Neurótica
26 Capítulo 26
HERMIONE GRANGER QUEBRA O SILÊNCIO
Linda, elegante e bem-sucedida na carreira meteórica ascendida no Departamento de Execução das Leis da Magia, como Promotora Oficial da Suprema Corte dos Bruxos, Hermione Granger resolveu falar sobre a situação pela qual está passando nos últimos meses.
Principal suspeita pelo assassinato de seu marido, Ronald Weasley, Hermione vive há alguns meses reclusa na famosa Mansão Black, uma das luxuosas propriedades de seu advogado, Draco Malfoy, o qual, aliás, esteve presente o tempo todo durante a entrevista. Segundo a mesma, que parecia confortável sentada em uma das poltronas ao lado de uma grande janela com vista para o céu enevoado do dezembro londrino, ela precisava lidar com os problemas pessoais que vinha enfrentando desde antes da morte do marido para conseguir se expor de tal maneira.
“Eu tenho depressão”. Hermione declarou claramente desconfortável. “Tive o diagnóstico há algumas semanas. Quando tudo aconteceu, simplesmente não consegui mais lidar comigo mesma. Entende? É como se todos os sentimentos que eu, propositalmente, reprimia tivessem entrado em um ponto de ebulição após a morte de Ronald”. A advogada conta que procurou ajuda médica, mas precisou muita força de vontade para reconhecer estar com um problema tão sério quanto. “Foi difícil por que eu queria estar normal, eu queria continuar fingindo que tudo estava bem, que, por dentro, as coisas não estavam desabando, mas... Estavam! E lamento ter demorado tanto para deixar que outros cuidassem de mim” .
Após o fato de finalmente se deixar procurar ajuda médica, Granger conta que passou por momentos difíceis após a morte de Weasley, como quando Lilá Brown revelou estar grávida de Ronald Weasley em uma entrevista, levando ao extremo sua crise psicológica. “Tirou-me dos eixos. A entrevista que eu concedi após isso foi devastadora por que... Por três anos, estivemos guardando este segredo e, em momento algum deste período, eu estive pronta para falar sobre”. Hermione revela em primeira mão ao Mensageiro o que já se supunha em algumas rodas de conversa: ela sofreu um aborto aos quatro meses de gravidez, quando já tinha conhecimento de que o bebê que esperava era uma menina. “As pessoas acham e, em parte, eu tive culpa por isso, que o fato de aparentar ter uma vida feliz nos deixa imune a qualquer tipo de problema, mas não é assim que são as coisas”.
Quando questionada por que utiliza exatamente a expressão “aparentar ter uma vida feliz”, Hermione responde, confirmando o depoimento dado ao QG dos Aurores, que seu casamento estava em crise, mas tentavam não demonstrar isso ao público e, principalmente, aos fãs daqueles que sempre seriam seus heróis de guerra ainda vivos. “Eu acho que não queríamos que acabasse de forma tão repentina. Quer dizer, projetamos uma vida juntos, certo? Isso não é algo que se jogue fora na primeira briga. Tentávamos conduzir a situação da melhor forma possível, mas as coisas ficaram piores após a perda do bebê. Nós nos afastamos.”
“Foi nesse período que ele se aproximou de Lilá Brown?” ela meneia a cabeça à pergunta, parecendo pensativa e responde de forma sucinta, “é possível”, pois afirma com convicção não ter conhecimento do caso que seu marido manteve por mais de dois anos com a veterinária. Granger ainda diz que ter descoberto isso pelos jornais, após a morte de Ron – como costumava chamá-lo –, não a abalou tanto quando a perda de seu bebê ou a descoberta de que Lilá estava grávida. “Por que, ao menos para mim, parece o ponto onde tudo começou, literalmente, a dar errado. Brown afirma que só me importava com o trabalho, mas eu duvido que ela saiba por que isso acontecia ou o que realmente se passava em minha casa. Ron não conversava comigo sobre, eu duvido que ele tivesse coragem de se abrir a ela a tal ponto”, diz em referência a época mais difícil de sua vida.
Pergunto se ela realmente se importava em demasiado com o trabalho no Ministério e nos afirma que sim. Granger ainda completa que seu trabalho é uma das melhores partes de si: “é quando me sinto completa. Vejo que faço algo de útil no Ministério, algo que só pode ser feito por alguém com tanta vontade quanto eu. É verdade, mergulhei de cabeça nessa área quando tudo aconteceu por que... Eu precisava me distrair, precisava parar de pensar que eu havia perdido aquele bebê com tanta facilidade, que os planos que vinha fazendo teriam de ser mudados... Enfim, confesso que deixei meu casamento de lado por importar-se mais comigo, mas não quer dizer que gostava menos dele por isso. Eu apenas... Não tinha forças para sustentar a nós dois naquele momento”.
Afastada do trabalho devido às acusações de Lilá Brown e o posterior inquérito, Granger sente que lhe falta algo, mas afirma que talvez não volte ao seu cargo original de Promotora Oficial do Ministério: “eu não sei se quero levar a mesma vida de antes”. Ela diz que quer colocar tudo em seu devido lugar antes de pensar no futuro. Alongando o assunto, questiono se, como advogada, ela imaginava que poderia ser relacionada de tal forma à morte do marido:“eu estava digerindo o que havia acontecido quando soube das declarações de Brown. Tinha me hospedado na casa de Harry [Potter] e foi ele quem providenciou Malfoy como meu advogado. Os dois já sabiam que as coisas tomariam essa proporção, mas eu não imaginava... Não sabia que Lilá Brown nutria tanto ódio por mim a ponto de fazer todo este estardalhaço para me ver na cadeia”.
Perguntada sobre como está lidando com o processo de inquérito desenvolvido pelo QG dos Aurores, que recentemente declarou estar em sua fase final, Hermione diz que está mais tranquila devido ao tratamento psicológico ao qual se submeteu, mas que no começo as coisas foram difíceis. “Simplesmente não acreditei que pudessem levar adiante uma hipótese tão absurda. É como se as pessoas envolvidas nessa questão estivessem descartando tudo que Ron e eu fomos durante 12 anos, toda a amizade e companheirismo que tivemos desde os 11 [anos], apenas para gerar mídia positiva para o QG, para que eles ganhassem visibilidade. Entendo perfeitamente que o trabalho dessa Sessão é investigar – inclusive lutei ao lado de Harry para que isso acontecesse, para que tivessem sua autonomia -, mas é inadmissível que levem em consideração algumas declarações de Lilá Brown e provas completamente frágeis para me colocar no centro da investigação como principal suspeita. Acho que o principal sentimento que me envolve, agora, após o choque inicial de ter que lidar com isso, além da morte de Ron, é indignação”.
Recentemente, o chefe do QG dos Aurores e amigo de Granger, Harry Potter foi afastado pelo próprio Conselho pelo fato de ser próximo aos principais suspeitos, afinal até o afilhado do mesmo é alvo do inquérito. “Harry não tinha autoridade para tomar sozinho qualquer decisão que pudesse me beneficiar ou a Teddy [o afilhado]. Tenho certeza de que ele nunca fez nada que pudesse constrangê-lo no Ministério, nada que pudesse manchar sua carreira. Está ao meu lado, não vou negar, mas por que sabe que nunca seria capaz disso e por que é contra a campanha empreitada por algumas pessoas do próprio QG para distorcer minha imagem perante a sociedade”.
Após a declaração de cunho pesado contra o Ministério da Magia, seu atual empregador, e o QG dos Aurores, Granger disse que não iria citar nomes, mas deixar o trabalho de investigação aos jornalistas que se encontravam em vigília nos arredores da Mansão Black a fim de obter uma declaração. Com uma olhada lá fora, afinal, é possível constatar que as calçadas em frente à casa estão repleta de repórteres enviados por alguns dos maiores jornais bruxos do Reino Unido e da Europa.
Segundo ela, já se acostumou com o assédio há algum tempo, mas não deixa de se incomodar quando tudo que quer é abrir a janela para sentir a brisa fria adentrar a Mansão “abafada e entediante”, segundo palavras dela com um olhar pensativo em direção a Malfoy, o qual aparenta não ligar para os adjetivos que a cliente coloca em sua propriedade. Entretanto, ela conta que é preferível ficar ali em vez da própria residência, que dividia com Ronald Weasley: “eu tentei permanecer lá, uma vez, no começo, mas... São muitas lembranças, boas e ruins. Quem já esteve em um relacionamento por tanto tempo sabe que não são apenas boas recordações que permeiam esse terreno, apesar de que... Não é esse o ponto. Quer dizer, acho que seria mais difícil me recuperar estando lá. A impressão é de que tudo naquela casa parece me puxar para o passado e o que venho tentando fazer, com muita dificuldade, é seguir em frente... Tenho a intenção de deixar todas as cicatrizes desse tempo completamente fechadas, quietinhas, e... Aquela casa não ajuda muito”. Quando perguntada se já pensou em vendê-la, Granger afirma que não: “eu não sei por que, simplesmente não quero me desfazer do lugar em que fui feliz por alguns anos. Seria como se estivesse negando isso... Enfim, bastante medíocre”.
Antes de nos despedirmos, Granger afirma que continuará de pé até o último minuto possível, como sempre foi, lutando contra aqueles que podem ganhar algo com sua queda. Entretanto, ainda é muito visível o modo como a morte de Ronald a abalou, além de toda a situação constrangedora e desnecessária a qual foi submetida e a depressão com a qual vem travando uma batalha a cada dia, como nos disse, pois ela termina a entrevista com uma “obrigada” formal e o semblante sério em detrimento da Hermione Granger alegre, que costumava receber a todos com um sorriso no rosto.
C. Fawcett
Com um sorriso malicioso no rosto, Draco descartou o jornal de lado e alcançou a xícara de chá à sua frente. Aquela era apenas a primeira de uma série de entrevistas que Granger concordara em fazer antes do final do inquérito. A intenção era tirar o foco de Teddy, colocá-la nos holofotes, chamar a atenção de todos apenas para ela, pois assim o Ministério “esqueceria” o garoto, ou seja, veria que acusá-la lhes daria a mídia pela qual estavam procurando. Só saberia se o plano dera certo no dia em que QG anunciasse o término da investigação, mas tinha de admitir que talvez fosse um dos melhores.
Apesar de estar conscientemente sacrificando Granger, ela entendia que era sua forma de trabalhar, mesmo antes de ser seu advogado. Fazia as coisas funcionarem de uma maneira não muito convencional – e isso costumava irritá-la ao extremo, mas na mesma medida dar certo. A questão é que após Granger ser oficialmente indiciada, não apenas publicamente, como geralmente fazia a imprensa, teria de concentrar todos os seus esforços em tirá-la da situação, mas ambos já haviam acordado que devia/seria desse modo.
Sentado próximo às janelas de vidro, não demorou a que a visse se aproximar da Casa de Chás com ar apressado e não apenas devido ao vento que prenunciava fortes tempestades para aquele dia. A observou adentrar o local e se dirigir até ele após correr o ambiente com os olhos. Do alto de seus saltos enormes, a mulher agia como se fosse a dona do mundo enquanto ignorava os olhares, discretos ou não, que lhe eram lançados durante o caminho até a mesa de Draco.
Era de seu costume aparentar não se importar, mas tinha consciência de que sua entrevista ao Mensageiro ainda estava fresca na memória de todos os presentes. Afinal de contas, o jornal não possuía grande alcance como o Profeta Diário, mas uma disputada matéria com ela sempre alavancava as vendas naqueles tempos. Ela o cumprimentou discretamente enquanto retirava o pesado casaco de inverno e quando se acomodou à sua frente, respirando fundo, notou que ela tinha as bochechas coradas e suspeitou, com quase certeza, que tal situação não se devia apenas ao clima frio que se instalara de vez no mês de Dezembro.
— Como foi a visita aos seus pais?
— Como o esperado. – Respondeu ela tão formalmente quanto ele enquanto meneava a cabeça. Draco entendia que ela estava mantendo aquela pose por encontrar-se em um local público, mas se habituara a Granger sem máscaras que ela se mostrara nos últimos tempos, então a mulher o estava irritando. – Talvez não tenha sido uma decisão acertada ter demorado tanto para ir vê-los. Perguntavam a todo instante como eu estava, como seriam as coisas “após o ocorrido”, o que iria fazer... Enfim, eu não tive coragem de contar a eles a gravidade da situação “após o ocorrido”.
Julgava que era normal a preocupação dos pais de Granger, afinal acreditavam que a vida de sua filha com Weasley estivesse ótima, pois não se viam com frequência. Ela contara que era costume da família trocar cartas e que os visitava uma vez ao mês. Porém, após a morte de seu marido saíra da casa que dividiam, explicara Granger, então eles sequer poderiam tentar visitá-la de modo trouxa e tiveram que se contentar com cartas enquanto a filha se recusava a dizer onde estava.
Draco, por sua vez, não concordava que ela houvesse demorado a visitá-los. No estado psicológico em que se encontrava durante as semanas após o ocorrido, não duvidava que a mulher fosse capaz de sofrer um colapso ao ser submetida as mesmas perguntas e preocupações familiares. Pensava que a garantia de boa saúde mental de sua cliente valia a apreensão de seus pais por determinado tempo. Além disso, não achava que faria melhor a família Granger ser pega de surpresa, caso o resultado de um provável julgamento não fosse favorável.
— Não acho que devia esconder deles que está com problemas jurídicos. – Ela discordou com a cabeça.
— Nunca fui da opinião de que eles precisassem saber de qualquer um dos meus problemas desse mundo. – Granger deu de ombros enquanto aceitava. – O fato de entenderem que sou diferente já os sobrecarrega demais. Levar a eles os problemas desse mundo seria como admitir que fracassei.
— Têm uma relação turbulenta? – O garçom aproximou-se, entregando a ela o cardápio, mas sustentando um olhar tão demorado quanto mal educado na direção da outra, mas logo se retirou quando Granger disse que o chamaria quando se decidisse o que consumir.
— Não, apenas que... – Com um suspiro, ela levantou os olhos aborrecidos para Draco. – Não é fácil entender que não pertenço ao mesmo mundo que eles, então nossa relação não passa do superficial, querendo ou não. Nossas conversas tem o mínimo de informação bruxa possível, não entro em detalhes sobre a maioria dos assuntos, me esforço para passar a imagem que o modo de vida dos bruxos é parecido ao deles quando sei que, na prática, é muito diferente. Somos tão seres humanos quanto eles, mas somos regidos pela magia, o que torna as coisas difíceis de serem colocadas em palavras a alguém que não faça parte.
Draco não poderia ter uma opinião a respeito disso, nem mesmo se quisesse, pois não fazia ideia de como era ser um bruxo com pais trouxas, mas supunha que os mais velhos deveriam ter uma mente muito aberta a respeito de qualquer coisa para aceitar com facilidade um filho que era capaz de produzir feitiços utilizando uma varinha. Por isso, entendia a decisão de Granger a respeito de não querer contar aos pais sobre seus problemas ali, mas colocava na balança que ela era filha deles, a única, e que, se fosse presa, teriam de lidar com aquilo da mesma forma com que lidariam se a situação estivesse acontecendo no mundo trouxa.
— Fawcett tomou nosso partido. – Ele mudou o rumo do assunto.
— Agora que estou aqui, não acho que deveria ter aparecido em público tão rápido. – Granger remexeu-se de forma desconfortável e chamou o garçom, antes de olhá-lo de forma que lembrava muito apreensão, embora duvidasse que fosse esse o caso. Ela simplesmente não estava pronta para lidar com os olhares insistentes dos presentes, e não estaria tão cedo se não fizesse parte do plano que a mulher aparecesse propositalmente em lugares públicos para demonstrar estar tranquila a respeito do circo montado pela Promotoria e o QG dos Aurores. – Não gosto do julgamento em seus olhares.
Ela referiu-se aos demais acenando com a cabeça em direção as outras mesas antes de o garçom se aproximar para anotar o pedido. Draco analisou o jovem rapaz enquanto sua cliente pedia chá preto com açúcar e biscoitos salgados. Era claro que a maioria ali possuía sua própria opinião a respeito de Hermione Granger, do caso Weasley, do que o Ministério estava fazendo em relação a tudo isso, e com o garçom não era diferente. Ele estava de má vontade, concluiu resignadamente, e Granger era tão boa em ler expressões alheias quanto o Malfoy. A sociedade fazia seu pré-julgamento, ambos sabiam disso perfeitamente e, inclusive, haviam concebido um plano para manipular este julgamento, mas ela nunca experimentara a sensação de forma tão pesada, ponderou observando como ela se portava de forma desconfortável sabendo ser assunto de sete em cada dez mesas da casa de chás.
— Tem tanta consciência quanto eu da necessidade disso. – Disse quando o garçom se fez longe novamente. – As pessoas precisam olhá-la e lembrarem-se da antiga Granger, a heroína; recordar que aquela mulher jamais seria capaz do que está sendo acusada. Aparente normalidade, mas não como se nada tivesse acontecido, afinal ainda é uma esposa em luto que lamenta a morte do ocorrido. Aparente consternação, pois ele fora seu melhor amigo, acima de qualquer desavença que pudessem ter como um casal. Aparente humildade, pois os demais precisam identificar-se com sua situação e dificilmente fazem isso quando se trata de alguém convencido demais; mas, além de tudo, aparente que está bem, apesar dos pesares, que sua enfermidade não está interferindo em seu equilíbrio atual, que está no controle de sua vida tanto quanto sempre esteve.
— Não fale comigo como se não soubesse jogar esse jogo. – Ela revirou os olhos após o tom de desdém e Draco sorriu discretamente ao vê-la revisitar o passado. – Mas não é você quem tem de lidar com eles te olhando como se não fosse digna de estar aqui. Durante todo o Beco Diagonal as pessoas apontando, cochichando, com aquele constante olhar de reprovação ou, pior, pena.
Por um momento, enquanto observava a face quase desesperada de Granger ao desviar o olhar para a rua de paralelepípedos do Beco Diagonal lotado de bruxos indo e vindo a todo o instante, Draco temeu que ela pudesse ter uma recaída. Talvez o plano não fosse bom o suficiente, não para alguém no estado em que a mulher se encontrava; talvez estivesse errado em recolocá-la na sociedade enquanto ainda era seu principal alvo; talvez não fosse tão especialista assim em Hermione Granger.
Entretanto, precisavam de uma redenção pública, e, para isso, precisava que ela reascendesse socialmente, com o público ao seu lado idolatrando-a novamente enquanto deixavam a figura de Teddy de lado. Ela tinha concordado em fazer alguns sacrifícios por isso e ele tinha de manter-se firme, pois aquele era o lado dela que se importava demais com a opinião alheia se manifestando. Draco deveria colocá-la no controle de si, deixá-la racional novamente, se não para colocar de lado sua angústia com a opinião social, ao menos para deixá-la equilibrada quanto a isso... Ao menos enquanto estivessem ali, concluiu ao ver a porta de vidro sem uma mancha sequer abrir-se novamente, dessa vez para que a figura loira, cacheada e inchada de Brown adentrasse a casa de chás.
Imediatamente, todo o estabelecimento cedeu aos mexericos, os quais não se restringiam aos murmúrios dessa vez. O mundo bruxo era tão previsível, pensou enquanto observava Lilá Brown sentir o efeito de uma sociedade corrompida pela imprensa. Ela franziu o cenho, incomodada, pois sabia que os sussurros mal disfarçados eram por sua causa, e corou de vergonha, mas decidiu seguir caminho até a mesa a qual estava destinada. Os comentários, obviamente, a acompanhavam por todo o caminho; não muito diferente à reação que tiveram quando a própria Granger chegara.
— Granger, a aconselharia a manter a calma agora. – Ela ainda não havia percebido a presença da outra, pois se encontrava de costas para a porta e tinha toda a atenção colocada sobre o garçom insolente que a servia.
— Por quê?
A castanha simplesmente seguiu seu olhar para deparar-se com Brown encarando-a de forma raivosa. Certamente tinha sentido o olhar insistente de Draco sobre si e não demorou a visualizá-los perto das janelas de vidro. Podia-se perceber a fina linha de tensão com que as duas mulheres encaravam-se e, por um momento, toda a casa de chás pareceu prender o fôlego, como que esperando o que uma delas poderia fazer a seguir.
Draco observou a mão de Granger sobre a mesa fechar-se em punho de forma involuntária e, por um momento, temeu que ela não conseguisse manter a calma. Pela primeira vez desde a morte de Weasley, estava frente a frente com Lilá Brown. O ambiente tilintava de expectativa, todos haviam acompanhado as acusações, provocações e ofensas trocadas pela esposa e pela amante grávida de Ronald Weasley.
Assim, no instante em que a Brown mudou seu trajeto para encaminhar-se a mesa onde estavam, Draco segurou a mão de Granger ainda carregada de tensão, chamando sua atenção para si. Seu pescoço já se encontrava corado pela raiva e esperou silenciosamente que as manchas avermelhadas não subissem dessa vez para o rosto. De alguma maneira, precisavam tirar proveito da situação.
— Aconteça o que acontecer não se levante e não aumente a voz. É ela quem está vindo até aqui. – Completou como se isso respondesse toda a questão. Colocou seu próprio copo d’água na frente dela. – Tome e respire fundo. Vamos sair daqui melhor do que entramos se mantiver a calma.
Ela acenou que compreendia a questão, que era Lilá quem estava indo até onde os dois calmamente conversavam e que sairia dali como a vítima se conseguisse se manter fria, apesar dos pesares. As pessoas a olhariam de forma diferente, como se fosse superior à outra mulher que não resistiu a causar um escândalo. Porém, entender o que estava em jogo e saber ganhá-lo com a pouca munição que tinha era outra coisa, afinal não sabia se Granger – no estado psicológico frágil em que estava – aguentaria Lilá Brown olhando-a com aquele brilho de vitória nos olhos azuis aguados enquanto colocava uma das mãos sobre o ventre convenientemente distendido pela gravidez.
— Granger. – Ela cumprimentou em tom desdenhoso. – É um desaforo enorme de sua parte achar que pode ser bem vinda aqui.
— Não vejo por que não seria bem vinda, pois, pelo visto, você frequenta esse lugar. É de se imaginar que aceitam todo tipo de gente. – Granger ajeitou-se na cadeira para vê-la melhor e passou os olhos pela barriga que indicava meses de gravidez suficientes para que ela a exibisse como se fosse um troféu. – Como está o filho do meu marido?
— Você é uma abusada! – Brown disse incrédula. – Me admira ouvir você referir-se a Ronald como seu marido. Ele era muito mais meu do que seu e sabe...
— Isso é o que você alega. – Granger cortou a outra antes que pudesse ter a chance de terminar. – Sua empreitada na imprensa bruxa até hoje não ultrapassou as suposições. Mero sensacionalismo barato feito por gente mesquinha tal qual você.
— Eu não admito que me ofenda dessa forma, sua... Maldita! – Brown falava com os dentes quase cerrados, segurando-se para não gritar. Seus olhos estavam vermelhos por lágrimas não derramadas, que supunha serem ocasionadas pelos hormônios em ebulição devido à gravidez. De outra forma, duvidava que a loira estivesse quase aos prantos perante Granger, a qual, por sua vez, mantinha-se firme em sua postura, embora fosse possível ver suas mãos tremendo levemente e as manchas vermelhas que antes se alojavam no pescoço estivessem subindo de forma desagradável por suas bochechas. – Você acabou com as chances que tínhamos de sermos felizes por que nunca o colocou acima de si, dos seus planos, do seu maldito ego!
— Ser feliz com Ronald... – Granger repetiu de forma cínica, como se estivesse analisando as palavras da outra. – Vejo que ele realmente a iludiu, Brown, por que o engraçado de toda essa história é: ambas sabemos que Ronald era um péssimo marido. E fico um tanto surpresa por pensar que com você tudo seria diferente.
— Ele me amava, repetiu tantas vezes que não posso contar... É isso que torna tudo diferente. – Brown sorriu maliciosamente. – E eu daria a ele o filho que você não conseguiu dar, um filho para que ele se orgulhasse do que fizemos juntos.
Nesse momento, viu Granger morder a parte interior da bochecha, como que remoendo o que a loira de constante sorriso vitorioso lhe tinha dito a respeito da criança que esperava. Certamente, era a parte que deixava sua cliente mais perturbada, presenciara sua vulnerabilidade de perto em relação a esse assunto específico e esperava piamente que ela não deixasse tal vulnerabilidade ser percebida pela outra, embora Brown fosse usar tal trunfo de qualquer forma contra Granger sem piedade, principalmente após a entrevista d’O Mensageiro.
— Acredita mesmo que Ronald seria um bom pai? Um pai orgulhoso? Do filho da amante? – O tom que Granger usara agora era mais cortante que o normal. — Se acha que ele era o tipo de pessoa que assumiria essa responsabilidade, não o conhecia minimamente.
— Não use essa boca suja para falar dele dessa forma. – Disse Brown de forma ofegante. – Assassina, é o que é. Você é má, Granger, puramente má. Não mede escrúpulos para acabar com a mera memória de Ronald, não duvido por um segundo do que fez com ele naquela noite...
— Eu ouso usar minha boca suja para falar da forma como bem entender de Ronald. – Quando Granger colocou-se pé, Draco fechou os olhos por alguns segundos, desejando que aquilo ainda pudesse ser revertido de forma. Afinal, era para Granger ter o foco da mídia, mas não o seu ódio. Elas se encontravam muito próximas, pescoço a pescoço, olho no olho, nenhuma das duas se permitindo vacilar ali por que significaria derrota. – Por que ele era meu marido, meu, e fui mais próxima dele do que qualquer outra pessoa por muitos anos.
— Você é ridícula, Granger, Ronald está na minha cama há tanto tempo que sequer me lembro. Ele dividiu tudo comigo. Seus medos, suas inseguranças, suas conquistas, seus segredos... – Brown disse em tom baixo e era possível ouvir cadeiras se arrastando para que a discussão pudesse ser mais bem ouvida. – É daí que sei que ele estava farto de você.
— Bom, posso lidar com suas falácias sem sentido por um longo tempo, se quer saber. Estamos aqui agora, não é mesmo? — Granger retrucou em tom tranquilo, mas viu suas unhas baterem ansiosamente contra o tampo da mesa de madeira. – Eu quero que prove que Ronald pediu o divórcio naquela noite, que eu o matei por isso, que sou uma assassina como você diz. Faça tudo que puder para provar, Brown, por que, se isso não acontecer, eu vou acabar com você.
Então, antes que pudesse calcular, a mão aberta de Brown alcançou o rosto de Granger com tanta força que seus dedos contra a pele branca ficaram instantaneamente marcados. Deveria ter realizado que a loira estava em seu limite, pois Granger fazia questão de levá-la ao extremo justamente com a intenção de perder o controle. Ela sabia jogar o jogo, afinal de contas. Lilá Brown encontrava-se ofegante e tão corada de raiva quanto sua rival, embora a castanha ainda conseguisse manter o mínimo de equilíbrio em seus atos.
— O inquérito pela morte de Ron é só começo, eu vou tirar tudo de você... Você vai pagar por cada coisa que me privou de ter... Vou brigar por isso na justiça até o fim dos meus dias.
— O discurso da mulher que quis tirar tudo de mim desde que tínhamos apenas 16 anos. – Granger retrucou de modo enfadado enquanto voltava-se para colocar o casaco pesado, como se a presença de Brown ali lhe fosse menos do que insignificante. Ela não se mostrara abalada pela agressão física, embora tivesse alisado o local com a mão para que a ardência diminuísse. Porém, não duvidava de que, em seu íntimo, a castanha adoraria revidar, apesar de saber que era Brown que, ao final de tudo, teria perdido toda a compostura perante um público abertamente escandalizado pelo tapa que acabara de dar na antiga queridinha de todos. – O que a incomoda não é o fato de que seu filho irá crescer sem um pai, ou sem a família que acha que poderia ter tido em seus devaneios ou até mesmo a falta de uma boa quantia de dinheiro na sua conta em Gringotes ao fim do mês, se considerarmos que Ronald não teria coragem de assumir essa criança... O que a incomoda, realmente, Brown, é que eu fui e sempre serei a Sra. Ronald Weasley, a única, por mais que lute contra esse inegável e infeliz fato. Essa criança que está esperando...? Pode até ser uma parte de Ron e qualquer coisa desse tipo, mas você...? Você sempre será a amante e nada além disso.
— Nada do que disser irá me desviar do meu objetivo, Granger, nada. Eu ainda quero ver você arruinada, sua assassina. – Brown ainda disse antes de Granger voltar-se em direção a saída e bambolear-se entre as mesas tendo a cabeça erguida, como se a única vitoriosa ali fosse dela, apesar dos dedos da outra terem marcado sua face.
Dessa forma, quando Draco levantou-se ainda sob o olhar de todos os presentes, o olhar da loira recaiu pesadamente sobre ele, como se fosse o culpado de toda a situação ter se desenrolado de determinada forma quando a única coisa que fez foi usar uma oportunidade convenientemente surgida em proveito de sua cliente.
— Você mencionou brigar na justiça? – Perguntou ele casualmente, mas ela não se dignou a respondê-lo. Nem fazia questão de uma resposta enquanto ajeitava calmamente o casaco sobre o terno. – Por que, você sabe, sou especialista nisso.
— Sua lábia não irá me fazer recuar, Malfoy.
— E eu nem pretenso que o faça. – Ele jogou algumas moedas sobre a mesa que cobririam o que ele e Granger teoricamente consumiram, além de todo o espetáculo causado na casa de chás e ainda encarou a loira de forma demorada em suas vestes escolhidas cuidadosamente com a intenção de valorizar a barriga saliente. – Aliás, parabéns pela gravidez, ainda não havia tido a oportunidade...
— Vá se foder.
Draco apenas riu e abotoou o casaco antes de percorrer o mesmo caminho que Granger percorrera momentos antes fazendo questão de cumprimentar alguns conhecidos para demonstrar que tudo estava sob controle, que sua cliente estava equilibrada e que não temia que se submetesse novamente ao álcool após tanto trabalho para se encontrar minimamente sã. Após todos aqueles ataques de Brown diretos e nem minimamente medidos, esperava que suas consultas ao psicólogo e psiquiatra estivessem cumprindo seu objetivo.
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