrava um lugar específico em seu pescoço.
Assim, despediu-se de todos e encaminhou-se até o local de aparatação, uma sala de visitas com duas lareiras de mármore bege, suntuosamente decorada por alguns sofás confortáveis em tons claros, tapetes persas, cortinas de seda vermelha e arranjos de flores da estação em locais estratégicos, além de toda a decoração espalhafatosa de Natal para que os convidados que utilizassem o convite para chegar até lá já se sentissem em clima de comemoração.
Era sorte que a Mansão dos Fawley ficasse em Londres, pois poderia chegar com facilidade a Mansão Black, sem a dificuldade das Chaves de Portais. Porém, decidiu aparatar há dois quarteirões de distância, onde sabia existir uma praça escura e sempre convenientemente vazia com um parque infantil quase inutilizado. A caminhada o ajudava a espairecer e o frio abaixo de zero que insistia em tornar o clima propício a neve tinha a capacidade de mantê-lo concentrado, o que realmente necessitava, além de atrasar em alguns poucos minutos sua chegada, pois não estava ansioso para encontrar Granger naquela madrugada, não depois de tudo que Astoria havia colocado em sua cabeça, não depois de sua própria constatação a respeito do fato de que o corpo de Granger lhe era suficiente como nenhum outro havia sido até então, que estava satisfeito com aquilo que tinham – seja lá o que fosse, desde que não fosse “tudo”.
Estava comprometido, como Astoria frisara, e não costumava gostar disso. No entanto, dormia todas as noites com Granger, a ajudava a resolver seus problemas, transavam como se tivessem alguma obrigação um com o outro e se sentia confortável em sua companhia. Ela era silenciosa quando precisava ser – ainda mais nos últimos tempos – e ruidosa quando se empolgava com algumas de suas teorias a cerca do mundo jurídico ou das histórias, trouxas ou bruxas, que agora lia com frequência e que se dedicava a contar a ele em resumos quando acordavam no meio da noite e não queriam falar sobre si mesmos, o que era frequente. Por que, apesar de tudo, falar a respeito de suas vidas ainda era um desafio que não haviam ultrapassado, mas que não parecia atrapalhá-los naquela rotina extremamente questionável que haviam criado.
Dessa forma, quando virou a esquina em direção a Grimmauld Place n° 12, avistou-a andando de cabeça baixa e roupas pesadas de inverno, com uma sacola bege de feira à tiracolo. A mesma ideia parecia ter passado pela cabeça de ambos, mas Granger, com uma das mãos escondidas no bolso do sobretudo escuro e as orelhas protegidas por uma touca vermelha, parecia encolher-se a cada rajada de vento mais fria que ultrapassava seu corpo. Ao contrário de Draco, que se sentia muito bem em contato com o clima gelado que se instalara de vez após a chegada do Inverno.
Foi então, enquanto encarava a face de Granger, já vermelha pelos açoites do frio, que percebeu que já tinha tudo com ela e que acontecera, realmente, sem preparo e aviso antecipado, como Astoria lhe alertara desde o começo. A única diferença que os separava de um casal comum era a peculiaridade que os unira a princípio e os mantinha juntos até então, afinal não sabia como seria após tudo acabar, e suas personalidades fortes que sempre se impunham nos momentos mais inesperados possíveis.
Assim, apalpou o par de brincos confeccionados pelos elfos que Narcissa lhe dera, considerando o que diria a Granger, caso resolvesse entregá-lo a ela. “Tome, minha mãe mandou para você”. “Não comprei nada, mas tenho uma joia de família para lhe dar”. “Aqui, não somos nada um do outro, mas tenho um presente de Natal para você”. Não parecia adequado que sequer tivesse um presente no bolso para dar a ela!
Revirou os olhos e apoiou uma mão na fechadura de bronze em formato de cobra que adornava a porta negra e envernizada da Mansão Black, esperando pacientemente que ela se aproximasse o suficiente para abrir e evitar que o frio também se instalasse do lado de dentro, quando só então Granger levantou a cabeça e percebeu, com surpresa, sua presença.
— Não pude aparatar por que esqueci a varinha e precisei pegar um táxi. Não pensei que estaria aqui tão cedo. – Draco deu de ombros e abriu a porta para que ela entrasse à sua frente, já se incomodando em se desfazer do cachecol de cor marfim que protegia o pescoço. – Como foi o jantar na Mansão Fawley?
— Serviu para lembrar que preciso expandir meus conhecimentos sobre Quadribol. – Granger lhe franziu a testa, confusa. – Sabia que Osmund Baker-Landers é o artilheiro mais rentável da temporada?
— 560 pontos em três jogos, um prodígio aos 21 anos. Revelado pelo Montrose Magpies, que o contratou logo após sair de Hogwarts. Um pequeno investimento que parece estar rendendo vários milhares de galeões em patrocínio e passe, além da liderança do campeonato na temporada. – Recitou tudo como uma enciclopédia, surpreendendo-o.
— Gosta de Quadribol?
— Detesto Quadribol. – O tom que ela usara já falava por si só. – Mas tenho tempo livre para acompanhar a coluna de esportes.
Assim que se desfez das peças de inverno, encaminhou-se à cozinha, onde Granger já colocava água para ferver para que pudesse preparar um chá qualquer. Ela gostava desse tipo de bebida, percebera há não muito tempo. Havia sempre uma xícara de chá espalhada pela casa e uma chaleira de água fervente ao fogão no intuito de agilizar o serviço.
Antes de terminar, porém, observou-a alcançar uma tigela de porcelana branca que se encontrava em um dos balcões do armário de madeira clara e pegou uma colher de prata, colocando ambas à sua frente, assim como uma xícara do mesmo material com um sachê de chá que tinha a ponta pendente para o lado de fora.
— O que é isso?
— Não lhe comprei nada, mas havia algo que gostava na ceia e achei... Justo que lhe trouxesse.
Granger deu de ombros, colocando três cubos de açúcar dentro de sua xícara, pois já sabia que detestava qualquer chá sem doce, ao contrário dela. O comentário fez com que a olhasse pensativamente antes de voltar-se a tigela e deparar-se com uma generosa fatia de torta de morangos. Fizera questão de declinar a de maçã que ela fizera durante o Halloween e, certamente por isso, a mesma não se esquecera do pequeno detalhe. Poderia estar satisfeito pelo jantar de Natal dos Fawley, mas não recusaria sua sobremesa favorita, por isso pegou o talher e tratou de agradecer.
— Nossa, está ótima! – Não ligou em comentar com a boca cheia enquanto ela se voltava à chaleira e apagava o fogo com habilidade. – Sua mãe cozinha muito bem.
— Oh não! Minha mãe... Ela passa muito tempo fora de casa, trabalhando, assim como o meu pai. Ela não cozinha, sempre compra tudo pronto para a ceia e todas as datas festivas possíveis. – Ela sentou-se ao seu lado no banco comprido de madeira perante a mesa. – Nossos Natais sempre foram mais saborosos quando estávamos na França.
— O que há na França?
— A família da minha mãe é francesa. – Granger bebericou um gole do chá quente, voltando a depositar a xícara à sua frente enquanto Draco entreter-se-ia novamente com a torta e os morangos, que ele descobriu serem silvestres. – Viajávamos com frequência quando eu era criança, nas férias de Hogwarts, mas então... Aconteceu tudo aquilo, depois nos formamos, eu comecei a trabalhar freneticamente, me casei... Fomos nos afastando e, com o tempo, passou a ser uma viagem a dois.
O silêncio entre eles reinou por um bom tempo. Apenas os ruídos de prata contra porcelana eram ouvidos ali dentro, mas se aguçasse os ouvidos poderia escutar o som das músicas natalinas tocando na vizinhança, como se a cidade, ou ao menos o bairro, houvesse pausado minimamente para comemorar aquela data. Algumas vozes mais animadas acompanhavam as canções que Draco não conhecia e risadas alcoolizadas pareciam lhes dar ritmo, ainda que com certa despretensão. Era um tipo de Natal completamente oposto ao que sempre frequentara, muito mais simples, imaginava, íntimo como os jantares que comparecia não permitiam. Um tipo de comemoração que nunca vivera, mas que, provavelmente, a mulher ao seu lado, pelo modo como falava saudosa de seus Natais na França, participara e apreciava.
— Conversei com meus pais. – Granger quebrou o silêncio, juntando as mãos ao redor da xícara de chá e mantendo os olhos e o tom baixo quando já havia terminado de degustar a torta. – Sobre... Tudo que está acontecendo em minha vida. Fazia... Tanto tempo que não me permitia ficar tão próxima a eles, há tanto que não sentia que era acolhida em algum lugar como fui ali. Eles não me julgaram, não me reprimiram, não me olharam de forma diferente. Tudo que fizeram foi me estender à mão... E o colo. – Ela soltou um riso, constrangida. – Seria estranho admitir que me enrolei como uma criança nos braços dos meus pais?
— Não, isso é bom.
Ela concordou com um meneio de cabeça. Era, realmente, bom por que Granger, possivelmente com a ajuda dos profissionais por trás de sua recuperação, começava a permitir-se retomar os laços que perdera com sua súbita mudança de vida, começava a confiar novamente nas pessoas e conviver com aquelas que a aceitavam como era, sem as exigências que sua mente distorcida colocava como uma armadilha contra sua boa harmonia social.
— Eu apenas... Sinto falta do vinho. – A viu morder os lábios, parecendo acanhada pela confissão. – Era o acompanhamento do jantar, vinho branco, e... Sabe, não é nem mesmo pela situação que meu problema causa, eu apenas gosto. Por isso, minha revolta comigo mesma por que... Não deveria ser um problema para ninguém gostar de um pouco de vinho, Malfoy!
— Há alguns tipos de tratamento que permitem a bebida de forma controlada. – Ela negou e levantou-se, depositando todas as louças sujas dentro da pia. – Você poderia tentar adaptar-se a um deles.
— Não tenho autocontrole o bastante. – Ela o encarou, resignada, e Draco percebeu que naquele dia, ainda que houvesse saído de casa, usava uma maquiagem pouco chamativa, ao contrário do vestido vermelho escuro de mangas compridas e tecido grosso próprio para o inverno que ia até abaixo dos joelhos, mas que marcava todas as suas curvas. – E ninguém precisou me dizer isso, apenas sei. Minhas terapias emocionais são eficazes e quero terminar o tratamento o mais rápido possível, sem que nenhum imprevisto atrapalhe novamente. Esqueça isso, certo?
Draco não se opôs, pois o tom incisivo que ela colocou parecia realmente querer dizer que estava disposta a ir até o fim para que não precisasse recorrer a outras formas de cura que pudessem ser mais radicais, como uma internação. Além disso, lera em algum lugar que, quando o paciente se dispunha a colaborar ativamente com o tratamento, este poderia ser mais rápido e eficiente, como Granger desejava.
Buscando um lenço dentro do paletó, assim, desdobrou-o cuidadosamente, observando o modo como as iniciais de seu nome se entrelaçavam em verde sobre linho branco, antes de limpar qualquer resíduo de comida que pudesse ter ficado em seus lábios enquanto a morena enfeitiçava as louças para que se lavassem sozinhas.
— Achei que poderíamos aproveitar o feriado para repassar processos antigos e tentar encontrar algum precedente ou jurisprudência que a ajude. – Ela concordou e, novamente, guardou o lenço de forma distraída. – Em meu escritório, há diversos casos em que somos os representantes, mas achei que poderíamos nos concentrar naqueles que envolvem Patil.
— Sim, será útil para nos prepararmos para o que virá e nos familiarizarmos com as estratégias as quais ela recorre usualmente.
Eles subiram até a biblioteca e Draco surpreendeu-se com a mudança brusca pela qual o local passara recentemente. Os livros e as prateleiras continuavam intocados, imóveis como seus antepassados projetaram para ser. Entretanto, o espaço de leitura não era mais o mesmo após a presença constante de Granger. Antes, tratava-se de um local extremamente impessoal, planejado para trabalhar, mas ela inventara de colocar um sofá macio de três lugares de frente às duas poltronas que já faziam parte do espaço, além de ter providenciado algumas almofadas grandes que julgara ter visto na casa dela em Godric’s Hollow quando estivera lá, as quais estavam jogadas displicentemente pelo novo e grande tapete macio de cor bege. Um aparador redondo fora colocado ao lado do sofá – o qual, aliás, percebeu ser um daqueles que anteriormente pertenciam à sala do piano – enfeitado por um arranjo de flores em um vaso luxuoso que pertencia à família há algumas gerações. Flores.
— Espero que não se importe de ter feito algumas mudanças. Eu passo muito tempo aqui, como você deve imaginar, então supus que não houvesse problema em tornar o lugar mais... Confortável. – Manifestou-se ela após Draco resolver se manter em silêncio. – Mas pode voltar tudo ao normal quando eu for embora.
— Está tudo bem, Granger, eu sequer venho aqui.
E realmente estava, pois já fazia alguns meses que a castanha se hospedara em sua casa e aquela era a primeira mudança visível que se dispusera a fazer e era um tanto previsível que tivesse a ver com a biblioteca. Entretanto, era uma mudança, em sua casa, ainda que não frequentasse aquele cômodo, e não estava considerando ser um problema, o que por si só já o era. Merlin, este impasse tinha que acabar!
Não demorou muito tempo, contudo, a que ambos estivessem acomodados sobre o tapete rodeados de calhamaços de processos que tinham a ver, de alguma maneira, com Parvati Patil. De pernas cruzadas abaixo do corpo, sem sapatos e com os cabelos presos em um coque no topo da cabeça, Granger passava os olhos rapidamente por uma folha e a virava com pressa. Qualquer um poderia pensar que não prestava muita atenção no que fazia, mas era possível perceber seu semblante concentrado e, por algum motivo, Draco se sentia excitado apenas com tal imagem.
Dessa maneira, revirou os olhos para si mesmo e concentrou-se na cópia que tinha em mãos. Ministério vs. Kettleblack. Patil havia trabalho em parceria com Granger e tinham ganhado. Não era uma surpresa, todas as provas apontavam para Kettleblack, acusado pelo estupro e homicídio de Arianne Branstone. Elas haviam começado com a apresentação das testemunhas, algo um tanto quanto inconclusivo, sujeito a manipulações e impressões erradas por parte de tais pessoas. Depois, vieram as evidências concretas, que provavam a presença do acusado na cena do crime, as quais dificilmente poderiam ser contestadas com sucesso pela defesa. Por fim, Granger deixou que Patil fechasse a acusação e ela foi esplêndida ao convencer o júri, não havia como negar. Deveria ser um daqueles que a destacavam, mas o nome de Hermione Granger estava bem ao lado do seu, o que provavelmente dificultaria as coisas.
— Eu não consigo trabalhar sem comer. – Ela deixou o processo de lado e levantou-se, alongando as costas. – Vou fazer chocolate quente.
Sem esperar resposta, ela saiu da biblioteca e Draco buscou outra pasta, mas pelo nome gravado logo na capa, lembrou-se instantaneamente que se tratava de uma demanda que enfrentara apenas Granger, embora talvez Patil tivesse feito alguns despachos para a outra. Zeller vs. Ministério. Era uma acusação de abuso de autoridade de Rose E. Zeller a respeito dos Obliviadores do Ministério, que por sua vez movia um processo contra ela por praticar feitiços perante trouxas. Granger estava certa de que ganharia, não havia testemunhas aptas que comprovassem a acusação de sua cliente e todos os Obliviadores que trabalharam na ocasião estavam dispostos a proteger uns aos outros. Entretanto, encontrou um precedente de 1896 nos arquivos do próprio Ministério, onde foi permitida a presença e testemunho de um casal de trouxas em um processo bruxo. Como os trouxas não sabiam como funcionava o código de serviço dos Obliviadores puderam responder com bastante especificidade dos fatos como os mesmos haviam procedido na noite em que foram solicitados.
— Espero que você faça algo de bom com os honorários partidos da indenização de Zeller. – Granger falou às suas costas quando já se encaminhava à saída da sala, dando a entender que não acreditava muito no que defendera no tribunal.
— Espero que não diga que me deixou ganhar. – Voltou-se a ela com um sorriso presunçoso, no que ela fez o mesmo passando por ele.
— Jamais! – Ela apertou o botão do elevador, encarando as grades distraidamente. – Na minha última conta eu estava ganhando de você por dois processos.
— Você está contando? – Ele perguntou incrédulo, no que ela deu de ombros e adentrou o elevador apertando a pasta antes de dar de ombros.
— Sou uma mulher competitiva. – Granger constatou tranquilamente.
— Jura?
Rebateu ironicamente, no que finalmente terminaram o diálogo minimamente civilizado e voltaram ao seguro silêncio de sempre. Quando o elevador finalmente parou, cada um seguiu a seu lado, mas desde então Draco também começou a contar os processos em que se enfrentavam e que ganhava. A única coisa que concordavam é que havia certo equilíbrio, nunca nenhum deles havia ultrapassado a marca de dois processos à frente do outro.
Despertou da lembrança com Granger lhe oferecendo a xícara de chocolate quente, mas tratou de dispensar a padronizada pasta que tinha em mãos, passando para o próximo processo, no que Granger apenas encarou a lareira pensativamente com a xícara entre os dedos. Já havia percebido que era uma mania da mulher manter a xícara de forma que aquecesse seus dedos, os quais estavam sempre, independentemente da temperatura do ambiente, frios.
Dessa forma, ainda demorou um tempo considerável a que decidissem fazer uma pausa e deixar alguns processos sem exame para a tarde seguinte, visto que certamente dormiriam a manhã toda. Draco já tinha a gravata solta ao redor do pescoço, alguns botões abertos da camisa negra social e os sapatos encontravam-se jogados fora do tapete, longe de seu alcance. Granger, por sua vez, estava confortavelmente deitada, com a cabeça sobre uma das almofadas e as pernas cruzadas uma sobre a outra, mas ainda assim seus olhos acompanhavam com cuidado cada linha do documento que tinha em mãos, sem nenhum sinal do sono que fazia com que os olhos do loiro pesassem.
— Tudo bem, vamos traçar as linhas gerais. O Ministério tem uma desvantagem e uma vantagem que não podemos contestar. – Ela abaixou o processo para encará-lo seriamente. – As provas estão favoráveis a eles e serão decisivas. Porém, podemos desacreditar facilmente com fatos cada testemunha e, principalmente, a maior delas: Ginny Potter.
— Parvati não gosta de se concentrar em desacreditar testemunhas, então teremos que ser incisivos nas nossas. – Ela sentou-se, parecendo alerta. – Carrie Wilkins será uma delas, assim como Harry. As perguntas terão de ser direcionadas a Andrômeda de modo que não surja oportunidade de falar sobre meus desentendimentos com Ronald. Ela mesma serviria para enterrar o que Ginny dissesse, mas...
— Precisamos de alguém que chame atenção. Precisamos da Sra. Weasley. – Acrescentou Draco, no que a meneou a cabeça, incerta se a matriarca iria concordar em ajudá-la.
— Ou Arthur. – Draco não havia pensado na possibilidade do pai de Weasley testemunhar. Além disso, era necessário saber se Patil já não considerado tal possibilidade.
— Certo, vamos nos concentrar nas provas. Inconclusivas, mas são as únicas que existem. Então, Potter é o álibi, mas por ser seu amigo Patil tentará a qualquer custo torná-lo sujeito de suspeição, o que é bastante fácil neste caso. Se conseguir, será necessário convocar alguém que estava presente no mesmo local que vocês, o que não deve ser difícil com a atenção que vocês dois juntos desperta. É sabido que tinha suas desavenças matrimoniais com Weasley, o que será corroborado com o testemunho de Isaac Greene, o vendedor de doces, e possivelmente alguém da família que não goste de você. Ainda, o Ministério tem um depoimento de Zach Fitzgerald afirmando que não chegou no horário em que alegou e o seu próprio depoimento ao QG de Aurores em que disse que bebeu; o depoimento de Lilá Brown afirmando que Weasley pediria o divórcio e o bilhete e afirmação de Chang confirmando que ele realmente tinha os documentos. Além do fato óbvio de que foi a pessoa a encontrá-lo morto. – Draco não adentrou a seara de que Granger havia omitido socorro ao marido, pois não teria como alguém descobrir isso. – Pode ser um problema se Weasley afirmar sobre sua dependência, o que provavelmente fará. Patil irá tentar colocá-la confusa perante o júri a respeito de seus horários por causa da bebida.
— Precisamos de alguém que confirme o horário em que cheguei ou que saiba exatamente a hora em que saí do Caldeirão Furado, Carrie Wilkins não basta. – A essa altura, a própria Granger já estava ao seu lado fazendo várias anotações em sua caligrafia pequena e rápida. – O que não temos?
— Alguém em quem colocar a culpa. – Respondeu tediosamente com a cabeça descansada contra o sofá e os olhos no teto. – Há a mulher misteriosa, que pode muito bem ser Lilá visitando seu marido em sua própria casa, mas não há como provar ser ela.
Entretanto, percebeu que Granger silenciou-se por mais tempo do que de costume e quando a encarou, ela tinha os olhos semicerrados contra ele e a caneta golpeando ansiosamente contra o bloco de anotações de forma. Quase podia ver as peças em seu cérebro se encaixando, trabalhando como há muito não fazia, de forma que a deixava instigada e inspirada a continuar e provar seu ponto.
— O Ministério também não tem outro suspeito. – Alegou lentamente enquanto pensava e, quando voltou a focá-lo, algo um tanto dissimulado brilhava em seus olhos, algo que o lembrava da antiga Granger que enfrentava nos tribunais do Ministério. – Malfoy, sei como ganhar o processo.
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