Neurótica
2 Capítulo 2
Quando a porta da casa de Potter foi aberta, Draco arrependeu-se imediatamente de ter aceitado aquele caso. O som de conversas estava por todo lado e não poderia distinguir o conteúdo de nenhuma nem se fizesse muito esforço. Um menino de cabelos negros e espetados – como os de seu pai haviam sido – passou correndo pelo corredor e logo atrás veio um bebê ruivo claramente testando seus primeiros passos. A garotinha, que era uma cópia de Ginny Weasley (Potter), o encarou confusa e saiu correndo novamente atrás de seu irmão mais velho.
– Draco? – Disse a Sra. Weasley, obviamente, não entendendo o motivo de ele estar parado embaixo do batente da porta de seu maior inimigo.
– Sou o advogado de Granger. – Respondeu firmemente, feliz que tivesse conseguido manter sua inflexibilidade sob o olhar analisador da mulher. Mesmo com visíveis marcas de choro em seu rosto, ela ainda lhe parecia ameaçadora.
– E por que Hermione precisaria de um advogado? – Perguntou ela, ainda resistindo em dar passagem para Draco.
– Isso... Potter deverá explicar.
Nesse momento, o moreno descia as escadas concentrado na tarefa de abotoar a manga de sua camisa. Draco quase suspirou aliviado ao vê-lo, mas conteve o impulso. Era estranho que detestasse os Weasley – inclusive o falecido Ronald – e não tivesse reação frente à matriarca de todos eles. Simplesmente, parecia errado atacar aquela senhora.
– Malfoy. – Disse Potter ao vê-lo. – Já o esperava.
Impediu que uma careta se manifestasse em seu rosto e adentrou a casa de Potter quando, finalmente, a mulher lhe deu passagem. O funeral de Ronald havia sido há algumas horas e era completamente normal que metade de sua família estivesse concentrada, mas Draco não estava acostumado a lidar com um número tão grande de ruivos, ainda mais se levasse em consideração que estes estavam de luto. Maldita consciência.
– Harry, querido, Hermione disse que prefere... – Ginny Potter, que carregava a estranha e, surpreendentemente, não sardenta garotinha no colo parou de falar ao perceber quem acompanhava o marido. – Malfoy.
– Potter. – Mais um, ele amaldiçoou em pensamento. Tinham quantos Potter’s naquela casa? Merlim!
– Malfoy é o advogado de Hermione.
Informou ele em voz baixa por que, obviamente, havia mais pessoas do que deveria naquela sala e elas não estavam prestando atenção em suas respectivas conversas, pois se dedicaram a observar o novo visitante assim que o viram passar pelo batente da porta. Afinal, jamais esperavam que um Malfoy fosse visto na casa de um Potter, ainda mais naquele dia.
Viu o casal trocar um olhar significativo e obrigou-se a desviar os olhos para a decoração. Tinha de admitir, a Potter tinha bom gosto. Lembrava-se vagamente da matéria do Profeta Diário em que ela apresentava a reforma que haviam feito na casa antes de se mudarem para a mesma. Na semana seguinte, objetivos decorativos escolhidos pela nova Sra. Potter estavam esgotados em todas as lojas.
Ao seu lado, um grande espelho logo acima de um aparador de carvalho sob um arranjo de flores da estação abria caminho para a enorme sala de estar, com sofás aconchegantes, tapetes persas, móveis caros, eletrodomésticos trouxas e bibelôs por todos os cantos. Tudo, exatamente tudo, exalava harmonia e felicidade, o que contrastava de forma gritante com o clima pesado instalado por seus habitantes.
Era visível que as conversas paralelas não passavam de uma desculpa de todos para que não deixassem a tristeza recair em seus familiares. Entretanto, Draco não conseguia deixar de desprezar aquela forma de luto. Independentemente do esforço para não deixá-lo chegar, aconteceria assim que colocassem as cabeças em seus travesseiros e chorassem até não ter mais lágrimas suficientes para jorrar.
Potter pigarreou brevemente e seguiu por um corredor paralelo à sala, repletos de quadros de família, os quais Draco ignorou solenemente enquanto o seguia. Chegaram ao escritório de Potter onde não havia resquício de conversa. Finalmente, seu cérebro poderia exercer seu ofício sem aquela maldita interferência desnecessária.
– Recebi o relatório do depoimento de Brown. – Disse, aceitando de bom grado o uísque que Harry lhe oferecia. – É um tanto ultrajante que você deixe que eles abram um inquérito para investigar Granger só por que Lilá Brown disse algumas palavras constrangedoras.
– Há um Conselho no Quartel General, eu não posso passar por cima do consenso ao qual eles chegaram.
– Um Conselho instalado por você, se me lembro bem. – Potter meneou a cabeça e Draco voltou sua atenção para os documentos oficiais que tinha em mãos. – Não preciso expressar minha opinião sobre o quanto isso foi estúpido, não é?
– A sua opinião sobre meu trabalho não me interessa, realmente.
Potter, ao ser alçado para a posição de Chefe do QG dos Aurores, instalou um Conselho em sua Sessão com o objetivo de tornar o trabalho de seus subordinados o menos tendencioso possível. Isso, na prática, quase tirava seu poder de decisão, mas ele não queria ser alvo de críticas desgastantes (pelo fato de ser Harry Potter) então, basicamente, era apenas o nome que representava os Aurores do Ministério e tinha um pouco mais de privilégios que seus colegas.
– Então, vamos falar de Granger...
– Weasley. – Ele corrigiu, parecendo irritado, no que Draco o olhou desentendido. – O sobrenome dela. É Weasley, não Granger.
Draco revirou os olhos e resolveu não se alongar no assunto. O sobrenome de Weasley em Granger já o incomodava o suficiente e não discutiria suas opiniões sobre isso com Harry Potter.
– Brown alega que Weasley iria terminar com Granger naquela noite e que, por supostamente tê-lo feito, ela o assassinou. – Aquilo, em sua opinião, era fruto de alguma ilusão de Brown, pois Hermione Granger jamais perderia a razão por causa de um simples divórcio. Pena que deveria usar apenas provas concretas para atestar a inocência de sua mais nova cliente. – O QG está querendo se promover usando esse caso, certo?
– Kingsley irá fazer cortes e a nossa Sessão está no topo da lista. – Explicou Potter, aquilo não era novidade para Draco, os cortes de gasto no Ministro haviam sido anunciados na semana anterior e a morte de Weasley caiu como uma luva nos tempos turbulentos pelos quais os Aurores estavam passando. – Como você sabe, as verbas aumentaram logo após a Guerra, precisávamos de dinheiro para capturar os Comensais foragidos, agora que nada relativamente grande quanto isso acontece nossas verbas serão destinadas a outro departamento.
– Bem, considerando que eu sou o advogado da sua amiga e que Weasley realmente se suicidou... – Viu a careta de dor que Potter fazia, mas não se incomodou por isso e continuou como se nada tivesse acontecido. – O QG irá perder ainda mais crédito. Sua situação não ficará boa, Potter.
– Faça o que for possível para tirar Hermione dessa. – Ele suspirou. – Mesmo que Ron tenha sido assassinado tenho plena convicção de que ela é inocente.
– E como pode ter tanta certeza? – Draco estreitou os olhos para o tom de Potter, ele parecia mesmo certo do que estava dizendo e não custava nada começar seu trabalho por ali. – É o álibi dela?
– Tenho minhas razões para acreditar nisso. – Respondeu ele, inflexível. Apesar de tudo, ainda era um Auror altamente treinado do Ministério, jamais se deixaria cair na lábia de um advogado. Porém, Draco anotou o nome de Potter seguido por um ponto de interrogação em seu bloco de notas. – Ela está no quarto de hóspedes, não quer ver ninguém...
– Que ótima notícia. – Levantou-se, seguindo o outro em direção à saída.
– Acho que precisamos adiantar a defesa de Hermione, sei perfeitamente como isso funciona e ela precisa estar preparada.
Ambos começaram a subir as escadas, sob os olhares preocupados da Sra. Potter e de Molly Weasley, Draco pôde perceber, mas realmente não se importava com isso. Potter estava certo, a imprensa iria deitar e rolar sobre essa notícia e era seu trabalho preparar Granger e todos que estavam ao redor dela, mesmo que isso incluísse construir relações indesejáveis com aquelas pessoas.
– Odeio ter de pedir isso, mas... Seja gentil. – Disse Potter, resignado, no que apenas revirou os olhos (costumava explorar ainda mais esse hábito irritante na presença do Auror) antes de levemente bater na porta duas vezes e esperar.
– Não me diga como fazer o meu trabalho, Potter.
Adentrou o quarto e praticamente bateu a porta na cara de Harry ao virar-se para encarar Granger. Para sua surpresa, não havia ninguém ali. Olhou ao redor, constatando que aquele era o pior quarto de hóspedes da história e contrastava irritantemente com o que viu no resto da casa. Além da cama, grande e espaçosa, havia um guarda-roupa de duas portas, uma escrivaninha usada, um tapete pequeno e gasto e um criado-mudo. Nenhum arranjo de flores, nenhum objeto decorativo, nada.
Uma mala estava ao lado da porta que certamente levava a um banheiro, então Draco simplesmente aproximou-se da janela e esperou. Dali era possível ver o Sr. Weasley caminhando sozinho pelo jardim, as mãos no bolso e a cabeça baixa. Sim, aquele era o luto que Draco apreciava. Aquele era o luto de verdade. Não vira o patriarca dos Weasley em meio a multidão de cabelos ruivos que era a sala de Potter então supôs que ele estivesse evitando as rodas de conversa que a todo custo tentavam não falar sobre a morte de seu filho. Ronald Weasley estava morto e, mesmo que eles tentassem fingir que não, isso era um fato irremediável.
– Harry o contratou?
A voz de Granger o tirou de seus devaneios e Draco virou-se para ela. Havia acabado de sair do banho visto que seus cabelos estavam molhados e que usava um roupão felpudo. Seus olhos não estavam inchados e vermelhos, como esperara, apesar de seu rosto evidenciar todo o cansaço de um dia inteiro de cerimônias em homenagem ao marido.
– Ele me pediu para vir logo após o velório. – Ela apenas meneou a cabeça e sentou-se na cama, encarando-o inexpressivamente.
– Eu não podia esperar outra coisa, realmente.
Era completamente estranho que estivessem nessa situação, haviam sido muitos anos de inimizade e, logo após isso, rivalidade ao sair da escola. Granger trabalhava no Departamento de Execução das Leis da Magia, mais especificamente como Promotora Oficial da Suprema Corte dos Bruxos, e não foram uma ou duas as vezes que haviam se enfrentado no tribunal, mas várias. Admitia: apenas superara as derrotas que sofrera por que Granger era muito boa no que fazia. Apesar disso, ainda era a Granger, ou seja, não se suportavam e havia se preparado psicologicamente o dia todo para aquele encontro. Talvez, e apenas talvez, ela o deixava nervoso.
– Tudo bem, vamos fazer isso do jeito mais fácil. – Começou ele. – Agora, você é minha cliente. E isso significa que esqueceremos as discussões, as implicâncias e as provocações na sala de espera do Tribunal. Amanhã você será acusada convocada formalmente pelo QG dos Aurores e será afastada de seu cargo no Ministério, pois é inaceitável que seu nome esteja envolvido em algum tipo de processo. A partir de então, Granger, será apenas minha cliente. Estamos entendidos?
– Okay. – Draco franziu o cenho, confuso, não pensou que seria tão fácil. – Eu sei como é ser um advogado, Malfoy. Eu preciso de você e você precisa da minha colaboração. Sei que o QG irá fazer tudo o que puder para me incriminar, apesar de Harry estar lá, e sei que posso ser presa, então... Tudo bem.
Olhando para Granger e analisando o que não parecia ser uma esposa de luto, pela primeira vez passou pela cabeça de Draco que ela poderia sim ter assassinado seu marido. Antes, quando pensava na figura da mulher à sua frente, era impossível imaginá-la perdendo a razão por causa de um simples divórcio, mas vendo-a tão fria e inflexível ao falar sobre a própria situação começou a considerar a hipótese.
– Antes de começar, Granger, tenho apenas uma pergunta simples a lhe fazer. – Ela apenas o olhou, esperando. – Você matou Ronald Weasley?
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