Nemo

5 INVISÍVEL


O inverno chegou, e parece que, desta vez, está mais frio do que o normal. Tenho até que andar com cachecol e luvas!

Mas, Laura, mais uma coisa estranha aconteceu... as paredes do meu quarto ficaram brancas! E isso aconteceu enquanto eu dormia. Ninguém consegue me explicar isso! Eu já perguntei para o Marcelo, para a doutora e para as enfermeiras. Isso está me deixando louca!

E tem outra coisa: sinto que ninguém mais olha pra mim. E quando digo olhar, eu quero dizer que as pessoas me vêem, mas não tomam consciência da minha existência.



– Bruna, você se sente deprimida? – a doutora Kamila estava novamente lendo meu diário, e releu a minha última nota.

– Eu... acho que não. Quero dizer, fico triste quando estou bem na frente de algumas pessoas e elas praticamente me atropelam. – fiquei esparramada na cadeira, apenas esperando uma bronca.

– Hm... bem, às vezes, eles podem estar focados em outras coisas, e não prestam atenção em você por causa de alguma tarefa ou problema pessoal, concorda?

Fiz que sim com a cabeça e perguntei se já podia ir embora.

– Tudo bem com você? Nunca quis sair assim, de repente...

– Só estou um pouco cansada... – minha visão começou a ficar embaçada e me apoiei no encosto da cadeira, de um jeito que parecesse que só estava olhando para o chão. Mas a doutora pareceu ter percebido e levantou-se da sua cadeira. Eu comecei a piscar meus olhos o mais rápido possível, para que o mundo parasse de girar ao meu redor.

Eu simplesmente encontrei com o chão.



– Não entendo, ela já estava doente?

– Sim... mas não sei dizer como isso não apareceu na bateria de exames que fizemos anteriormente.

Abri meus olhos e vi que estava em um quarto do hospital. A porta estava entreaberta, então, pude ver que a doutora Kamila, meu pai e um cara desconhecido estavam conversando. Meu pai olhou pela porta e entrou no quarto.

– Oi, querida. Que bom que acordou. A doutora ligou desesperada para mim e me pediu que viesse. Você vai ficar de observação esta noite, certo?

– Pai – senti que minha voz estava fraca, e sabia que, no meio da frase, ela podia acabar sumindo, mas insisti – não quero ficar aqui no hospital. E também não quero mais ir pra casa. Meu quarto está estranho, sabia...?

Sentei-me rapidamente e comecei a tossir. Quando desencostei minha mão da boca, vi que meu sangue a cobria quase que totalmente.

– Filha, descanse.

– Não, eu tenho que te contar! – continuei sentada, olhando para o sangue – meu quarto está se transformando sozinho! Primeiro, foi a cortina; depois, a escrivaninha, seguida da TV e da colcha. Hoje, as paredes mudaram de cor. Pai, o que está acontecendo?

Ele só olhou para mim, sem dizer nada. Mas, pelos seus olhos, eu já deduzi. Ele não sabia como estava acontecendo. Depois, levantou-se, deu um beijo na minha testa e se dirigiu para a porta.

– Pai, me faz um favor?

– Claro, princesa. O que é?

– Pega o meu diário?