Nem Tudo é Ganância
19 ♕ Capítulo Dezenove ♛
Depois de passar o dia com Winter vou para meu quarto.
Não vejo Thomas.
Ainda bem.
Seria bastante embaraçoso vê-lo depois do que aconteceu.
Geneviève me distrai o resto do dia. O que é bom. Meus pensamentos não caem sobre meus pais.
Graças aos céus.
Saber que Winter está bem alivia a dor que se assola em meu coração. Mas a distração é ainda melhor. Me impede de cometer alguma loucura ou pensar em Juan. Me dói lembrar que já amei esse homem. E machuca ainda mais porque não fui correspondida. Quando há amor de verdade só se deseja o bem da pessoa amada.
Geneviève fala que o vestido vermelho destaca os meus olhos e minha pele. Enquanto o verde destaca os meus cabelos. Ela diz que é melhor destacar os cabelos, por causa da cor. Por ser diferente e raro.
Mas nem tanto. Aquela menina que Thomas se encontrava tem cabelos da cor de fogo.
Um sentimento brota em meu coração. Um no qual deseja que ela nunca tivesse existido na sua vida. Que eu fosse a única ruiva que ele conheceu.
Franzo a testa em confusão com o rumo de meus pensamentos.
Era só o que me faltava. Sentir ciúmes de Thomas.
Digo a Geneviève que gosto de azul. Era a cor favorita de mamãe.
Geneviève continua falando sobre vestidos o resto do dia. Assim que anoitece decido dormir. A noite anterior não foi nada boa. Apesar de no final ter dormido na cama do rei e ainda em seus braços.
Me preparo para dormir. Hoje a cama parece mais macia. Ou talvez me sinta mais leve depois de ver que Winter está bem. Ou porque hoje não houve notícias ruins. Apenas a irmã de Thomas, na qual tinha esquecido completamente da existência.
Não demora muito para que o sono me abrace.
Sinto a cama afundar ao meu lado. Reluto para abrir os olhos. Quando os abro vejo Thomas deitado ao meu lado com um sorriso de tirar fôlego e suas pupilas estão dilatadas.
Está lindo. Sinto vontade de toca-lo, mas não faço.
— O que veio fazer aqui Tommy? — sussurro.
— Vim atrás do que você não me permitiu ter essa manhã.
Assim que termina de responder seus lábios colam nos meus. O susto é tão grande que de início não correspondo. Quando a supresa acaba meus lábios trabalham junto com os seus. Eles são doces. Tem sabor de morango. É ainda melhor do que imaginava. Toco seus cabelos. São grossos, mas ao mesmo tempo suaves. Uma mistura estranha, mas boa ao toque.
Ele se movimenta para que seu corpo esteja sobre o meu. Toca meu rosto suavemente enquanto sua boca se move sobre a minha. Nos separamos em busca de fôlego. Acho injusto necessitar tanto de ar. Beija-lo poderia ser uma fonte de vida.
Suas mãos e olhos vão para o meu cabelo. Sinto inveja deles. Eles possuem sua atenção. É algo idiota de se pensar até porque os cabelos são meus.
Ele os acaricia.
— São os cabelos mais lindos que já vi. — azuis se encontram com verdes — Eu amo o fato de ser ruiva.
No mesmo instante que ouço essas palavras faço-o rolar sobre a cama para que possa está sobre seu corpo. Colo meus lábios nos seus como se em algum momento ele pudesse se desintegrar.
— Seus olhos são hipnotizantes. É como olhar o campo em meio ao verão. — fala assim que buscamos por mais ar.
Ele torna a tomar o controle. Rolamos sobre cama mais uma vez. Thomas distribui beijos sobre meu maxilar. Descendo para minha clavícula. Em algum momento não estou mais com minha camisola. Seus beijos descem sobre meus seios. A sensação é maravilhosa.
— Sua pele é tão macia. — fala depois de interromper o contato com minha pele.
Essa interrupção é curta. Seus lábios vão até o centro de meus seios. Logo em seguida estão sobre minha barriga. É a melhor sensação que já senti em toda a minha vida. A todo o momento pressiono minhas coxas. A algo de estranho entre elas. Como se estivessem clamando por atenção. Quando os lábios de Thomas descem para além do meu ventre solto um grito de prazer.
Acordo atordoada a procura de Thomas. Levanto meu corpo da cama e observo o quarto. Não há ninguém.
Estava sonhando.
Bufo em frustração.
Estava tudo tão bom.
Ouço uma batida na porta e em seguida a voz de Geneviève. Não respondo nada, mas mesmo assim ela entra. Após fechar a porta ela me encara com a sobrancelha erguida.
— Aconteceu algo? — pergunta curiosa.
Estou um pouco nervosa. Meneio a cabeça em negação. Não estou em condições de falar.
— Tudo bem. Vou preparar seu banho. — em seguida segue para a banheira no final do quarto.
Meus pensamentos caem sobre o sonho imediatamente. Será que esses sonhos são normais para alguém que não sabe muito bem o que acontece entre um homem e uma mulher? Não é a primeira vez que sonho com algo assim. Mas parecia tudo tão real.
Queria que fosse real.
Não posso mentir. Não mais. Pensava que era apenas a gentileza de Thomas que me atraía para ele. Mas não é. Há algo mais. Algo que me puxa até seus braços. Como se o destino estivesse brincando comigo todo esse tempo. Como se tudo que vivi fosse para chegar até seus braços. O que não entendo é porque sofrer tanto.
O que aquela mulher falou vem até minha mente. Ela disse que só trago sofrimento. Será algum tipo de maldição? Ou são minhas escolhas que definem o que vai acontecer?
Balanço minha cabeça para que esses pensamentos saíam.
Não demora muito e Geneviève me chama para o banho. Enquanto me levanto para mais um dia observo o tempo pela janela. Não há sinal de chuva por hoje, mas dá para ver que a terra está úmida. Seria bom para cavalgar. Quem sabe Thomas me leve para cavalgar hoje.
Retiro a camisola e sinto o frio cobrir minha pele. Um banho quente será ótimo. Geneviève pergunta se vou tomar o café da manhã em meu quarto e digo que sim. Não é de se espantar ela perguntar algo assim. Sem dúvidas ela soube como fui recebida por Thalia na manhã anterior. O melhor a fazer é me distanciar um pouco, mesmo que seja por um dia. Me preparar para seu próximo ataque. Até porque, meus ossos insistem em me avisar que esse só foi o primeiro dos ataques de Thalia Piccoli.
Quando saio me deparo com um vestido azul celeste. Há bordados delicados no busto na cor azul marinho.
Geneviève gosta de atender aos nossos pedidos. O vestido é encantador. O bordados lembram mamãe, ela sempre foi tão cuidadosa com eles.
Me visto sozinha. Depois de pronta Geneviève aparece com café da manhã. Na bandeja há diversos alimentos, como sempre, mas os morangos me chamam a atenção. Logo lembro o sabor dos lábios de Thomas. Na verdade, os lábios fictícios. Nunca experimentei seus lábios.
Que horror.
Falo dele como se fosse comida.
Hoje acordei faminta. Há pãezinhos e mel, parece a combinação perfeita, ainda mais com chá. Com esse frio, é a melhor bebida.
O sol se arrasta por trás das nuvens. O almoço foi sopa e como tudo no palácio, é deliciosa.
Pelo meio da tarde alguém bate a porta. Geneviève que estava bordando um vestido verde — no qual passamos horas discutindo a cor bordado, vermelho ou dourado, Geneviève ganhou, ela torcia pelo vermelho — vai abrir a porta e uma cabeça loira e olhos azuis aparece com um sorriso tímido.
— Será que a Senhorita Lusivon está livre para uma cavalgada? — sua pergunta me faz sorrir.
— Por que não? — falo sorrindo.
Quando chegamos ao estábulo os cavalos estão selados. Não perco tempo e monto Winter. Estou até nervosa por poder montá-lo. Parece que faz anos que isso não acontece. Como sempre ele é receptivo. Thomas monta Summer e me guia para fora do estábulo.
A capa que Geneviève separou para mim é da mesma cor do vestido, seu tecido é macio e acolhedor.
Cavalgamos a passos lentos pela terra úmida. Thomas está com roupas mais formais, mas por cima delas, ele colocou uma capa marrom. O terreno do palácio é ainda maior do que imaginava. Não parece ter um fim. De vez em quando avistamos dois ou três guardas. O rei deve está sempre em segurança.
Um ideia flui em minha mente e arrisco compartilha-la.
— Por que não fazemos uma corrida? — pergunto em tom de desafio.
— Como? — há uma ruga entre suas sobrancelhas indicando confusão com minha pergunta.
— Por que não vemos quem cavalga mais rápido? — assim que termino de pronunciar essas palavras um sorriso arrogante aparece em seus lábios.
— Para que? Sabemos que sou o mais rápido. — fala ainda com o sorriso arrogante.
Esse sorriso parece deixa-lo ainda mais bonito.
— Na verdade, Vossa Majestade não sabe como cavalgo. — falo em meio a um sorriso sínico.
— Então é melhor tirarmos a prova.
Thomas sai galopando em alta velocidade me deixando para trás. Sorrio. Ele não faz ideia de como cavalgo rápido. Anos de prática. Pressiono os calcanhares em Winter e saio a galope. Não demora muito para que alcance Thomas. Viro-me para ele, em alta velocidade e abro um sorriso arrogante. Ele parece surpreso, mas sorri. Ultrapasso Thomas. Sinto o frio cortar minha pele e passar por meus cabelos. Uma sensação de liberdade e felicidade toma conta do meu corpo me fazendo permanecer em velocidade constante. Está com Winter me faz lembrar da garotinha que fui um dia, a garotinha que nunca se apaixonou por um assassino.
Diminuo a velocidade. Abusei demais de Winter. Há dias que ele não anda, pode está desacostumado e a única coisa que não quero nesse momento é perdê-lo. Assim que paro, desço de Winter. Thomas chega logo em seguida e desmonta Summer.
— Pelo visto Summer não é tão rápido — fala ainda com o sorriso arrogante.
Solto uma gargalhada.
— Então quer dizer que se trocarmos de cavalos, Vossa Majestade cavalgará mais rápido — falo ironicamente.
— Sim, foi exatamente o que disse.
Thomas me entrega as rédeas de Summer. Monto Summer. Não me sinto tão confortável como fico com Winter, mas ele parece um bom cavalo. Thomas monta Winter. Tudo acontece muito rápido. Thomas já estava caído no chão e Winter galopando feito louco pelo campo.
— Tommy! — grito.
Desmonto Summer e corro ao encontro de Thomas. Me abaixo a seu lado preocupada.
— Você está bem? — Ele ainda está sorrindo, mas parece sentir dor.
— Estou — fala rindo.
— Qual é a graça? — pergunto zangada.
— Você. — Agora ele está gargalhando. — Me chamou de Tommy. E fica linda preocupada.
Prendo a respiração.
LINDA.
ELE ME CHAMOU DE LINDA.
Thomas encontra meus olhos e para de rir. Engole em seco.
— São os cabelos mais lindos que já vi. Eu amo o fato de ser ruiva — fala tocando e observando meus cabelos, azuis e verdes se encontram novamente. — Seus olhos são hipnotizantes. É como olhar o campo em meio ao verão. — Seus dedos passam do meu cabelo para meu rosto, contornando a linha abaixo de meus lábios. — Sua pele é tão macia.
Suas palavras são iguais as do meu sonho. Mesmo estando um frio terrível aqui, meu corpo esquenta. Eu não poderia. Não poderia me parar. Quando você sonha com alguém falando o que quer que esse alguém fale e isso é reproduzido para a vida real, não tem como controlar seu corpo. Tem apenas que deixa-lo agir conforme a sua vontade.
Me aproximo de Thomas e pressiono meus lábios nos seus. Assim como foi minha surpresa no sonho, a dele é a mesma. Mas não dura muito. Seus lábios trabalham juntamente com os meus. E é como no sonho, eles tem sabor de morangos. Não sei quão rápido aconteceu, mas Thomas estava deitado sobre a grama e agora quem está deitada sobre ela sou eu. Thomas está sobre mim, intensificando o beijo. Meus braços envolvem o pescoço dele e ele envolve minha cintura me prendendo mais próxima ao seu corpo. Nossas línguas trabalham incessantemente, quanto mais elas trabalham, mais quero beija-lo.
O ruído do trote de cavalos me tira da hipnose que os lábios de Thomas me fizeram. O empurro no mesmo instante que desgrudo meus lábios dos seus.
— Aaah meu Deus, o que eu fiz? — pergunto a ninguém em particular ou talvez a uma força superiora.
— Isso foi um beijo. E para falar a verdade, não foi só você — sua resposta está pesada, ele está sem fôlego e logo percebo que eu também.
Levanto-me as pressas. Passo as mãos pelo vestido, onde há pedaços de grama. Parece até que ficamos rolando sobre ela.
Céus... Será que ficamos rolando sobre a grama e nem percebi?
— Aonde vai? — Thomas pergunta alarmado.
Não tenho coragem de encara-lo. Subo rapidamente em Winter e saio a galope até os estábulos o mais rápido que posso. Quando chego, entrego as rédeas a um dos criados e saio correndo em busca de meu quarto. Encontro o quarto e entro rapidamente. Jogo a capa em uma cadeira e me lanço sobre a cama. Estou sem fôlego. Tento colocar em minha mente que tudo foi um sonho, mas meu corpo insiste em dizer que tudo foi real. Ainda sinto o gosto de morango em minha boca. Ainda sinto os braços de Thomas me pressionando em seu corpo. Estou quente, melhor dizer, estou com calor. Mas sei que está frio lá fora, bastante frio.
Não posso mais negar o que meu corpo insiste em dizer. Não posso negar o que meu corpo quer. Não posso negar o que meu coração grita.
Estou apaixonada pelo rei.
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