Nemo
3 MELANCOLIA
Laura, hoje descobri que mais uma coisa minha sumiu. Primeiro, foi a cortina. E agora, a escrivaninha. Lembra que eu sempre deixei em cima dela os livros e os cadernos do colégio? Então, eles sumiram! A escrivaninha mudou de tamanho também, ou será apenas minha impressão?
Também tive um dia triste hoje. Tive uma consulta com a doutora Kamila e nós conversamos um pouco. Foi nessa consulta que ela deu uma notícia infeliz.
– Vejo que você tem escrito em dias alternados. – da outra ponta da mesa, a doutora sorriu para mim – o que foi? Parece preocupada.
– Hm? Ah, achei que ficaria brava comigo. Afinal, é um diário. Isso quer dizer que eu deveria escrever todos os dias.
– Háhá, não necessariamente. Você está escrevendo quando acha que deve escrever. Isso é o que importa. Mas há outra coisa que quer saber, não é?
– Sim. – eu peguei uma bola vermelha de borracha e comecei a apertá-la. – Por que tem uma terapia em grupo aqui?
Ela me olhou de um jeito estranho, como o meu pai fez alguns dias antes.
– Bem, é que também recebemos pacientes que sofreram traumas. E eles precisam explanar sobre o que ocorreu antes e depois de qualquer acontecido.
– Por que o Matheus está nesse grupo? Ele me parece bem.
– Sobre ele... – a doutora levantou-se de seu lugar e sentou-se na cadeira ao meu lado, pegou a minha mão esquerda e apertou-a, suavemente. – Bruna, eu não queria dizer isso, mas ele cometeu suicídio, ontem à noite.
Eu senti que meu coração havia sumido do peito, tal foi o vazio que se seguiu à frase.
Laura, eu gostaria muito que você estivesse ao meu lado.
Porque é muito ruim olhar para o caixão fechado sendo colocado dentro da terra.
E saber que Matheus está lá dentro, sozinho...
Foi mesmo um dia triste. E eu não sei se gostaria de compartilhar isso com a doutora, mas eu sei que ela vai ver o que escrevi. Então, acho que não faz mal. Eu sei o que você diria, se estivesse aqui:
– Bruna, arranca essa folha se você não quer mostrar.
Eu diria que não.
E você diria que eu sou muito boazinha, quase um anjo.
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