Notas iniciais
Peek-A-Boo! Bom Halloween e boa leitura!

A noite cantava como uma criança indefesa, segura de si e de seus sonhos, andava de forma graciosa pela névoa sem odor de vida e pelos caminhos tempestuosos de folhas podres de uma árvore que não mais permanecia em pé. De um berro ceifador a uma penumbra de uma alma que vagueia solta, passos eram aquilo que escutavam ao longe.


A luz da fogueira era a principal fonte de vida dançante que a pequena pessoa tinha como companhia para se embalar junto de um cobertor macio. Sem pensamentos longos e timbres de um assobio ao longe, ela encarava o bailar das labaredas em sua frente. Com receio de quem poderia surgir de trás dos imensos troncos caídos pelo lugar, seu encolhimento era tão definido que não sentia nem mais os movimentos dos braços.

O medo começou a tomar conta de seu interior assim que vozes se aproximavam. O cobertor ficava cada vez mais perto de sua macia pele gélida, sua respiração era lenta e silenciosa, nada poderia vê-lo de longe, mesmo com as chamas fortes perto de seu rosto. Entretanto, mesmo com o silêncio ecoado pelos arvoredos ao redor, ela escutava passos, cada vez mais perto, todos pesados em cima das folhas secas daquela noite escura, sem lua no céu e somente com uma pequena neblina que cobria o olhar pequeno de suas olheiras fortes.

O barulho dos grilos era tão irritante que somente os aceitava por notar que não estava sozinho, uma pequena alma boa o acompanhava. O seu olhar gelou assim que encarou mais um fundo do pequeno escampado. Um véu branco percorria o lugar e, em um susto, iniciou uma pequena corrida até onde ele estava. A respiração parou, o corpo gelado petrificou e:

—O que você está fazendo aqui fora?

—Mas mãe!

—Nada de "Mas"! Vai se arrumar que temos uma festa para ir! – Era noite de Halloween. A pequena criança tirou o embrulho macio e começou a correr para dentro da casa. – Era só o que me faltava. Seu tio sempre faz essas festas, você fica ansiosa sempre e hoje decidiu de brincar no quintal junto daquela fogueira e desse cobertor imundo... Espera, fogueira? Como você acendeu aquela fogueira? – A fantasia de noiva chacoalhava com o forte vento que abria caminho pelas folhagens amontoadas. — As duas entraram pela porta dos fundos.

—Ah, sei lá, já estava lá. – Nisso, as luzes se apagaram. – Aff, como eu vou me arrumar?

—Dá o seu jeito, se vira. Preciso ver se seu pai terminou de arrumar o chuveiro. Um calor desses e o homem querendo tomar banho quente.

—Mas está formando um tempo de chuva lá fora.

—Vai até meu quarto, filha, está um calor infernal.

Sem o celular, pois estava carregando em seu quarto, a garota caminhava lentamente até o quarto. Torcia para ter deixado a fantasia em cima da cama e não dentro do guarda-roupa, pois a bagunça que estava lá a impediria de retirar a roupa inteira sem derrubar nada amontoado perfeitamente encaixado, igual quebra-cabeça. Conforme caminhava, mais se distanciava do quarto dos pais, que ficava do outro lado da casa, e as luzes das velas que a mãe acendeu ficaram cada vez mais ao longe.

Nisso, se aproximava aos poucos de seu quarto e já sentia um cheiro estranho. Apesar de adocicado, era forte e muito fétido. Sem enxergar mais nada, notou que havia movimentos perto de si. Começou a tremer o corpo todo de sete anos e acelerou o caminhar até virar uma corrida. Ainda via sombras navegando ao seu redor, assim como o medo que impregnava o seu olhar. Quando parou diante de seu quarto, reparou que uma imensa lua amarela alumiava seu quarto e as sombras eram as cortinas se rebelando com a entrada do vento.

Soltando o ar preso nos pulmões devido ao alívio sentido, se aproximou e cerrou as portinholas de metal, fazendo um barulho agudo que ecoou pelo corredor estreito. O quarto escureceu e ele se virou, dando de cara com uma sombra parada. Repentinamente, uma pequena chama acendeu, revelando uma figura alta e toda pálida, com um olhar vermelho e dentes afiados. A pequena criança gritou incessantemente. Como mágica, as luzes se acenderam, assim como dois adultos em frente da porta do quarto.

—Rogério, seu babaca!

—O que aconteceu aqui?

—Ele me assustou!

—Filho, deixe a sua irmã se arrumar.

—Eu só queria assustá-la. – Ele saiu atordoado do quarto. – Acho que ela me deixou surdo. Ah, já estou indo para a casa do tio.

—Espere a sua irmã, assim ela vai com você.

—Como nós vamos, por sinal?

—Ué, maninha, vamos a pé.

—Como?! Você quer que vamos a sozinhos, solitários por essa noite terrível, lotada de neblina no céu, sem luar e sem estrelas?! Está louca?! Como quer que andemos por uma estrada tenebrosa até a casa do tio?! E a distância?! É muito longe, ficaremos perdidos, ainda mais que Rô não tem senso de direção nenhum! Ai meu Deus, ficaremos sem comer, passaremos fome e sono, noites sem dormir e...

—A casa do seu tio é do outro lado da rua.

—Quando eu falo que ela é dramática, eu que sou exagerado.

—Bom, pelo menos você se enxerga de vez em quando.

—Mãe, olha ela!

—Ou vocês dois fiquem quietos, ou é castigo de um mês! – Os dois irmãos se calaram. A mãe se virou e foi embora, porém, isso não impediu os irmãos de trocarem caretas. Dentro de meia hora, um garoto vestido de vampiro moderno e uma garota vestida de princesa malvada, com uma faca de plástico enfincada no coque feito, além de um vestido levemente justo, mas com um babado lotado de imagens de machados.

—Nem imagino o que vovô falará do seu vestido.

—Quem está usando? Eu ou ele?

—Nem pense em responder assim. Você sabe que ele te ama muito e se preocupa com você.

—Nem sei porque ele falará, foi ele e a vovó quem foram comigo fazer essa roupa.

Na entrada, o tênis desamarrou e precisou se agachar para arrumar os cadarços. O irmão avançou, mas parou no meio da rua deserta, fez cara de assustado e começou a descer a rua, em direção daquilo que chamou sua atenção. Ela saiu e ficou esperando o retorno, entretanto, um barulho de estouro ecoou pela rua e o garoto veio mancando.

—Socorro! – Sua camiseta branca estava vermelha e líquido vermelho escorria de suas mãos. A menina gritou mais alto que antes, atraindo atenção dos pais e de quem se aproximava na rua, todos convidados da festa e parentes.

—Alguém aqui! – A menina chorava quando o irmão começou a rir sem parar. Ela secou as lágrimas pouca que caíram e cerrou a cara, toda irritada. – Você me enganou! – E começou a dar socos no corpo forte e estrutural do garoto de treze anos. – Seu estúpido, babada, imbecil, tonto!

—Calma, minha linda, está tudo bem. — Um dos tios, vestido de diabinho, segurava a menina no colo e encarou o sobrinho com um olhar de reprova. — Jura, Rogério, quanto anos você tem?

—Treze com mentalidade de sete anos.

—Sete meses, você quis dizer.

—Olha ela. Depois sou eu quem provoca.

—Olha o castigo! – A mãe dos dois gritou do outro lado do portão, saindo com o pai vestido de Lobisomem.

—O papai aproveitou o excesso de pelo para ajudar na fantasia?

—O que deram para essa garota? Ela é mais venenosa que caninana. – Dois tios se aproximaram, ambos vestidos de múmia. – E seu pai não precisa saber do comentário, tudo bem? – Todos concordaram enquanto riam.

—O que perdemos? E por que você está sujo de suco de groselha?

—É sangue do diabo.

—Pai, olha ele fazendo pacto com o tinhoso!

—Ai meu pai, dai-me paciência. Sangue do Diabo é uma experiência que fiz na escola semana passada. Deve evaporar daqui um tempo. Quer que eu te ensine?

—Na verdade, quero aprender como faz o bolo salgado do titio. Vamos logo que estou com fome. – E a princesa malvada adentrou o casarão em frente da rua, todo decorado com tema de dia das bruxas, saltitando com um buquê de rosas falsas em mãos.

—Mãe, o que você fez na gravidez dela que saiu essa garota?

—Até eu quero saber, meu filho. Ô gênio forte, puxou ao seu avô, só pode.

Todos adentraram e cumprimentaram os parentes, os donos da casa, o mais novo casal da família. Lanternas japonesas, mas com formato de abóboras, eram penduradas pela entrada, o chão todo coberto com grama falsa, além de pinturas de bruxas pelas paredes.

Pequenos bonecos de múmias decoravam as escadas do lugar, além de diversos morcegos e aranhas pendurados por fios de náilon no teto. O som de uivos de lobos ecoava pela entrada iluminada apenas com as lanternas.

—Mãe, os titios não fizeram o bolo salgado! Como puderam fazer isso comigo? Estou desolada, perdida, enganada!

—Como essa menina faz drama, alguém pode dar um fim nisso. Ah, se fosse eu fazendo drama, já estaria com as pernas vermelhas.

—Ah, meu filho, é verdade? Nunca te bati por fazer esse drama. – Uma senhorinha com seus quase noventa anos vinha lentamente com seu andador em direção ao filho de setenta anos, a bisavó e avô da pequena princesa revoltada com a falta de bolo salgado.

—Bom, isso prova para quem ela puxou. – Nisso, outras pessoas chegavam, com seus filhos mais novos e mais velhos, uns com seis, cinco ou três anos, ou talvez com dez, onze, quinze ou vinte anos.

—Não vou cuidar de ninguém, certo?

—Dessa vez eu concordarei com Rogério, não sou aquela galinha azul surtada para cuidar de criança.

—Olha a aborrecente falando.

—Titio, posso ver televisão lá em cima? – A pequena sussurrou ao tio, que confirmou com a cabeça e pediu para ir sem fazer muito barulho, assim não a seguiriam.

Chegando ao andar de cima, pois a casa tinha dois andares, ela se deparou com a televisão já ligada, toda colorida com um desenho bem bonitinho, contudo, nada que agradasse a pequena saltitante que subia às escadas. Em frente à tela, tinha uma pequena garota, toda vestida com um macacão azul, como uma jardineira. Sua pele negra estranhava a pequena princesa, pois nunca tinha visto alguém com aquela tonalidade.

—Oi, tudo bem? – Disse ela assim que a viu. – Quer ver televisão comigo? Vai começar um filme de dia das bruxas, mas para crianças claro, nada que nos dê medo.

—E quem é você?

—Quem sou eu? Bom, eu sou eu.

—Seu nome, eu quis dizer? Nunca te vi aqui, é amiga de meus tios?

—Seus tios? Quem são seus tios?

—Ué, eles são meus tios, os dois bonitões vestidos de sabe sei lá do que.

—Ah, os dois homens bonzinhos. Sabia que eu estava no fim do mundo e eles me salvaram?

—Uau, e como eles fizeram isso?


—Eles foram bonzinhos, foram me visitar algumas vezes, não sabia o que queriam. – Repentinamente, as luzes se apagaram. – Ah, de novo não! – Ela se ajoelhou e cobriu a cabeça. Quando a televisão acendeu novamente, barulhos de estouros começaram e a menina começou a gritar de novo. Ninguém vinha socorrer e ela chorava muito. A luz de um raio clareou o lugar e o rugido do trovão pareceu fazer a casa tremer toda.

—Espera, vou buscar ajuda. – E correu para o lado de fora. – Alguém me ajude! Tem uma menina lá em cima e ela precisa de ajuda!

—Filha, não tem ninguém lá em cima, todas as crianças estão aqui.

—Mãe, estou falando a verdade, tem uma menina lá em cima, ela precisa de ajuda, está chorando! – As pequenas mãos puxaram as roupas do pai e da mãe e os arrastou com suas parcas forças até o andar de cima. A televisão estava desligada e apenas a cigarra do lado de fora da janela levemente fechada era a única coisa que conseguiam ouvir.

—Viu, filha, não tem ninguém aqui.

—Mas tinha uma...

—Esquece isso, filha, deve ter sido alguma cena de um filme. – Ela não estava convencida. Assim que passou diante do quarto dos tios junto dos pais, viu os dois homens consolando uma criança. Todavia, estava de costas e a única coisa que via era o cabelo encaracolado, a vestimenta era a mesma, sem exceção. Batendo na porta, porque era educada, pediu licença. Quando se viraram, se deparou com a menina.

—Eu falei, tinha uma menina lá em cima. – E correu para dar um abraço nela. – Você está bem?

—Parece que você já conheceu sua nova priminha. – As duas se entreolharam.

—Priminha? Ela é minha priminha? Eu tenho uma priminha?

—Ela tem a sua idade.

—E com a minha idade? – O sorriso das duas radiava fortemente.

—Eu tenho uma bisneta nova? – A senhorinha viu a movimentação no quarto e foi entrando. O andador chegava antes, mas nada a impedia de ver a pequena e nova integrante da família. – Mas que garotinha maravilhosa! Bem-vinda, meu amor. – E deu um beijo novo na testa.

—Como é que diz, filha?

—Obrigada, bisa.

—Papai sabe disso?

—Era uma surpresa, mas alguns já sabiam. – O grupo de pessoas seguiram para o lado de fora e se depararam com todos à espera dos anfitriões, ainda mais com a surpresa que não imaginavam, uma nova integrante naquela família numerosa. – Essa é Amélia, nossa filha. – Todos os risos de surpresa, gostos e desgostos, amizades e parabenizações, não impediram as duas novas amigas de correram, novamente, para a sala.

—Quem bom que ganhei uma priminha nova!

—Fico feliz também! – Elas andavam calmamente, pois a bisa passava por elas.

—Ah, quem dera o seu bisavô poder ver vocês duas! Ele ama crianças, brincaria muito com as duas, mesmo com a idade avançada que teria! Ah, como sinto saudade do meu velho! – E os olhos da vozinha marearam.

—Não chore, vovó, ele está sorrindo independentemente de onde esteja.

—Bem aqui, minhas princesas. – As três olharam para frente e viram um moço, de mais de noventa anos, quase com cem para ser mais exato. – Nunca vi rosas tão belas quanto essas do jardim.

—Ô meu velho, que bom que veio.

—Hoje é o dia, minha velha, você sabe que eu sempre venho te visitar nessa data.

—Eu estou muito esquecida, você sabe, a idade não me permite mais memórias longas.

—Vovô, que bom que o senhor venho! Essa aqui é minha nova priminha!

—Nossa, que amor que são vocês duas, sejam amigas, nada é mais belo que a amizade entre primos.

—Pode deixar.

—Seremos, biso. – Tanto a bisavó quanto a pequena bisneta se assustaram quando a nova integrante confirmou.

—Você pode ver o biso também?

—Claro que posso.

—Bisa, ela é como a gente.

—Que incrível, duas meninas que puxaram para mim. – Ela bocejou. – Ah, como estou velha, preciso ir dormir, mas tenho fome também. Acompanhariam a bisa até lá fora?

—Iremos! – Disseram em uníssono.

—E qual seu nome? – Amélia perguntou a prima, visto que ainda não sabia.

—O meu? É Melinda.

—Meninas, vamos comer. Os tios vão servir o bolo salgado deles.

—Eles fizeram?! – Também gritaram juntas, fazendo Rogério tapar a orelhas.

—Outra que grita? Eu mereço, né? – As duas correram para comer o tal bolo salgado que tanto amavam. – E vocês não acompanhariam a bisa?

—Ah, verdade! – As duas voltaram e se prostraram uma de cada lado do andador, caminhando junto dela, esperando ela com seus lentos passos. Depois de um tempo, já estavam todos lá fora, comendo os aperitivos e as comidas que havia feito.

—O que estavam fazendo, pequenas?

—Estávamos conversando com a bisa e o biso. – Todos se entreolharam. Contudo, não falaram nada.

—O biso já morreu há anos, meninas, não podem ter falado com ele.

—Meu filho, dia dos mortos está chegando, seu pai provavelmente está perto para conversar.

—Tadinha, está delirando por causa da idade... – O que não contavam era a porta do quartinho bater atrás dele, assustando-o. Ninguém viu, mas o bisavô foi quem bateu a porta. Deu um sorriso lindo para as únicas três que conseguiam ver a sua presença.

—Vai, vovô, fale assim da bisa de novo que o biso vai puxar seu pé! – E todos riram.

—E eu assino embaixo com Amélia. – E as duas sorriram uma para outra. – Quero mais bolo!

—Mas já comeu?

—Claro, quero comer o máximo que consigo dessa coisa deliciosa! – As conversas continuavam enquanto a Lua brilhava lá em cima, no céu. As primas conversavam como amigas de longa data e os bisavós se deram as mãos, mesmo que o toque não fosse possível.

Notas finais
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