Nemesis
18 Madrugadas de insônia

Madrugadas de insônia
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18 de Abril de 2012, 11:55 PM
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Santa Mônica – Califórnia
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Um dia havia se passado e Steve e Mary estavam agora hospedados em Santa Mônica.
Tudo estaria dentro dos conformes se...
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Eles não tivessem sido forçados a se hospedarem na mesma suíte num hotel perto da praia...
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Sim, era o cúmulo do absurdo, ainda mais por conta das circunstâncias do dia anterior, mas segundo Nick Fury, era arriscado que os dois estivessem tão expostos, pelo fato de serem duas figuras importantes.
Steve era o Capitão América e Mary a filha do Presidente dos Estados Unidos.
Então, o diretor da SHIELD, agora arrumava identidades falsas para ambos, pedindo para que se disfarçassem de alguma forma no ímpeto de não serem descobertos.
A sorte era que nem ele e nem ela, eram tão conhecidos assim, então bastava alguns acessórios para que pudessem se camuflar e andar por aí mais tranquilos.
Naquele dia em específico, Steve passou lendo a maior parte do tempo, já que em breve teriam de partir para a próxima missão em San Diego.
Ele usava seu tempo livre para ler e adquirir o máximo de conhecimento que conseguisse, apenas para se atualizar.
O Capitão já havia lido tudo sobre o que aconteceu após a segunda guerra mundial e sobre as tensões dos Estados Unidos e União Soviética, principalmente por disputa de território e expansão de suas ideologias.
A nação mais capitalista do planeta duelava contra uma das nações comunistas mais sangrentas da história.
E depois de muitas tensões, a guerra fria começava, numa disputa acirrada e perigosa, embora não fosse uma guerra que sacrificasse milhões de vidas.
Muitas vezes, por erros de cálculo, o mundo esteve à beira de guerras nucleares que varreriam vários países do mapa.
Por muito pouco, não aconteceu...
O loiro fechou o livro que lia, sentindo os olhos pesarem de sono.
Já estava vestido para dormir e suas roupas basicamente se resumiam a uma camiseta branca e uma calça de moletom cinza.
Descalço, ele caminhou para guardar o livro em uma das prateleiras da imensa suíte que dividia com Mary.
A garota estava no banheiro, tomando um banho.
Ela já estava lá a mais de uma hora... cantando enquanto se mantinha deitada na banheira...
Steve tentava fingir que a Segundo-Tenente não se encontrava ali, mas sempre se colocando limites.
Ela não deveria cruzar a linha dele e nem ele a dela. Pois era isso que combinaram antes de se hospedarem naquele hotel e dividirem um quarto.
Se a garota cumpriria o que acertaram? Ele não sabia, mas obviamente, Steve faria a parte dele.
Era desconfortável dormir no mesmo lugar que aquela garota maluca, porém, havia duas camas no local, uma do lado da outra. E isso facilitava muita coisa...
Mary era barulhenta e sempre tinha a mania de deixar várias músicas tocando num aparelho chamado iPod, conectado numa pequena caixa de som, que ela fazia questão de ficar horas e horas ouvindo, mas Steve havia desligado o aparelho e sintonizado numa estação de rádio, para que pudesse ouvir o noticiário, porque diferente dela, ele era um adulto que gostava de se manter informado sobre os acontecimentos do país e do mundo.
O Capitão América abriu as cortinas da sacada da suíte, contemplando a linda vista da praia de Santa Mônica a noite.
Era incrível...
Dali, era possível ver a roda gigante do píer, um lugar muito conhecido pelos gamers do mundo todo, pelo fato de ser um cenário famoso do jogo GTA.
Como ele sabia disso? Era porque Mary dizia tal coisa o tempo todo em seu ouvido, mesmo sem entender o que aquilo significava, afinal, para Steve, jogos se resumiam a xadrez e cartas, e não aparelhos eletrônicos que se manuseavam através de um controle.
A temperatura estava ótima e a brisa fresca que vinha do mar era um tanto diferente da aragem de Nova York. Ele podia sentir o leve cheiro do sal misturado na maresia que a praia exalava...
Naquele momento, uma música muito bonita começava a tocar no rádio...
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Robbie Williams – Angels.
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O vento tocava seu rosto, agitando levemente os cabelos loiros.
Naquele dia em específico, Steve não estava se sentindo tão bem...
Seus pensamentos se encontravam desordenados e todas as dúvidas que pairavam em sua mente sobre tudo e todos, lhe deixavam aflito.
Tantas coisas estavam acontecendo... mas duas delas tiravam o sossego do Super Soldado naquele momento...
O loiro se perguntava se Bucky realmente estava vivo ou se era uma mentira do Capitão América do futuro... e... se perguntava se devia ouvir seu confuso e perturbado coração e ir atrás de Peggy na Inglaterra...
Era como se sua mente ainda não acreditasse que ela havia envelhecido e que quase 70 anos se passaram...
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I sit and wait, (Eu sento e espero)
Does an angel contemplate my fate, (Um anjo contempla meu destino?)
And do they know, (E eles conhecem)
The places where we go, (Os lugares onde nós vamos)
When we're grey and old… (Quando estamos grisalhos e velhos?)
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Steve fechava os olhos, imerso na vibração do vento e da música... o Capitão possuía a delicadeza de ter a sensibilidade aflorada nas profundezas de seu coração quando pensava em sua amada Peggy... e ele conseguia sentir com mais intensidade o sussurrar da atmosfera daquele lugar, que de alguma forma, trazia a lembrança da fragrância que a mulher de seus sonhos possuía...
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Margaret Elizabeth Carter...
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Com os olhos fechados, ele replicava a imagem dela em sua mente... tudo o que mais desejava, era reencontrá-la...
E naquele instante, não havia dúvidas...
Seu coração pertencia a ela...
Ele a amava... porém, era tão triste saber que...
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O amor ficava... mas as pessoas iam embora...
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No seu caso, o tempo lhe roubou tudo o que mais desejava e sonhava...
Enquanto se encontrava perdido na doce e melancólica melodia, ele se atentava para o sotaque britânico do cantor daquela música... que lembrava o sotaque de Peggy.
O Capitão suspirou profundamente, imaginando mil coisas naquele momento...
Não conseguia parar de pensar nela, e sempre carregava sua bússola para todos os lados, sonhando com várias formas de reencontrá-la de verdade...
Se viajar no tempo era algo real, então seria possível que pudesse voltar para 1945? Será que o seu eu do futuro havia voltado?
Submerso nas profundezas de tais devaneios, Steve apenas ouviu a porta do banheiro se abrindo, e Mary finalmente saindo de lá.
A presença dela o incomodava e lhe tirava a pouca paz que possuía, mas por ora, resolvia ignorá-la... porque aquele dia estava sendo muito difícil e não tinha a mínima disposição de rebater qualquer provocação que a Segundo-Tenente fizesse.
A garota saia com uma toalha no ombro, roupas simples, como uma camiseta e um short, os cabelos soltos e um semblante confuso ao ouvir a letra daquela música e um Steve Rogers depressivo na sacada do quarto.
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When I'm feeling weak, (Quando estou me sentindo fraco)
And my pain walks down a one way street, (E minha dor caminha por uma rua de mão única)
I look above, (Eu olho para cima)
And I know I'll always be blessed with love… (E sei que serei sempre abençoado com amor)
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Ela fez uma careta logo em seguida…
— Credo, que música mais chata...
E então, a Segundo-Tenente desligou o rádio, pegou seu iPod nas mãos e automaticamente mudou para uma música mais agitada...
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Foo Fighters — Monkey Wrench.
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— AGORA SIM!!! – Ela gritava, com muito ânimo.
A música começava com muito peso e agitação, o extremo oposto da música anterior.
Mary subiu na cama, ficando de pé e começou a dançar e bater cabeça no mesmo ritmo da música.
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What have we done with innocence? (O que fizemos com a inocência?)
It disappeared with time and never made much sense, (Desapareceu com o tempo e isso nunca fez muito sentido)
Adolescent resident, (Adolescente residente)
Wasting another night on planning my revenge… (Desperdiçando outra noite planejando a minha vingança)
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Steve suspirou fundo, tentando se manter calmo. Ele odiava todo aquele barulho...
Aquela garota se comportava com uma pré-adolescente sem noção que não tinha o mínimo de respeito por nada e nem ninguém.
Quando o loiro olhou para trás, estreitava o olhar diante da bizarrice que acontecia...
Mary pulava de um lado pro outro, cantando e gritando desafinada junto com a música, fazendo uma vassoura de guitarra, bagunçando toda a cama, exatamente como um macaco...
♬
— One in ten, one in ten, one in teeeeeeeen! (Um em dez, um em dez, um em dez)
— Don't wanna be your monkey wrench, (Não quero ser o seu capacho)
— One more indecent accident, (Mais um acidente indecente)
— I'd rather leave than suffer this, (Preferiria sair que sofrer disso)
— I'll never be your monkey wrench… (Nunca serei o seu capacho)
♬
Temper, temper, temper... (Temperamental, temperamental, temperamental)
♪
Diante da algazarra que Kiara fazia, o Capitão fechou a porta da sacada com força, apenas para abafar parte daquele... barulho infernal...
Mary sorriu, sabendo que mais uma de suas provocações havia dado certo, porém...
Ela não desistiria tão fácil assim de atormentar Steve Rogers aquela noite...
E então, ela pulou de cima cama, correu e abriu a porta da sacada muito rápido...
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— Oiiii!!!
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Ela o cumprimentava, de forma sacana, proposital e irritante.
A garota ficou ao lado de Steve, com um sorriso cínico e travesso nos lábios, com o único intuito de tirá-lo do sério. Era a sua missão aquela noite, porque simplesmente... era divertido.
A música do lado de dentro começava a incomodar o Super Soldado, porém...
Ele a ignorou totalmente.
— Por que está com essa cara!? Não vai me dizer que está bravo porque te dei um selinho ontem!?
— Não, você está enganada... nem sequer me lembraria disso se não mencionasse... – Steve continuava olhando pra frente, sem encará-la, apoiando as mãos no concreto da sacada.
— Bem, você devia se sentir privilegiado, porque os meus lábios são tocados apenas por pessoas dignas... – E então, a garota sorriu sordidamente ufana.
— O que você quer, senhorita Ellis? Será que não posso ter um pouco de sossego...? E... por que não abaixa o volume dessa música? Está me incomodando...
— Nunca me peça pra abaixar Foo Fighters. É impossível! – Ela rebateu, num tom de diversão. Era tão nítido o quanto a loira se deliciava em deixa-lo irritado.
— É mais de meia noite. Já passou da hora de crianças irem dormir.
— Claro que não! Eu costumo deitar a uma ou duas da manhã, então não adianta bancar o vovô e me mandar ir pra cama cedo!
— Que ótimo... – O loiro revirava os olhos, perdendo o pouco de paciência que ainda restava.
— E quanto a você!? Por que não foi dormir ainda?
— Não estou com sono.
— E pelo visto, está mal-humorado.
— Sim, ótima observação, então se não for incômodo, pode me deixar sozinho?
— Certo... devo respeitar os mais velhos... maus tratos a idosos é crime...
— Eu não quero que se refira a mim como um idoso.
— Mas é isso que você é, Capitão Rogers: Um idoso. Acho melhor você aceitar!
— Não estou com ânimo para discutir com você hoje, senhorita Ellis. Por favor, me deixe sozinho. Estou pedindo com educação.
— Você está bem chato hoje... era pra você ficar com raiva...!
— Por que gosta tanto assim de me tirar do sério?
— Por que essa é a minha missão na vida, Capitão. – Ela sorriu, como uma criancinha endiabrada.
— Que eu tenha raiva de você?
— Sim! É divertido! Sua cara nas situações mais inusitadas é tão engraçada! Suas reações sempre são de surpresa, perplexidade e abismo. Eu amo isso!
— Devia ter mais maturidade, criança...
— Criança!? Me respeita, que eu tenho idade para ser o amor da sua vida!
— Você tem idade pra ser minha bisneta. Agora vá pra cama... por favor...
Era nítido o quão pra baixo e desanimado Steve se encontrava, e Mary simplesmente...
Odiava aquilo...
A loirinha o encarou com uma feição ranzinza... já pensando num plano B, e então...
Ela aumentou ainda mais o som da música através do iPod em sua mão, que ficava mais estridente.
Aquilo arrancava uma expressão assombrosamente furiosa na face do Super Soldado.
Ele a encarou de modo colérico, sabendo que a mesma fazia de propósito.
— Por que você é tão barulhenta...?
— É por que eu sou-
— Italiana. Já sei. Mas quando estivermos juntos, principalmente no mesmo quarto, faça silêncio.
— O silêncio é uma tortura pra mim, Capitão!
— E o barulho é uma tortura pra mim.
— Que pena! É por isso que você é esse ser melancólico e triste. Sua vida é muito sem graça! – Ela colocava as mãos cruzadas na nuca, exibindo uma feição birrenta.
— E a sua é muito bagunçada, senhorita.
— Eu gosto de viver assim.
— Percebe-se...
— Me fale sobre Peggy Carter...
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...???
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Um, dois, três, quatro, cinco segundos se passaram...
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Até que o semblante de Steve nublou, externando susto, perplexidade e sobressalto.
Por que... aquela garota maluca perguntava tão repentinamente e do nada, sobre... Peggy...?
— Por que... está me fazendo essa pergunta tão... repentina...?
— Porque eu quero saber sobre ela. Simples. – Kiara sorria cinicamente de canto... seu sorriso sórdido já dizia que no mínimo, começaria a dizer coisas absurdas que o tirariam do sério, já que era isso que ela queria.
— Eu não sei porque está perguntando sobre ela, mas desconfio que seja porque quer me deixar irritado, no entanto, senhorita Ellis, sinto dizer que não estou disposto a bater de frente com sua estupidez hoje.
— Eu só fiz uma pergunta! Custa responder!?
— Acho melhor não...
— Ela foi o grande amor da sua vida não é...? Você a superou...?
Steve fechou os olhos, com o cenho franzido, temendo perder o controle e acabar descontando em Mary Crystal, toda a frustração que o cercava...
Sim, porque aquilo não tinha nada a ver com ela... A Segundo-Tenente não era a causa de seu mau-humor.
Ela não tinha culpa...
— Você não vai me dizer? – Kiara insistia.
— Eu realmente não quero falar sobre isso...
— Sabe, eu pesquisei sobre ela hoje. Fiquei um pouco curiosa quando o Doutor Hank Pym citou o nome dessa mulher na sua frente e você ficou branco como um fantasma e saiu correndo. Daí eu pensei: Por que ele ficou tão mal só por causa dessa pessoa? Daí descobri que ela foi uma das fundadoras da SHIELD, que eu até sabia, mas tinha esquecido... ela foi alguém importante no mundo da espionagem.
— É mesmo...? Então agora que sabe quem é a Peggy, poderia fazer o favor de parar de me perguntar sobre ela?
— Hmm... não! Eu só estou curiosa, porque é bem obvio que vocês nasceram um pro outro e com certeza teriam ficado juntos para sempre se você não tivesse caído no gelo com a nave do caveira vermelha. – Ela tentava incitá-lo de todas as formas, pensando que o deixaria completamente irritado por conta de suas últimas palavras, mas...
O efeito foi o contrário...
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— É... acho que essa é uma das verdades mais absolutas que existem... Eu e Peggy nascemos um pro outro... e isso nunca vai mudar...
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Naquele momento, Mary foi pega totalmente de surpresa...
Não imaginava que Steve concordaria com ela, mostrando que era exatamente assim que pensava...
A garota o fitava com extrema precisão, notando a seriedade no rosto dele... os olhos azuis do Super Soldado reluziam quando olhavam para o céu. Mas não era um brilho de ódio e sim de...
Inabilidade...
Porque o mesmo se culpava por não ter cumprido sua promessa e encontrado o amor de sua vida no final da segunda guerra mundial... e nem mesmo ter morrido como um herói, que era o que mais desejava...
Por que se tivesse morrido, tudo teria feito mais sentido e seria melhor para ele e Peggy... assim, não estaria ali, se questionando e sofrendo por não realizar o grande sonho de viver o resto de sua vida ao lado dela...
Kiara nunca tinha visto aquela expressão no rosto dele antes. Não tinha ideia que Peggy Carter, uma das fundadoras da SHIELD junto com Howard Stark, ainda mexia tanto com o Super Soldado...
Ela se recordava do que Amber lhe disse, sobre Peggy ser a garota do Capitão América.
E ficava constatado que tais informações eram verdadeiras...
Era um amor correspondido, intenso e transcendente, e isso significava que ele ainda a amava...
Vislumbrando o semblante de tristeza e frustração na face de Steve Rogers, Mary se afastou e desligou o iPod.
Naquele momento, era notório o quanto o Capitão sofria pelo fato de ter acordado quase 70 anos depois e desencontrado do amor de sua vida.
A loira então resolveu que teria de dar uma trégua em suas provocações descomedidas... porque...
Ela também passava por dias de tensão e terror em sua vida quando se deparava com certas situações e sempre desejava ficar quieta... no silêncio...
— Você venceu, Cap. Estou indo dormir. Boa noite... – E então, Mary Crystal fechou a porta da sacada, sem dar explicações.
Steve estranhava aquela reação. Será que ela estava mentindo e aprontaria algo mais tarde?
De qualquer forma, estava aliviado por ver que aquela garota barulhenta dormiria e o deixaria em paz...
No entanto...
O Capitão sabia que seria impossível dormir, sendo que sua mente se encontrava turbulenta e extremamente atormentada nos últimos tempos.
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Três horas haviam se passado...
O relógio marcava três e dez da manhã...
Steve se revirava na cama, rolando de um lado para o outro.
O travesseiro estava bem posicionado atrás de sua cabeça, seus braços e pernas se encontravam retos e as fortes costas muito bem acomodadas naquele colchão tão macio que parecia uma nuvem, só que... a posição e o lugar onde estava deitado não eram suficientes...
Havia cochilado por poucos minutos... porém, sempre acordava assustado e com o coração disparado...
Toda vez que fechava os olhos e tentava repousar, um cenário da segunda guerra mundial vinha em sua cabeça, além de seus antigos medos que pareciam aumentar, toda vez que sua mente transitava entre o mundo dos sonhos e a realidade.
Sua infância difícil e conturbada, também passava por sua mente, como um filme...
Sempre perseguido por valentões, correr era a experiência mais torturante e dolorosa, porque o deixava sem fôlego e piorava sua lista de doenças, que basicamente era...
Asma, escarlatina, febre reumática, pressão alta e problemas cardíacos...
De qualquer forma, sempre acabava espancado, fugindo ou não, até que... ele aprendeu a encarar seus agressores...
Steve era só um garoto franzino de 55 quilos que vivia se metendo em brigas de modo involuntário, apenas por não tolerar injustiças.
E então, o projeto renascimento mudou a sua vida e o transformou num homem forte fisicamente, afinal, o espírito aguerrido ele já possuía...
Mas...
O terror de todo aquele cenário de guerra era devastador...
Tanques, fogo, fumaça, balas, armas, pólvora e cadáveres... tudo pintado de cinza...
Não havia restado nada...
Steve estava preso em mais um pesadelo, que o fazia se debater em sua cama.
Com o uniforme tático e segurando o escudo, em meio ao lugar que seus olhos enxergavam naquele momento, no fundo, havia uma mulher...
Ele correu, se aproximou e enxergou nitidamente a fisionomia dela...
Quando chegou perto o suficiente, percebeu que a pessoa diante de si naquele momento era...
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Peggy...
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Ele a fitava com muita surpresa, desespero e agonia...
E a agente o encarava com uma expressão de dor...
— Por quê mentiu pra mim, Steve...? – O questionava, deixando-o confuso.
— No que menti, Peggy...?
— Você disse que me encontraria no Stork Club às oito... você mentiu...
O Capitão a fitava, caótico diante das palavras dolorosas da agente...
— Eu tentei, mas... não consegui... fiquei preso por 70 anos no gelo...
— Eu não acredito em você... – E então, ela virou o rosto, ficando de costas para ele.
— Por favor, Peggy... tem que acreditar em mim... – A mão do Super Soldado tocou o ombro feminino, forçando-a se virar para ele, mas, tudo o que o Capitão conseguiu enxergar foi...
A aparência envelhecida do rosto dela...
Ele se assustou e se afastou, sobressaltado.
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— Você demorou, Steve... é tarde demais para nós...
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E então, o loiro despertou do sono de forma violenta, levantando da cama diante do assombro daquele cenário alarmante da segunda guerra e...
Peggy envelhecida...
No ruidoso silêncio da madrugada, o único som naquele momento era o de sua respiração ofegante...
Seu cabelo loiro se encontrava desgrenhado e ele estava muito suado...
Seus dedos se fechavam pelos lençóis bagunçados... segurando-os com força...
Havia uma música lenta tocando no fundo de seus sonhos... um tintilar de vidro e um cheiro de álcool que lembrava o das tavernas que costumava beber com Bucky e os membros do Comando Selvagem.
Steve olhava na direção da sacada...
A luz fraca da cidade entrava por entre as cortinas em tons de amarelo e cinza, escondendo as verdadeiras cores de uma noite de lua cheia...
A sacada aberta deixava a gélida brisa da madrugada entrar e refrescar o ambiente, secando a fina camada de suor que escorria por sua testa...
O tempo flutuava e sobre o sopro de primavera que entrava no quarto, Steve ficava à deriva...
Sua mente desordenada causava sentimentos que latejavam dentro de sua epiderme... seus poros gritavam... e seus pensamentos sussurravam palavras distantes que ecoavam nas paredes de seu ser...
O Capitão América tinha um amontoado de coisas pendentes que queria desembaraçar... coisas que tinha vontade de dizer a Peggy Carter e que nunca disse... coisas que só ele sentia na pele... coisas que não podia dizer em voz alta pra ninguém...
A solidão e a devastação estavam claras em sua expressão naquele momento. Ele estava acordado a poucas semanas e era como se estivesse desesperadamente sedento por um motivo real para viver, depois de tudo...
Algo ou alguém teria capacidade de lhe convencer a ter plena convicção que sua vida valia a pena, agora, no século 21...?
Alguém podia lhe dizer o que fazer para que sua vida começasse a ter sentido sem Peggy e sem aqueles ao qual tanto amava e morreram no meio do caminho nos quase 70 anos que se passaram...?
O Super Soldado ainda podia ouvir a música de seu pesadelo... um ritmo popular e vicioso de muitas décadas atrás...
O velho jazz...
A respiração ofegante permaneceu e o relógio marcava 3:25 da manhã...
Daqui a poucas horas, todos acordariam...
Ele deveria levantar... tomar um banho e relutantemente, limpar seu corpo das lembranças que pareciam estar impregnadas em sua pele... e principalmente, em sua mente... porque era a única coisa que podia fazer para amenizar sua dor, no momento...
Depois de alguns minutos preso em seus próprios devaneios, Steve decidiu seguir para o banheiro...
O Capitão caminhava sorrateiramente, fazendo o mínimo de barulho possível para que Mary Crystal não acordasse.
A garota dormia com uma expressão serena no rosto, com o corpo virado para o lado, agarrada ao próprio travesseiro.
Steve agradecia a Deus por ela não ter ouvido nada, já que a Segundo-Tenente continuava adormecida.
Ele fechou a porta do banheiro por dentro e a trancou.
O loiro suspirou e seguiu para o chuveiro, aliviado que Kiara não tivesse acordado diante de seus surtos internos noturnos.
No entanto...
Logo depois que ele fechou a porta...
Os olhos da garota abriram rapidamente, mostrando que a mesma não estava dormindo...
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Ela estava acordada...
Todo aquele tempo...
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Mary levantou e olhou na direção da cama de Steve, que se encontrava muito desarrumada.
Os lençóis haviam saído do colchão e aquilo não era normal.
Desconfiada, a garota analisou ainda mais ao redor, como se estivesse procurando por indícios de algo que a mesma suspeitasse.
A Segundo-Tenente fitou a porta do banheiro, esperando que talvez o Capitão saísse dali, mas em vez disso, ela ouviu o barulho da água do chuveiro.
Então, mediante a isso, se sentiu segura para fazer o que tinha em mente...
Mary Crystal passou a olhar as coisas de Steve ao lado da cama.
Havia alguns livros ali, todos sobre o término da segunda guerra mundial e a guerra fria.
Havia também um objeto que parecia ser muito antigo...
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Uma bússola...
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Quando a garota abriu o objeto, viu um recorte de jornal dentro, com a foto de... Peggy Carter...
Mary arqueou uma sobrancelha, perplexa.
— Ele tem um retrato dela guardado nessa bússola...? – Sussurrava para si mesma.
E então, a loira fechou o objeto e notou que havia um caderno de desenho com dois lápis de desenho ao lado.
Ela abriu o caderno e começou a folhear, no intuito de analisar o que havia ali, se deparando com vários desenhos de...
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Ruínas de lugares desconhecidos e antigos...
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A cada página que passava, havia desenhos de destruição e devastação...
Mary podia sentir os sentimentos de Steve a cada desenho... era aterrorizante...
A garota mantinha os olhos mais abertos que o comum, assustada com o que via em cada página daquele caderno.
E no final dele, para sua surpresa...
Desenhos de Peggy Carter de vários ângulos, vestida com o uniforme de consultora da Reserva Científica Estratégica.
Naquele momento, Kiara sentia algo diferente... era pesado e muito lutuoso... funesto o bastante para deixa-la entristecida.
O Sentinela da Liberdade vinha guardando coisas muito sufocantes em seu peito, e agora ela conseguia entender parte da melancolia que o olhar dele escondia, vez ou outra quando o encarava profundamente...
De acordo com o que via ali, era muito claro que o Super Soldado encobria diversos traumas que ninguém no mundo tinha ideia, a não ser ela, naquele momento...
Os desenhos e as palavras desconexas que Steve balbuciou enquanto estava dormindo, deixava muito claro o que estava acontecendo...
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Steve Rogers tinha TEPT.
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TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) basicamente é uma perturbação mental que se desenvolve em resposta à exposição a um evento traumático, como agressões violentas, guerras, acidentes de grandes proporções ou outros tipos de ameaças à vida de uma pessoa, que eram revividas de forma involuntária.
Isso explicava o porquê de o mesmo ter insônia.
Mary fechou o caderno, colocando-o na mesma posição, com uma expressão irresoluta na face.
A garota caminhou de volta para sua cama, pensativa...
Não era nem quatro horas da manhã e Steve não havia descansado nada. Era nítido que ele não conseguia dormir há muitos dias. Kiara podia deduzir isso pela expressão cansada que ele vinha carregando na maior parte do tempo em seu rosto.
A Segundo-Tenente sabia que o Capitão precisava de ajuda psicológica e até psiquiátrica se fosse necessário, mas obviamente o mesmo jamais aceitaria opiniões e muito menos ajuda, por causa de seu imenso orgulho.
Então, ela teve a brilhante ideia de mandar mensagem para um amigo da área de saúde que atuava em Los Angeles e que descolaria alguns calmantes sem receita, para ela.
Era ilegal, mas... burlar as regras de vez em quando era necessário, em sua concepção.
Após suas descobertas, resolveu repousar depois disso, pois não havia o que fazer naquele momento.
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Na manhã seguinte, Mary acordou cedo, por volta das sete, caminhando lentamente na ponta dos pés para não fazer nenhum barulho, já que provavelmente, Steve fingia dormir.
Ele se encontrava virado do lado contrário, com os braços cruzados em torno de seu tórax. Uma posição que muitos militares dormiam durante a guerra.
Quando a garota entrou no banheiro, Steve se virou na direção da cama dela, que se encontrava bagunçada...
Ele invejava o sono que Mary tinha...
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A garota passou o dia todo fora, deixando Steve sozinho pra que pudesse relaxar. Ela sabia que sua presença o incomodava.
Nesse meio tempo, além de ter conseguido medicação controlada com seu amigo médico, ela acionou Nick Fury para dizer sobre as condições do Super Soldado, porque não achava certo que ele e os Vingadores não soubessem o que estava acontecendo com ele.
O Diretor da SHIELD não esperava que a filha do Presidente ligasse para ele, já que a mesma o odiava com todas as suas forças.
A garota caminhava pela praia de Santa Mônica, com o telefone no ouvido enquanto Nick Fury lhe atendia.
— Confesso que estou surpreso por você ligar pra mim, então me diga... o que está acontecendo de tão urgente? – O Espião confessava do outro lado da linha, perplexo.
— Como você sabe que há algo urgente acontecendo?
— Kiara, eu te dei essa linha direta para manter contato comigo, então me diga o que está acontecendo pra você ligar a essa hora. É sobre o Rogers...?
— Sim... – Replicava seriamente.
— Diga...
Mary respirou fundo e demorou alguns segundos para responder, até que...
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— Fury... o Capitão tem TEPT.
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— O quê!? Como assim ele tem TEPT? Você está fazendo alguma piada ou-
— Eu analisei algumas coisas... ele tem insônia e está agindo exatamente como as pessoas que ajudei a tratar quando trabalhei na ala de enfermagem a muitos anos atrás no Oriente Médio através da Força Aérea. São os mesmos sintomas dos soldados traumatizados por causa das guerras que acontecem por ali.
— Eu não acredito... isso não ajudará nas próximas missões... – Fury mostrava certo assombro com o que a Segundo-Tenente revelava.
— Eu posso ajuda-lo de uma forma implícita por enquanto, mas você vai ter que falar com ele sobre isso no futuro.
— Mary... Steve Rogers é um soldado... e está agindo como um, mesmo depois de ter acordado no século 21. Ele não vai aceitar a instrução de ninguém, e... o real motivo pelo qual eu a coloquei para fazer todas essas missões ao lado dele, é porque eu sei que você é a pessoa que mais poderia ajudá-lo a se reintegrar ao mundo e a sociedade...
— Eu!? É sério!? Você sabe que não pode decidir isso baseado no meu passado!
— Você sempre admirou o Capitão América! E eu não conheço e nem confio em nenhuma outra pessoa que possa realizar essa missão. Ela é sua! Só que eu não esperava que você tivesse mudado tanto nos últimos anos e deixado todas as suas antigas filosofias de lado pra virar uma pessoa tão egoísta e rebelde! Você está parecendo o Stark!
— Aah, não venha me dar lições de moral agora, Fury! Você queria que eu continuasse uma garotinha fraca e acuada!? Eu sempre te disse que se eu tivesse chance, viveria a minha vida da forma mais divertida e ousada possível! Mas...
— Mas...?
— Eu... continuo sendo eu... e você sabe disso...
— Claro que eu sei, e é por isso que não desisti de você, então... vou deixar o Rogers aos seus cuidados por enquanto.
— Não é porque eu disse que vou ajuda-lo implicitamente que vou virar cuidadora de idosos, entendeu!?
— Apenas faça a sua parte, Mary. Eu confio em você...
— Mas eu não confio em você, Fury...
— Não precisa. A minha confiança em você já é suficiente. Agora faça o que tem que fazer, porque preciso de vocês dois em San Diego, ok?
— Certo...
— Conto com você. – E então, o Diretor da SHIELD encerrou a ligação.
Naquele momento, a garota olhava para frente, se perdendo no horizonte do oceano...
Ela respirava fundo, sentindo o vento soprar seus longos cabelos loiros e afagar sua face...
A garota se recordava de quando era fã do Capitão América... ela era apenas uma menina que admirava o maior herói americano... como toda criança era, no passado e nos dias atuais...
Mas as coisas mudaram ao longo dos anos, e por mais que nunca imaginasse estar diante dele um dia, sua atual visão sobre o mundo e a decisão de viver intensamente como se fosse o seu último dia de vida, não trariam tais sentimentos nostálgicos sobre o Capitão América de volta...
Todas as suas dores antigas foram enterradas no passado, porque Mary Crystal optou por viver apenas o presente, baseado no seu futuro, que ao seu julgamento, era extremamente promissor.
No entanto, naquele instante, decidia que por enquanto...
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Ergueria uma bandeira branca entre ela e Steve Rogers...
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