Nem sempre
1 Nem sempre
Nem sempre
o que os olhos não vêem, o coração não sente.
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Dos cinco sentidos, você possuía apenas quatro, um deles destacando-se por ser muito mais aguçado que os outros.
Podia ouvir sons metálicos de batalhas distantes, gritos, lágrimas sofridas, súplicas e arrependimentos. Sons que pintavam sua vida com tintas de morte e escuridão, de um negrume igual ao da cor que sempre via. Aquela única tonalidade, tão solitária, assim como você.
E sua vida foi assim por muitos anos, até conhecê-la. A mulher cujos tímidos batimentos cardíacos você ouvia e analisava cautelosamente, como se fossem notas da mais bela das melodias.
Aquela que parecia (e era) tão frágil quando você a segurava ternamente em seus grandes braços.
Aquela cujos movimentos cambaleantes tornavam-se ainda mais desajeitados, e o coração, descompassado, quando aproximava-se de você.
Todos aqueles sons de desgraça, antes tão presentes em quase todos os dias de sua vida, foram sendo substituídos pelo som dos risos baixos e alegres que ela emitia quando parava e sentava-se para ouvi-lo tocar, com os mesmos dedos que você usava para afagar seu rosto.
Naquele momento, mesmo que você não pudesse vê-la, ela tornava-se a mulher mais bela do mundo. E as palavras que sussurrava singelamente em seu ouvido apagavam qualquer resquício de miséria, colorindo toda a sua realidade com cores vívidas que você apenas sonhava poder ver.
"Eu te amo."
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