Neurótica
18 Capítulo 18
“- E se eu tiver matado Ronald após ler aquela carta? Como irá lidar com meu caso? Irá abandoná-lo? Irá me abandonar por que considera demais para sua sanidade, Malfoy?”
Novamente, ela o pegou de surpresa, pois sabia que era realmente demais para a sua sanidade que ela fosse culpada. Em sua mente jamais se encaixaria um fato como este e não saberia como lidar com o caso dela. Ou melhor, saberia, saberia exatamente o que fazer, havia livrado seus clientes culpados de Azkaban durante sua vida adulta toda, havia deixado Granger furiosa durante boa parte dela também devido a isso.
Porém, não saberia lidar com o fato de ela ser culpada e isso o tirara dos eixos desde o começo do caso, pois sabia que havia a possibilidade, embora esta nunca estivesse tão perto de se concretizar: Granger estava a um passo de ser considerada a assassina de Weasley e deveria escolher se a defenderia, se armaria a maior encenação de sua carreira para livrá-la da cadeia; ou se a abandonaria.
Tal sentença lhe pesava enormemente. Ainda que soubesse que ela poderia estar jogando com ele, que Hermione Granger não era a pessoa dependente de atenção e afeto que às vezes demonstrava, Draco tinha em mente que a abandonaria. Sem desculpas ou meias palavras, isso aconteceria. Por que não conseguiria defendê-la caso descobrisse que a verdade era mais feia do que ela pintava. Não Granger. Preferia vê-la condenada, sob a defesa de outro advogado criminalista qualquer, a participar do que provavelmente seria a martirizarão daquela que já era uma heroína de guerra, amada e idolatrada por todos.
Não por que tinha algum senso de honestidade ou caráter, seu trabalho estivera acima de valores débeis como estes durante toda sua carreira, mas por que tinha em mente que, se Granger era culpada, ela merecia ser punida por isso. Conhecia muitas pessoas problemáticas, defendera vários clientes considerados condenados pela sociedade bruxa, fizera com que estes saíssem como os injustiçados de toda a história, pois isso era o que fazia, era seu trabalho. Porém, ninguém era como ela.
A frieza, a falta de escrúpulos, sua mania de agir de forma calculista, racional – pois não a considerava louca -, tudo de forma tão refinada, elegante... Não conhecia ninguém como Granger e seu desequilíbrio calculado e exatamente por isso estava pronto para abandoná-la. Além disso, ninguém o atingira como ela fizera. Lidaria com as consequências dessa escolha futuramente, caso a fizesse, mas realmente estava pronto.
Assim, a confiança que ela aparentava apenas alguns minutos atrás se esvaiu enquanto o encarava, enquanto chegava a mesma conclusão que Draco, enquanto descobria que seria abandonada apenas ao notar como hesitou antes de responder de forma definitiva, pela primeira vez em muito tempo pensando de forma lenta o que deveria dizer. Estava ciente disso, ele mesmo se acostumara com seu raciocínio ligeiro e suas respostas ácidas e certeiras. Pelo visto, Granger o conhecia suficientemente bem para perceber tal detalhe.
– Você irá... – Ela deu um passo para trás parecendo atordoada, embora não tirasse os olhos dos dele, como se procurasse ali alguma negação da conclusão a que chegara. – Irá me deixar.
– Esse papel definitivamente não combina com você. – Ela lhe semicerrou os olhos, furiosa, e ajeitou os cabelos enquanto arfava parecendo alimentar um debate qualquer dentro de si mesma. Até que, por fim, suspirou e o encarou, um brilho determinado em seus olhos.
– Tudo bem. – Ela encaminhou-se para a porta e saiu pelo corredor, fazendo com que ele a seguisse ainda que desconfiado. — Espero que não se arrependa de ter pedido para saber de tudo.
Apesar de ter consciência de tudo que poderia acontecer quando saísse daquela casa, não se arrependeria de saber a verdade. Detestava ser feito de tolo, então, ainda que tudo acabasse, estaria aliviado. Adentraram a biblioteca e, como se fosse dona da casa, Granger apertou um interruptor para que todas as luzes fossem acesas. Passearam por várias e várias estantes sem dar atenção aos livros, já velhos pelo tempo e manuseio, embora o acervo fizesse parte de um dos maiores do mundo bruxo contendo vários exemplares raros de autores consagrados.
Por fim, chegaram ao fim do cômodo, onde uma estante de madeira maciça e escura se encontrava fechada por portas trancadas a chave. Viu Granger contar o quinto livro da terceira fileira da estante e o tirar de lá constatando o exemplar falso que tinha justamente o propósito de esconder coisas; a biblioteca dos Black estava cheia deles.
Sabia exatamente o que ela estava procurando. Poucas famílias bruxas possuíam um objeto encantado tão raro, ponderou ao encarar a penseira que Granger havia tirado da estante empoeirada e que segurava com tanto cuidado. Entretanto, o objeto de pedra antiga e desgastada não lhe chamava tanta atenção. Não era do tipo que valorizava o passado, por isso a penseira se encontrava esquecida naquele armário, mas agora via sua utilidade.
Granger colocou a penseira em uma escrivaninha que havia ali e o encarou, a luz da água transparente com aparência de gel iluminando seu rosto e olhos, lhe conferindo uma aparência ainda mais ameaçadora na semiescuridão daquele lugar.
– Pode me emprestar a varinha?
Draco retirou a varinha do bolso e quando fez menção de entregar a ela, encarou o objeto que tinha em mãos por um segundo e aproximou-se até se encontrar-se a apenas um passo da mulher, que não se afastou. O olhar interrogador mantido até então, entretanto, se dissolveu quando ele apontou a varinha para a têmpora feminina e Granger engoliu em seco.
– Pense.
Hermione fechou os olhos e, ao mesmo tempo, Draco fez o feitiço não verbal que possibilitaria retirar as memórias dela para que pudesse vê-las na penseira. Ainda demorou algum tempo para que ela organizasse seus pensamentos e lhe fornecesse a matéria-prima para a penseira funcionar e, durante aqueles poucos minutos, observou como o rosto dela – parecendo tão pacífico enquanto tinha os olhos cerrados — possuía os traços delicados e femininos que havia adquirido na adolescência e que conservara até então, apesar das adversidades.
Não havia nada de diferente ali, mas, ao mesmo tempo, os cachos que emolduravam o rosto de forma elegante lhe demandavam mais atenção do que gostaria de admitir, assim como os lábios rosados e cheios, tentadores demais para que conseguisse se controlar por muito mais tempo – ainda mais se levasse em consideração o fato de que já havia provado dos mesmos e queria mais. Portanto, quase soltou um suspiro aliviado quando ela abriu os olhos e pôde, enfim, sentir que o fio de memória se encontrava em sua varinha. Tudo que ele queria saber nos últimos tempos ao alcance de seus dedos.
Assim, não demorou a quebrar o contato visual que Granger mantinha de forma persistente e intimidadora e colocasse com cuidado o fio dentro da penseira. Pôde ver de relance uma imagem dela chegando à residência que dividia com Weasley, mas o que se via normalmente, enquanto tomava coragem ao encarar o líquido luminoso dentro da penseira, era um emaranhado de acontecimentos sem sentido.
– Malfoy, eu... Sinto muito. – Ela expirou de forma contrariada. – Pelo que vai ver.
Draco fechou os olhos por alguns segundos, colocando as duas mãos sobre a mesa que apoiava o objeto mágico que o deixava extremamente incomodado. Sua respiração estava lenta, mas seus pensamentos estavam rápidos demais para que pudesse controlar – e todos eram sobre ela. Todas as hipóteses que lhes atormentaram nos últimos tempos rondavam sua mente, todas as hipóteses o haviam levado até ali. Então, talvez, nem mesmo quisesse ter controle total sob seus pensamentos ou ações por que, se tivesse, jamais teria se virado para beijar Granger naquele momento.
Jamais.
Por que beijá-la era tudo que não deveria fazer: lhe tirava de sua zona de conforto, lhe colocava em terreno minado, perigoso, onde poucos – ou ninguém – sabiam pisar. Por que, a partir de então, não voltariam ao que eram antes. Não quando ela “sentia muito” pelo que veria nas memórias dadas de bom grado; não quando ela lhe correspondera no mesmo instante, sem hesitações; não quando a língua dela se movia no mesmo ritmo que a sua.
Tudo isso passou por sua mente enquanto a beijava, sem vontade alguma de terminar aquilo e voltar-se para as lembranças que mudariam tudo; sem vontade, inclusive, de afastar suas mãos que passeavam de forma lasciva pela cintura dela, que a traziam para mais perto e a encaixavam contra si de forma confortável, pois esse fora seu desejo durante anos e resolvera fazer justamente a minutos de deturpar toda a imagem que havia construído em sua cabeça sobre Hermione Granger. Ambos tinham consciência disso.
Afastaram-se ofegantes, embora estivessem tão próximos que suas respirações se misturavam. Sentiu quando ela suspirou e retirou de forma lenta as mãos que havia mantido em seu pescoço durante todo o beijo, instigando-o a afastar as suas do corpo dela enquanto a observava balançar a cabeça ainda com os olhos fechados.
– Realmente sinto muito.
Então ela se foi, sem encará-lo por um único instante, saiu de suas vistas rapidamente e não demorou a ouvir a porta da biblioteca batendo. Draco não pensou em segui-la. Sua cabeça provavelmente trabalhava tão rápido quanto a de Granger e, antes de processar realmente aquele beijo, precisava ver suas lembranças. Precisava descobrir se ela havia ou não matado Weasley.
Assim, sem hesitações dessa vez, encaminhou-se em direção a penseira e respirou fundo antes de abaixar a cabeça até o conteúdo que, para sua surpresa, não causava nenhum incômodo. Consciente de que o objeto reconstruía as lembranças de Granger – afinal, não era um completo leigo no assunto – Draco se viu rodeado por um ambiente escuro e conhecido, onde conversas sussurradas se misturavam de forma que não podia distinguir nenhuma delas se quisesse.
O Caldeirão Furado – local onde sua cliente alegava que estivera com Potter na noite do assassinato de Ronald – estava exatamente como se lembrava, inclusive com Tom, o barman, enxugando copos atrás do balcão de forma lenta devido a idade avançada. Granger e Potter, no instante em que se virava para procurá-los, se levantaram de uma das mesas mais afastadas do bar-hospedaria e encaminharam-se para as escadas que levariam as suítes.
Os dois conversavam de forma baixa e contida e notou que ambos tentavam não chamar atenção, embora Potter houvesse falado com o barman para pegar a chave de uma das suítes. Ela tinha um copo nas mãos, mas não estava bêbada. Pelo contrário, Granger parecia ter acabado de sair do trabalho, pois se encontrava exatamente do modo como ia ao Ministério ultimamente: saia lápis azul e profissional até a altura dos joelhos que fazia conjunto com o tailleur da mesma cor, por cima de uma blusa de seda branca. Seu visual passava a imagem de alguém completamente amistoso e só poderia imaginar o que ainda veria naquelas lembranças.
– As coisas com Ginny estão do mesmo jeito? – Os seguiu de perto enquanto ambos adentravam o quarto de número 04, o qual, pelo tamanho generoso e decoração que pretendia se mostrar clássica, deveria ser um dos melhores do local.
– Basicamente, não conseguimos conversar sem nos ofender e, nos últimos dias, estamos nos evitando. – Potter se desfez da pasta executiva, colocando-a sobre uma escrivaninha de madeira escura, e sentou-se de frente para a mulher parecendo resignado enquanto a outra apenas o encarava com as pernas cruzadas e a postura ereta, como se estivesse na presença do Ministro da Magia e não de seu suposto melhor amigo. – Não sei como chegamos a essa situação.
– Todos nós mudamos ao longo do tempo, Harry, talvez... Talvez isso tenha acarretado tantos conflitos em nossas vidas que é normal que queiramos evitá-los. Chega um momento em que ficamos saturados, sabe bem disso. – Ele olhou Granger longamente, como se estivesse tentando processar o que a mesma disse.
– Acha que não há mais volta para nós? Ginny e eu... Não me conformo que depois de tudo iremos acabar assim, Hermione. – Potter levantou-se inconformado e andou pela suíte sob o olhar avaliativo da amiga, a qual apenas suspirou depois de um tempo e desviou seu olhar em direção à janela ao seu lado, onde a iluminação da Londres trouxa se estendia por vários quilômetros.
– Não irá acabar. – Granger declarou, decidida, ainda encarando o tempo lá fora. – Ginny o ama, apesar de tudo, ela jamais aceitaria perdê-lo.
– Não estou tão certo disso.
Uma batida leve soou na porta e ela encarou o amigo brevemente antes de levantar-se para atender. Draco não ficou nenhum pouco surpreso quando um garçom do bar adentrou a suíte brevemente carregando uma bandeja de prata com dois copos de gelo e uma garrafa de uísque do fogo do mais caro. Granger agradeceu e encaminhou-se diretamente para a mesma, servindo ambos os copos sem cerimônia enquanto continuava a defender seu ponto sobre o casamento dos Potter.
– Encontre uma forma de conversar com ela. Mande as crianças para a casa de Molly... – Ela estendeu o uísque a Potter e sentou-se novamente, de forma mais relaxada, embora sempre polida, tomando um gole generoso do líquido âmbar antes de voltar a falar. – Leve-a a um jantar romântico. Ginny adora essas coisas e não duvido nada de que esteja fazendo esse teatro todo apenas para lhe chamar a atenção.
Eles ficaram em silêncio por algum tempo, o ruído do gelo dentro dos copos e do trem passando lá fora ocasionalmente cortando a monotonia do encontro que Draco sabia onde levaria. Estava preparado para ver o que fosse necessário, embora um estranho incômodo em seu estômago lhe chamasse atenção cada vez que o auror se aproximava mais de Granger.
– Seria muito mais fácil se fosse nós dois, não é? – Granger encarou Potter com atenção. – Não diga que nunca pensou nisso. Juntos, somos melhores do que qualquer um, Ginny e Ron sabem disso.
– Por que somos amigos. – Ela deu de ombros e levantou-se com a intenção de encher novamente o próprio copo. – Jamais me toleraria se fôssemos casados.
– Besteira! – Ambos se olharam longamente, possivelmente imaginando como tudo seria se Granger fosse a Sra. Potter, se as coisas poderiam ser mais fáceis (e provavelmente mais tediosas, Draco pensou enquanto via o homem levantar-se e caminhar em direção à amiga), pois, dessa forma, ambos não estariam enfrentando graves crises matrimoniais no momento. – Poderíamos tentar, Hermione.
– Está dizendo isso apenas por que está cansado, Harry. – Granger engoliu em seco com a proximidade do amigo. Ela estava a um passo de ceder, até Potter poderia notar isso, estava mais quebrada que o outro, mais frágil que ele, embora houvessem falado apenas sobre o relacionamento do mesmo e não tivesse feito questão de tocar em qualquer assunto relacionado ao marido. – Logo as coisas se acertarão entre você e Ginny e... Essa será uma mancha que não poderá apagar em seu casamento.
– Não tem mais esperanças de voltar com Ron, não é? – Ela desviou o olhar, mas não se mostrava triste ou algo do tipo, apenas parecia incomodada e surpreendeu-se quando Potter tirou o copo de uísque que a mulher tinha em mãos, colocando-o na escrivaninha atrás dela e, com isso, deixando-os ainda mais perto. – O que temos a perder se tentarmos, Hermione? Caso não dê certo, esqueceremos, deixaremos no passado e ninguém nunca saberá disso.
Entretanto, apesar de Granger ter se inclinado, de forma hesitante, para beijá-lo, ambos tinham muito a perder. Ela havia perdido o marido e os melhores amigos, pois até o próprio Potter se afastara. Além disso, embora não quisesse focar nos problemas do outro, este quase havia perdido a esposa e a família que tanto prezava.
O beijo entre eles era cuidadoso, como se estivessem – e, provavelmente, este era realmente o motivo — com medo de aprofundar o contato. As mãos de Potter passeavam de forma lenta pela cintura fina e curvilínea que o próprio Draco havia sentido minutos antes, assim como as dela demoraram a sair dos ombros dele e mover-se para retirar o terno dele. Após retirar o tailleur, ele a tocava como se tivesse medo de machucá-la, como se ela fosse algo delicado demais, algo que não podia ser manuseado de qualquer jeito.
Eles se afastaram em busca de respiração e, enquanto Granger se encontrava de olhos fechados e lábios inchados, ainda viu Potter hesitar por alguns segundos. Foram poucos segundos e antes que a mulher pudesse voltar a encará-lo – e talvez recobrar a consciência do que estava prestes a fazer -, ele recomeçou a beijá-la e conduzi-la em direção a cama espaçosa que havia ali.
Quando ambos resolveram se deitar, ela já estava apenas de sutiã e Potter tinha a camisa aberta, mas no momento em que a mesma rodeou uma das pernas ao redor da cintura do mesmo, levantando a própria saia e lhe dando uma visão privilegiada de suas pernas, Draco desviou o olhar e, finalmente, deu-se conta de que não estava preparado para vê-la transar com o outro.
Tinha em mente que estaria pronto para qualquer coisa, mas... Todo o quadro que contemplava Granger e Potter quase consumando o que desejavam era demais para sua sanidade. Embora soubesse que ela havia, de fato, dormido com Potter, ver tudo acontecendo era muito diferente.
Além disso, sentia que estava invadindo algo que não era dele. Quer dizer, perambular pelas lembranças alheias significa exatamente isso, mas queria dizer quanto à relação que Granger mantinha com Potter. Eles haviam sido íntimos demais até aquele momento, ela estava totalmente entregue ao amigo por que confiava nele, talvez por que acreditasse – inocentemente – que as coisas poderiam melhorar caso se acertassem, embora estivesse totalmente equivocada e houvesse cedido em um momento de completa fraqueza por que estava quebrada demais para negar a ajuda de bom grado.
Assim, encaminhou-se para a saída e, no instante em que bateu a porta da suíte às suas costas, o cenário ao seu redor mudou e, no instante seguinte, estava em Godric’s Hollow. A conhecida residência dos Weasley erguendo-se à sua frente de maneira imponente enquanto uma Hermione Granger, desconfiada e olhando para os lados a todo o instante, caminhava em direção à porta da entrada.
Ela já estava totalmente recomposta, até mesmo os cabelos se encontravam presos da mesma forma que estavam antes do encontro com Potter. Draco adentrou a casa no mesmo instante que a dona, constatando que o térreo estava totalmente escuro àquela hora da noite. Granger pareceu incomodada pela escuridão, pois logo alguns archotes que havia na parede foram acesos com um aceno de varinha e a mesma subiu as escadas depois de deixar a própria bolsa no aparador que ficava no hall.
Percebeu que ela encaminhou-se direto para o quarto principal e, ao abrir a porta, estranhou que o ambiente estivesse completamente iluminado.
– Ronald, idiota, provavelmente veio pegar alguma peça de roupa pra sair com Brown.
Ouviu o resmungo da mulher que retirava os sapatos e os deixava jogados de forma displicente pelo chão do quarto ao mesmo tempo em que se desfazia do par de brincos discretos com agilidade. A seguiu quando ela foi ao closet e deixou seu tailleur ali, estranhando a mala que estava aberta sobre uma mesa de vidro no meio do local com pertences masculinos que, provavelmente, conhecia bem. Viu como ela passou uma das mãos pelas roupas e olhou ao redor com o cenho franzido em desentendimento apenas para constatar que nem todas as peças de Weasley estavam dentro da mesma, verificando que a maioria ainda se encontrava em seu devido lugar.
Desconfiada, ela encaminhou-se ao banheiro enquanto tirava a blusa branca que vestia de dentro da saia, mas ao chegar lá ofegou de surpresa e esforçou-se para abafar um grito de horror, provavelmente apoiando-se no portal para manter-se de pé.
Weasley tentava levantar do chão de mármore do banheiro apoiando o corpo pesado na borda da banheira, mas suas mãos estavam completamente encharcadas pelo sangue de seu pulso cortado e ele não tinha forças para sustentar o próprio peso. Assim, tudo que conseguiu foi cair novamente no chão, os olhos moles ao encarar a figura de Hermione. Ele não estava certo de que a mulher estava ali, Draco tinha certeza disso, mas mesmo assim a chamou e moveu o corpo com dificuldade em direção à varinha que se encontrava jogada a poucos centímetros de sua mão.
– Hermione... – Draco a viu encarar a varinha do mesmo de forma impassível por alguns instantes e, incrédulo, acompanhou o movimento lento da mulher ao abaixar-se para pegar a varinha e colocá-la sobre o lavabo, tirando-a do alcance de Weasley. – Por favor...
Não demorou muito para que os olhos dele, que se encontravam groguemente sobre a figura da esposa, não a encarassem mais. A respiração já fraca quando a mesma chegara finalmente se fez escassa. Assim, durante alguns minutos, Hermione encarou Weasley padecer e morrer bem à sua frente, os cabelos vermelhos misturando-se tenebrosamente com o sangue, sem fazer questão de lhe prestar qualquer ajuda.
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