Nem Tudo É De Primeira

8 Nem Tudo É De Primeira


Notas iniciais
Olá, gente. Eu só queria avisar q eu vou ter que tirar o horário de postagem, pq eu estou sem computador e minhas aulas já vão começar, então eu provavelmente vou ficar o sábado inteiro escrevendo os capítulos para posta-los nesse tipo horário (oito ou nove da noite) ou domingo de manhã. Mas não se preocupem, não vou parar de escrever.

Quando Percy se virou, ele estava nervoso porque ele estava esperando por várias coisas.

Ele esperou que Nico perdesse as estribeiras, que ficasse irritado por ter os flagrado falando dele pelas costas e explodisse como já o vira fazer tantas vezes antes, talvez se afastando com desgosto ou talvez dando aquele olhar capaz de deixar uma geleira com frio. Ou talvez ele fizesse aquela careta de puro desconforto de quando o menino acabava se encontrando em uma situação onde ele não quer/não pode ser mal educado, com as sobrancelhas franzidas e a boca apertada em uma linha fina e aquele olhar que traduz tudo o que ele não está falando. Percy esperou até mesmo por aquele sorriso amarelo estranho do Nico que ele vira uma ou duas vezes, com os lábios mais puxados para os lados do que para cima, denunciando facilmente o quão horrível o menor era em forjar um sorriso.

Ele esperou também uma reação chocada, surpresa, acompanhada de um constrangimento compreensível. Ou mesmo aquele erguer de sobrancelha que dizia perfeitamente ‘O que? Você não sabia?’ e que nunca falhou em deixá-lo irritado e se sentindo estúpido por algumas horas. Percy até mesmo conseguiu imaginar o outro semideus rindo da sua ignorância como seus amigos tinham acabado de fazer, dizendo algo do tipo ‘Você realmente é um Cabeça-de-Alga!’ (embora ele admitisse que esse fosse um cenário bem improvável). E também conseguiu ter a esperança de que Nathan tivesse voltado sozinho com a mensagem de que Nico havia desaparecido pela sombra mais próxima.

Percy esperou por muitos cenários, todas com uma variação leve do seu constrangimento e de como ele poderia reagir. Ele esperou pelo golpe de vergonha e pelo calor do embaraço que subiria pelo seu pescoço, mudando a cor da sua pele para vermelho assim que ele encarasse Nico para que ele então perdesse repentinamente a capacidade de encarar alguém nos olhos. Ele esperou pela vontade súbita e absoluta de querer enfiar a cara no buraco mais próximo para nunca mais sair.

Então, quando ele se virou e ele viu a expressão de quem não sabe o que fazer de Nathan, ele se preparou para tudo o que ele esperou que pudesse acontecer no segundo que levou para seus olhos se voltarem para a figura ao lado do loiro.

Mas o que ele não esperou

[,o que ele nem sequer cogitou acontecendo,]

foi ver a pouca cor do rosto de Nico sumir completamente, deixando-o tão branco quanto os fantasmas com quem mantinha companhia.

O que ele não esperou

[, o que ele nem sequer cogitou acontecendo,]

foi ver os olhos negros arregalados, tão aterrorizados e amedrontados que sua mão foi automaticamente para o seu bolso em busca de Contracorrente com um alarme instintivo soando pelo seu sistema (Terror, medo, ISSO SIGNIFICA, perigo! Perigo?).

O que ele não esperou

[, o que ele nem sequer cogitou acontecendo,]

foi conseguir notar o tremor que tomou conta do corpo menor mesmo daquela distancia, e o lábio inferior do garoto tremendo num ato de vulnerabilidade tão exposto que seu corpo deu um passo para frente instintivamente, querendo-

O que ele não esperou

[, o que ele nunca imaginou acontecendo,]

foi Nico soltando um som suave e baixo, junto da sua respiração descompassada – assim como o som de um animal ferido. Indistinguível e inexistente, inaudível como o nada. Mas que Percy ouviu.

Ele ouviu.

E os olhos negros se cruzaram com os seus.

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[Ele viu o chão se abrir e engolir quatro guerreiros-esqueletos como uma boca cheia de fendas e fogo, o grito estridente Vá embora! ainda ecoando em sua cabeça. O calor das profundezas da terra queimando sua pele até que de repente a fissura se fechou, criando uma longa e impossível cicatriz pelo mármore do pavilhão num silêncio ensurdecedor.

E o terror e o pavor se infiltraram em si como gás venenoso quanto seus olhos se lacraram com os olhos negros do garoto de dez anos cuja irmã ele havia deixado morrer. “Como você...” Falou, ouvindo sua voz tremer com seu medo pingando, pingando...

Havia dor- “Vá embora!” tanta dor que ele havia causado e um medo que- “Eu te odeio! Queria que estivesse morto!”.

O chão não o engoliu.

E o medo naqueles olhos escuros virou terror-]

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Antes de Nico se virar e sumir nas sombras.

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*

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Isso é...

“Nico!” Avançou para frente, para onde Nico di Angelo estava a menos de dois segundos atrás antes de Percy ferrar tudo e o garoto sumir em meio às sombras indistintas de um pilar de sustentação.

“Porra, pra que lado ele correu?!”

Medo?

“Nathan, você viu-“

Ele não registrou quem dizia o que naquele momento.

“E-eu não sei.”

Medo? Por que...

De repente o mundo parou e pés pararam de soar contra o chão. Uma parte do seu cérebro registrou que Lina o estava segurando.

“Percy...”

Por que eu estou com medo?

Suspirou fundo e fechou os olhos.

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*

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À volta para a escola foi silenciosa. Ou pelo menos foi para Percy, que conseguia ouvir seu coração pulsando nos ouvidos.

Mas ele sabia que um prédio podia ter explodido ao seu lado e ele não teria escutado.

Quando o carro parou alguém disse algo. “Eu sinto muito, Percy.”

Não soube dizer quem foi.

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*

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Homossexualidade: (do grego antigo ὁμός (homos), igual + latim sexus = sexo) refere-se à característica ou qualidade de um ser (humano ou não) que sente atração física, estética e/ou emocional por outro ser do mesmo sexo ou gênero.

Percy encarou a página do site que havia aberto, a expressão vazia. Sua mão estava em cima do mouse fazia meia hora e ele quase não havia se mexido desde o momento em que havia se sentado à mesa, nem mesmo quando Sacha saiu da sua caixinha para cumprimenta-lo do jeito animado dela. Agora ela estava deitada sobre a toalha em volta do seu pescoço, onde há duas horas ele a pôs sem pensar quando saiu do chuveiro.

Sua cabeça estava em branco. Seu coração ainda lhe parecia dolorosamente alto.

Não é que ele não entendesse o medo do Nico...

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Comentários (327)

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Jujudecastro123 Há 2 horas

Não humano, vc quer dizer.

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243HotTiger Há 9 horas

viadinhos fdp

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llMoneyll1 Há 2 dia

aberraçoes deviam ser fuzilados como nos velhos tempos

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(Comentário removido por Administrador)

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RenatoOliversaY Há 1 dia

Vão queimar no inferno

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É só que ele não entendia porque Nico ficou com medo dele.

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DavidCarter87 Há 2 dia

“Nenhum homem deverá se deitar com outro homem como uma mulher.” Isso é contra as Leis de Deus, vocês deveriam tomar vergonha de seus pecados e buscar a cura dessa doença.

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Fechou os olhos e suspirou, sentindo o peso familiar da culpa caindo sobre seus ombros.

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*

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Ele quase não ouvia o que o professor dizia e Dean já havia desistido de tentar chamar a sua atenção vinte minutos atrás. Uma parte sua registrou que o outro garoto, apesar de não ter conseguido faze-lo conversar, não procurou assunto com outras pessoas e continuou sentado ao seu lado, em silêncio durante a aula de trigonometria.

Percy sentiu culpa, afinal ele sabia que Dean odiava ficar quieto, mas ele simplesmente não conseguia pensar em nada para conversar sem que soasse forçado.

No final, continuou sem dizer nada.

Esse ritual continuou por quase todo o resto da semana.

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*

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O som continuou dos seus socos contra o saco de areia já tinha virado barulho de fundo.

Ele não era membro do clube de boxe, então tecnicamente ele não deveria estar ali, mas Percy era amigo do zelador da escola – um homem de meia-idade que provavelmente tinha coisas melhores pra fazer do que lidar com um adolescente em uma crise de culpa, mas que mesmo assim o trouxe até a sala de treino quando o pegou socando a parede do banheiro do segundo andar, às duas da manhã. Aparentemente John ainda lhe era grato pelo incidente do refeitório, quando Percy perdeu duas aulas ajudando-o a limpar o chão após uma guerra de comida. E embora para o semideus ele não estivesse fazendo nada além do que lhe era obrigação (afinal, ele havia participado da guerra), o zelador Gregson passou a sorrir para si sempre que seus caminhos se cruzavam e não parecia incomodado em fazer pequenos favores quando Percy precisava.

Como dessa vez.

Certo que quando Percy saiu do seu quarto a uma da manhã sem um pingo de sono e sentindo seu interior borbulhar feito uma panela de pressão, ele não estava realmente pensando que algo assim aconteceria. Na verdade, ele não estava pensando em nada, só que ele não tinha o luxo de poder quebrar algum objeto seu e que Dean não merecia ser acordado em plena madrugada depois de ter lidado com o seu mau humor em completo silêncio nesses últimos dias. Como ele sempre migrava para perto do mar quando se sentia particularmente estressado e como ali não tinha mar, ele foi meio que instintivamente para o local onde havia mais água – o banheiro do segundo andar. O fato de John tê-lo pego só com a parte de baixo do seu pijama, com todos os chuveiros e torneiras ligados, encobrindo o lugar de vapor e tentando bravamente ganhar contra o cimento foi pura coincidência.

O zelador gentilmente o parou, examinou sua mão em busca de fraturas e quando ficou claro que a luta de Percy contra a parede ainda estava em estagio de igualdade, ele silenciosamente o guiou até a sala de treino do clube de boxe e o trancou lá dentro com um aviso suave: “Volta daqui à uma hora, rapaz.”

Percy não conseguiu dizer obrigado e nem conseguiu explicar porque ele estava fazendo aquilo, mas pela expressão cuidadosamente sábia do homem mais velho, o semideus adivinhou que ele sabia mais do que esperar qualquer um dos dois dele naquele momento. E por isso, ele também se sentiu grato.

Por que ele tinha que ser tão lerdo?

Sem ter se incomodar em proteger as mãos com luvas ou mesmo bandagens, ele começou a socar o saco de areia mais próximo, o som surdo dos seus punhos começando a preencher a sala silenciosa. Focou os olhos no objeto a sua frente, canalizando a sensação borbulhante de raiva atravessando o seu corpo inteiro em cada golpe, cada vez mais forte, cada vez mais rápido. E tentou esvaziar o estresse acumulado em cada pensamento seu.

Por que ele tinha que ser tão lerdo?

E fazia meia hora desde que ele havia começado e seus dedos estavam latejando, a pele do seu punho estava avermelhada e suar escorria por seu corpo, mas mesmo assim ele continuou.

Por que ele tinha que ser tão malditamente, estupidamente lerdo?

Porque toda aquela situação poderia ter sido evitada se ele tivesse tido a maldita capacidade de usar o seu cérebro direito, pelo menos uma vez na sua droga de vida! Mas não! É claro que ele não pode fazer isso. Porque ele provavelmente não saberia diferencia uma pedra de um queijo até o momento que lhe acertassem na cabeça e abrissem um talo no seu crânio, ai assim ele notaria que ah, era uma pedra!

Percy sentiu um rasgo de dor na sua mão direita, mas ignorou.

Em quantas feridas ele havia pisado porque ele não conseguia fazer a risível tarefa de juntar um mais um? Quantas palavras cheias de adagas ele jogou inconscientemente por causa da sua ignorância?

Quantas pessoas ele machucou simplesmente porque ele não sabia?

“Droga!”

Seu punho escorregou para o lado uma hora e ele se desequilibrou para frente. Num momento de raiva cega, ele ergueu a perna e chutou com toda a sua força o saco de areia.

O objeto vermelho voou da corrente e chocou contra a parede, explodindo seu conteúdo pelo chão.

Pensar não é o meu forte.

Desabou no chão. Só depois notaria que suas mãos estavam sangrando.

Era o seu, lembra?

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*

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“Sabe, existem outros modos de se livrar do estresse do que caminhar toda noite.” Dean comentou no momento em que ele entrou no quarto.

Percy se jogou na cama, ainda suado e sujo. “Eu sei.”

Ouviu o outro rapaz suspirar e sair de debaixo das cobertas. No momento seguinte a luz da escrivania acendeu, iluminando precariamente o quarto. O mortal se sentou na cama, passando os dedos pelos fios cor de areia antes de se voltar para Percy e soltar um palavrão.

“É sempre bom ouvir isso.”

Dean o ignorou em favor de se adiantar e segurar com delicadeza sua mão machucada e coberta de sangue. “Quem você assassinou?”

“Só um saco de areia.”

O garoto o encarou irritado por um momento antes de respirar fundo, parecendo decidir que não estava a fim de discutir. Ao em vez disso, o jovem de olhos cor de chocolate se arrastou até a própria cama e tirou de baixo uma caixa de plástico com vários produtos de primeiros socorros.

Percy ergueu as sobrancelhas e Dean deu de ombros, parecendo meio embaraçado. “Peguei essa mania da minha mãe, do tipo ‘nunca se sabe quando você pode precisar de uma aspirina’. Funciona, provavelmente eu teria perdido muito mais noites por conta de câimbras do futebol se não tivesse isso.” O jogador disse, tanto um tapinha na caixa.

O semideus supôs que ele estava certo.

Observou o agitado e alto Dean Wilson tirar um antisséptico, uma bandagem, uma gaze e um pouco de algodão do seu kit de primeiros socorros e começar a cuidar da sua mão silenciosamente.

Primeiro despejou o liquido transparente no pedaço de algodão e então começou a delicadamente limpar o seu ferimento, num toque tão suave que quase não dava para sentir. Assim que se deu por satisfeito com a limpeza, o rapaz habilmente abriu o pacote da gaze com uma mão só e gentilmente depositou o pano branco sobre seu machucado. “Agora eu vou enfaixar. Como vou por pressão, vai doer um pouco, ok?”

Percy respondeu com um aceno da cabeça contra o travesseiro e Dean logo começou a desenrolar a bandagem sobre sua mão em movimento firmes, mas suaves.

Nessa hora, o filho do deus mar viu um lado totalmente novo do seu amigo. O mesmo amigo que não hesitava em dar uma rasteira louca ou uma bicicleta perigosa no futebol, o mesmo amigo que odiava o silêncio e fazia questão de preenchê-lo falando sempre, o mesmo amigo que socou o valentão da escola com todos os seus capangas atrás quando o mesmo jogou o almoço de Percy no chão. Um lado mais delicado e quieto e ele se perguntou – se Dean não tivesse dado em cima dele no primeiro dia de aula, teria ele notado esse detalhe da vida do rapaz somente convivendo com ele?

“Você ainda está bravo?”

Percy piscou os olhos, pego de surpresa pela pergunta. Olhou para o outro garoto, mas esse mantinha o olhar firme no que fazia. Franziu as sobrancelhas, confuso. “Bravo com o que?”

“Não com o que, com quem” Suspirou Dean, ainda sem olhar para ele.

Oh.

Segurou um grunhido, enfiando a cara no travesseiro de novo. “É, acho que vai demorar pra eu parar de me odiar, mas valeu pela preocupação.”

Dean ficou em silêncio, parando por um momento de enrolar sua mão. Percy espiou com um olho o motivo da repentina quietude e encontrou seu amigo o encarando com uma expressão levemente chocada. Ergueu as sobrancelhas, sem entender. “O que foi?”

Viu o outro garoto abrir e fechar a boca alguma vezes antes dele finalmente falar. “Eu não... estava falando de você, Percy.”

Franziu o cenho, virando o rosto completamente do travesseiro. “De quem você estava falando?”

Dean o encarou atordoado por um momento e não respondeu. Percy o olhou de volta confuso até que o outro rapaz desviou o olhar para baixo e continuou a enfaixar sua mão em silêncio.

Foi ai que ele entendeu.

Ergueu-se sobre os cotovelos e o encarou confuso. “Por que eu estaria bravo com você?”

“Terminei.” Ele falou rapidamente, dando um nó na bandagem.

Olhou para sua mão esquecida e se surpreendeu ao ver o quão bem enfeixado estava, além do fato de já não estar doendo quase nada. Flexionou os dedos tentativamente, impressionado – era nível filhos de Apolo aquele trabalho. “Você é bom nisso.”

Dean deu de ombros. “Minha mãe é enfermeira, meu pai é bombeiro. Aprendi com os melhores.”

“Valeu.”

“De nada.”

“Por que eu estaria bravo com você?”

O outro rapaz suspirou fundo e fez uma careta de desagrado. “Será que você não pod-“

“Não.”

“Percy-“

“Não, eu quero saber.”

“Qual é!”

“Você começou e agora que eu sei, eu quero saber.” Sentou-se na cama num salto que fez o colchão gemer e se apoiou com os cotovelos sobre os joelhos, de frente para o jovem de cabelos cor de areia. “É por isso que você tem estado tão quieto ultimamente?”

“Você faz isso soar tão emo.”

“Dean.”

Viu o outro rapaz encher as bochechas de ar e franzir as sobrancelhas numa careta emburrada por um momento antes de soltar a respiração num puff! murcho. Dean então bagunçou o cabelo freneticamente com uma mão antes de falar nervosamente. “Eu só- eu pensei que, tipo, você já tido o suficiente da minha boca grande e da minha língua solta e... e wow isso não saiu do jeito que eu queria, mas você entendeu o que eu quis dizer... é que eu só não... depois da merda que eu soltei em cima de você e... e de novo, isso saiu errado, eu não falo literalmente- quero dizer, é claro que eu não falo literalmente! Tipo, isso seria totalmente nojento e meio que impossível, porque você teria que... sabe, e eu teria que- por que você esta rindo?”

Percy, que tentou conter seu sorriso sem muito sucesso, não aguentou e começou a rir de verdade. Encostou a testa na mão rindo, fechando os olhos e sentindo um pouco do seu mal-estar ir embora.

Aquela era uma ótima sensação, a de sentir o peso no peito derreter com uma risada. Era melhor ainda quando pensava que fora causada por um amigo. Faz-nos lembrar de que não estamos tão sozinhos quanto pensamos que estamos num momento de tristeza e que existem pessoas dispostas a te alegrarem quando tudo o que você quer fazer é chorar.

É como a sensação de acordar com um cobertor no sofá, mesmo que você saiba que você dormiu sem nenhum.

Suspirou fundo, aproveitando a breve pausa na auto recriminação e na culpa que Dean lhe forneceu quase inconscientemente. “Eu estou rindo porque você é uma figura.”

Ouviu o outro garoto soltar um som indignado. “Eu aqui tentando me explicar e tentando pedir desculpas humildemente e você vem e-“

“Dean.” Percy o interrompeu, fazendo a atenção do seu amigo voltar-se novamente para si. E ele viu um brilho de incerteza nos olhos chocolate que o impulsionou a sorrir o mais gentilmente que podia. “A culpa do que aconteceu com o... o Nico não é sua. Eu não estou bravo com você, nunca estive.”

“Sério?” Indagou o outro rapaz, um olhar incrédulo no rosto. “Sério, sério mesmo?”

O semideus revirou os olhos. “Não, eu estou mentindo pra que eu possa te sufocar até a morte com o meu pé enquanto você dorme.”

“Viu? É por coisas assim que eu não consigo acreditar quando você banca o bom samaritano, você é criativo na hora de escolher como matar alguém.” O jovem de cabelos areia falou brincando, mas havia uma nota de alivio na sua voz que não passou despercebido pelo filho do deus mar. “Embora sufocar alguém até a morte com o pé seja novidade para mim, já que isso é, tipo, fisicamente impossível? Ok, não impossível, mas meio difícil, sem falar que parece coisa de BDSM o que faz soar meio pervertido, não que eu esteja reclamando, afinal seus pés são lindos e eu não me importaria de morrer pelas mãos de um homem, eu acho, quero dizer, pelos pés de um homem, wow, isso ficou ainda mais pervertido, maas enfim, ainda é meio estranho, sabe? Eu acho que a maioria das pessoas usa-“ O travesseiro acertou a cara de Dean em cheio, com força o suficiente para desequilibra-lo para trás. Um grunhido surpreso saiu abafado por de trás do tecido antes do rapaz rapidamente tirar o objeto do rosto e começar a falar de novo. “Tipo isso, só que eu acho que você tem que segurar o travesseiro na minha cara até eu cair morto, quero dizer, não cair literalmente, porque não dá para cair morto literalmente, a não ser que você se jogue de um prédio ou seja assassinado de pé, mas você disse que ia me sufocar e eu acho que, tipo, não dá para sufocar alguém de pé e-“

Percy se desligou da tagarelice do outro rapaz como alguém que se desliga do barulho de uma sala, virando plano de fundo. Se Dean já tinha voltado ao seu estado normal de vinte palavras por segundo, então ele já estava melhor. Voltou-se para a janela do quarto, observando a luz do sol começar a nascer no horizonte cheio de prédios.

“... tipo, porque alguém acertar uma maça na testa de um cavalo é meio loucura, não acha? Só que se for...”

Sua mente começou a viajar pelo tempo, pensando de novo.

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[Ele viu Nico se afastar bruscamente de Bianca, uma expressão traída no rosto antes de se virar e correr.]

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[Era como adagas em seu peito “Você prometeu que ia protegê-la!”]

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[“Não é com Percy que você esta com raiva, Nico. É comigo”]

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[“Você realmente acredita nisso, Percy?” Ele olhou para aquele garoto tão jovem, e já tão cheio de sombras e cicatrizes e ele quis tanto poder dizer Sim]

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[“Eu não pertenço aqui.” Isso não deveria soar tão certo, isso não deveria fazê-lo concordar. Isso deveria fazê-lo dizer Não é verdade! com todas as suas forças, mas...]

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[“Aquilo... aquilo é um bolo de aniversario azul?” Ele parecia faminto e melancólico e ele se perguntou se aquele garoto já tinha tido sua própria festa ou se já tinha sido convidada para uma e se ele realmente passou todo esse tempo sozinho?]

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Ele deveria ter pensando, ele deveria te notado que havia mais naquele peso que Nico carregava tão perto de si, algo mais pessoal ainda do que sua descendência divina que o impedia de se deixar aproximar das pessoas. Algo que o fazia acreditar tão fielmente e cegamente que ele não tinha como se encaixar e que era melhor a solidão e os mortos que não o abandonavam – mesmo se por medo.

Porque Hazel e Thalia haviam seguido em frente e Percy não conseguia ver Nico como sendo menos forte ou mesmo menos teimoso do que qualquer uma das suas amigas. Já vira o menino se segurar em seu próprio chão, erguendo-se com determinação e coragem, já o vira dar a volta por cima sem fraquejar e ele não já não parecia incomodado em encontrar as mudanças de cenário dos setenta anos que passou fora do tempo, ele já não encolhia ao nome Bianca.

Então Percy assumiu que Nico havia seguido em frente – não importa a pele cada vez mais pálida do garoto em vez do saudável tom oliva de quando se conheceram, qual era o problema das olheiras cada vez mais presentes sob os olhos escuros?, muita gente ficava sem comer duas refeições diárias e dai se Nico evitava a aproximação das pessoas quase que instintivamente? Ele era filho de Hades! Era da sua natureza ser solitário e isolado, certo?

Ninguém gosta de olhar para a escuridão, havia lido em um livro de filosofia.

Talvez ele tivesse sido capaz de tirar um pouco de conforto disso se ele já não tivesse entendido.

[Bob disse olá.]

“... e dai fica por conta da teoria de Darwin e tal, mesmo que eu ache que-“

“Como foi pra você?” Interrompeu, ainda olhando para o céu.

“... Hã?”

Virou-se da janela para Dean, que em algum ponto do seu monologo havia se levantado do chão e sentado na cadeira da escrivania. Viu o amigo piscar os olhos, confuso, parando de brincar com uma caneta. Suspirou fundo, sua sensação de incompetência voltando devagar. “Como foi pra você quando você... descobriu que era gay?” Perguntou, hesitando por um momento – talvez aquele assunto fosse delicado para Dean.

Mas o jogador de futebol apenas pareceu levemente surpreso, inclinado a cabeça de lado como se estivesse pensando. Voltou a brincar com a caneta entre seus dedos. “Foi... confuso, eu acho. Eu era pequeno quando descobri. Meus pais, principalmente minha mãe sempre ficava me dizendo que eu ia casar com uma garota linda e que eu ia ser muito feliz, então de repente na sexta série eu conheci o Seb – minha primeira queda – e eu lembro até hoje de pensar ‘eu prefiro casar com ele do que com uma garota’”

“Simples assim?” Perguntou, um pouco surpreso.

Dean batucou o topo da caneta contra a bochecha, ainda parecendo pensativo. “Hmn, eu não diria simples, é que eu simplesmente aceitei que eu achava a ideia de casar com meninos mais atraente do que casar com meninas, mas não disse nada para meus pais por uns bons dois anos e meio porque não queria decepciona-los, sabe? Não no sentido de ‘oh, meu Deus, nosso filho é gay!’ porque naquela época em ainda nem tinha ouvido falar de sexualidade e tal, mas mais no sentido de que eu achava que minha mãe ia ficar triste porque ela sempre me dizia pra achar uma menina linda pra casar e, em vez disso, eu só achava garotos.” Percy viu Sacha sair curiosamente da sua caixinha em cima da mesa e nadar em direção ao outro garoto cutucando de leve sua mão. Invisível por conta da Névoa, Wilson não a viu, mas um brilho branco fraco se espalhou rapidamente pelo seu corpo inteiro e então ele riu, parecendo lembrar-se de algo feliz. “Meu plano pra contar pra eles consistiu em eu achando o garoto mais afeminado possível para namorar e então apresenta-lo pro meus pais, dizendo algo tipo ‘Não é uma garota, mas dá pro gasto, não dá?’. Nunca vi estatuas mais perfeitas do que meus pais naquela hora.”

Percy riu uma vez pelo nariz, não muito surpreso. “Então essa sua sutileza não é de hoje?”

Dean abanou a mão desdenhosamente. “Nah, mamis diz que eu nasci dançando.”

“Não duvido.”

O outro garoto riu, se inclinando sobre o encosto da cadeira e pondo os pés na sua cama. “Mas sabe, eu tive muita sorte.”

Olhou para o amigo e o encontrou encarando o teto com uma expressão tranquila, um sorriso suave nos lábios. A expressão de alguém contente na própria pele. Era uma visão rara de se ver nas pessoas, infelizmente. “Pelos seus pais?” Indagou num tom baixo.

Dean acenou uma vez a cabeça. “Eles me aceitaram na hora, após o choque inicial, e sempre me apoiaram desde então. Já ouvi tanta história sobre sair do armário pra família. Tenho amigos que os pais os expulsaram de casa, outros que foram obrigados a serem internados. Já perdi um namorado cuja mãe martelou tanto que aquilo era errado que ele simplesmente não conseguiu se aceitar e terminou comigo.”

Percy sentiu uma mistura de tristeza, frustração, simpatia e revolta em seu interior, fazendo seu estômago virar pedra. “Eu sinto muito.”

Wilson ergueu a cabeça, parecendo notar pelo seu tom o que ele estava sentindo e lhe deu um sorriso conciliador. “Não precisa fazer essa cara de bebe foca perdida, isso foi há muito tempo atrás. Eu fiquei mais triste pelo Rob não ter conseguido aceitar a si mesmo do que pelo rompimento do namoro. Ele era um cara legal, merecia mais do que a megera da mãe dele.”

“E é por isso, Percy...” Dean desceu as pernas da cama e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, olhando-o firmemente nos olhos. “... é por isso que eu acho que você deveria ir falar com o seu amigo.”

O semideus sentiu um peso dolorido cair no seu peito quando ele se encostou para trás, na parede. “Eu queria, mas-”.

“Mas o que? Percy.” O outro rapaz de repente avançou, pulando sentado diante de si na cama. Com uma expressão urgente no rosto, ele segurou o seu ombro com firmeza. “Se o que você me disse sobre a família dele é verdade, então Nico não tem ninguém além dos amigos pra ajuda-lo a lidar com isso. E a gente sempre precisa de ajuda. Não é só gays, qualquer um que se descobre saindo dos padrões precisa de alguém pra dizer que não tem problema, que ser diferente não é errado e que ele não esta sozinho, porque senão a gente começa a especular: por que eu sou assim se todo mundo não é? Eu sou um erro? Eu deveria mudar? Talvez seja melhor esconder, talvez as pessoas se afastem de mim se descobrirem, talvez eu acabe sozinho.” A outra mão de Dean segurou o seu outro ombro e Percy se viu frente-a-frente com um olhar extremamente sério. Engoliu em seco inconscientemente. Esse era um lado do seu amigo que ele não conhecia. “Ser humano é uma criatura de rebanho, quem acaba sozinho acaba como comida de lobo. Você não entende?”

Olhou por um momento para Wilson antes de voltar os olhos para a janela.

[“Você tem que se esforçar mais, Percy.”]

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[“Será que você não pode se comportar uma única vez, Sr. Jackson?!”]

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[“Você pode dizer o que quiser, Percy, mas pelo menos eu tenho amigos!”]

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[Não disse nada. Não é como se fossem acreditar nele, de qualquer jeito.]

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[“Percy Jackson, você me faz lembrar porque eu perdi a fé nos adolescentes de hoje.”]

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[“Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão de tempo.”]

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[“Volta pro buraco de onde você saiu, ninguém quer um vândalo por aqui”]

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[“É o garoto novo. Ouvi dizer que é um delinquente pobre”]

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Olhou de volta para Dean. “Eu entendo.”

O outro rapaz o encarou cuidadosamente antes de afastar as mãos, se contentando em sentar de frente para ele. O jogador de futebol hesitou antes de falar. “Então por que ainda não foi falar com ele?”

“Porque...” Respirou, passando os dedos entre os cabelos escuros e se lembrando do incidente no shopping, quase uma semana atrás e de como Nico o olhou aterrorizado antes de sumir. Suspirou de novo, deslizando a mão pelo rosto. “... porque Nico estava com medo de mim.”

“E?”

“E eu não sei...” Parou, sentindo o gosto das palavras covardes que estavam na sua boca. Enterrou o rosto na mão, com vergonha de si mesmo. “Eu não... eu não sei o que- como...”

“Você não sabe o que fazer.” Completou Dean num tom suave.

Não respondeu. Wilson soltou um som simpatizante e deslizou para sentar ao seu lado, ombro com ombro. Ficou um tempo em silêncio antes de falar de novo. “Te incomoda que ele seja gay?”

Percy imediatamente saltou para longe do outro garoto, olhando para ele incrédulo. “Claro que não!”

“Por que não?” Indagou seu amigo, erguendo uma sobrancelha para si.

O filho do mar quase engasgou enquanto tentava responder, de tão estupida e óbvia que era aquela pergunta. “C-como por que não? É o mesmo que você me perguntar se eu me incomodo que ele tenha cabelo preto!”

Encarou Dean completamente indignado. Era essa a interpretação do seu amigo sobre a coisa toda? Que ele não gostava que Nico fosse homossexual? O simples pensamento disso o deixou ainda mais indignado e abriu a boca para deixar o quão claro ele estava ofendido com essa sugestão quando o mortal acertou um peteleco na sua testa. “Relaxa, eu não acho que você seja preconceituoso, afinal você está dividindo quarto com a Diva Suprema dessa escola e nunca sequer piscou os olhos pro meus peguetes. Eu estou tentando te mostrar a luz, meu caro gafanhoto.”

Percy massageou o ponto entre os olhos que fora acertado, as sobrancelhas franzidas. “Que luz?”

“Isso que você acabou de me dizer...“ Dean fez um movimento entre os dois, indicando a si mesmo. “É só dizer a mesma coisa pro Nico.”

Olhou incerto para o amigo. “Dizer que eu...”

“Que você não se importa. Acredite, Percy.” Dean Wilson deu um leve soco no seu braço, um sorriso triste nos lábios. “Pra maioria, isso é o suficiente.”

Notas finais
Bom, nos vemos no próximo capitulo com o que o Cabeça de Alga vai fazer (me perdoem por incoerências no texto, escrevi isso no ipad, o que é horrível! Perdi o arquivo uma duas vezes!)